Paulo Roberto Ferreira

A cada dia novas tragédias ambientais acontecem em nosso país. E nós nos acomodamos. Primeiro porque ainda não compreendemos que o equilíbrio ambiental tem tudo a ver com as nossas vidas. Segundo porque a mídia brasileira não pauta o dia a dia dos conflitos que comprometem a natureza. Existe uma cultura no Brasil de que tudo aqui é muito grande e o que acontece em Itaituba não tem nada a ver com Ibatuba, no litoral norte de São Paulo. E vice versa. 

Quando usaram desfolhantes químicos na trilha por onde passou o primeiro linhão da Eletronorte, conduzindo energia de Tucuruí, no início da década de 1980, a notícia ficou restrita ao meio acadêmico, algumas organizações não governamentais, parcela da imprensa e um segmentobem reduzida da população. O mesmo aconteceu quando o lago de Tucuruí passou a servir de viveiro a insetos, que se reproduziam na água parada, e infernizavam a vida dos camponeses do entorno da hidrelétrica construída no Baixo Tocantins, sem nenhum tipo de estudo de impacto ambiental

Teve pouca repercussão, sobretudo no Sudeste do Brasil, a chuva ácida que caia sobre as comunidades tradicionais de Barcarena, poucos anos depois de instaladoo complexo do alumínio, através da fábrica Albrás. No início a década de 1990 os gases liberados pelas chaminés da empresa continham fluoreto que, em contato com as nuvens se transformavam em chuva ácida. 

Na mesma região, em 2007, houve vazamento de uma barragem da empresa Imerys Rio Capim Caulim, de quase 300 mil metros cúbicos de caulim misturado com água. O desastre afetou os igarapés Curuperé e Dendê e as praias de Vila do Conde e do Caripi, no rio Pará. Em pouco tempo a notícia saiu do noticiário. 

A garimpagem de ouro no rio Tapajós, especialmente a partir da década de 1980, provocou desmatamento, destruiu nascentes de igarapés e afetou até a cor da água. O início da mecanização rudimentar provocou mais estrago. Porém o maior perigo para os seres vivos está ligado a utilização do mercúrio, que separa o ouro de outros materiais. 

Pessoas das mais variadas camadas sociais de Itaituba foram afetadas pelo mercúrio absorvido pelo peixe consumido pela população. Houve uma ligeira trégua no final do século XX e início do século XXI. Mas agora a atividade garimpeira voltou com força total nos últimos anos. Balsas de até três pavimentos estão sendo deslocadas do Mato Grosso para o município de Itaituba.

Com equipamentos informatizados e utilizando geólogos, engenheiros, químicos e outros profissionais, as grandes balsas de extração de ouro, estão remexendo intensivamente o leito do Tapajós, com uso de tratores e máquinas escavadoras, que deixam um rastro de destruição muito mais impactante do que os métodos utilizados décadas atrás. E o mais grave, há suspeita de uso de cianureto, que seria muito mais eficiente na separação dos minérios.

Esta é uma tragédia silenciosa que está destruindo a vida num dos rios mais belos do planeta e seus afluentes. O Jamanxim também já vem sendo afetado por esse novo tipo de garimpagem de ouro. Essa movimentaçãoaltamente degradante prejudica primeiramente os pescadores, agricultores, coletadores e extrativistas em geral. Mas afasta também os turistas ligados ao ecoturismo e à pesca esportiva, ação que vem sendo, contraditoriamente, incentivadas na região.

Algumas autoridades estaduais pensam em regulamentar a operação garimpeira no Tapajós. Mas do ponto de vista da sustentabilidade ambiental, social e econômica, o que esse tipo de atividade representa? Nada. Nada ainda é pouco. É uma bomba. Destrói a vida, prejudica o planeta Terra. Não podemos esperar que chegue o dia da tragédia maior, como aconteceu eu Mariana, Minas Gerais, que destruiu o rio Doce, há sete meses atrás

Para a mídia omissa: Mariana é aqui, no Tapajós! 

 

(*) Paulo Roberto Ferreira é jornalista, professor, escritor e colaborador do portal www.oestadonet.com.br




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