Paulo Roberto Ferreira

Um aplicativo para controlar a dosagem correta na máquina elétrica de café expresso. Esta é a última novidade lá em casa. O Tiago está empolgado. O celular avisa a hora de desligar a máquina. São as facilidades da era eletrônica. Uma amiga relatouque outro dia assistia um programa de televisão quando, zapt, trocaram o canal. Só então descobriu que controle remoto estava compartilhado no celular dos filhos.

A guerra dos meninos para, através do bluetooth, dominar o sistema de som do automóvel, às vezes deixa os pais espantados. A mãe ouve uma canção, enquanto dirige. E o filho, sentado no banco de trás do veículo, muda para outro ritmo. A filha reage e troca o repertório novamente até que o pai intervém e põem ordem na viagem. Determina que ouçam a música que bem entenderem, mas cada um de seu aparelho celular. O som do carro volta ao controle da motorista.

Conviver com essas mudanças exige muita paciência dos que não estão na faixa dos adolescentes. Mas não tem jeito. Ou a gente se adapta ou muda de planeta. Exemplo disso é que neste dia dos pais, os aparelhos eletrônicos estão entre os presentes mais demandados. O difícil é fazer que o homenageado assimile todos os aplicativos e os símbolos do aparelho, que são cada vez mais amplos. 

As máquinas fotográficas, de uso doméstico, foram abandonadas. As câmeras dos celulares são cada vez mais eficientes. O despertador migrou para o aparelho telefônico, que também ganhou função de rádio e TV. E já desbancou também os aparelhos de som.  Está tudo dentro da caixinha. O bate-papo, as notícias, as imagens. As coisas boas e também as ruins. Claro, o mundo virtual é igual ao mundo real. Falta apenas o contato direto.

E quem já passou dos 50, 60 anos lembra o impacto provocado pelo filme de 1968, “2001 – uma odisseia no espaço”, roteirizado por Stankey Kubrick e Arthur Clarke, dirigido e produzido pelo primeiro. Viajamos também na ficção de George Orwell, “1984”, o livro publicado em 1949 nos remetia para o drama atual da quebra de privacidade. É também uma crítica feroz ao totalitarismo comandado pelo Grande Irmão, o Big Brother.

Quando Gilberto Gil lançou o seu “Expresso 2222”, em 1971, a minha geraçãoviajou na canção que nos lançava para além de 2001. Diz um trecho da música: “Dizem que tem muita gente de agora/se adiantando, partindo pra lá”. O mesmo genial Gil nos arrastava por outros mundos em “Parabólica Camará” de 1994: “Antes o mundo era pequeno/porque a Terra era grade/hoje o mundo é grade/porque a Terra é pequena”.

E o nosso caminhar é sempre em direção ao novo. O GPS está ao alcance de todos. Ninguém se perde mais numa cidade grande. O ditado popular “quem tem boca vai a Roma” pode ser substituído por “quem tem GPS vai ao mundo”. Às vezes a gente se perde dentro de nós mesmos, nos nossos conflitos íntimos. Mas a Internet nos permite buscar a cura. 

Navegar é preciso, já nos ensinava Fernando Pessoa. E o Gil (mais uma vez ele) sempre na frente, já previa, em 1997, que era possível conectar ao mesmo tempo “um grupo de tietes de Connecticut”, ao “chefe de polícia Milão” para denunciar “um hacker mafioso” que acabava “de soltar/ um vírus para atacar programas no Japão”. 

Só os poetas nos ajudam a transitar entre o sonho e o real. É por isso que recorro a eles para tentar explicar esse mundo de profundas e aceleradas transformações que convive com o egoísmo e o individualismo marcante. A era dos extremos apontada por Eric Hobsbawm. Mas como sou um otimista exageradovolto ao poeta Pesssoa, no mesmo poema de “Navegar é Preciso” para citar o verso: “o que é necessário é criar”.




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