Lúcio Flávio Pinto

Só se não quiser ver a realidade é que o governo manterá o Enem. A certidão de óbito do Exame Nacional do Ensino Médio foi novamente carimbada com as atribulações, dificuldades e, mais uma vez, flagrantes e suspeitas de fraudes. Tendo que atender mais de 8 milhões de candidatos, espalhados pelo território continental de 8,5 milhões de quilômetros quadrados do Brasil, essa forma de avaliação e seleção para o ingresso nas universidades já mostrou que é inviável.

Ela exigiria uma tal logística, a um custo elevadíssimo, e teria que recrutar gente e providências durante praticamente o ano inteiro para ser protegida da ação dos bandidos, dos inescrupulosos ou simplesmente daqueles que querem se tornar donos de um diploma universitário de qualquer maneira – inclusive usando uma das mais nefandas instituições nacionais: o jeitinho.

O empenho de imunizar o Enem contra as manipulações e suas próprias deficiências congênitas, por melhor que seja (e não é), se parece à tentativa de recuperar a integridade de um cristal que se quebrou. Concebido para nacionalizar o processo seletivo para o ingresso nas universidades, em tese dando oportunidades iguais para todos, o gigantismo do Enem se tornou a própria razão da sua impossibilidade como processo seguro e justo, sem considerar seus aspectos culturais e pedagógicos.

Por causa das suspeitas de vazamento no tema da redação, o momento mais importante e decisivo da avaliação, o Ministério Público Federal pediu a anulação desse item. Para não ter que realizar uma nova chamada a todos que participaram do teste do domingo passado, agravando os procedimentos e custos adicionados pela ocupação de alguns locais de aplicação da prova por estudantes em protesto, obrigando a nova prova para 270 mil candidatos, a ação pede simplesmente a anulação dos pontos da redação.

O primeiro efeito da medida seria tirar competitividade de quem sabe escrever (já nem se diga bem) na língua pátria. Derivado desse fato, a grave diminuição da relevância do português no conjunto de disciplinas do exame. E o favorecimento do famoso “chute”, que a predominância das questões objetivas, para simples marcação do xis na resposta certa, consagrou, na forma do anabububu. Quase devolvendo os candidatos à linguagem gutural das cavernas pré-históricas.

Diante desse caos, com causas mais endógenas do que exógenas, embora também retratando os maus tratos à ética e à moral, que fizeram do Brasil um paraíso dos corruptos, chantagistas e chicaneiros, o melhor que o governo pode fazer é enterrar o Enem e devolver a cada Estado e a cada unidade de ensino superior o dever e o direito de promover seu próprio processo seletivo. Suas falhas, seguramente, eram menores e menos gravosas do que desse monstro chamado Enem.




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Última modificação em Terça, 08 Novembro 2016 11:57

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