Lúcio Flávio Pinto

Há um novo jargão amazônico para áreas de tensão, turbação e conflito, três características do avanço das frentes de penetração na última fronteira de recursos naturais do Brasil e das mais importantes do planeta: a Amazônia. Depois do Bico do Papagaio, zona de violenta disputa pela terra entre Tocantins, Goiás e Pará, e da Cara de Cachorro, na fronteira do Amazonas com a Colômbia e o Peru, a mais nova expressão dessa geopolítica é o Trapézio Amazônico.

Também se refere à tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia, mas é aplicado especificamente às rotas de tráfico que escoam a produção de cocaína da região, que movimenta muita droga e dinheiro. Elas se tornaram o principal motivo da disputa entre as facções criminosas Família do Norte e PCC, que levaram à rebelião e ao massacre de 56 detentos do Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus.

"O que está em jogo é o controle dessas rotas, economicamente muito valiosas. É uma disputa por dinheiro", explica Luiz Fábio Paiva, professor e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (UFC), especialista na tríplice fronteira.

Em 2015 a polícia do Amazonas apreendeu 11 toneladas de drogas, No ano passado foram 10 toneladas. A Secretaria de Segurança Pública calcula em$ 400 milhões de reais o valor dessas apreensões, que representam apenas parte do volume que circula pela região. A estimativas da Polícia Federal é de que a cada ano o narcotráfico movimenta no Amazonas R$ 1,5 bilhão.

O crescimento do negócio provocou o confronto da única organização que controlava esse fluxo, a Família do Norte com o PCC, de São Paulo, que está se expandindo não apenas pelo Amazonas, mas em toda a região Norte. O objetivo do Primeiro Comando da Capital é eliminar a FDN e assumir o monopólio do narcotráfico na região. Também quer o controle dos presídios amazônicos, como já o exerce em outros Estados brasileiros, a partir da sua base, em São Paulo.

A FDN é aliada do Comando Vermelho, a outra organização nacional do crime, que rompeu a aliança com o PCC, no ano passado. A partir daí, foi aberta uma guerra – dentro e fora dos presídios – entre as duas facções.

Os traficantes escoam pasta base e cocaína refinada pela bacia do Alto Solimões (o nome do Amazonas acima de Manaus, na direção do Peru), em embarcações regionais, até o porto da capital amazonense, daí se espalhando por vários Estados até o Ceará, onde a FDN tem intensa presença. De Fortaleza, a droga seguiria para a Europa, principalmente a partir de Portugal.

Por causa da atuação da Família do Norte no Ceará, a Folha de S. Paulo dedica na sua edição de hoje um bom espaço para as declarações de Luiz Fábio Paiva, professor e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará, especialista na tríplice fronteira.

Reproduzo a seguir as informações do pesquisador, mais bem informado do que qualquer outro estudioso instalado na Amazônia sobre uma das mais graves questões da região, quase desconhecida do grande público e mesmo dos especialistas, que não se aprofundam nos temas da criminalidade em acelerada expansão.

As atividades na chamada rota do Solimões teriam se intensificado nas mãos da FDN, depois de anos sendo exploradas por pequenos traficantes –após a desarticulação dos grandes cartéis colombianos, que puxavam a produção regional para aquele país, tendo como alvo o mercado norte-americano.

A pesquisa de Paiva apontou que as comunidades da tríplice fronteira e as populações ribeirinhas são muito assediadas para integrar essa passagem da droga como mulas ou aviões, pelo conhecimento que têm das rotas pluviais. Nelas, a droga é ocultada em peixes, artesanatos ou na própria estrutura de barcos que fazem o transporte.

"Desde o Alto Solimões até Manaus, verificamos um aumento no uso de drogas entre ribeirinhos e indígenas, bem como uma escalada de violência, com crescimento nos índices de suicídio e homicídio. Para essas comunidades, o problema não é a droga que passa, mas a droga que fica", diz.

Segundo o pesquisador, a Família do Norte (FDN) surgiu por volta de 2006, quando Gelson Lima Carnaúba e José Roberto Fernandes Barbosa, o Zé Roberto da Compensa, retornaram a Manaus, após deixarem presídios federais, e decidiram organizar o crime local nos moldes de facções como o PCC e o Comando Vermelho (CV).

"A FDN unificou coletivos criminais de Manaus e dividiu o comércio de entorpecentes por região da cidade, criando códigos de conduta para os criminosos", explica Ítalo Lima, pesquisador da Universidade Federal do AM.

Segundo Paiva, a facção atuou em rede e de forma silenciosa, sem "a ostentação que se vê entre facções do Rio de Janeiro". Talvez por isso tenha demorado para entrar no radar das autoridades.

Em abril de 2014, a Polícia Federal no Amazonas foi surpreendida ao apreender R$ 200 mil em espécie dentro do aparelho de ar condicionado de uma lancha que navegava no rio Solimões.

As investigações feitas a partir dali revelaram uma organização criminosa extremamente hierarquizada que já atuava dentro e fora dos presídios amazonenses.

Mais de um ano depois, em novembro de 2015, a operação La Muralla da PF cumpriu 86 mandados de prisão, muitos contra as principais lideranças da FDN, dentre eles, os fundadores da facção.




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