Lúcio Flávio Pinto

Lúcio Fávio Pinto
Especial para Portal OEstadoNet

Ronaldo Campos deve ter sido um dos mais jovens vereadores que Santarém já teve. Conseguiu o mandato, começando uma longa e bem sucedida carreira política, em 1966. Talvez não conseguisse se eleger se Elias Pinto não tivesse obtido uma das maiores vitórias eleitorais da história de Santarém nesse mesmo ano. Impôs uma vasta diferença sobre seu adversário, Ubaldo Correa, que se tornara prefeito oito anos antes, estabelecendo a mais forte liderança política local durante o período da ditadura militar.

Elias Pinto era do MDB (atual PMDB), o partido da oposição ao partido do governo federal, a Arena, no bipartidarismo imposto manu militari pelos novos donos do poder, estabelecido a partir da deposição do presidente constitucional do país, João Goulart. Santarém, na época o segundo mais populoso e mais importante município paraense, fora o único município conquistado pela oposição.

A vitória só não foi completa porque o MDB só conseguiu eleger três dos 12 vereadores. Essa minoria inexpressiva foi fundamental para a deposição do prefeito apenas nove meses depois de ele ter assumido o mandato. O combate que a maioria da Câmara lhe dedicou não foi perturbada pela minoria. Ainda mais porque, a partir de certo tempo, até os correligionários emedebistas faltaram ao prefeito.

Este período, de 1967/68, é um dos mais controversos da história política de Santarém, acabando por resultar na abolição da eleição direta para a prefeitura, que passou a ser considerada área de segurança nacional. O prefeito era escolhido pelo governador, na condição de interventor no município.

O papel de Ronaldo nessa fase está marcado por essa obscuridade. Sem dúvida ele cresceu à sombra de Elias Pinto, do qual era o que hoje se chama de cover, uma cópia. Imitava os gestos, a oratória e até o tom de voz do meu pai. Oito anos mais novo do que Ronaldo e acompanhando os fatos nos bastidores, testemunhei essa relação ambígua de Ronaldo com papai. Freud resolveria rapidamente a questão com suas explicações clássicas em psicanálise. Era um drama hamletiano à beira do Tapajós, já sem castelo, pois que o único que havia foi colocado abaixo, como de regra na sofrida Santarém.

Ronaldo, que morreu hoje, aos 74 anos, de uma longa enfermidade, podia se orgulhar de ter construído uma carreira mais rica do que a do seu alterego. Foi deputado estadual e prefeito como ele. Mas conseguiu chegar à Câmara Federal aonde Elias Pinto não foi, embora tenha tentado, já na parte descendente da sua vida pública. Desde vereador, Ronaldo sempre se elegeu pelo voto popular, o que o tornava autêntico populista, em boa parte reflexo do cidadão que o elegia.

Aí está o mérito da democracia. E aí também está o nó da questão, quando a história não é bem contada. Raramente isso acontece. Ronaldo se foi sem ditar ou ouvir toda (ou a verdadeira) história da sua própria participação intensa na política santarena por 22 anos.




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Última modificação em Sexta, 27 Janeiro 2017 21:58

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