Lúcio Flávio Pinto

Se a história de Belém é mal conhecida, o que dizer da história dos demais municípios do Pará? Muito mais desconhecida ainda. Por isso reproduzi aqui o artigo sobre o ex-prefeito e ex-deputado Ronaldo Campos, que morreu ontem. Centrei o texto num dos episódios mais importantes e sangrentos da história política do Pará.

Eles começaram pela eleição do meu pai, Elias Pinto, que fora deputado estadual, integrante da comissão de planejamento da SPVEA (atual Sudam) e um dos criadores da Tecejuta, a maior indústria do interior do Estado, que beneficiava a juta introduzida na região por imigrantes japoneses.

Pelo partido da oposição, o MDB, na época muito fraco, ele venceu por larga margem o candidato da situação, Ubaldo Correa, que fora prefeito municipal e deputado estadual. A derrota, a maior que sofreu (Santarém era o segundo maior e mais importante município paraense) ficou atravessada na garganta do governador Alacid Nunes. Ubaldo deu-lhe o pretexto para colocar o Tribunal de Contas do Estado à cata do meu pai, com documentos que comprovariam irregularidades na gestão da prefeitura.

Os documentos teriam sido entregues por um correligionário do meu pai, Ronaldo Campos, afastado da secretaria que ocupava. Embora o material não comprovasse crime de corrupção, apenas irregularidades, passíveis de saneamento, além de serem de menor expressão, meu pai foi afastado pela câmara, que tinha nove dos seus 12 vereadores na oposição.

Mas conseguiu ordem judicial para reassumir o cargo. O governador, porém, deslocou 150 homens da Polícia Militar para impedir sua posse, no final de uma passeata com cinco mil participantes. A PM atirou quando os manifestantes se aproximavam da sede da prefeitura. Três pessoas foram mortas. Na sequência a câmara cassou o mandato de Elias Pinto, que voltou a ser cassado pelo governo militar. Santarém foi punida com a supressão da eleição direta para a prefeitura, tornando-se município de segurança nacional, permanecendo nessa condição por um quarto de século. O primeiro prefeito da nova era foi Ronaldo Campos. Papai morreu um pouco depois.

Escrevi o texto anterior pisando sobre ovos. Pelo motivo óbvio de ser parte interessada na história. Mesmo procurando sempre ser objetivo, inclusive na época dos fatos (1966-68), para ser como a mulher de Cesar (a quem não bastava ser honesta: precisa também parecer honesta), me referi à nebulosidade dos acontecimentos, sem penetrá-la.

Paulo Cidmil fez isso por mim. Comentando meu artigo, ele diz ser realmente um fato Ronaldo Campos traiu Elias Pinto, passando documentos da Prefeitura de Santarém para o ex-prefeito e deputado estadual (depois federal) Ubaldo Correa, “com os quais se criou o pretexto junto ao tribunal de contas do Estado para a cassação de Elias Pinto”.

Acrescenta que Ronaldo “e a secretária de Elias, cujo o nome não me vem no momento, foram os que entregaram a cabeça de Elias Pinto nas mãos de Ubaldo. Ubaldo foi o artífice do golpe que derrubou Elias Pinto”.

Paulo, um pesquisador da história de Santarém, diz que
sempre pensou em entrevistar Ronaldo, “mas não consegui superar a dúvida sobre a sinceridade” dele.

“Depois de ler documentos que nunca foram revelados, registrados pelo SNI e CGI a respeito dos acontecimentos de 68/69, uma imensa interrogação se instaurou em minha cabeça sobre muitos personagens, alguns ainda vivos, que estiveram no centro ou envolvidos nos acontecimentos. Pergunto-me como dormem e convivem com esse silêncio cheio de sangue”.

No seu comentário, Jota Ninos informa que quando fazia pesquisas para o seu TCC de jornalismo, em 2009, “tinha a intenção de analisar os incidentes políticos em Santarém, na visão da imprensa nos anos 1960. Os registros que se tinha estavam no Jornal de Santarém, cujas cópias consegui no ICBS do Cristovam Sena”.

Diz ainda ter ouvido relatos sobre a participação de Ronaldo Campos no golpe contra o meu pai, mas não havia base documental. “Pelos relatos, RC teria urdido o golpe por vingança a Elias,0 que o teria exonerado da prefeitura. Depois liderou o movimento pela recondução do ex-prefeito. Isso era bem Ronaldo... Nos anos 1980 ele incentivava a invasão em áreas abandonadas (como a do Conjunto ICA), depois conseguia que a PM desocupasse as áreas e jogava a culpa no seu adversário Ronan Liberal, que estava à frente da PMS de forma biônica".




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Última modificação em Sexta, 27 Janeiro 2017 21:53

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