Lúcio Flávio Pinto

Vale, maior mineradora do Brasil (também a maior empresa privada do país) e terceira maior do mundo, já tem uma data certa para morrer: será dentro de três anos e meio, a contar de maio, em novembro de 2020. Depois de 65 anos como estatal, ela completará 20 anos de privatização, em abril, sem um bloco controlador. Vai se tornar uma sociedade “sem controle definido”.

No novo contrato de gestão que precisarão assinar em abril, os principais donos atuais da empresa decidiram extinguir o núcleo de controle, exercido pela Valepar. Sem a holding, cada sócio passará a agir diretamente e decidir individualmente seus votos.

É o que prevê o novo contrato, conforme anúncio feito pelas Vale no dia 20.A mudança seria feita para “aumentar a transparência e a igualdade de direitos para todos os detentores de ação”.

O novo modelo societário ainda será submetido aos sócios para aprovação. Trata-se, porém, de mera formalidade, já que a decisão foi tomada pelos controladores do capital da companhia. Para obter o consentimento, bastará que contem com a adesão dos detentores de 20% das ações. Ao final da transição que será agora iniciada, a Vale desaparecerá.

As drásticas mudanças na Vale foram acertadas pelos maiores acionistas da companhia: Litel Participações (que reúne os fundos de pensão Funcef, da Caixa, e Petros, da Petrobrás, sob o comando da Previ, do Banco do Brasil), Litela Participações, Bradespar (do Bradesco), a japonesa Mitsui e o BNDES Participações.

O acordo prevê a conversão voluntária (se o acionista assim desejar) das ações preferenciais classe A em ações ordinárias, na relação de 0,9342 ação ordinária por cada ação preferencial, em valor a ser calculado por um método jpa definido.

Cumprida essa etapa, a Vale incorporará a sua controladora, a Valepar, e pagará aos seus proprietários um prêmio de 10% por suas ações. Aos acionistas minoritários caberão 3% das ações. Consumadas essas iniciativas, a empresa deixará de existir.

A intenção dos controladores com essa pulverização seria aumentar o apelo dos papeis da companhia os investidores. P elas novas regras, nenhum acionista poderá ter mais de 25% das ações, sob pena de ter que realizar Oferta Pública de Aquisição para os demais acionistas titulares de ações ordinárias. A proposta prevê ainda que 20% dos integrantes do Conselho de Administração serão conselheiros independentes. Assim, um acionista minoritário poderia fazer parte das decisões, o que aumentaria o interesse de quem faz aplicações no mercado de capitais.

Na verdade, porém, o que os controladores da Vale querem é se livrar da companhia do governo, beneficiar os investidores estrangeiros (os maiores adquirentes de ações preferenciais são os americanos) e abrir caminho para o que pode vir a ser a maior transação da história da mineração no Brasil: a transferência da Vale aos chineses.

Os sócios privados estão interessados em vender suas ações, sem submeter a decisão ao colegiado. Para facilitar, pulverização o capital da empresa e ainda converterão ações preferenciais em ordinárias. O ágio se tornará fonte de receita.

A oferta é interessante para os compradores das ações preferenciais (com prioridade no recebimento de participação nos lucros), que já ganharam muitos dividendos, mas agora estão em maré baixa por causa da queda do preço do minério e do período de investimentos pesados que a Vale fez (14 bilhões de dólares.

Foi para colocar em atividade o seu maior projeto, o S11D, que quase duplicará a produção de Carajás. Não vai poder distribuir tantos dividendos como antes, tendo que amortizar essa aplicação de capital. Para fazer frente à deterioração do preço do seu produto e dispor de receita para quitar sua grande dívida, a empresa tem apostado no aumento recorde no volume de produto vendido.

Libertos das amarras societárias, os controladores da mineradora poderão negociar diretamente com os eventuais interessados. O maior e já identificado é a China. Assumindo eventualmente o controle acionário da Vale, através de algumas empresas, os chineses, que compram 60% da produção de Carajás, estariam nas duas pontas do processo: na mina e no beneficiamento.

Depois de ter entregado à Norsk Hydro (multinacional controlada pelo governo da Noruega) todo o ciclo do alumínio, desde o minério de bauxita até o metal, passando pela alumina, o Brasil vai fazer o mesmo com o precioso minério de ferro de Carajás. Além de desestatizar, desnacionalizará a antiga Companhia Vale do Rio Doce.

O mercado reagiu no mesmo dia ao anúncio. O índice Bovespa, da Bolsa de Valores de São Paulo, experimentou picos, com a valorização dos papeis da Vale, do Bradesco e da agência do BNDES, a Bradespar. Mas se os agentes financeiros tinham motivos de sobra para comemorar, a sociedade brasileira deveria pelo menos se interessar por uma decisão de tal gravidade e repercussão que não pode ser adotada intramuros por uma empresa privada – que, aliás, por isso mesmo, não devia ter sido privatizada, como se fez, 20 anos atrás.




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Última modificação em Quinta, 23 Fevereiro 2017 09:09

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