Lúcio Flávio Pinto

A Petrobrás é a maior empresa do Brasil, atuando num setor vital para o país. Quando presidente da república, Lula ouviu falar que estava havendo corrupção na estatal. Denúncia divulgada pela imprensa se referia a dinheiro transferido para o exterior pelo diretor de serviços.Renato Duque fora indicado pelo PT, apadrinhado por José Dirceu e nomeado por Lula em 2o004, no segundo ano do primeiro mandato como presidente.

Lula pediu para João Vaccari Neto, tesoureiro do partido e 2º suplente de senador (de Aloysio Mercadante), chamar Duque para uma conversa. O encontro do presidente da república com um dos diretores da Petrobrás aconteceu num hangar do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, fora da agenda e sem testemunhas.

Lula perguntou se a notícia de jornal era verdadeira. Duque negou. Lula acreditou e encerrou o assunto. Não voltou mais ao tema, nem com o homem da cota do PT na direção da petrolífera nem com qualquer outro dos dirigentes das cotas dos partidos aliados do governo, com destaque para o PMDB.

Duque ficou 10 anos no cargo. Seus colegas de diretoria também não foram incomodados. Roubando estavam, roubando continuaram, até pelo menos 2014, o ano da reeleição de Dilma Rousseff. Afinal, metade do que roubavam ficava para eles e metade ia para os partidos que os apadrinhavam. Taanto que, à primeira pressão da Lava-Jato, Pedro Barusco devolveu 220 milhões de reais, sem pestanejar.

Lula contou essa história inverossímil no seu depoimento de ontem ao juiz Sérgio Moro, em Curitiba. Sem se lembrar que declara com ênfase, pouco antes, que nenhum ladrão confessa ser ladrão, assim como um filho não chega da escola na casa dos pais anunciando a nota ruim que tirou. Mas Lula acreditou no mentiroso e fez fé na sua história mirabolante.

Ela, entretanto, o acusa.

Primeiro porque, embora acuse a imprensa de conspirar para prendê-lo, buscando vingança pelo que ele fez pelos pobres durante o seu governo, e num ajuste de contas com o odiado PT, só soube que podia estar havendo corrupção na Petrobrás através da imprensa.

Informado, planejou encontro íntimo com um cidadão que nomeara sem o conhecer, nada sabendo sobre ele, apenas que se enquadrava num esquema tradicional de preenchimento de cargos de confiança na Petrobrás para o governo conquistar apoio no Congresso. Mesmo assim, encontrou-se com o acusado de corrupto num ambiente privado, sem agendamento nem testemunha, quase ocultamente, para não deixar prova.

Expondo-se dessa forma, forneceu o cenário para a versão que Duque apresentou a Moro na semana passada, no mesmo local: de que Lula só queria saber se ele realmente tinha uma conta secreta no exterior para receber o dinheiro da propina; se tivesse, que a encerrasse, para não deixar rastro do ilícito. Procedimento não da maior autoridade do país, mas de um chefe de quadrilha, de um mafioso.

Quando começou a se romper a barragem de contenção das sujeiras praticadas na Petrobrás (e em praticamente todas as estatais, sob o controle de governos corruptos), a sucessora de Lula, que fora ministra das Minas e Energia e tinha lugar de destaque no conselho de administração da petrolífera, começou a demitir os corruptos, sem chegar, porém, aos corruptores. Dilma tentava preservar o “esquema tradicional” em uso na Petrobrás desde tempos imemoriais (o que não é exatamente verdade; a origem é mais recente do que o proclamado).

No depoimento de cinco horas de Lula, o que menos impressiona é o detalhe – detalhe mesmo – do apartamento triplex do Guarujá, que pode ser creditado ao excesso de cortesia da OAS (toda ela escriturada no sacrossanto caixa 2, erigido à condição de um departamento na estrutura da Odebrecht) e de tolerância do beneficiário, que se lixa para esses detalhes éticos ou morais.

Nesse detalhe menor de um enredo imenso, o que enoja é o procedimento de um chefe de governo, de partido, de família que sempre renuncia à sua responsabilidade, nada vendo, nada sabendo, nada fazendo, enquanto transfere aos demais (e, quando melhor, aos mortos) o que lhe cabia assumir por sua posição de mando, de liderança.

Lula lavou as mãos ao dizer que o prosseguimento das tratativas com a OAS sobre o triplex se deveu à insistência e teimosia da sua falecida esposa. Ele mesmo encerrou o episódio na primeira e única visita que fez ao imóvel, eliminando-o das suas cogitações. Mas como mulher é assim mesmo, nunca contando tudo ao marido, Marisa Letícia ainda prosseguiu. Talvez por isso tenha tratado de reformas no apartamento e outras coisas mais.

Eventos domésticos ou menores à parte, pela primeira vez um observador atento e isento pôde estudar o modo lulista de expressão, sua linguagem, seus modos, seu método. Tudo muito eficiente em palanque, muito impressionante e convincente sem um confronto seguido e prolongado, como o que lhe impôs o juiz Sérgio Moro.

Aparando as arestas e suprimindo os excessos, Moro apertou Lula, numa dialética rigorosa. Fez o político se expor quando os circunlóquios, a metáfora rasteira, o raciocínio rústico e a pobreza de argumentos não lhe permitiram mais comandar o discurso. Ele não estava diante de um interlocutor inerte ou despreparado, manobras por sua torrente verbal, tão brilhante e rápida quanto superficial.

Ao final, fica-se com a sensação de que o que de bom Lula fez em oito anos se deveu menos a ele do que a circunstâncias favoráveis, à sua estrela, ao seu carisma, à sua competência em matéria de política brasileira. O que teve de ruim nesses dois mandatos, porém, é obra direta dele.

Lula entrou na 13ª vara criminal da justiça federal em Curitiba, talvez a melhor do Brasil, como um estadista. Saiu como um pigmeu.




Comente no Site (Clique Aqui)


Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.

Comente no Facebook (Clique Aqui)


Última modificação em Quinta, 11 Maio 2017 10:38

NOTÍCIAS RELACIONADAS

  • Leia Mais Notícias de Política

    Banner Novo 19/09/2017