Lúcio Flávio Pinto

Ao fim e ao cabo, como se diz na antiga sede ultramarina, a Amazônia continua plenamente brasileira e cada vez menos amazônica, graças ao desmatamento em massa e todos os seus derivativos de desnaturação da região. Para também se servir do banquete de recursos naturais, sem regras de civilidade, nenhum estrangeiro preciso recorrer a tropas de ocupação. Bastou cumprir as lenientes e permissivas regras nacionais criadas para enfrentar a jungle hostil, a selva selvagem, o bugre ignorante, o primitivo incapaz.

Está aí a Noruega com seu polo de alumínio, por exemplo. Já estão aqui os chineses, donos de todas as grandes linhas de transmissão de energia e agora açambarcando as enormes hidrelétricas. Na empresa norueguesa capitalista como na empresa capitalista chinesa, o sócio controlador é o Estado. Sem o Estado nativo para atrapalhar. Se atrapalhar, noruegueses tratam de aplainar as resistências com propaganda e relações públicas, para eles a melhor maneira de fazer amigos e influenciar pessoas.

Se atrapalhar, o brasileiro vestido de caubói, de madeireiro, de grileiro, de bandido – a atrapalhação vai ser resolvida no grito e no tiro. Com fúria suficiente para afastar quem queira se solidarizar com a causa da Amazônia. Há, no mundo, muita gente escusa e sinuosa de olho gordo na região. Esta é a gente que comanda os fluxos de commodities que saem da Amazônia ou por ela passam até ganhar o mundo, mantendo os sistemas coloniais de troca de mercadorias e de perpetuação das desigualdades. A solidariedade internacional, como a da Hileia, é inibida, combatida e destruída, a pretexto de garantir a soberania nacional sobre a mais tardia das regiões brasileiras (e a mais internacionalizada delas): a Amazônia.

Imperialismo à porta

Da Inglaterra, por exemplo. O ilustre barão de Guajará testemunhou confidência que lhe fez o último e mais importante presidente cabano. O cearense Eduardo Nogueira Angelim lhe teria dito que um comandante inglês lhe propôs que separasse a Amazônia do Brasil. O império britânico, que se estendia por toda a superfície terrestre, o garantiria.

Documentos oficiais, até recentemente inéditos, da armada inglesa, a mais poderosa dos sete mares, e do ministério das Relações Exteriores da Inglaterra desmentem a versão. As forças navais estrangeiras foram autorizadas pelo regente Diogo Feijó, que governava o Brasil em nome do imperador Pedro II, ainda menor, a invadir o Pará e matar tantos cabanos quanto fosse necessário para submeter os rebeldes ao império brasileiro.

A Inglaterra recusou. Não por respeito à soberania brasileira. Por cálculo econômico: era mais rentável explorar a Amazônia sob o governo do Rio de Janeiro do que por um vice-rei, como na Índia, onde o povo reagia ao dominador metropolitano. Não por acaso, o primeiro banco a se estabelecer para financiar a borracha foi inglês, não brasileiro.

Outro episódio de apetite imperialista incontrolável teria sido o do Instituto Internacional da Hileia Amazônica. Seria a cunha para a penetração do império americano, bradou aos sete ventos o ex-presidente (que governou sob estado de sítio, por ele decretado para reprimir os indesejados) Artur Bernardes.

Pois bem: os Estados Unidos foram contra o projeto. Nem subscreveram a ata de criação da Hileia. Ela era um sonho utópico de intelectuais que sonhavam com uma humanidade mais solidária entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o início da Guerra Fria. Dentre eles, dois notáveis brasileiros: Paulo Berredo Carneiro e Heloísa Alberto Torres. Mais o sábio inglês Julien Huxley.

Um exemplo mais próximo. Os Estados Unidos, que iam controlar a Colômbia, planejavam invadir militarmente a Amazônia a partir da guiana, ex-inglesa, ex-quase-futura comunista, na visão da doutrina de segurança nacional dos militares (avalizada, na passagem para a democracia, pelo maranhense José Sarney, logo depois de assumir a presidência da república).

O fantasma da invasão, que sequer fora cogitada (o Brasil foi convidado para participar da operação conjunta e recusou), avalizou o Sivam, um sistema de vigilância da Amazônia criado e implantado a toque de caixa, atropelando normas legais e a correção no serviço público, para barrar os novos invasores.

 




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Última modificação em Segunda, 24 Julho 2017 11:29