Lúcio Flávio Pinto

Meio século se passou. Neste ano, Carajás começa a contagem regressiva para o seu primeiro século de funcionamento. É uma província mineral única no conjunto do planeta. Tão rica que um chinês a considerou presente de Deus ao Pará. E os paraenses nem ligam. A China liga – e muito.

Na semana passada, a Vale começou a divulgar no seu site uma série de matérias sobre os 50 anos de Carajás citando uma frase do primeiro-ministro da China, ZhaoZiyang dirigida aos brasileiros: “Seus antepassados devem ter agradado a Deus para que Ele lhes tenha dado tanto”, disse ele, durante visita que fez à Serra dos Carajás, no Pará, em 1985, ano do início da produção da maior província mineral do planeta.
A reportagem registra as comemorações no dia fixado para a descoberta da primeira riqueza de Carajás, o minério de ferro, em 31 de julho de 1967, com o pouco do geólogo Breno Augusto dos Santos na clareia de uma das serras do conjunto de elevações, a Arqueada. A Vale lembra que Ziyang era então o segundo homem na hierarquia do governo chinês e responsável pela internacionalização econômica do país. E que tinha razão: Carajás só pode ser um presente divino, tal a sua singularidade no universo do subsolo do mundo inteiro.
Eu desconhecia essa frase na boca do dirigente chinês. Mas já a ouvi em muitas outras bocas, que serviram e ainda servem de instrumento para a expressão em língua nacional por brasileiros. Outras pessoas, bem antes do profético Ziyang, já haviam escrito várias vezes essa afirmativa, por criação própria ou reproduzindo observação alheia.
De estrangeiros, as primeiras dessas observações que testemunhei foram ditas por japoneses. Antes dos chineses e bem antes de os brasileiros tomarem consciência do que Carajás representava, eles expressavam com o olhar o seu reconhecimento à excepcionalidade das riquezas existentes naquela paisagem maravilhosa de serras e rios, florestas e animais.
A exuberância de Carajás, hoje uma ilha de natureza ainda conservada  num oceano de selvagem desmatamento, contrastava imensamente com a aridez da Austrália. Era onde os japoneses iam buscar o minério de ferro por ser um país muito mais próximo do deles do que o Brasil (e, principalmente, a Amazônia). Podia-se dizer que em Carajás eles arregalavam os olhos diante do que viam ao chegar nas excursões de verificação da mercadoria que iriam levar.
Combinar imensos depósitos de rochas ricamente mineralizadas (em ferro, manganês, cobre, níquel, ouro e o que ainda está por ser descoberto, possibilidade real, por incrível que pareça) no topo de serras acima de 300 metros do nível do mar (até quase 700 metros), só podia mesmo ser obra divina. Dilapidada desde então sem trégua pelos homens que para lá foram.
Como os japoneses se tornaram os maiores compradores do minério de Carajás, a Vale – dona de toda província mineral – trocou o nome do hospital da vila residencial dos seus funcionários, que homenageava a padroeira dos paraenses, Nossa Senhora de Nazaré, para Yutaka Takeda, o presidente da Misui, a maior cliente individual da mineradora, que era estatal naquele momento. A Mitsui também é dona de Carajás, embora as normas da privatização, consumada em 1997, proibissem cliente de ser sócio.
A Vale fez a troca sem sutileza ou medo de remorso. De reação, não haveria de ter receio. O paraense é passivo, ou bonzinho, como eles mesmos reconhecem, coloniais que são.
Agora que o maior comprador é a China, compradora de 60% da produção de Carajás, a Vale se lembrou da bela frase do chinês, trazendo-a de um passado já longínquo, quando a mina de Serra Norte começou a produzir, 32 anos atrás, para o presente, com uma projeção para o futuro que parece afirmar: o futuro é a China – ou da China. E a Vale é sua vassala.

Canaã dos Carajás: riqueza e fantasias

Num Brasil em crise, com um governo de caixa vazio, Canaã dos Carajás comemorou a maior arrecadação da sua história no primeiro semestre deste ano. Uma história ainda curta: a cidade foi fundada há 35 anos e se tornou município do sul do Pará (a 760 quilômetros da capital, Belém) há 22, com população de 35 mil pessoas, distribuídas por 3,2 mil quilômetros quadrados.
Sua grandeza deixou de ser municipal ou estadual: já é nacional e será cada vez mais internacional. No final deste ano Canaã deverá se tornar o maior arrecadador de royalty mineral do Brasil. Também o município de maior produção de minérios. Igualmente, o maior exportador nacional e o que mais divisas irá proporcionar ao país. Podendo crescer mais se a elevação na alíquota da compensação financeira for mantida.
A responsável por tantos títulos em tão pouco tempo é a melhor mina de minério de ferro do planeta, a S11D, que começou a produzir em janeiro deste ano. Ela consolidará Carajás como o mais importante centro de extração do minério que mais o homem utiliza. Vai quase dobrar a produção da única mina em atividade no local, a Serra Norte, de 130 milhões para 230 milhões de toneladas anuais.
Serra Norte apareceu como a segunda mina mais valiosa do mundo, com valor de 7,90 bilhões de dólares, abaixo apenas de Hamersley, na Austrália, que vale US$ 10,83. Esse valor foi calculado pela S & P Global Market Intelligence multiplicando o volume de minério produzido (185 milhões de toneladas, no caso da mina australiana da BHP, líder do ranking) pelo preço médio do minério (US$ 58,3 a tonelada).
A escala de Serra Norte, que entrou em operação em 1985, muito depois das jazidas australianas, é bem menor, de 135 milhões de toneladas, mas com um teor mais rico de hematita do que o da sua concorrente, o que a torna mais valiosa. Mas S11D a supera. Supera, aliás, todas as demais fontes de minério de ferro que existem na Terra. É única, singular.
Das 50 minas mais valiosas inventariadas, nove pertenciam no ano passado à Vale, que é dona exclusiva de Carajás. Serão 10 neste ano, com a operação de S11D. Serra Norte e Serra Sul, ambas em Carajás, valerão mais do que as de todas as outras multinacionais concorrentes da mineradora brasileira, com suas minas australianas, indonésias, chilenas ou em outros países.
Num mercado que sempre foi muito competitivo, a grandeza – combinada com a riqueza – do subsolo do Pará, em vias de se tornar o principal Estado minerador do Brasil, superando Minas gerais, significarão uma mudança inédita. Com a vantagem de que ali não existe apenas uma substância.
O cobre, com valor unitário imensamente superior ao do ferro, e já numa escala de transformação para o catodo e o concentrado, tem importância cada vez maior. Há ainda o níquel, o ouro e o manganês em produção.
Só a receita de minério de ferro dobrará nos próximos dois anos: de 25 bilhões para 50 bilhões de reais (valor só um pouco inferior ao investimento em S11D e acima do que já foi gasto na hidrelétrica de Belo Monte).
Na escala atual, a era mineral permitiu a Canaã ter a maior receita de royalty da sua história: 15 milhões de reais no primeiro semestre. A receita total de 2016 da compensação financeira pela exploração mineral foi de R$ 19,4 milhões, inferior à de 2015, de R$ 24,5 milhões.
É algo como 1% do valor bruto do minério. No meio da comemoração pela façanha em um período de vacas magríssimas, dá uma ideia de grandeza na correlação entre a riqueza que vai e a riqueza que fica.




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Última modificação em Quarta, 30 Agosto 2017 08:51