Rosélio da Costa Silva

É verão. Silêncio profundo ao amanhecer. A mata alta, esparsa, agasalha, embaixo, a regeneração natural para a perpetuação das espécies. É a mãe protegendo seus descendentes debaixo de suas asas. A mata rala, baixa, abana os galhos tenros num doce balanço natural. Não há ruídos. Pouco movimento de carros nas alamedas isentas de pessoas. Nos vários lagos, os engenhos não têm propulsão a gasolina. Caiaques, canoas, pequenos barcos puxados a remo, vela ou bateria, andam na lentidão de seus tempos e no compasso da modernidade do local. Há áreas elevadas no território mas a grande parte encontra-se entre 200 e 400 metros acima do nível do mar. É assim nos Berkshires, essa porção de terra elevada e ondulada, que cobre o oeste dos estados de Massachussets e Connecticut, nos Estados Unidos. Aqui, falo da parte de Massachussets, lado oposto à Boston.

Um silêncio absoluto invade todos os espaços da grande catedral verde da mata. Como amazônida, ainda tenho na lembrança o vozerio da floresta na noite escura: a conversa estranha de bichos não identificados, o coachar dos sapos, o canto das cigarras, a gritaria dos macacos, o gemido triste das árvores frondosas como sussurros fossem de um grande pesadelo, ecos e sons estranhos que se reverberam nos grandes espaços da floresta.

Nos Berkshires, não há floresta. Há mata onde árvores convivem com arbustos, baixos e ralos. Por ali vivem ursos, bobcats (um dos principais felinos silvestres da América do Norte) ao lado de perus selvagens, veados e uma população gigantesca de esquilos e de aves de nomes estranhos.

Um dia despertei cedo, por volta das 5 horas para ouvir melhor aquele silencio, tentar interpretá-lo. Abri uma nesga na cortina de pano grosso e vi um beija-flor nos degraus da escada de madeira da entrada da casa. Não estava com o comportamento assustado das aves que, entre uma bicada e outra, elevam o pescoço e reviram os olhos para monitorar predadores. Não estava, tampouco, a girar no ar com o seu voo ligeiro em busca de flores.

Estava de folga, sossegado, ouvindo o silêncio bom do local. Isso mesmo, silêncio bom. Encontrava-se em modo avião, desligado da rede, sentindo-se em casa, plácido e bastando-se a si mesmo, parafraseando Will Durant.

Os bichos grandes devem vagar pelos espaços enegrecidos pela noite em busca de água e comida, como fantasmas a procurar seus espíritos esquecidos de seus corpos a intimidar suas presas, a preparar emboscadas para o banquete da celebração da continuação da vida. Imaginar aqueles espaços cobertos de neve e com limitação de alimentos remete à condição humana, nas mesmas circunstâncias, no cuidado com provimentos para a manutenção da vida.

O que fazem os homens nos Berkshires? É área turística importante em todas as estações do ano àqueles em busca de sossego e paz. Mas é no verão que o calor convida para agitação de atividades ao ar livre: shows,música, exposições... artes em geral. A Sinfônica de Boston monta seu acampamento na região para concertos. Stockbrige, Lenox, Lee, Becket, Tanglewood, nomes difíceis de esquecer.

Os homens da região sabem que eles invadiram o lar dos animais: tomam as suas medidas de segurança e evitam grandes exibições ao ar livre próximo à mata, principalmente à noite. Apesar disso, não faltam histórias assustadoras de ursos e outros bichos.

Assim são os Berkshires: um espaço moderno dentro do primitivo numa convivência pacífica. Há respeito mútuo do homem com a natureza e, principalmente, do homem com a fauna e vice versa. Acredite. Isso existe.


Becket, Massachusetts, 14 agosto 2017.


Rosélio da Costa Silva

Jornalista e Técnico em Comércio Internacional radicado em São Paulo, autor de Mosaicos do Andarilho. 




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Última modificação em Quinta, 31 Agosto 2017 09:29

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