Lúcio Flávio Pinto

No dia 17 de março a Polícia Federal fechou o cerco sobre o grupo JBS, em mais um desdobramento da Operação Lava-Jato. Duas semanas depois o principal executivo do grupo, Joesley Batista, um dos visados pela iniciativa, ofereceu à Procuradoria Geral da República documentos para reforçar a ação contra a corrupção no Brasil. O principal elemento era uma gravação secreta da conversa do empresário com o presidente Michel Temer.

O procurador geral Rodrigo Janot encaminhou rapidamente as negociações para que elas fossem aprovadas num acordo de delação pelo ministro Edson Fachin, o relator da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal.

Joesley, seu irmão, Wesley, e os principais executivos da holding do grupo, a J & F, ganharam o melhor acordo de delação da história deste instituto no Brasil (e, quem sabe, no mundo). O seu ponto alto foi a imunidade penal. Nenhum deles poderia ser preso ou mesmo submetido a qualquer processo na justiça. Ou sequer sofrer qualquer restrição acessória, como viajar para o exterior.

Ontem, o procurador geral admitiu publicamente que pode ter sido enganado e manobrado. Não só pelos colaboradores como por um infiel que atuava ao seu lado, por si convocado para ser seu principal assessor direto na Lava-Jato, o procurador Marcelo Miller.

Provavelmente Miller já fazia jogo duplo desde 2015, pago pela JBS. Seguramente, entrou no esquema quando pediu demissão da PGR e passou a atuar - talvez como sócio - no escritório de advocacia que defendia a corporação da família Batista, a maior produtora de carne do mundo, principalmente graças a financiamentos do BNDES, a juros subsidiados.

Na representação que fez a Fachin, apontando os fatos graves que mudam a relação com os delatores premiados (como se o fossem na maior das loterias da história do Brasil), Janot se antecipou a Joesley, que se antecipara de novo à Polícia Federal.

Na nota que divulgou para amaciar o impacto explosivo das informações prestadas por Janot, a JBS diz que a súbita e radical mudança resultou da iniciativa da empresa. Foi ela quem forneceu os novos áudios e provas, omitidos no primeiro acerto de contas com a PGR.

Omite, porém, que a PF continuou a atuar na produção de provas, sem se satisfazer com as contribuições dos irmãos Batista e seus executivos à PGR. Um dos principais objetos da perícia posterior foi o celular no qual Joesley gravou sua conversa noturna com Temer no palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente, em Brasília.

Joesley não entregou espontaneamente o aparelho, que carregou consigo quando viajou para os Estados Unidos. no mesmo dia da divulgação da aprovação da delação. Talvez achasse que poderia sonegá-lo à investigação. A imprensa publicou que nada mais havia na memória do celular.

Seria uma nova Operação Carne Fraca em preparação, desta vez também revelando as manobras, omissões e falsidades arquitetadas por Joesley Batista para passar de acusado a acusador, de réu a vítima, de vilão a mocinho.

A linguagem rasgadamente ofensiva que usou contra Temer no final de semana, chamando-o de "ladrão geral da república", já era a antecipação da tempestade que viria no dia seguinte. Graças a muito dinheiro, ele continuava bem informado. Mas já não era mais o dono da situação. Felizmente.

Só o que o procurador Janot revelou ontem já é o suficiente para se esperar o que era considerado necessário desde o primeiro momento: a prisão de Joesley e Wesley Batista, como réus confessos de diversos crimes. Dentre os quais o mais grave (embora não o que maior prejuízo material causou ao país) foi o de terem praticado o maior suborno político da história da humanidade, comprando 1.829 parlamentares federais.

A atitude de Janot mereceu elogios imediatos e irrestritos dos seus pares. Aos críticos mais atentos, porém, pode se assemelhar àquela piada do ladrão que, ao ser descoberto e perseguido, entra na corrida dos perseguidores apontando para a frente e indicando um fictício ladrão.

O procurador cometeu um erro grave, talvez por precipitação desmedida, irreflexão e vaidade. Com o mea culpa implícito na declaração de ontem, quer se perdoar e se auto-penitenciar, antes que a opinião pública venha a examinar com maior rigor o seu papel.

Finalmente, a verdade completa começa a ser desvendada. Ela mostra que não há mocinhos neste que se torna, cada vez mais, num dos mais graves, importantes e dramáticos capítulos da história republicana brasileira.

Apesar de todas as felonias, o instituto da delação premiada sai fortalecido, por municiar os que o aplicam dos instrumentos de autocorreção e de punição aos que tentam ludibriar o aparato estatal (e aos que são tolerantes ao risco desse cometimento). As denúncias devem continuar a ser feitas, mas não com base em procedimentos açodados e por impulsos subjetivos.

A investigação vai até a cúpula do judiciário, o Supremo Tribunal Federal, e ao topo do Ministério Público, como precisava ser. Agora, quem for podre que se quebre. Para que o Brasil não continue a apodrecer por dentro.




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Última modificação em Terça, 05 Setembro 2017 15:28

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