Lúcio Flávio Pinto

A Polícia Federal prendeu o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, junto com mais seis pessoas ligadas à instituição, em 14 de setembro. Foi uma punição desproporcional em relação ao crime alegado. O reitor era suspeito de tentar impedir investigações sobre desvio de verba em cursos.

A imprensa e quase todos entenderam que o reitor participava dos desvios. Esse parece ter sido também o entendimento da juíza à qual a Polícia Federal pediu e imediatamente obteve autorização para prender Cancellier, impedindo-o também de entrar no campus da UFSC. Talvez se tenha tornado, para ela, que participara da Operação Lava-Jato, um procedimento rotineiro, de curso automático.

Frequente para todos, menos para o próprio acusado. Ao ser preso, ele escreveu um artigo indignado. A humilhação e o vexame lhe eram insuportáveis. Menos de 20 dias depois, se atirou do alto da escada rolante de shopping, em Florianópolis. Carregava no bolso, um bilhete: “A minha morte foi decretada quando fui banido da universidade!!!”

O suicídio, apesar de um ato a lamentar, foi uma resposta que não deixou alternativa aos açodados, imprudentes e insensíveis acusadores, da polícia à imprensa, passando pelo judiciário e quase toda opinião pública. Com o triste episódio, é preciso rever criticamente o ímpeto acusatório inspirado pela caça aos corruptos pela Lava-Jato, sem que de um eventual mea culpa se possa permitir que os próprios corruptos se aproveitem para devolver o país ao estado de impunidade e conivência anterior, sobretudo para com os criminosos de colarinho branco e os saqueadores dos cofres públicos.

Admitidos os excessos e erros como o preço necessário a pagar para quebrar essa leniência histórica, deve-se ser rigoroso no cumprimento das etapas e formalidades do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa, com a presunção de que todos são inocentes até prova em contrário, e privação da liberdade é medida extrema. A revisão precisa ser também um ato de correção de erros antes que eles se consumem em injustiças definitivas, como no caso de Cancellier.

A tarefa é hercúlea, quase impossível de ser cumprida no Brasil, mas deve-se tentá-la. O Brasil não precisa de heróis na batalha contra os corruptos. Basta que as autoridades e os canais competentes cumpram a sua missão, à luz das leis, acima de todas elas a constituição nacional, e que a sociedade esteja vigilante, em cima dos acontecimentos do cotidiano, para apontar e enfrentar os desvios.

Nos escaninhos estatais, o episódio do suicídio podia frear os impulsos extravagantes. A Polícia Federal tem que acabar com presunções de verdade que a levam a beira da irresponsabilidade. A operação que resultou na prisão do reitor se chamava "ouvidos moucos", numa pretensa ironia à atitude passiva ou compassiva e Cancellier. Uma apuração posterior mais cuidadosa provou que, na melhor das hipóteses, para a polícia, é assunto a questionar. Não há prova contra ele.

A imprensa tem que condicionar a sua busca febril pela primeira notícia, o “furo”, à complexidade ou gravidade do assunto. A Folha de S. Paulo, por exemplo, admitiu que, sem correspondente em Florianópolis, deu a primeira – e errada – notícia a partir de apuração feita por telefone e e-mail. Infelizmente, esta se tornou uma regra nas redações. Tem que ser posta abaixo.

O assaltante Lúcio Flávio Vilar Lírio, inimigo mortal (e morto) do delegado Mariel Mariscot, cunhou a frase famosa: “polícia é polícia, bandido é bandido”. Os jornalistas deviam transformar a advertência numa paráfrase, aplicada a todos os personagens de uma notícia. O jornalista só é realmente jornalista quando apura tudo, venha de que fonte vier. Não pode checar a prisão de um reitor de universidade por telefone ou confiando cegamente no autor da prisão.

O Brasil precisa parar e passar em revista, com rigor e competência, a cultura criada pela Lava-Jato, que manifestou os seus maiores riscos no episódio que levou o reitor da UFSC a se matar. Do contrário, sua morte terá sido em vão. Até agora, nenhum dos indiciados, acusados ou presos pela Lava-Jato se suicidou – nem se suicidará jamais.




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