Paloma Olivero

Bebidas alcoólicas estão por trás de 3,3 milhões de mortes anuais, e acredita-se que 5% de doenças e acidentes registrados globalmente em 2014 sejam atribuídos a elas. O abuso da substância, seja por usuários esporádicos ou dependentes químicos, faz com que médicos e pesquisadores tentem entender o que as pessoas estão buscando em copos, taças e garrafas. Uma dessas iniciativas é a Global Drug Survey, pesquisa realizada com mais de 29 mil pessoas, com idade entre 18 e 34 anos, moradoras de 21 países. Por meio de um questionário on-line, homens e mulheres de todas as classes socioeconômicas foram convidados a dizer quais emoções eles acreditam que cada tipo de bebida — vinho branco, vinho tinto, destilados e cerveja — desperta.

Para participar, os voluntários tinham de ter tomado todas essas variedades nos 12 meses anteriores. Os pesquisadores da Agência Nacional de Saúde do País de Gales e do King’s College de Londres pediram que cada um associasse as bebidas a emoções positivas (se sentir com energia, confiante, sexy ou relaxado) e negativas (cansaço, agressividade, inquietude, ter vontade de chorar). Um mesmo drinque poderia ser encaixado nas duas categorias — boa e ruim — pelo mesmo usuário. Por exemplo, o participante poderia dizer que tomar vodca faz alguém parecer mais sensual e, ao mesmo tempo, ficar mais agressivo.

Os resultados mostraram que as emoções atribuídas às bebidas estão de acordo com os rótulos socialmente associados a elas. Por exemplo, assim como nas propagandas de ice, uísque e vodca, que geralmente retratam pessoas sofisticadas em casas noturnas, dançando ou saboreando o drinque no bar, 59% dos respondentes disseram que os destilados despertam sensação de energia e confiança. Mais de quatro em cada 10 (42,5%) também acreditam que elas deixam as pessoas mais sexies. O vinho, cultuado como bebida elegante e ideal para relaxar, foi encaixado justamente neste perfil (veja quadro).

Como se trata de um estudo observacional, ou seja, não investiga causa e efeito, os autores ressaltam que não é possível afirmar categoricamente que os consumidores são induzidos pela imagem criada pela indústria a associar determinadas bebidas a certas emoções. Mas, no artigo, publicado na edição on-line da revista British Medical Journal (BMJ), eles destacam que a análise dos dados sugere que “indivíduos estão, em alguma extensão, consumindo bebidas em diferentes configurações baseados nas emoções que eles percebem estarem associadas com tipos particulares de álcool”.

Especialista em dependência química, a psiquiatra Helena Moura, preceptora da residência do Hospital de Base nessa área, diz que é difícil saber até que ponto as bebidas de fato despertam as emoções que se creditam a elas ou se o contexto social tem maior influência. “Existe a questão da aprendizagem social. Sempre aprendemos que em churrasco se bebe cerveja; que, para para comemorar, toma-se espumante; e, na festa, são os destilados. No cinema, vemos o personagem chegar cansado do trabalho e tomar uísque para relaxar. Nós canalizamos essas informações. Então, é importante analisar a influência do marketing de cada produto na percepção das emoções”, observa.


Imaginário coletivo

Na amostra estudada, os pesquisadores constataram que, para os consumidores, as emoções positivas associadas a uma bebida se sobrepõem às negativas. Por exemplo: os destilados foram os drinques mais relacionados a sensações boas. Porém, também foram os mais relacionados às ruins, especialmente à agressividade.  De acordo com os autores, é possível que, no imaginário coletivo bombardeado por “publicidade quase onipresente”, os aspectos negativos de determinado drinque vêm à tona em casos pontuais ou são resultantes apenas do comportamento abusivo.

Voltando aos destilados, se reconhecem que bebidas do tipo têm o potencial de deixar os usuários mais enervados e inquietos, os consumidores acham, por outro lado, que isso só ocorre eventualmente e no caso dos dependentes químicos. Além disso, a psiquiatra Helena Moura destaca que a expectativa em relação às supostas sensações positivas podem ser tão grandes que o consumidor negligencia os aspectos negativos.

Para a especialista em dependência química, o estudo levanta importantes questões, que devem ser levadas em consideração por quem tem hábito de beber, mesmo que não seja usuário pesado de álcool. “Há uma série de valores a serem questionados. Precisamos mesmo beber vinho quando chegamos em casa para relaxar? Somos obrigados a beber para nos divertir?”, questiona.

A psiquiatra também observa que, ao buscar no álcool emoções positivas para contrabalancear sentimentos negativos, se mascara o problema que precisa ser resolvido. “Uma pessoa que está deprimida e bebe para ficar um pouquinho mais animada não está tratando a depressão”, alerta. “Vai ter uma hora em que uma dose só não será mais suficiente.”

Mark Bellis, coautor do estudo e pesquisador da Agência Nacional de Saúde do País de Gales, acredita que conhecer as emoções que a população atribui às bebidas pode direcionar políticas públicas preventivas, como campanhas ou regulação de publicidade. “Principalmente em relação a pessoas que bebem muito, entender melhor o comportamento do bebedor é fundamental para estratégias de saúde pública. No Reino Unido, por exemplo, um litro de destilado pode ser comprado por 15 libras ou menos. Então, uma dose dupla sai por centavos. Esses preços podem encorajar o consumo a níveis perigosos para a saúde do consumidor e das pessoas ao redor dele”, observa.


Cenário brasileiro

No Brasil, dados da Organização Mundial da Saúde mostram que o consumo de álcool é 40% maior que a média mundial. Uma pesquisa on-line de 2013 revelou que 68% dos respondentes beberam cerveja nos 30 dias anteriores à enquete, 42% consumiram vinho, 24%, vodca, 20%, uísque e 19%, ice. Os resultados refletem o que se viu no Global Drug Survey. A cerveja foi a bebida mais associada a emoções positivas pelos 213 brasileiros que responderam ao questionário internacional (0,71% da amostra), enquanto que os destilados foram os menos relacionados a boas sensações.

(Do Correio Braziliense)




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Última modificação em Segunda, 27 Novembro 2017 11:00