Lúcio Flávio Pinto

Se eu recebesse como tarefa indicar os dois fatos que mudaram a história da Amazônia, dando-lhe a feição que ela tem hoje, não hesitaria um instante em apontar a cabanagem, que irrompeu em 1835, em Belém, e a integração física da região ao país através de rodovias, iniciada pouco mais de um século depois.

A cabanagem raramente aparece nos manuais de história nacional. Quando citada, ainda é embrulhada no pacote das sublevações do primeiro império, das menos importantes, quase sem individualização. Nenhuma novidade: a história da Amazônia (praticamente tudo, da Amazônia) é um resíduo da história brasileira, um mero exemplo demonstrativo, a favor ou contra.

No entanto, a cabanagem é algo excepcional e único para os padrões de Pindorama: o povo tomou o poder e governou (três décadas antes da Comuna de Paris), com uma interrupção de retomada legal entre as três presidências cabanas, ao longo de um ano; não foi apenas um acerto entre elites; até ter sua chama apagada, em 1840, a cabanagem arrastou para a morte um quinto da população da região. A então província do Grão-Pará e Rio Negro tinha 150 mil habitantes. Devem ter morrido uns 30 mil. Se fosse hoje, isso significaria dois milhões de mortos em cinco anos.

Houve muita sangria durante o período inicial, brasileiros correndo atrás de portugueses; escravos e índios, na caça de senhores. Mas nada comparável ao massacre dos cabanos durante a época de “pacificação”, comandada pelo brigadeiro Soares Andréa, com total cobertura do Rio de Janeiro.

Os amazônicos queriam se livrar da dominação colonial portuguesa, que sobrevivera, incólume, à emancipação política do país, como se ela não tivesse ocorrido. Mas a capital do novo império achava que caboclos, índios e negros deviam estar querendo mesmo era sua emancipação.

Andréa não apenas mandou matar todos os revoltosos encontrados em armas pelo vasto interior: centenas deles morreram de inanição nos porões da corveta imperial Defensora, transformada em lúgubre calabouço flutuante em frente a Belém. Ingleses, franceses e até mesmo portugueses poderiam ter executado nacionais, se quisessem.

O regente, Diogo Antônio Feijó, autorizou secretamente os três países, inclusive Portugal, do qual mal havíamos nos libertado, a entrar no Grão Pará com tropa embalada e exterminar os rebeldes, que não eram iguais. O governo central não se considerava em condições de reprimir simultaneamente os cabanos e os farrapos, também em armas no extremo oposto do território da nação em formação (ou em dissolução? perguntar-se-ia, depois, um dos nossos maiores historiadores, Capistrano de Abreu).

A cabanagem pôs fim à última das utopias do império colonial português: preservar seu maior domínio no continente americano, mesmo o Brasil se tornando independente. Quando isso acontecesse, o novo país se dividiria em dois, porque fora duplo enquanto os capitães-do-mato lusitanos e seus vasqueiros estadistas mandaram na colônia, Pombal, na metade do século 18, tentando levantar esse sub-império na rain forest.

Visto de Lisboa, o Brasil só existia do Piauí para baixo. Desse ponto para cima, o que havia era o Estado do Maranhão e, em seguida, o Grão-Pará. Plenamente português, sem qualquer ligação com o restante da colônia. E assim provavelmente permaneceria, até um contragolpe reinol à proclamação de Pedro I, não tivessem os caboclos custeado a sangue a separação. Que o poder central não entendeu, num país demasiado grande e demasiado mal representado para dispor de um verdadeiro Estado nacional.

A voz que soou na planície foi captada com interferências no Rio de Janeiro. Não houve limpidez nem mesmo quando a capital foi transferida para Brasília, no embalo da mítica “corrida para Oeste”. Ninguém, nos cargos de mando, cedeu seu ouvido para a retórica da jungle.

Com um século de atraso e completa defasagem geográfica, o centro do poder nacional decidiu, na segunda metade da década de 50 do século passado, que já era hora de a Amazônia sair da sua condição de reserva e se tornar fonte de produção.

De preferência, de dólares, com os quais se suplementaria a baixa taxa de poupança do capital nacional, insuficiente para alimentar as caldeiras do Brasil grande (“pra frente”, durante os anos do milagre econômico do regime militar, “em ação”, no reinado de um príncipe republicano mal inspirado em Maquiavel).

Foi o que disse o então todo-poderoso ministro Delfim Neto ao seu colega Saburo Okita, do Japão, quando o PIB crescia anualmente numa taxa de dois dígitos. O crescimento exponencial só viria através da velha fórmula: abrir a fronteira, escancará-la mesmo, lançando plataformas de ataque, artérias de circulação, elos entre o almoxarifado de recursos naturais e o centro de transformação da natureza em mercadoria, o “sul”, berço do parque industrial e tecnológico do país, do saber.

Quando as primeiras estradas rasgaram o ventre florestal, até então absolutamente virgem, nas terras altas, distantes dos talvegues dos rios, que eram os caminhos da civilização até aquele momento, o homem havia tocado em menos de 0,5% da superfície amazônica, que corresponde a dois terços do Brasil e seria, se os sonhos dos portugueses tivessem se materializado, um dos maiores países do planeta. Hoje, o desmatamento já alcança 16%, engolindo 78 milhões de hectares do que era uma das maiores concentrações de grandes árvores do mundo.

Nunca, em todos os tempos, um povo destruiu mais florestas do que o brasileiro. Essa tendência prossegue exatamente quando a humanidade se conscientiza de que a combinação de alta umidade, chuvas abundantes e extensos períodos de insolação respondem pela maior diversidade de vida, animal e vegetal, na crosta terrestre não coberta pelos mares.

A Amazônia é esse nicho privilegiado. As árvores são o elo vital desse ciclo de vida. Estão sendo premiadas com um massacre sem paralelo, que resulta num ganho econômico liliputiano para umas dúzias de beneficiários e um prejuízo sem retorno para gerações inteiras.

A Amazônia tem uma história – e é rica. A Amazônia tem inteligência, que pode não ser (e não é) suficiente para resolver todos os seus problemas, os maiores com origem exógena, mas também não deve ser desprezada, qualquer que seja o argumento contra seu primitivismo ou provincianismo. A Amazônia, aliás, depende visceralmente, da solidariedade externa. Na forma de conhecimento científico, de saber tecnológico, de informação, de vontade.

Sozinha, não conseguirá reverter um processo aceleradíssimo que a colocou, de um lado, entre produtores – em escala de importância internacional – de bens eletrointensivos, como o alumínio e a própria energia, e, nacionalmente, entre os principais fornecedores de insumos básicos, enquanto vários dos seus indicadores sociais estão abaixo da média nacional e, até, das taxas nordestinas, um padrão de pobreza que avançou sobre aquela que deveria ser “a maior fronteira de recursos naturais do globo” e virou o locus do saque.

A imprensa teria a importante missão de colocar algumas pedras na ponte de ligação entre a Amazônia, o Brasil e o mundo. De tal maneira que não se continuasse a pensar a região apenas como uma paisagem edênica, mas também uma área com problemas complexos, vários dos quais já característicos de uma sociedade avançada, industrial (e pós).

É preciso revelar a complexidade já assumida por várias estruturas de produção montadas na região com o carimbo do Primeiro Mundo. Ou que alguns números e situações impressionantes que pode exibir (a maior fábrica de alumínio do continente, a maior hidrelétrica inteiramente nacional, a maior província mineral do planeta, etc.) não são garantia de futuro para a Amazônia.

É um privilégio viver na região, agora. Mas é também uma fonte de angústias, tal o desafio de fazer a história contemporânea refletir o rosto e os anseios amazônicos, expressar sua própria vocação quando florestas são destruídas, rios são aterrados e sua paisagem submetida a atividades sem perenidade, ou sem sustentabilidade, para usar um jargão da temporada, chocho, mas inevitável.

Aqui, como observou um grande paulista e brasileiro, Euclides da Cunha, no alvorecer do século passado, escreve-se a última página do Gênesis. Mas Deus cedeu esse derradeiro copyright para os homens. Transferiu-nos, portanto, uma responsabilidade cuja magnitude ninguém conseguirá aviltar. O tamanho da Amazônia é proporcional ao tamanho dos seus problemas. E ao tamanho do merecimento dos que, enfrentando-os com inteligência, vencerem-nos.

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* (Publicado na Agenda Amazônica nº 21, de maio de 2001)

 




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Última modificação em Quinta, 04 Janeiro 2018 10:09