Nicodemos Sena

“Até as pedras, um dia, se encontram”, dizia minha avó Guida, sábia mulher que, apesar de analfabeta, era um verdadeiro repositório de provérbios e máximas, através das quais se conduzia.
Tive a oportunidade de comprovar, mais uma vez, a veracidade dessa máxima, recentemente. Verdadeiro milagre. Eu e Sebastião Imbiriba, o mitológico Sebastião Imbiriba, enfim, nos encontramos, num tempo e num lugar improváveis. Este é o acontecimento estranho, inexplicável e inesperado que passo a contar-vos.
Antes, porém, hei de dizer-vos que devo tal encontro a uma figura humana igualmente “improvável”, que a Providência colocou no meu caminho. Falo do poeta, comunicador e agente cultural Luiz Antonio Cardoso, que tem as chaves de cadeias e de corações aqui em Taubaté, cidade do Vale do Paraíba do Sul, Estado de São Paulo, onde atualmente resido.
Luiz Antonio, como o chamamos, consegue conciliar a função de carcereiro da Penitenciária II de Tremembé, município vizinho de Taubaté, onde se “hospedam” os condenados “midiáticos” (não envolvidos com o crime organizado, mas estigmatizados por terem cometido delitos “espetacularizados” na mídia, como, por exemplo, os irmãos Cravinhos, o jornalista Pimenta Neves e o mítico Cabo Bruno), e uma marcante atuação na vida cultural de Taubaté, como apresentador do programa “Literatudo” (de entrevistas) na comunitária TV Cidade. E, se isso já não fosse muito, é, ainda, presidente do Rotary Clube de Taubaté.
E foi, justamente, na mais recente reunião do Rotary Clube de Taubaté, no dia 15 de dezembro de 2017, que aconteceu o meu encontro com Sebastião Imbiriba.
“Nicodemos Sena, acaso conheces uma pessoa chamada Sebastião Imbiriba?”, perguntou-me Luiz Antonio pelo whatsapp.
“Sebastião Imbiriba? Dizes Sebastião Imbiriba?!!!”, repeti para o Luiz Antonio.
“Sim. Ele diz que é de Santarém do Tapajós, a tua terra natal, e já leu teus romances”, explicou Luiz Antonio.
“Sim, sei quem é o Sebastião Imbiriba, pessoa emblemática da minha terra, de família nobre e famosa, mas nunca tive a oportunidade de conversar com ele”, disse-lhe eu.
“Pois, meu caro, chegou a hora de conversares com Sebastião Imbiriba. Hoje à noite, ele e sua filha Leonora, advogada residente em Taubate, estarão na reunião do Rotary Clube, para a qual te convido”, disse Luiz Antonio.
E nem precisava me convidar. Eu iria de qualquer jeito à reunião do Rotary Clube, sabendo que Sebastião Imbiriba estaria lá.
Às 20 horas, ao chegar à sede do Rotary com minha esposa Marli Perim, Luiz Antonio logo me conduziu à mesa onde Sebastião Imbiriba e a filha Leonora estavam.
O nosso importante personagem nasceu em 4 de junho de 1931, em Santarém do Pará, a nossa “Pérola do Tapajós”. Quando me entendi como gente, no final da década de 60 do século passado, Sebastião Imbiriba já era nome reconhecido entre os nomes em Santarém, mas, mero estudante que eu era e de modesta parentela, nunca houve o ensejo do meu destino e o dele se cruzarem, salvo as crônicas que passamos a escrever para este “O Estado do Tapajós”, no começo do presente milênio. Crônicas sempre mui interessantes, as dele, urdidas em castiço vernáculo, a denunciarem o escritor que Sebastião Imbiriba revelar-se-me-ia nesse encontro no Rotary Clube de Taubaté.
Luiz Antonio não me informara que Sebastião Imbiriba, naquela noite, seria homenageado como homem de cultura e autor do livro “O Filho do Boto”, publicado em 2016 pela Kirios do Rio de Janeiro.
Quando dele me aproximaava, conduzido por Luiz Antonio Cardoso, Sebastião Imbiriba levantou-se de sua cadeira e, com a mão direita estendida, deu um passo na minha direção. Seu olhar firme, por entre os olhinhos apertados, e o aperto de mão caloroso dispensaram a necessidade de qualquer palavra, nesse breve mas intenso primeiro instante. Falando a verdade, senti-me um pouco embaraçado, diante daquele homem já octogenário e de cabelos esbranquiçados pela inexorável ação do tempo. O que teria eu a dizer a um homem que, como filho de militar, morou e estudou em várias cidades do Brasil e, em adulto, girou o mundo como executivo de marketing e vendas em multinacionais, e que, ao retornar para Santarém com as mil lições que aprendera em seu longo peregrinar, exerceu as mais variadas e importantes funções e misteres?
Confesso que eu tinha ido ao encontro desse ilustre conterrâneo com certo receio, fruto, talvez, da costumeira timidez que me acomete toda vez que me deparo com uma pessoa como Sebastião Imbiriba, possuidor de vastos conhecimentos e cabedais e lenda viva da minha terra. Apesar disso, sentia-me feliz diante do venerável senhor, e mais feliz fiquei ao notar que, ao sentarmo-nos em torno da mesa, demonstrou vívida satisfação com a minha presença e a de minha esposa, chegando a dizer que, de fato, como já me adiantara o Luiz Antonio, lera os meus livros, fazendo questão de nomeá-los a todos, pela ordem de edição: “A Espera do Nunca Mais” (1999), “A Noite é dos Pássaros” (2003), “A Mulher, o Homem e o Cão” (2009). Disse, ainda, que não lera o meu livro mais recente, “Choro por ti, Belterra!”, porque não tivera oportunidade de adquiri-lo. Então, nesse mesmo instante, retirei da minha pasta de mão o exemplar que eu trouxera, especialmente, já autografado, para o meu insigne conterrâneo. Em retribuição à minha gentileza, Sebastião Imbiriba pegou um exemplar do seu “O Filho do Boto”, dentre os outros exemplares que estavam expostos numa mesinha ao lado da nossa mesa, e entregou-me, após escrever o seguinte autógrafo: “Ao prezado e ilustre autor Nicodemos Sena, com admiração e votos de felicidade”.
Tivemos que interromper nosso colóquio, que já se desenrolava leve e mansamente, no ritmo caboclo, como se nos conhecêssemos há séculos, porque o amigo Luiz Antonio Cardoso, de microfone em punho e no lugar central da mesa de apresentação, chamava “o escritor paraense Sebastião Imbiriba, que, nesta noite, além de autografar o seu novo livro ‘O Filho do Boto’, será homenageado pelo Rotary Clube de Taubaté...”
Senti-me feliz ao ver mais um filho da “Pérola do Tapajós” reconhecido e aplaudido fora da Amazônia. Senti-me alegre com as palavras sobranceiras e cheias de autoestima que Sebastião Imbiriba leu perante os membros e os convidados do Rotary Clube de Taubaté, representantes da elite cultural e econômica da região do Vale do Paraíba.
Ao retornar para a nossa mesa, Sebastião Imbiriba retomou a sinopse que me vinha fazendo de “O Filho do Boto”.
Naquela noite, como sempre acontece quando me encontro com um lídimo representante da cultura amazônica extraviado em plagas paulistas (coisa, diga-se, rara, já que o Pará, graças a Deus, apesar de todas as suas mazelas e injustiças sociais, expulsa menos gente do que outra regiões “periféricas” do nosso país), propus a mim mesmo ouvir mais do que falar. E ouvir Sebastião Imbiriba, branco e de olhinhos espichados de caboclo amazônico, era tão delicioso quanto degustar um fruto do sapoti ou do abiu. Pretendo ter outros encontros com esse nosso interessante personagem, o qual, na atual fase de sua vida, alterna residência entre as cidades de Saquarema (RJ), onde reside uma filha, Taubaté (SP), onde mora a simpática filha Leonora, e a nossa Santarém do Tapajós, onde seu coração fincou raízes.
Sem receio de estragar-me a leitura, o autor “mocorongo” (é assim que as populações de outros municípios do Baixo Amazonas nos chamam!) adiantou-me que “O Filho do Boto” é resultado do seu profundo interesse pela cultura da nossa terra natal e pela história antiga e contemporânea. Nesse livro, o aventuroso “John Dillon, Ph. D.” narra as lendas e histórias da Amazônia e do mundo. O autor usa o cativante e vaidoso John Dillon para expor muito de sua própria biografia cheia de aventuras em Santarém do Tapajós e em Fernando de Noronha, onde viveu anos de sua infância em companhia do pai militar. Pode-se dizer, ainda, desse belo livro de Sebastião Imbiriba que nele se entremostram a sólida educação recebida de seus pais e do colégio interno em Recife. Por outro lado, as viagens nacionais e internacionais que realizou a trabalho, bem como o seu inesgotável interesse por literatura, filosofia, música e artes plásticas, forneceram ao autor a argamassa com que tramou essa interessante obra literária, na qual se fundem realidade e fantasia. Eu já li e conferi. Valeu a pena.

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(*) Nicodemos Sena é escritor e jornalista santareno residente em Taubaté (SP), autor de “Choro por ti, Belterra!”, entre outros.


Nicodemos Sena

Nicodemos Sena é escritor e jornalista de Santarém, radicado em São Paulo, onde se formou em Jornalismo pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) e em Direito pela USP (Universidade de São Paulo); autor, entre outros, do romance “A Espera do Nunca Mais” (Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos, Rio de Janeiro, 2000). E-mail: nicosena@uol.com.br




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Última modificação em Terça, 09 Janeiro 2018 09:21

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