Lúcio Flávio Pinto

Barcarena era um lugar bucólico. Com praias de água doce, mas com ondas produzidas pelo movimento diário da maré, está a apenas 50 quilômetros em linha reta de Belém. A distância da capital paraense dobra pela tortuosidade de rios, furos e igarapés que era preciso percorrer entre as duas cidades, antes da sua ligação física, feita na década de 1990 – por ironia, esticando ainda mais o percurso.

Em 1985, Barcarena começou a deixar de ser uma típica cidade amazônica de beira de rio. Nesse ano entrou em operação a Albrás, a maior fábrica de alumínio da América do Sul, a 8ª do mundo, a maior consumidora individual de energia do Brasil, com 1,5% da demanda nacional (e uma vez e meia mais do que o consumo dos 1,5 milhão de habitantes de Belém).

Ao lado da Albrás, criada em associação pela então estatal Companhia Vale do Rio Doce e um consórcio de firmas japonesas, se instalou a maior fábrica de alumina (o insumo para a produção do metal) do mundo, a Alunorte, responsável por 7% da oferta internacional do produto.

Duas das maiores empresas de caulim (uma argila cujo uso mais nobre é o revestimento de papeis finos) também se estabeleceram nesse distrito industrial, tornando-o maior local de exportação de um Estado que é o quinto maior exportador do Brasil e o segundo que mais gera divisas líquidas para o país, apesar de ser o 16º em IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), o 19º em PIB e o 21º em PIB per capita. Além disso, Belém é a 10ª cidade mais violenta do planeta.

Por Barcarena transitam funcionários de empresas japonesas, norueguesa, argentina, executivos cosmopolitas, técnicos de ponta de linhas industriais, máquinas e equipamentos, carga que entra e sai, num movimento incessante durante o dia inteiro, através dos seus vários portos.

É cenário para os extremos: fábricas sofisticadas ao lado de comunidades extremamente pobres; concentração de produtos de elevado potencial de agressão ao meio ambiente e ao homem próxima de numerosas drenagens naturais, chuva intensa durante pelo menos metade do ano num terreno plano, a complicar a deposição de rejeitos. Uma autêntica bomba de efeito retardado, sempre sujeita a explodir.

Duas ocorreram nas últimas semanas. Primeiro, o vazamento de lama vermelha, produto da lavagem do minério de bauxita com produtos químicos, principalmente soda cáustica. Milhões de toneladas de rejeitos sólidos estão depositados em bacias de contenção. Os efluentes líquidos são lançados de volta ao rio, mas precisam ser antes tratados. O acidente foi provocado provavelmente por rejeitos contaminados, que levaram suas impurezas à massa líquida de um dos maiores e mais importantes estuários brasileiros.

A outra bomba explodiu na madrugada desta segunda-feira, quando foi assassinado um, líder comunitário,Paulo Sérgio Almeida Nascimento. De forma sutil ou mais direta, sua execução foi associada à multinacional norueguesa Norsk Hydro, dona da fábrica de alumínio, a Alunorte, alvo das críticas de Paulo Sérgio.

No entanto, a empresa seria a última a desejar que o assassinato acontecesse. A associação, automática, é superficial e ilógica. Depois de mentir sobre os fatos, a Hydro admitiu ter dado causa ao acidente e se dispõe a arcar com as consequências. Mas repudiou a condição de mandante do crime de morte.

O fato mais grave é a execução do líder comunitário. A ligação com a fábrica seria através de Policiais Militares que atuam como seguranças particulares da Hydro e que seriam os mesmos que invadiram a sede da associação dirigida por Paulo Sérgio e vinham rondando a casa dele. Se os assassinos foram PMs, quem os teria contratado para realizar o “serviço”?

Barcarena, além de ser um barril de pólvora, é um caldo de cultura infernal, com representações e exemplos de tudo que se pode esperar da sociedade humana. De agressão ao meio ambiente por uma empresa que tinha sua marca associado a um capitalismo de maior qualidade a matadores de aluguel, conflitos de terras, indústrias de indenização, tráfico de drogas, a complexidade da Amazônia, tema de tanta teoria e discussão, possui em Barcarena o seu exemplo mais completo.

Os discursos e as bandeiras precisam ser decodificados e testados para se checar se são o que declaram e devassar máscaras e personagens ocultos. A Amazônia não é mais (se o foi algum dia) como o faroeste hollywoodiano, com mocinho de um lado e bandidos do outro lado, bandeiras nobres contra interesses escusos.

O avanço selvagem sobre a região a está transformando num sertão. No sertão, como advertiu quem entendia do assunto, João Guimarães Rosa, se Deus vier, que venha armado. A ilusão do paraíso tropical acabou.




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Última modificação em Quinta, 15 Março 2018 15:49