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“Desde que o mundo é mundo que as pessoas sabem que existe mais gente besta do que sábio”. A tirada é do mais conhecido dentre os filósofos populares que já viveram na Pérola, como resposta aos amigos que se reuniam sábado, bem cedinho, bem antes da turma da Garapeira Ipiranga, na Praça da Matriz. O assunto do grupo quase sempre era o futebol. Naquela manhã, com claras intenções, fez-se uma enquete para saber quais os clubes com maior representatividade entre os presentes; Flamengo tantos, Vasco nem tantos, Botafogo alguns e Fluminense só uma preferência, a do mestre. Pensaram que podiam colocá-lo num bico, mas que nada! O pó-de-arroz foi que lhes deixou de boca aberta e sem terem o que dizer. Essa história me foi narrada pelo querido amigo J. Parente, para quem o que move os homens é a bola.

Claro que há todo um anedotário em torno da figura desse franciscano, criação, a maioria, da mente privilegiada de um antigo vendedor de motores. Mas nunca me passou pela cabeça aceitar tais insinuações, considerando a sabedoria de quem conquistou com simplicidade e honra o seu lugar na comunidade.

Como atleta do São Francisco, registram os historiadores, foi aplicado como nenhum outro que já defendeu ou defende o pavilhão azul. Como artesão foi respeitado por imprimir a personalidade do dono nos Oxford, Monk e Derby – de pelica ou verniz. Os novos tempos inviabilizaram seu talento para a arte dos calçados.

Um amigo meu, conhecedor da fama do personagem, resolveu entrevistá-lo para um grande jornal. Entrevista é assim, queremos que a pessoa diga algo que achamos que ela deve saber. Não era o caso do pensador. Ele escaneava o mundo para consumo próprio e treinava para responder as provocações ou as imbecilidades dos despreparados. A entrevista não rendeu.

Nunca fomos apresentados formalmente, mas guardo os ensinamentos das poucas vezes que o vi. Lá pelos anos 1965 bordejava pelo bar da dona Dondon, na 2 de Junho, por um interesse particular, que não vem ao caso. Percebi que, geralmente às segundas-feiras, um senhor com alguns fios de cabelo começando a pratear, acompanhado de outro mais jovem, chegava, pedia algo para beber, e os dois ficavam escutando o noticiário da Voz da América. Terminada a transmissão em português, pedia para que alguém da casa colocasse no rádioeletrola um disco dos cantores da época. Ao som das músicas eles comentavam o que há pouco acabaram de ouvir.

Eu me impressionava com as vozes dos locutores da rádio americana, homens e mulheres, mas não compreendia quase nada dos assuntos mencionados. Corrida espacial, questões de Berlim, de Havana, guerra do Vietnam para mim eram grego. Mas os dois dominavam os assuntos. O mais velho era crítico de tudo que ouvia e questionava com rigor as notícias. Eu, saboreando um Imperial, pensava sobre a autoridade que os dois possuíam para poderem refutar a verdade dos fatos transmitida pela Voz da América.

Aos poucos fui percebendo que havia outras opiniões sobre o que era noticiado pela poderosa emissora do governo americano. O mestre dizia que a rádio transmitia o que o governo queria que ouvissem seus países satélites, tanto que a programação não era sintonizada em território americano. Com alguma veemência afirmava que os outros envolvidos nos fatos narrados, nos conflitos, tinham também as suas verdades. Por exemplo, não havia justificativa para o envio de soldados americanos ao Vietnam para uma guerra que não poderiam vencer; que a União Soviética, como parte ganhadora da II Grande Guerra, tinha direito de estar em Berlim; que Cuba era livre para escolher o seu próprio destino; que corrida espacial era dor de cotovelo de americano por que os russos foram os primeiros a enviar um homem ao espaço sideral; e por aí a fora. Com ou sem razão, era outra opinião.

Quatro anos depois a vida deu uma guinada definitiva e eu entrava para o quadro dos locutores da poderosa Rádio Rural. Tive que aprender muito para acompanhar a qualidade dos profissionais da casa, mas uma lição eu já havia recebido: não existe uma única opinião sobre um fato. Ainda hoje a levo comigo. Preciso ouvir mais de uma fonte sobre os acontecimentos, e sei que quem me ouve também terá seu próprio entendimento. Uma sábia orientação de um mestre da bola, mestre artesão, do filósofo popular, o pai de Bosco e Binga – craques reconhecidos nas duas capitais, Edno Serrão Cardoso, o Mestre Balão.

 




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