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Ano que vem a Rádio Rural de Santarém completa 50 anos de transmissão para a Amazônia. Não foi a primeira emissora da cidade, mas desde a sua inauguração no dia 13 de julho de 1964 foi a que participou ativamente das transformações que mudaram radicalmente a infraestrutura e a vida desta importante cidade nascida no encontro de dois rios, o maior com o mais belo do planeta, simplesmente.

Nesse quase meio século, a Educadora é um olhar atento ao cotidiano da cidade: analisa, critica – quando pode - e faz história. No esporte organizou o Campeonato Rural, maior campeonato de futebol do mundo, com a participação de mais de 600 equipes; criou a Feira da Cultura Popular, nascida de seu grande projeto de educação, envolvendo comunidades de Santarém, Alenquer e Monte-Alegre. Foi o mais presente serviço de comunicação entre a cidade e os garimpos do Tapajós durante a corrida do ouro na região. A lista é extensa, por isso haverá muito a contar.

Mas os grandes feitos deste veículo que cumpre, digamos, religiosamente, com a sua função social não são os únicos que merecem registro. Histórias pessoais e privadas também ilustram com louvor a sua importância.

É conhecida e falada a relevância do rádio na vida das sociedades desde a descoberta desta fantástica mídia. O poder do veículo é ilustrado nas escolas de comunicação ou pelos estudiosos do assunto relembrando o pânico que viveu a população americana ao acompanhar uma dramatização feita por uma equipe comandada pelo jovem Orson Welles na Rádio CBS, de Nova York, em 30 de outubro de 1938. Ao adaptar para linguagem radiofônica o texto “A Guerra dos Mundos” de H. G. Wells, o talentoso radialista conseguiu fazer com que o povo americano acreditasse que marcianos estavam invadindo e destruindo os Estados Unidos da América. O caso foi parar na polícia. A Rádio Rural é protagonista de histórias, não tão marcantes quanto à de Welles, mas não menos importantes. Pretendo trazer aos leitores algumas desses casos até a festa do Jubileu de Ouro da Educadora.

A emissora da Fundação Nossa Senhora da Conceição nasce no auge do movimento musical que ficou conhecido como Jovem Guarda, comandado por Roberto Carlos e a participação de um grupo de cantores e cantoras que encantaram a juventude brasileira naqueles anos de grandes transformações no mundo. É importante também lembrar que sua inauguração acontece quando havia um mês e meio do golpe militar de maio de 1964. Assim, sua programação registrou as radicais mudanças pelas quais passava o País nesse período. A ditadura reprimiu violentamente as liberdades democráticas por mais de 20 anos; a música brasileira sofreu transformações radicais e nunca foi mais a mesma - dos boleros de versos sofridos que cantavam as dores do coração de um povo passamos para a alegria descompromissada da Jovem Guarda e nos encantamos com o nascimento de uma Música Popular Brasileira engajada às aspirações libertárias. A Educadora foi uma das raras emissoras de rádio do Brasil a registrar a história desse período.

Mas se na política foi cruel a convivência da ditadura com a luta por democracia, na música houve uma passagem harmoniosa (digamos uma mixagem, para usar a linguagem radifônica) entre o cancioneiro dominante desde a gravação do Dunga e os novos ritmos que começaram se firmar a partir da primeira metade dos anos 1960.

Mas é de um bolero, símbolo de nossa decantada nostalgia, que me leva a este texto. Numa manhã ensolarada e poeirenta de fim do período chuvoso de 1965, o belo pau-de-arara azul chegou bem mais tarde do seu habitual horário madrugador, quando transportava homens e produtos das colônias, de Belterra a Santarém. O jovem desceu da boleia do veículo e acenou para uma rural que servia de táxi, do Salu – que nada tinha de beato. Depois de alguma conversa formaram uma pequena comitiva a qual se juntaram o Jesus, motorista de praça muito respeitado, e mais dois que não me recordo mais seus nomes.

Partiram pela esburacada Mendonça Furtado na direção do morro que ficava no final da rua. Cruzaram o Arrozal e seguiram além do Trem até a estrada da FAO, um areal sem-fim. Vencendo com muita dificuldade os trilhos profundos feitos pelos carros na areia solta, o comboio chegou ao Poço Frio, balneário um tanto suspeito para as famílias, mas frequentado por algumas importantes personalidades.

O local era um paraíso às margens do Lago do Mapiri, com uma vegetação exuberante, bem diferente do ralo cerrado que circundava a estradinha. O já expressivo grupo, formado por homens, chegou e começou a beber cerveja à vontade. Era uma festa com muita promessa.

Naquele frenesi de risos, alegres conversas e abraços, alguém coloca um pequeno rádio no centro da mesa. Era um achado, pois o transistor havia sido inventado há pouco mais de cinco anos, o que fazia do rádio portátil uma grande novidade. O dono do receptor fica tentando encontrar uma posição para melhor sintonia até conseguir uma ótima audição da Rádio Educadora. Naquela hora da manhã estava no ar um programa musical, mix das músicas das nascentes Jovem Guarda e MPB.

Em seguida, começa a “Parada Social”, programa de oferecimentos que retratava fielmente o gosto dos ouvintes da emissora. Primeira música: “Ainda Espero Por Ti”, bolero do cantor Jairo Aguiar, dono de uma bela voz, com texto declamado por Collid Filho, excelente locutor da Rádio Tupi do Rio de Janeiro. O jovem, motivo da festa, ao ouvir a música simplesmente fica estático como que atingido por algo que o impedisse de mover um músculo sequer. Ao iniciar o texto declamado, veio a explosão de um choro incontrolável, e, aos berros, ele começa a pedir que o levem de volta para casa. Alguns de seus amigos ainda tentam argumentar que estava tudo bem, mas não teve jeito. Fim de festa.

Ouça a música aqui no  YouTube




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