Ruth Rendeiro

Durante boa parte da minha infância e adolescência, o dia reservado aos mortos significava uma data de grande expectativa e não porque iríamos ao cemitério reverenciar amigos e parentes que já tinham partido. Até porque nessa idade poucos tinham morrido.

Moradora da “baixa” da Conselheiro Furtado, em Belém, a duas quadras do maior cemitério da cidade - o Santa Izabel, o dia de finados começava na véspera com minha avó e mãe fazendo bolos e comprando refrigerantes (coisa rara naquela época) para os que iriam nos visitar. Muitos conhecidos da família quando regressavam, cansados, suados e sedentos do campo santo, faziam uma parada em nossa casa onde eram recebidos com comedida euforia. A maioria a gente só via nessa data.

Sem temer a violência (de nenhuma espécie), íamos em grupo “passear” pela José Bonifácio. Encontrávamos amigos, colegas de escola e às vezes aquele rapaz ou moça que já lançávamos alguns olhares. Ao contrário da maioria eu gostava de ir para dentro do cemitério. Tinha medo de pisar nas sepulturas, mesmo aquelas mais abandonadas. Entrava por uma ruela e saía pela outra em busca de defuntos famosos. Rezava e me emocionava com a história da Severa Romana ou do Dr. Camilo Salgado. Mas evitava ir para próximo do Cruzeiro onde as velas se abraçavam e viravam uma só labareda.Não queria olhar a vala comum onde os ossos dos indigentes ou daqueles que perderam o direito de permanecer enterrados ficavam expostos à curiosidade pública.

Antes de ir para casa um lanche bem na frente da porta principal. Caldo de cana com pão doce, quebra-queixo ou uma unha de caranguejo com bem pimenta encerravam o dia que era mais de risos do que de lágrimas, mesmo sendo dia de finados.




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