Benedito Carvalho Filho

Neste começo de ano surgiram duas publicações abordando a relação da imprensa com o poder. Primeiro, o livro do jornalismo Bernardo Kucinski, Cartas a Lula (o jornal particular do presidente e sua influência no governo do Brasil), Edição de Janeiro. O outro livro, do jornalista paraense, Lúcio Flávio Pinto, Uma arma letal – a imprensa do Pará, publicado em janeiro deste ano.  

Conheci Bernardo Kucinski primeiramente numa palestra promovida nos anos 70 em Belém do Pará, quando foi convidado pelo Sindicato dos Jornalistas. Posteriormente, o revi no jornal Em Tempo, no bairro de Pinheiros, São Paulo. Era um dos melhores quadros atuando naquele jornal, no meio de uma diversidade de jornalistas e outros intelectuais que lutavam contra a ditadura militar. Tempos difíceis aqueles.

No anexo do seu livro, Bernardo Kucinski publicou num editorial a última Carta Crítica escrita na sexta-feira, 30 de junho de 2006, onde cita o Jornal Pessoal,  editado por Lúcio. Na verdade, o JP continua vivinho da silva, pois já chegou na 578ª edição.

Como analisar essas duas publicações? No que elas se diferenciam?

A leitura do livro de Kucinski, nos mostra como o poder, seja de direita ou de esquerda, é intolerante e resistente a qualquer observação crítica que se faça às suas decisões políticas. Nas páginas do livro, em vários momentos. Kucinski revela as irritações do presidente Lula quando lhe enviava algumas “cartas ácidas”, como dizia.

Percebe-se ao ler o livro do jornalista, que, mesmo quando se tem alguma afinidade com o poder, é difícil desenvolver um jornalismo crítico dentro do poder, porque, por mais liberal que seja o governante, ele tem muita resistência em aceitar pontos de vista diferentes, principalmente quando as críticas são feitas com fundamento por um jornalista competente, como é o caso de Kucinski. Ele trabalhou muitos anos no que se chama de “imprensa alternativa”, que, por ser “alternativa”, significa dizer que é crítica com relação às informações oficiais vindas das diversas esferas do poder.  Afinal, o poder – como já observava Maquiavel, que foi assessor de um rei – não tolera quando se diz coisas que não quer ouvir, mesmo quando a sua sabedoria ensina que, não poucas vezes, o pior amigo é o bajulador, o amigo mais próximo.  

Isso aparece com frequência nas narrativas de Bernardo Kucinski, sempre enfrentando, como ele diz na última Carta, “as borrascas e suas fúrias”.

O livro do jornalista Lúcio Flávio Pinto nos mostra um percurso diverso. Ao ler as 130 páginas do seu livro, percebe-se que sua perspectiva é muito diferente, porque ele vê o jornalismo e a imprensa como guardiãs da sociedade, contra o poder e mais perto do cidadão. Sua tarefa não é atuar como conselheiro do rei, mas manter sob vigilância as ações dos governantes (uma espécie de “ouvidor do povo”, como ele costuma dizer), que, naturalmente, tende ocultar as suas decisões, principalmente nos regimes autoritários, como ocorreu na história recente do país e ocorre agora, como podemos ver. Por isso, prefere atuar como um outsider, que caminha no sentido inverso do jornalismo dominante.  

Isso não deixa de ser uma tarefa penosa e difícil de levar a cabo, pois as borrascas e suas fúrias, apontadas por Bernardo, são grandes demais. É só ler os 44 artigos que compõem o livro do jornalista paraense para perceber os seus embates com a venal imprensa paraense, que, da boca para fora, se diz neutra, mas, na verdade, mantêm relações promíscuas com o poder judiciário e o executivo.

Percebe-se logo, ao ler o livro, que o jornalismo praticado na imprensa paraense há muito tempo deixou de ser jornalismo para se tornar mercadoria de verbas publicitárias, tanto do Estado, como das empresas instaladas na região, misturando o público e o privado. O que logo se percebe no Pará é uma imprensa subserviente, cujo interesse não é informar o cidadão, possibilitar uma visão crítica e abrangente dos fatos, como deveria ser o seu papel numa sociedade moderna em pleno século 21. O que temos é o contrário, como afirma o jornalista, “uma arma letal”, usada, muitas vezes, como meio de pressão quando vê seus interesses privados contrariados.

Essa “arma letal” não tem escrúpulos e chega a usar o poder judiciário como aliado para conseguir seus objetivos, como fica muito claro no livro. É incrível o que se lê nesse sentido. Juízes, advogados, promotores parciais nos julgamentos, as diversas tentativas de calar o jornalista, os julgamentos suspeitos de parcialidade e tantas outras coisas que imaginávamos não existir nos tempos de hoje. Parece até que assistimos os horrores narrados pelo escritor Franz Kafka no “O Processo”, onde se vê, com toda nudez, a estupidez, a degradação e a imundice travestida de “justiça”, como a violência da qual o próprio jornalista foi (e está sendo) vítima porque ousou enfrentar os poderosos da terra, sempre prontos a repetirem as carraspanas dos sobas provinciais em cima de jornalistas incômodos, sejam eles homens ou mulheres, e tantas coisas mais.

Ser jornalista neste país, onde os sobas provinciais exercem seu poder com uma violência inaudita, não é fácil e nem é para qualquer um. No Brasil se mata jornalista como se mata mosquito, porque quando ele exerce com abnegação e competência a sua profissão se torna um ser incômodo para as elites do lugar. Basta uma denúncia, uma matéria bem apurada, mostrando a trama dos poderosos, para logo a vida do jornalista entrar numa zona de perigo, o que pode significar a sua morte e, também (se sobreviver), a impossibilidade de exercer seu ofício, como acontece com o Lúcio, cujo nome está proibido de ser citado no jornal dos Maioranas.

Mas, na outra ponta, enquanto alguns jornalistas resistem heroicamente e fazem seu infatigável trabalho de investigação, tem havido, como mostram algumas análises, uma progressiva descaraterização da categoria.

Como afirma o jornalista Leandro Fortes, no seu livro Jornalismo Investigativo, (Editora Contexto), “a profusão de assessores de imprensa e, atualmente, de dublês de jornalistas-consultores terceirizados a peso de ouro por políticos e grandes empresários, criou um ambiente, de fato, exageradamente profissionalizado de condução da pauta, apuração e, em alguns casos, de edição do material jornalístico.” É só observar o que está acontecendo no país nesse momento.

Lúcio Flavio Pinto na página 29 de seu livro mostra o outro lado do problema, quando revela, por exemplo, o encalhe dos jornais num domingo em Belém. “Hoje se lê muito menos jornal do que muitos anos atrás”. Cita o caso do New York Times e a sua reduzida tiragem e afirma que “a imprensa escrita terá que se acostumar a um público mais restrito mais seleto e mais exigente. Para mantê-lo – diz ele – “terá que oferecer algo que ele não encontrará em veículos mais apressados e superficiais: a explicação sem sentido dos fatos”. Produtos que só profissionais mais qualificados podem criar.” Será?

Quando leio o texto do jornalista Leandro Fortes, que cita Noam Chomsky, percebo que a formação de jornalistas “mais qualificados” nos tempos de hoje não é tão simples assim. Esse analista, por exemplo, fez um levantamento sobre a relação da mídia americana e o poder nos Estados Unidos e chegou a um número aterrador. “Os dados, publicados no livro A manipulação do público revelaram a existência de mais de 20 mil agentes de relações públicas e assessores de imprensa trabalhando em território americano com o único objetivo de distorcer notícias ainda no nascedouro para beneficiar seus patrões e financiadores”.

Afirma em seguida:

“Desconheço pesquisa semelhante que tenha sido feita no Brasil, mas basta trabalhar seis meses em uma redação brasileira – qualquer uma – para perceber que esse modus operandi é universal. Há sempre um assessor de imprensa tentando interferir nas reportagens investigativas, sobretudo as de conteúdo bombástico, de modo a proteger seus chefes ou simplesmente, manipular as informações de maneira a deixa-las mais brandas. Isso vale para políticos e magistrados e representantes de grandes corporações”.

Se essa pesquisa fosse feita no Pará, não encontraríamos todo esse pelotão de agentes, como nos Estados Unidos, mas veríamos como é forte essa manipulação do público pelas duas maiores empresas jornalística no Pará.  Distorcer notícias, beneficiar patrões e financiadores “é o que se vê por aqui”, parafraseando o bordão da onipotente TV Globo, que possuí os seus tentáculos em todos os estados brasileiros, como no Pará, onde o grupo Maiorana é sua retransmissora.  

Na apresentação do livro, o historiador paraense Vicente Salles, nega que Lúcio Flavio Pinto seja crítico destrutivo, como muitos afirmam. Na província, quem ousa fazer qualquer crítica logo é visto como destrutivo. “Construtivo”, para muitos, são os que querem negar a realidade, os bajuladores, que arrotam um “iluminismo retardado – e anticultural – típico de quem raciocina por espasmos e impulsos volitivos de caprichos e veleidades”, observa o jornalista.

Lúcio Flávio Pinto, como afirma Vicente Salles, “vai deixar um material para a história futura do Pará, e os futuros vão saber avaliar melhor do que eu. Ele está construindo uma obra, não só seu cotidiano de jornalista, como também de analista, com livros publicados. Ele é mais conhecido pelo Jornal Pessoal, mas há outra literatura dele, mesmo reunindo material do Jornal Pessoal, altamente interpretativa dos problemas que estamos enfrentando, principalmente os econômicos, dos grandes projetos”.

Talvez, o jornalista e sociólogo Lúcio Flávio Pinto esteja mais perto do que o velho Marx chamou de “destruição criativa”, lutando com seus próprios recursos e talentos contra uma elite atrasada e pouco interessada com o futuro de sua região e do país.

Raymundo Faoro, com aquele seu jeito irônico, ao se referir a essa elite, se perguntava:

Quem é a elite? “Então é um homem marginal que representa uma elite marginal? (...) é um universitário que não se realiza com a universidade; um empresário que acaba sendo não mais que um subconcessionário. É um homem que dança em Canapi e sonha jantar na Casa Branca. Então, ele está diante de dois espelhos que transmitem duas imagens que não são a imagem dele. Ou é a imagem depressiva do homem que se frustrou, caracterizando a “Casa Branca””. (Ver Raymundo Faoro, in Democracia Traída, Editora Globo, p. 181)

É compreensível que Lúcio seja visto como destrutivo, frente a uma sociedade marcada pela herança portuguesa patrimonialista, que reforçou os mecanismos de dominação e repressão, criando um Estado centralizado e privatizado. É esse Estado que vai estabelecer a dominação de classe, tendo como base a escravidão, presente no Brasil por mais de três séculos.

O que foi a Cabanagem senão uma revolta contra essa dominação em pleno período Regencial?

É uma sociedade em que a ideia de cidadania e participação sempre esteve ausente, prevalecendo, na maioria das vezes, o interesse particular, em que a classe dominante reproduziu o seu poder através das eternas alianças familiares, formando redes não apenas compostas por parentes de sangue, mas padrinhos e afilhados, protegidos e amigos, não existindo padrões de conduta baseados na impessoalidade  e respeito à lei, mas em critérios de lealdade.

“Destrutivo” é quem tenta quebrar esse pacto de dominação. O jornalismo do Lúcio deve ser visto pela elite como “destrutivo” porque revela o que a elite tupiniquim não quer e não pode ver: a sua brutalidade, a soberba e a incapacidade de compreender os efeitos de sua dominação. Por isso se cala, agride, cerceia a liberdade e faz guerra com quem pensa diferente.

Os jornais, afirma o jornalista no artigo da página 20 – A verdade, um produto em falta no Liberal –, “não têm o menor pudor de violentar a integridade dos fatos conforme sua vontade e conveniência. Privam a opinião pública de saber o que realmente acontece. Fornece-lhe a mais nefanda das informações: a informação truncada, manipulada, a meia verdade, que distorce mais do que a mentira assumida, aberta e escancarada”.

Isso é uma violência, na maioria das vezes não percebida por diversas camadas da população local. Muito porque não leem jornais e estão mais preocupadas com sua sobrevivência física, pois vivem da “mão para a boca”, como se diz. Outros, mais aquinhoados, ignoram e preferem acreditar ufanisticamente que o jornal O Liberal é “o maior do norte e nordeste”, como martelam seus donos nos seus sonhos bovarianos, sem olharem mais de perto a sua própria realidade. Enquanto isso o “povão” goza com as “exibições escancaradas das matérias policiais”, que, como afirma o jornalista, “vulgarizam e banalizam a violência, anestesiando a consciência e amolecendo as vontades”.

É o que a filósofa alemã, Hannah Arendt chamou a “banalização do mal”, a insensibilidade que permeia a sociedade em que vivemos, onde os psicopatas e abutres comandam os circos dos horrores, manipulados pela sociedade do espetáculo, como dizia Guy Debord. Anormal e destrutivo é quem denuncia essa tragédia, onde, queiramos ou não, todos nós estamos envolvidos na mesma trama.

 




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