Nicodemos Sena

Deixamos para trás a Vila Bode com a sensação rara de que eu e papai havíamos encontrado essa “coisa central” que, no fundo, todo ser humano procura, ou seja, coisa nenhuma.

Lembrando do verso de Pessoa – “Não estou pensando em nada, e que bom!” – deixei-me levar. “Isto é vida?”, indaguei-me, olhando para a casinha que surgiu num dos lados da estrada. Bem alicerçada e com paredes de madeira sobre base de tijolos, coberta com telhas de amianto, a casinha parecia ter sido construída com esmero. As chuvas de maio fizeram crescer uma camada de relva verdejante em torno da casinha, onde havia até uma antena parabólica. As janelas estavam abertas, mas nenhum rosto humano ou coisa parecida despontou nas janelas.

De repente, para meu pesar, voltei a pensar: “O fim é ao menos o já não haver que esperar”. Então deixei o carro parar e senti um sono repentino descer sobre mim, um sono mental, o sono da soma de todas as desilusões. Ou o sono da síntese de todas as desesperanças; o sono de haver mundo comigo lá dentro, sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

Coloquei o carro em movimento e, discretamente, olhei para papai, que, durante o meu silêncio, viajara por regiões muito distantes. Como quem retorna para casa, estendeu-me um olhar prenhe de significados. Senti que, naquele momento, papai era um homem comovido. Não porque tivesse uma semelhança com ideias ou doutrinas, pois é homem simples e sem a ciência dos que tiveram a oportunidade de instruir-se, mas carrega no peito algo que é naturalmente seu, e que ninguém poderá lhe retirar: a vasta fraternidade com a humanidade verdadeira.

 Casinha solitaria de BelterraCasinha solitaria de Belterra

A esmerada casinha também ficou para trás e, logo adiante, tive que parar numa encruzilhada para decidir qual rumo tomar. Mato ralo por todos os lados, sem placas de identificação, não sabíamos para onde ir. Acabamos por virar à esquerda.

Diferentemente das estradas anteriores, esta se mostrava não apenas deserta e silenciosa, mas também desabitada e hostil. Mais estreita do que as outras, uma capoeira mais alta crescia de um lado e de outro da estrada e, ao olharmos para diante, tinha-se a impressão de que a estradinha, em algum ponto indefinido, se fechava sobre si mesma, levando-me a pensar em retornar, mas, quando já me dispunha a isso, enxerguei um homem e uma mulher que vinham em sentido contrário.

Embora precisássemos de informações sobre as estradas, receei cruzar com o casal, mas não havia mais tempo para evitar o encontro e decidi passar pelos estranhos como se não os tivesse notado, com o vidro da porta levantado, mas esse pensamento, que me fez lembrar do que os amedrontados motoristas fazem nos perigosos cruzamentos de São Paulo, causou-me mal-estar. Eu, que jamais me poupara de cumprimentar a uma pessoa, estava prestes a desconhecer a presença do casal! Acabei freando o carro e baixando o vidro da porta ao aproximar-me do casal, o qual, por um instante, pareceu hesitar – provavelmente, com medo de nós. Por fim, também pararam de andar e aproximaram-se da porta do carro. Sem que lhes perguntasse nada, informaram:

– É arriscado seguir por essa estrada; está cheia de poças de lama.

O estranho foi que disseram isso, mas, olhando de soslaio para os seus pés, não vi qualquer vestígio de lama!

– E vocês, de onde vêm? – perguntei, recuperando um pouquinho da presença de espírito.

– Viemos dali – disse o homem, apontando para a capoeira de uma das margens.

– Mas aí só há mato! – exclamei, imediatamente arrependido de ter pronunciado essa frase, pois o meu sexto sentido dizia-me que estávamos numa situação delicada e que eu não deveria aborrecer os dois estranhos caminhantes.

– Não importa de onde viemos; conhecemos todos os caminhos – retorquiu o homem. E, para o meu espanto, completou: – Sei que vocês procuram a Estrada Um, não é mesmo? Pois nós levamos vocês até lá.

O homem disse isso e imediatamente esticou o braço como que para abrir a porta do carro, levando-me, num gesto reflexo, a pisar abruptamente no acelerador e arrancar-me daquele lugar.

Um instante depois, quando olhei pelo retrovisor, ainda avistei o casal como que correndo pela estrada, mas, quando voltei a olhar, não mais o enxerguei, embora a estrada fosse reta e longa. Teriam entrado nos matos da margem ou... – fiquei a matutar, enquanto seguia pela estradinha fina e asfixiante, com sua mataria lateral cada vez mais densa.

– Esse mato não existia na época dos americanos – disse papai, fingindo que nada havia acontecido. E explicou que em todas as quadras só havia seringueiras. – As seringueiras, certamente, aqui foram derrubadas – finalizou, e fechou-se em silêncio.

Rolamos pela estrada mais uns cinco minutos, e nada das anunciadas poças de lama; a estrada estava até bem enxutinha, apenas parecia ir se afinando cada vez mais, o que me provocava uma sensação de aperto no coração, na alma. Não era propriamente medo que eu sentia, mas algo como uma difusa desesperança ou mesmo uma convicção de que, qualquer que fosse o rumo que tomássemos, continuaríamos sem destino, perdidos, no meio do nada.

E a sensação de aperto se aprofundava à medida que avançávamos por aquela estrada. A capoeira havia ficado mais alta e sombria. Entrei como que numa vertigem de olhos abertos; sentia-me acordado, mas havia penetrado numa região de sonhos, ou pior, de pesadelos, pois comecei a ouvir vozes, uivos, lamentos, gemidos, e as árvores retorcidas da margem começaram a mover-se e alongar-se sobre o leito da estrada e entrelaçavam-se no alto, formando uma espécie de caramanchão que, em seguida, ia baixando sobre o teto do carro.

Olhei para papai e enxerguei em seu rosto e no seu olhar a mesma expressão de espanto e pavor. A cena asfixiante o remetia, naquele momento, a um dia já remoto de sua infância, no Lago Grande, quando ele, com apenas 6 anos de idade, teve que enfrentar a noite densa e o capinzal fechado, onde moravam sucurijus gigantes, a fim de escapar do Antônio, o malvado filho do fazendeiro Teodoro. “Volta, moleque, senão te mato!” – gritava Antônio, o grito se misturando com os uivos e gemidos que vinham da capoeira lateral à estrada.

Para completar esse quadro, começaram a surgir, nas duas margens da estrada, fincadas de dez em dez metros, como pequenas cruzes, estacas em cujas pontas se viam pequenas placas, e em cada uma podia-se ler a abreviatura de nomes: “J. Castro”, “B. Souza”, “N. Costa” e assim por diante.

Por um longo trecho vimos essas placas, e uma sensação de cemitério tomou conta de mim. Imaginei que as almas das pessoas representadas pelas abreviaturas estavam encravadas naquelas minúsculas áreas, de onde jamais poderiam sair.

 

(Continua no próximo capítulo)


Nicodemos Sena

Nicodemos Sena é escritor e jornalista de Santarém, radicado em São Paulo, onde se formou em Jornalismo pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) e em Direito pela USP (Universidade de São Paulo); autor, entre outros, do romance “A Espera do Nunca Mais” (Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos, Rio de Janeiro, 2000). E-mail: nicosena@uol.com.br




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