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Alguns sentimentos não morrem. Difícil nominá-los amor ou paixão, mas certo é que eles sempre nos transportam para o inexplicável mundo das lembranças e saudades.

Diz que quem vive relembrando coisas do passado não está de bem com o presente. Não é o caso!

 

Eu a conheci na efervescência da puberdade. Tentava me enturmar com o pessoal do Magarefe, a meninada que ganhava algum troco no curro carregando miúdos do gado, lavando o chão do courear, fazendo pequenos mandados e batendo um couro no campo que ali perto havia; tínhamos, todos, um olhar especial para a sua formosura. Aquela turma deve andar por aí, hoje, feita gente importante, marchante, e quem sabe, também, banzeada.

Desses amigos de correr bem satisfeito, da camisa aberto o peito contra o vento tapajônico, um deles fez-se ídolo, encantou a torcida apaixonada do clube de Elpídio Moura. Pedrinho era menino franzino, tímido e amigo. Cresceu muito rápido. Quando o percebi, no Elinaldo Babosa, estava nas bocas dos ensandecidos alvinegros como imbatível guarda-bolas. Foi colírio para os olheiros de Belém, onde brilhou na águia dos cruzmaltinos. Futebol a poucos dá vida longa, e o craque da pelota foi ser na vida professor de educação física, com todas as honras que o diploma lhe confere. Mantemos uma admiração mútua, retraída, porém verdadeira.

Quando saíamos para cortejá-la, sempre buscava a companhia do Pedro. O restante da molecada parece que não me aceitava bem no grupo. Não sei se o motivo era o floresta, o cão que caminhava comigo. Era um belo animal, dócil, mas cujo porte intimidava até os mais valentes.

Entre os olhares para a luminosa, que no verão sempre se mostrava desnuda, havia uma atenção ao racha na areia, cuja graça maior era a participação do elegante Acari, belo zagueiro do São Francisco. A meninada que não podia pagar os ingressos no Aderbal Corrêa ficava embevecida com a exibição do futebol refinado do craque azulino. Naquele momento a cidade perdia a tradição de ser dividida em dois bairros e duas torcidas. Nunca fui agraciado com um convite para a pelada, mas o Pedrinho invariavelmente era chamado para a baliza. O destino estava batendo à porta.

Aquele verão de 1966 foi inesquecível. Meu pedaço era a Prainha, e ir além da 2 de Junho era uma aventura, que descobri ser simplesmente fantástica. Em nada era menos que São Marcos, Prainha da Prefeitura, Trapiche, Matriz; havia até mais prazer no encontro com as pessoas. Hoje, quando me falta aconchego, vou além e me aboleto na Frei Ambrósio, também a mesma travessa do meu amigo Pedro.

Mas já não possui a mesma magia, está tudo mudado. Carregaram com o matadouro, construíram um mercado e uma feira no campinho de futebol, da Vila Braga não existem nem lembranças. É o inexorável avançar do tempo e o inevitável carimbaço do progresso.

O que dói, porém, é olhar para o que restou daquela paixão de adolescente, que perdurou pela tenra juventude quando as lágrimas começaram a se derramar ao ver em que ela se transformava à medida que os homens a usavam sem escrúpulos.

Eu que ficava até o anoitecer admirando a sua formosura, e em algumas noites deitei-me sentido todo o calor que seu corpo irradiava, não sentia ciúmes quando a cidade descia para usufruir do indescritível prazer que ela oferecia; agora sinto um grave aperto no coração ao vê-la desgastada e cheia de sulcos - o retrato da sujeira que alguns homens lhe fizeram.

O que posso fazer? Guardar na memória a felicidade dos momentos em que convivemos naqueles tão brilhantes dias e solfejar a sua imortalidade posta na Canção de Minha Saudade, do Maestro Isoca: “...Nunca vi praia tão boa / Como aquela da “Coroa”/ Bem juntinho do Salé...”




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