Lúcio Flávio Pinto

O Estado de S. Paulo foi, dos grandes jornais brasileiros, o que mais combateu a ditadura militar, que o próprio jornal ajudou a colocar no poder, derrubando – por um golpe de força – João Goulart, o presidente constitucional do país.

A edição do Ato Institucional número 5, em 13 de dezembro de 1968, provocou o rompimento definitivo do jornal com seus aliados. Júlio de Mesquita Filho escreveu o famoso editorial (“Instituições em frangalhos”), que atacou frontalmente a ditadura consolidada e não foi por ela tolerado. Os exemplares do jornal que melhor representava a plutocracia paulista foram apreendidos nas vastas oficinas na sede da empresa.

Com todos os seus defeitos, o Estadão teve comportamento sem similar entre seus pares na resistência à tirania e pagou o preço que lhe foi imposto, através de censura prévia instalada na redação pelos inquisidores estatais. Esse exemplar comportamento editorial não se estendeu à administração da empresa.

Dela tomaram conta os chamados “engenheiros”, cujo título simbolizaria sua eficiência, pragmatismo e racionalidade, em oposição ao irrealismo e incompetência da redação, incapaz de ir além do seu métier para tornar o jornal, mais do que uma aventura intelectual, um negócio rentável. Os “engenheiros” iam acertar tudo, inclusive marginalizando os jornalistas.

Os donos do jornal, os Mesquitas, não se deram conta que imitavam a tecnoburocracia estatal que tanto criticavam, reivindicando a liberdade política para azeitar a liberdade econômica, deus ex-machina dos editoriais da seção especializada, sempre de mãos dadas com a tecnocracia e os empresários.

O resultado: os “engenheiros” afundaram o jornal e quase o levaram à completa derrocada na sua busca pela inovação a qualquer preço e a suntuosidade, exatamente como o governo fazia e errava, recebendo as devidas admoestações do jornal. Depois da reforma desses tecnocratas, o Estadão nunca mais voltou a ser o mesmo, produto único no mercado. Hoje é uma caricatura do jornal corajoso e decidido da ditadura.

Essas lembranças me vieram enquanto acompanhava o pronunciamento do ex-presidente Lula na convenção nacional do PT, a quinta da sua história, em Salvador. Lula novamente acusou a imprensa de tentar destruir o partido. Disse que a grande mídia ataca o PT e o governo, mas não se dá conta do que faz. Garantiu que as empresas de comunicação são as que mais demitem no Brasil.

"Só este ano tiveram 50 demissões de jornalistas na Folha de S. Paulo, 120 demissões no 'Globo' [trecho inaudível]. A revista mais sórdida deste país teve que entregar metade de seu prédio e fechar 20 títulos de suas revistas", afirmou ele, referindo-se a Veja e à Editora Abril, segundo o registro da própria Folha.

"Esses veículos falam tanto do nosso governo, não são capazes de administrar a própria crise sem jogar o peso nas costas dos trabalhadores. E acham que podem ensinar como se governa um país com mais de 200 milhões de habitantes".

Lula tem toda razão quando fala da grande imprensa. Nenhuma ao tratar como se fosse o oposto a atuação do PT e do seu governo. Tem razão quando ataca. Não tem quando se defende. Ainda bem que continuamos numa democracia para observar essa contradição e tentar superá-la. Inclusive através da imprensa, livre, ainda que com todos os seus erros, defeitos e vícios.




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