Paulo Roberto Ferreira

Junho está caminhando para o final e o calor chegando mais forte para nós que moramos embaixo da linha do equador. Enquanto isso, no sul do Brasil, as pessoas se agasalham e fogem das ruas por causa do inverno que se aproxima. Erradamente chamamos essa época de verão, verão amazônico. O céu fica mais límpido e belo. E a ausência das chuvas nos empurra para as praias e igarapés. 

As ruas de Belém ficam menos agitadas em julho e nos finais de semana a cidade fica praticamente deserta, se compararmos com os demais meses do ano. Os shows musicais são deslocados para as praias de água doce e de oceano. As pessoas vão para as casas de parentes, amigos ou se alojam nos hotéis, pousadas e pensões. 

Em Marabá, montam-se barracas de acampamento no banco de areia que se forma no meio do leito do rio Tocantins. Em Conceição do Araguaia, cidade centenária, atrai os turistas do Estado do Tocantins para as margens do rio Araguaia, onde fica a praia da Gaivota. A ilha de Mosqueiro  é o grande point de boa parte da população de Belém.

E porque faço este mini roteiro turístico? Porque o Brasil é tratado pela grande mídia como se fosse um território homogêneo. Exemplo disso é que começam as entrar em nossas casas os comerciais nacionais de lojas de roupa para o inverno. E os programas jornalísticos pautam os ambientes quentes e as iguarias, como as sopas, para que a população, que vive abaixo de São Paulo, se aquecer do frio. Campos do Jordão (SP) e Petrópolis (RJ) entram na pauta com seus festivais de inverno. 

A moça do tempo começa seus boletins meteorológicos com imagens de São Joaquim ou outro município das serras catarinense ou gaúchas. Pessoas vestidas com gorros e agasalhos são entrevistadas pelas redes de TV para opinar a respeito da estação fria. E nem uma linha do clima do Norte, que nos arrasta para as ruas, praias, vestidos com roupas leves, como camisetas, shorts e bermudas. 

Às vezes assistimos situações paradoxais. Comerciais de TV mostram as tendências da moda no inverno do sul e do sudeste, enquanto que colados nos anúncios nacionais, entram as promoções das lojas e magazines regionais para peças leves para o vestuário do verão amazônico. Ou anúncios de aquecedores e edredons, seguidos de comerciais para venda de geladeiras e sorvetes. 

Somos invisíveis para boa parte da mídia hegemônica. E isso alimenta a visão que muita gente ainda tem que o país é todo igual. Milton Nascimento e Fernando Brant já denunciavam isso na canção “Notícias do Brasil”, especialmente no verso que diz: “A novidade é que o Brasil não é só litoral/  É muito mais, é muito mais que qualquer zona sul

E o genial Chico Buarque, que completou 70 anos, neste 20 de junho, trata do inverno do sul e do calor de Manaus na canção “Bye, Bye, Brasil”, que virou trilha do filme homônimo, dirigido por Cacá Diegues, nos anos 1970: “Eu vou dar um pulo em Manaus/Aqui tá quarenta e dois graus”.

Como na Europa, que celebra o verão nas festas juninas, nós aqui de cima do mapa do Brasil, também festejamos o fim das chuvas e a chegada da temporada de maior estiagem. De céu de brigadeiro e dos planos para as férias, que deveriam ser mais longas. Porém, também aqui na região, nem tudo é igual. 

Em Roraima as chuvas começaram em maio e só vão estiar em outubro. Mais um motivo pra gente refletir que mesmo dentro da Amazônia existem diferenças em relação ao período da chuva. E que nem tudo que vale para Belém, vale para Boa Vista. Viva o Brasil diverso, onde o frio e o calor existem no mesmo período do ano, assim como a chuva e a estiagem na Amazônia.  




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Última modificação em Domingo, 21 Junho 2015 18:20

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