Rosélio da Costa Silva

A pressa paulistana deve ser a precursora da banda larga 4G.   Ainda assim, o paulistano continua mais rápido. Aqui todo mundo corre. E o drama da mobilidade urbana só põe mais velocidade nas pessoas:

- corro porque tenho 4 conexões e se perder 15 minutos em cada uma meu atraso será de 1 hora! Disse um apressado, certa vez.

Nas escadas rolantes, justamente colocadas para “rolar” as pessoas para cima ou para baixo, com conforto, a faixa da esquerda é reservada aos apressados que transitam saltando os degraus de dois em dois... Há lugares com indicação que se deve “deixar a faixa da esquerda livre”. É o amparo à pressa.

Não bastasse os motoqueiros que tomaram domínio da faixa da esquerda das avenidas, quero dizer, não é bem da faixa de rolamento mas o traço que separa a última faixa, agora, acabou o sossego na pista da esquerda em todos os lugares: há sempre um apressadinho correndo como se quisesse tirar o pai da forca e muitas vezes acaba levando junto um “retrovisor” qualquer!

É uma loucura. E nisso vai-se o que resta de urbanidade, civilidade, cordialidade, delicadeza, se é que de fato essas coisas existiram um dia no mundo dos apressados.

Talvez a única coisa que funciona sem pressa e agonia, em São Paulo, é a fila. Acho que o País inteiro já se submeteu ao cabresto da fila com senha. Se o Brasil ainda está na idade da pedra, em alguns quesitos, a fila é digital faz tempo! É outra instituição pétrea. Não há perguntas, discussões. O ponto para retirada da senha está devidamente marcado e a senha propriamente dita não oferece espaço para perguntas, manobras, trapaças.

A fila na Itália, nos ambientes que ainda não tem senha, painel eletrônico e tudo mais, é organizada no grito em pleno século XXI:

- chi é l’último?

- sono io!

E aí você já sabe que depois daquele cara de camisa amarela ou depois daquela senhora de cabelo vermelho é você.

Em países com mais ordem, mais organização, como a Alemanha, as filas são muito pequenas e não há privilégios.   Tudo seguindo o catecismo da eficiência...

Os celulares vieram para expressar, digitalmente, a pressa. Andam por todos os lados, ocupadíssimos. O paulistano precisa mandar mensagens urgentes. Precisa postar fotos, paisagens, tirar um sarro do amigo cujo time perdeu na última rodada, ou simplesmente postar uma sacanagem qualquer. Há uma necessidade urgente para falar com as pessoas o tempo todo, postar, aguardar o curtir com desesperada urgência. Temos que estar sempre digitando, seja um joguinho, comentário ou simplesmente folheando as fotos...

Essa pressa toda é dedicada à esperança de encontrar o que tanto se procura e, no desespero da urgência, acabamos chegando à conclusão da carioquíssima máxima que o “problema da pressa é a afobação”. E nessa afobação toda perdemos o trilho, a trilha, objetivos, como a reafirmar a solidão coletiva...


Rosélio da Costa Silva

Jornalista e Técnico em Comércio Internacional radicado em São Paulo, autor de Mosaicos do Andarilho. 




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