Rosélio da Costa Silva

Aqui e ali, um túnel de tipuanas em alamedas, ruas e avenidas. Plantadas nas décadas de 20 e 60 do século passado, hoje são senhoras respeitáveis, troncos e galhos cobertos de uma espécie de samambaia baixa, tipo grama, epifitismo que confere beleza adicional à espécie. Originárias da Argentina e Bolívia, parecem nativas na paisagem paulistana.

Tinha uma tipuana por aqui na vizinhança, desgarrada do bando, sufocada pelo cimento da calçada, vergada sobre a rua. A copa abundante acariciava a maçaroca de fios.

Essa velha senhora caiu na quarta passada e foi eletrocutada pela fiação que, em curto, denotou explosões sequenciais de transformadores na tarde escura que parecia noite. Ela andava adoentada, uma espécie de cupim na base do tronco. Causa mortis : temporal. Causa mediata: a precariedade do serviço de prevenção e eliminação de pragas, como fracasso fatal do SUS das árvores.

Não foi só a velha senhora que partiu desta para a condição de lenha. Foram mais de 30 no bairro e cerca de 70 por todos os cantos da cidade. Qualquer temporal que se preze põe no chão dezenas de árvores, a maioria anciãs e enfermas.

A primeira consequência da queda de árvores é suspensão de fornecimento de energia e os transtornos corriqueiros: elevador, interfone, telefones (agora muitos são elétricos), internet, computador, televisão, celulares (onde recarregá-los?),geladeira, relógios digitais piscando, semáforos embandeirados, carros amassados, casas comprometidas... um corre-corre.

Depois, o custo. Uma equipe de cinco pessoas da companhia de energia elétrica chegou no meio da tarde, trabalhou até as 5 da manhã, para tentar reconstituir o sistema elétrico.

Pela manhã, chegou a vez dos bombeiros para cortar a árvore com todo o cuidado para não danar o que restou da fiação. Um terno deu duro por mais de 4 horas para despedaçar a árvore frondosa. Em seguida, veio a prefeitura para a remoção de galhos e folhagens que impediam a circulação de veículos e até mesmo para desobstrução de garagens. Mais 3 horas. Por último, uma equipe de cinco homens e motosserras para por no caminhão os troncos pesados.

Será que você, leitor, sabe por que enfrentamos contratempos dessa natureza?

Porque Isso não é acidental, como parece; é fruto de negligência. É evento preparado com data em aberto para ocorrer, à espera da ocasião. Tem algumas catástrofes com dia e hora para ocorrer, tal a previsibilidade gerada pela falta de manutenção preventiva. O lamentável acidente de Mariana que o diga. Os governos, em geral, administram por espasmos, sustos. Ocorreu ? Corre lá, depressa! E na emergência, urgência, sabe como é que é, tudo sai sempre mais caro!

As tragédias são contadas em capítulos, diariamente, porque há ausência continuada de comprometimento com a coisa pública e o bem comum. É por isso que há doentes espalhados no chão da Saúde, mortes que poderiam ser evitadas, guerra nas trincheiras do trânsito ou simplesmente pessoas acorrentadas à penitência de buscar direitos enroscados na burocracia, arte de driblar para emperrar, dificultar, com claro objetivo de alimentar a indústria do jeitinho, da corrupção.

Se não cuidamos das pessoas, como cuidar de árvores? A velha tipuana foi apenas mais um evento dessa dízima periódica perversa...

 


Rosélio da Costa Silva

Jornalista e Técnico em Comércio Internacional radicado em São Paulo, autor de Mosaicos do Andarilho. 




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