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Energia é progresso, dizem os entendidos. É verdade! Pensar o dia-a-dia nesta vida pós-moderna sem eletricidade é praticamente impossível. Até para nós, os comuns, toda a parafernália de equipamentos que nos consomem a paciência precisa de corrente. Quem consegue tocar a vida sem celular, PC, notebook, tablets, geladeira, micro-ondas, torradeira, parabólica, TV, rádio, microssystem, e outros tantos de uma lista interminável; há até quem use escova de dentes elétrica. É isso! Somos o homo AC/DC.

 

Santarém, infelizmente, por muito tempo sofreu com a carência deste motor do desenvolvimento. A falta de energia, de tão grave, acabou entrando para o debate político-partidário como parte da trinca redentora da Pérola do Tapajós. Os outros dois pontos eram e são: o asfaltamento da Santarém-Cuiabá e a criação do Estado do Tapajós. Dessas necessidades, a energia foi a que mais recebeu atenção. Houve o plebiscito para a criação do novo Estado, mas não conseguimos a vitória; a BR-163 rasgou o coração da floresta, mas não recebeu pavimento consistente até agora.

Mas não é esta a pauta destas linhas. Gosto mesmo é reviver o quanto as luzes da cidade me encantaram desde o início. Aliás, dentre as poucas cidades que conheço nenhuma brilha tanto quanto a terra do Maestro Isoca. Santarém é cidade ensolarada por natureza praticamente os 12 meses do ano. Nas noites de luar ela simplesmente resplandece à luz de uma lua que parece ser mais intensa sobre esta terra abençoada por Deus.

Sou do tempo da Usina Municipal, movida a vapor, que funcionava onde hoje existe o mercado construído por Everaldo Martins em substituição ao que funcionava na João Pessoa. Os que viveram aquele tempo sabem que a iluminação pública era uma brasinha, um pouco mais do que um vagalume, mas sem a beleza poética dos pirilampos.

Recordo-me muito bem das mudanças feitas no setor elétrico da Pérola nesses quase 50 anos. Cheguei a desenhar parte do croqui da localização dos novos postes de iluminação que seriam fincados nas centenas de quarteirões da cidade, medidos e remedidos que foram pelos topógrafos antes do funcionamento dos geradores da Rua do Imperador. Dava gosto ver os novos postes, os modernos cabos de cobre e alumínio e o estilo das novas luminárias. Quando o novo sistema foi ligado, as ruas ficaram tão claras que chegaram a se transformar num problema para minha timidez. Assim terminaria a década de 1960. A hidrelétrica do Palhão, que já estava em construção, seria inaugurada sete anos depois. O sonho de Silvio Braga havia se realizado.

A população aumentou, o lago do Palhão secou e Santarém voltou aos tempos da brenha. Sempre que voltava à cidade eu acompanhava os lamentos de todos sobre a falta de energia. A população chegou bem próximo de uma desobediência civil diante da calamidade. O governo da capital então respondeu, em meados dos anos 1990, com um linhão vindo direto da hidrelétrica de Tucuruí.

Posso dizer que vivi esse processo todo porque as luzes sempre me atraíram; provavelmente um secreto desejo de estar no centro da ribalta. Mas nenhuma iluminação me deixou tão fascinado como a que vi pela primeira vez naquele natal de 1958. A luz não irradiava de uma lâmpada qualquer. Parecia que alguém havia aprisionado-a em frágeis tubos, através dos quais os raios pareciam ir e vir, intermitentes. Os tubos coloridos, ora em vermelho, ora em azul, cobriam um letreiro – quase como o que eu fazia no caderno de caligrafia -, formando os dizeres “Posto Progresso”, nome do estabelecimento de Antunes & Façanha, responsável pelo abastecimento da cidade de querosene, gasolina, diesel, lubrificantes e peças de veículos. Hoje não a vejo mais em lugar algum, substituída que foi pelo LED e outras formas, mas gosto desta gostosa lembrança da magia das luzes de neon do “Progresso”. 

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Santino Soares é radialista, natural de Juruti e ex-comunicador da Rádio Rural de Santarém.

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