Rosélio da Costa Silva

A brincadeira preferida da garotada era soltar barquinhos de papel na água que descia pelas sarjetas depois da chuvarada rápida.

Era uma espécie de arca de Noé. Sem nome, claro. Ali a turma acomodava mentalmente toda a tripulação, plantas e animais para poupa-los da punição das águas.

Aquele barco frágil era construído com vontade forte para vencer turbulências. Não tinha porto de destino definido. Não havia objetivo concreto. Levava sonhos de criança a mares desconhecidos e provocava reflexão sobre a imensidão de coisas que não cabem na cabeça de crianças mas que perambulam nos sonhos de todas as crianças que habitam em cada homem.

Tempo depois, surgem outros tipos de barcos. Eram de papel também. Agora tinham nomes, páginas numeradas e seus compartimentos chamavam-se capítulos e transportavam histórias criadas pelos homens para que outros homens pudessem atingir lugares nunca antes navegados, explorar recantos jamais visitados.

Nem sempre eram lugares concretos. Por vezes, apenas imagens longínquas, com riqueza de contornos, precisos e definidos, recheados de ideias de homens, mulheres e crianças, uma história de pontos para que cada imaginação fosse capaz de ligá-los, a bel-prazer, e daí retirar todo a vitalidade do enredo. Que maravilha!

Os livros são os barcos favoritos a quem gosta de viajar, ir mais longe. São eles que nos levam a novos lugares. Às vezes eles existem, de verdade.     França, Inglaterra, países do Oriente ... Outras vezes, são lugares criados pelo autor, cidades imaginárias e tão ou mais reais que as cidades tal como as conhecemos.

O barco solto a esmo numa lâmina de água qualquer, abarrotado de esperanças, marca apenas o porto de saída. Já o barco de papel com nome, páginas numeradas, é a nau de chegada e traz informações e todas as alegrias das chegadas.

Assim são pessoas que contam histórias como esta, barcos feitos de palavras, soltos por aí nas páginas dos jornais, revistas, e que viajam e escalam recepções de consultórios, empresas, onde indivíduos encontram casualmente suas respostas, repensam conceitos e realizam descobertas.


Rosélio da Costa Silva

Jornalista e Técnico em Comércio Internacional radicado em São Paulo, autor de Mosaicos do Andarilho. 




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