Paulo Roberto Ferreira

Belém está no mesmo nível de Los Angeles, a cidade norte-americana que criou a calçada da fama, para homenagear as celebridades do mundo artístico. O prefeito da capital paraense acaba de sancionar a lei 9.200/16 que autoriza a criação da calçada que vai prestar tritubos a artistas paraenses vivos e mortos. Já existem comendas, medalhas, nomes de ruas, praças, mas agora vamos ter também o passeio público com as estrelas e nomes, mãos e pés de pessoas que se destacaram no mundo da cultura e do esporte.

 

parte mais complicada ficou com a Fundação Cultural de Belém, a Fumbelque vai ter que arranjar umespaço grande, e em local de fácil acesso, para viabilizar a inovação. Mas calma lá, porque não vai ser todo mundo que vai ter seu nome grafado na calçada da fama. A lei diz que se a iniciativa for de um vereador, a estrela está garantida. Mas se o desejo partir de um grupo de pessoas, aí tem que fazer um documento e coletar 1.500 assinaturas.

 

Interessante é que no mesmo Diário Oficial, de 02 de fevereiro de 2016, o prefeito veta uma iniciativa da Câmara Municipal que criava um centro de reabilitação integral para autistas. A alegação é que isto implicaria na contração de médicos e outros profissionais especializados. E contratação de pessoal é prerrogativa do chefe do Poder Executivo. Ou seja, nada para os autistas, tudo para os artistas. Em ano eleitoral nossos gestores públicos são seletistas e imediatistas.

 

Minha preocupação agora é com o futuro da calçada da fama de Belém. O desnivelamento das áreas, onde as pessoas circulam, vai exigir um bom investimento da Prefeitura. E quando tudo estiver pronto, tem que gastar com a manutenção, pois no período das fortes chuvas, a tendência é o escurecimento por conta de lodo, limo e outras sujeiras.

 

E como a cidade não conta com banheiros públicos, muitas estrelas vão ficar sem brilho por conta de urina e outras coisas piores, que muita gente faz na rua, sobretudo à noite. Já pensou alguém de Santarém levar um amigo para conhecer a estrela do compositor Wilson Fonseca, o Maestro Isoca, e dá de cara com um monte de porcaria em cima? O grande músico paraense não merece isso.

É claro que nem sempre existe a intenção de enxovalhar a memória de uma celebridade da nossa cultura. Porém, pode acontecer de um cidadão, realmente apertado, escarrar bem na estrela da Eneida de Moraes ou do Mestre Lucindo. Não, acho que isso não vai acontecer. Teremos sempre um guarda municipal às proximidades para que ninguém venha manchar os vultos homenageados.

 

Não devemos, portanto, ser pessimistas. Temos queacreditar que todos os dias os garis vão lavar a calçada da fama. E a gente vai poder mostrar aos nossos amigos e familiares as mãos ou os pés dos artistas vivos ou somente a estrela dos que já se foram deste plano material. Os professores vão poder levar as crianças para conhecer as celebridades homenageadas. E aproveitar o gancho para explicar um pouco da nossa história cultural.

 

O risco é que sempre tem aquele aluno mais curioso que vai querer saber porquê estão ali nomes já, relativamente conhecidos, enquanto  figuras como o artesão Rui Valente, de Monte Alegre, mestre na arte emcestaria de cipó, não aparece. Outro vai ficar incomodado com a ausência da dona Maria das Dores, de Santarém, exímia artífice da cerâmica tapajônica. Paciência, sãoossos do ofício dos guias turísticos.

 

É bem possível que sejam estabelecidos critérios para as homenagens. Talvez ainda seja até objeto de outro projeto de lei, que estabeleça qual o percentual do espaço reservado aos músicos, escritores, atores, artesãos, jogador de futebol, etc. Mas é preciso andar depressa, pois os assessores do prefeito, especialmente o pessoal do marketing político, precisa das imagens do gestor sorrindo ao lado da celebridade homenageada ou de seus familiares, afinal inaugurar calçada da fama pode rendernotícia nacional e votos em outubro.

 

Só desejo que ninguém pegue o embalo e crie também a calçada dos ex-prefeitos, dos ex-vereadores, dos ex-deputados, dos ex-senadores, ex-governadores, ex-diretores do Paysandu, do Clube do Remo, do São Raimundo e do São Francisco Futebol Clube.




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