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Paulo Roberto Ferreira

Qualquer aglomeração humana é sempre uma oportunidade para alguém vender alguma coisa. Ainda mais em tempo de crise econômica. Na manifestação em defesa da democracia, realizada esta semana, vi muita gente vendendo sombrinha, água, refrigerante, cerveja, pipoca, churrasquinho e buchudinha (cachaça em garrafa de plástico). E o curioso é que os vendedores acompanhavam os manifestantes, empurrando seus carrinhos no meio da multidão. De fato, vendedores ambulantes. É a “fauna acompanhante”, quase invisível para a maioria dos presentes no ato público.

Assim acontece nos jogos de futebol, onde o torcedor do Paysandu e do Remo comem juntos churrasco, na porta do Mangueirão, antes do jogo. Depois da contenda, nem pensar. Nas arquibancadas é um vai e vem danado de gente vendendo picolé, água e até radinho de pilha para o torcedor que não se contenta em assistir, mas quer ouvir o comentário dos locutores esportivos.

Do mesmo jeito também na praia. Enquanto a maioria se diverte na companhia de familiares e amigos, os vendedores vão surgindo de todos os cantos, oferecendo bronzeador, protetor solar, água de coco, cerveja, roupa de banho, sandálias e outras quinquilharias. Ninguém escapa de ser abordado por um trabalhador de rua que se oferece para guardar o carro ou até mesmo servir de guia para um visitante numa cidade histórica.


Foto: Eleite Ramos.

Na porta dos cemitérios, em dia de grandes movimentos, como Finados, Dia das Mães ou dos Pais, os floristas nos abordam na porta do carro. Outros oferecem velas, água, areia, alimentos e bebidas. Às proximidades dos pontos de ônibus ou dos portos fluviais também é grande a concentração de venda de alimentos, roupas, perfumes, desodorantes, creme e escova dental, redes e até equipamentos de fogão e antenas de TV.

Os trabalhadores do chamado mercado informal ficam antenados nos grandes eventos. E armam suas barracas ou instalam seus carros, às vezes, com bastante antecedência, a fim de ocupar o melhor local de fluxo de pessoas. Como é o caso das grandes romarias. No Círio de Nazaré vende-se de tudo. E em quase todas as ruas transversais ao percurso da procissão tem sempre a venda de alguma coisa ao alcance do romeiro. As girândolas com brinquedos de miriti são avistadas de longe.

Mas tem pessoas que tentam adivinhar as promessas dos romeiros. E oferecem miniaturas de casa, canoa, barco, automóvel e outras peças materiais que são depositadas nos carros dos milagres. O vendedor das multidões atua também nas praças e grandes avenidas por ocasião de eventos como a Copa do Mundo, a visita de um líder religioso ou das grandes celebridades da música, do teatro, da literatura. Vendem camisas, bandeiras, pôster, livros, CD, DVD, etc.

Um amigo evangélico me contou que quando se realizam os congressos da sua igreja, existem os vendedores credenciados, que ficam dentro do espaço do evento. E aqueles que vão aventurar e se posicionam às proximidades. Comercializam, além dos produtos corriqueiros, ternos, gravatas, camisa social, prendedor de gravata, abotoadura, sapatos, Bíblia e outros objetos consumidos pelos adeptos da religião.

Seja a favor ou contra uma causa, os vendedores ambulantes parece que não tem opinião. O que interessa é vender e faturar um trocado. Nas campanhas eleitorais eles vão para os comícios e vendem bandeiras dos partidos e camisas dos candidatos. É claro que sempre existe o risco de naufragar, mas faz parte do negócio. E hoje, com as restrições da legislação eleitoral, cada vez mais passou a ser uma transação de alto risco.

Agora mesmo, neste momento de polarização política, um microempresário do bairro da Cidade Nova, em Ananindeua, decidiu investir na imagem do juiz federal de Curitiba, Sérgio Moro, e confeccionou centenas de camisetas com a foto do magistrado. Não vendeu nem 5%. Encalhou e deixou o comerciante com um baita prejuízo, lamentando-se pelo jornal. Mas serviu de lição para outros do mesmo ramo, que só arriscam na produção de camisetas da “Nazinha”, como é chamada carinhosamente a imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Até porque, quando sobra, sempre existe a possibilidade de vender a camiseta no ano seguinte.

Gostemos ou não do que vendem ou anunciam, os vendedores ambulantes estão sempre perto de nós e à vezes nós nem os percebemos.

(*) Paulo Roberto Ferreira é jornalista, professor, escritor e colaborador do portal www.oestadonet.com.br    

 




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Última modificação em Sábado, 02 Abril 2016 21:17

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