Paulo Roberto Ferreira

Às vésperas da celebração da Inconfidência Mineira, que levou ao enforcamento do mártir da Independência do Brasil, José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes, em 21de abril de 1789, a figura do traidor, José Silvério dos Reis, que entrou para o limbo da história, nos remete a reflexão sobre o papel daqueles que se prestam ao papel sujo, imoral e indecente, entre os que comungavam dos mesmos ideais.

Não vamos confundir com divergência, que pode acontecer em qualquer agrupamento humano. Estão aí os rachas da igreja católica, que resultaram no surgimento de outrocultos de orientação cristã. As rupturas dentro dos partidos também são frequentes. São diferenças de concepção. Mas quando alguém que defende uma causa, como a democracia, por exemplo, e faz a opção pelo desrespeito ao Estado de Direito, não há outra palavra, outro termo: traição.

Não importa o que move a pessoa, se o desejo incontido pelo poder, a vontade de ocupar cargos públicos, de obter vantagem pessoal, nos negócios. O traidor é sempre um oportunista, que usa qualquer argumento para justificar seu ato. Isso quando pode, porque, na maioriadas vezes, trama às escondidas, delata para obter algum benefício.

Muita gente foi torturada ou morta pelos carrascos da ditadura civil militar de 1964 por conta dos “dedos duro”, mas também dos traidores, que optaram em indicar o local onde estavam ou atuavam seus companheiros para salvar a própria pele. E não me refiro aos que assim procederam por conta da crueldade que sofreram. E sim daqueles que silenciosamente foram ao encontro do inimigo e denunciaram seus compatriotas.

Judas traiu Jesus por 30 moedas e o desfecho da história todos nós conhecemos. Marcus Junius Brutus, que viveu no ano 44 antes de Cristo, traiu seu pai adotivo, Júlio César e se bandeou para o lado do general CássioLonginus, para tomar o poder. E não satisfeito com a traição, participou da trama para assassinar César, que pronunciou a famosa frase: “até tu, Brutus?”. Ou seja, o imperador esperava que todos fossem capazes da perfídia, menos o próprio filho.

Marina, uma jovem índia da etnia náuatle, foi dada de presente ao conquistador espanhol Hernán Cortéz, que a fez sua amante e tradutora, e a usou na sua estratégia para dizimar as populações indígenas, sobretudo os astecas. E desta forma assegurar aos espanhóis o domínio do atual território central do México, controlado pelo famoso líderMoctezuma II.   

No Chile, o presidente socialista Salvador Allende foi deposto, em 1973, por um oficial que ele considerava um dos seus mais leais auxiliares, o general Augusto Pinochet, que implantou uma ditadura sanguinária, que durou 17 anos.

A história brasileira está cheia de exemplos de pessoas que passaram a rasteira em seus companheiros.Dona Mora, mulher de Ulisses Guimarães, contou ao jornalista Jorge Moreno que Tancredo Neves intercedeu junto ao presidente Juscelino Kubitschek pela nomeação a general do Exército do então coronel Castello Branco. E ouviu do presidente da República que, de acordo com seu ministro da Guerra, general Lott, Castello era “conspirador, golpista, um mau caráter”. Mas acabou cedendo aos apelos de Tancredo e o promoveu. Depois do golpe de 1964, Juscelino teve seus direitos políticos cassados por Castello Branco, o primeiro dos cinco ditadores da ditadura de 1964, que derrubou o governo do presidente João Goulart. Segundo dona Mora, o velho Ulisses gostava de repetir uma frase: “o dia do benefício é a véspera da ingratidão”.

Quando se fala de traidor é inevitável a associação com o nome de Michel Temer. O atual vice-presidente da República chegou a essa condição de carona. Fez parte da chapa da presidenta Dilma Rousseff, em 2010 e 2014. Tirou proveito do poder, indicou seus protegidos para cargos de ministro e de segundo e terceiro escalões. Nunca foi contrário ao partido da presidenta. Mas ao primeiro sinal de um pedido de afastamento “vazou” à imprensa uma carta dirigida a sua chefe e agora, mais recentemente, “vazou” novamente um pronunciamento que faria neste domingo, dando como certo que o afastamento político de Dilma se concretizaria. Rodeado por traidores, ele já loteou os cargos do futuro (?) governo que comandaria. Caso isso venha a acontecer, deve ser um governo de vazamentos. Talvez nem imosec resolva.




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