Nicodemos Sena

Um ano e meio depois desse dia insólito, revendo as fotos que tiramos ao lado do desajeitado guarda do Palácio, sinto-o como se fosse hoje. Numa delas, “JP” – como o chamarei a fim de protegê-lo da provável retaliação de seus superiores hierárquicos, que não ficarão nada satisfeitos ao lerem as informações que o subordinado passou-me sobre eles – aparece todo garboso, sorridente, com os antebraços apoiados sobre o parapeito da estreita sacada frontal do Palácio. Olha como que para um ponto próximo, que se localiza, no entanto, numa região longínqua e inalcançável. Um sorriso amplo esboça-se em sua cara ancha, mais larga do que comprida, de caboclo; a alvura dos dentes faz um rasgo entre os lábios finos. Embora ele saiba que não nos reveremos jamais e que sua imagem divertirá pessoas que jamais conhecerá e para as quais nada mais significará do que a figura estereotipada de mais um caboclo de tantas gerações de caboclos, JP, ainda assim, parece satisfeito e confiante. Ali, peça inútil e insignificante na imóvel rotina de uma cidade que foi criada masnão se deu conta de que passou a existir, JP olha para o futuro mas não parece sonhar com este; mira-o mas não crê que possa enxergá-lo como algo real, palpável. As fotos, nas quais aparece, são como o seu próprio destino: sombrias e sem perspectiva. Mas JP continuará sorrindo o seu sorriso de menino grande, sem cálculo nem esperanças, e assim entrará na eternidade, como a folha seca que cai na terra e nesta se desmancha, e ninguém senão Deus a contabiliza. 

JP parece feliz naquele lugar, fora do tempo, noutro mundo. Em outra foto, meu pai pousa o olhar sobre ele como que o reconhecendo. Gosto dessa foto; acho que fui feliz ao apertar o obturador da câmera no exato momento em que papai lançava esse olhar para JP. Um olhar fixo mas vazio, vendo e não vendo. Olhar à toa, perdido, sem nexo ou sentido, na imensidão imensa, solitária solidão semelhante à de JP.

Sei o que acontece com papai quando olha assim para uma pessoa. Pessoa ou coisa, dá no mesmo. Quanta imagem de gente passou pelas suas retinas e foi-se para o fundo do abismo! Quantos passos na areia, quantos gemidos pelos caminhos, quantas palavras que ele gostaria de ter dito e não disse, e agora lhe atravancam a garganta! Onde estão os amigos de infância? A imagem de JP diante dele desperta muitas lembranças; a silhueta grandona e infantil de JP faz lembrar-se de alguém que há muito não sabe onde anda e agora parece se erguer diante dele. Meu pai mira JP e pergunta-lhe:

– Quem é teu pai?

JP pronuncia um nome que já nem lembro, mas vejo um brilho intenso nos olhos de papai. JP põe-se a contar a história de sua vida, sobre o pai que não conheceu e que se foi pelo mundo deixando atrás de si um rastro de esperma e de filhos.

– Dizem que meu pai era muito bonito e muito forte, jogador de futebol – disse JP. – As mulheres (bobas!) gamavam no seu jeitão e logo ficavam grávidas; foi assim que cheguei a este mundo; quando me dei por gente, o jogador tinha ido embora pra capital e daí nunca voltou; ouvi dizer que ele já morreu; nem seu rosto conheci, pois, naquela época, não havia aqui jornal nem televisão e mamãe, para esquecer sua desdita, jogou fora a fotografia do meu pai, mas eu nem quero saber.

Papai ouviu as palavras do melancólico rapaz e não disse nada, mas, vendo o tom cinza-escuro que tisnou os olhos de papai, adivinhei o diálogo que ele travava com o passado, esse enigma visível do tempo, o nada vivo em que estamos:

“Ferreira, seu filho da puta, por que fizeste isso com o rapaz?”, disse meu pai, em pensamento.

“Não me censures, primo, pois temos todos duas vidas: a verdadeira, que sonhamos na infância, e que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa; a falsa, que é a que vivemos em conveniência com outros, que é a prática, a útil, aquela em que acabam por nos meter num caixão”, retrucou, de dentro de um túnel escuro e profundo, o primo de meu pai, conhecido como Ferreira, cujas façanhas, de tanto papai relembrar, eu sabia de cor.

Ferreira era filho de Ninita, tia de meu pai, que enviuvou muito jovem e por isso os quatro filhos, entre os quais Ferreira, tiveramdesde tenra idade que se virar sozinhos, de casa em casa, trabalhando em troca do prato de comida para os que faziam a caridade de explorar-lhes a mão-de-obra infantil, sobrando ao primo Ferreira, como único consolo, as horas em que, fugindo de seus senhores, jogava homéricas “peladas” com outros meninos, adquirindo logo a fama de “bom de bola e goleador”, disputado pelos times do subúrbio de Belterra e até mesmo de Santarém, para onde todos os meninos sonhavam um dia ir ser jogador de futebol. Mas, antes de “correr mundo”, Ferreira fez uma “carreira” meteórica (rápida no subir e no despencar) na Companhia dos americanos que administravam Belterra.

Olhando para JP, cujo perfil lembrava o de Ferreira, papai certamente pensava no primo com quem jogou bola nos campinhos-de-terra de Belterra e que depois se perdeu pelos campos do mundo, deixando para trás seus vestígios gravados nos olhos turvos e amendoados e nos músculos bem-formados de inúmeros garotos com ele parecidos.

Onde andará o primo Ferreira? Certamente a sua carreira de futebolista não decolou como um dia deve ter sonhado, pois, depois de ter jogado num time da capital do Estado, desapareceu no interior da Bahia, no humilde Fluminense de Feira de Santana, ao qual as pessoas de Belterra, querendo engrandecer o conterrâneo “famoso”, propositadamente confundiam com o Fluminense do Rio de Janeiro. “Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo. O que não há somos nós, a verdade é esta. Somos o que falhamos ser. Somos todos quem nos supusemos. A nossa realidade é o que não conseguimos nunca”, tive esses pensamentos sombrios ao olhar para JP. 

Olhando para papai, também imaginei o que ele sentia diante de JP. “Ah, meu filho, a minha tristeza dos barcos que passam no rio sob o céu cheio de sol, e as mãos desconhecidas que de lá acenam. Isso me traz o desejo de chorar absolutamente como uma criança. Ah, meu filho!”

Eu era capaz de ouvir o pensamento de meu pai naquele momento. Se o primo Ferreira tivesse aproveitado a oportunidade que se lhe apresentou em Belterra, sua vida teria sido outra e talvez JP não fosse hoje um simples porteiro de um “palácio” perdido nas brumas de um tempo sem tempo, sem rei nem súditos. Pois o primo Ferreira, ladino e formoso como era, atraiu a simpatia de Mr. Colleman, o diretor de Belterra, que o levou para morar em sua casa, junto de seus alvíssimos filhos e esposa, comprando-lhe roupas brancas e sapatos também brancos, como a prenunciar o futuro médico no qual secretamente desejava transformá-lo. Inicialmente, Ferreira servia como uma espécie de pajem de Mr. Colleman, acompanhando-o ao hospital da cidade ou onde quer que fosse, no jeep da Companhia, sentado na boleia, ao seu lado. Ao descerem do carro, imitando Mr. Colleman, Ferreira se protegia do sol escaldante do meio-dia com um pequeno sombreiro e um chapéu-coco (ambos brancos) que o gringo lhe dera, e isso, se por um lado granjeava a admiração do povo, trazia, por outro, a maledicência e a inveja dos meninos menos afortunados, que extravasavam o seu despeito durante as peladas aplicando-lhe ostensivas caneladas, com as quais, porém, o futuro “craque” teve a oportunidade de desenvolver precocemente aquela sua capacidade que se tornaria, segundo os que o viram jogar, uma de suas características mais fortes: a de enfrentar os mais brutos adversários sem jamais recuar, o que lhe valeria o apelido de “O Brocador”.

 Brocador nos campos de futebol e no ventre das mulheres, de todas as cores, idades e tamanhos. Lembro que papai me disse que, muitos anos atrás, no seu último encontro com o primo, este se gabava de já contabilizar 52 rebentos espalhados pelo mundo, concebidos nos lugares mais improváveis e inconcebíveis, como na cama de certa madame chique maltratada pelo marido ou nas capoeiras em torno dos vilarejos onde o nosso craque prestou seus serviços futebolísticos, ou no tronco de uma mangueira ou árvore doutra espécie, de noite ou de dia, no calor ou no frio, dentro ou fora d’água.

Mas foi justamente o seu instinto de brocador que o fez perder-se na vida e também em Belterra.

Seguindo o seu projeto de forjar em Ferreira um grande médico, Mr. Colleman, quando o pupilo chegou aos seus 17 anos, guindou-o ao posto de seu enfermeiro predileto. E tudo parecia correr muitíssimo bem, Ferreira já conhecendo os instrumentos cirúrgicos usados pelo seu protetor, o qual se dedicava a ensiná-lo com paternal zelo, entregando-lhe em minutos conhecimentos que um estudante receberia em anos de pertinaz esforço. Até que a fera que Mr. Colleman sonhara domar, a fera que Ferreira trazia dentro de si e que todos nós trazemos, a fera que tem fome de carne, fome de ar, de terra e de eternidade, a besta-fera que acorda quando menos esperamos e leva um homem à loucura (ou à felicidade?), estourou o seu guincho terrível e saiu das entranhas do aplicado enfermeiro Ferreira e entrou pelo ventre da respeitosa enfermeira Augusta (mãe de muitos filhos mas ainda enxuta, que há anos preservara-se de homem, segundo se cria, apesar de quarentona) e aí, em 8 constrangidos meses, o rebento da fera germinou e cresceu, até que, não podendo mais se esconder, pôs a cabeça para fora e soltou um choro triste, de criança sem pai. Pois Ferreira, não querendo assumir a paternidade atestada pelo próprio Mr. Colleman, foisumariamente demitido do hospital e expulso de Belterra, deixando para trás o recém-nascido, que bem poderia ser JP.

Tudo isso se passou, por incrível que pareça, em apenas alguns minutos, talvez uns 10, quando muito. 

JP disse-nos que havia chegado às 14 horas e seria rendido por outro guarda às 3 da madrugada, quando então voltaria para casa para dormir. Mas, certamente, depois que saíssemos dali, retomaria o seu sono tranquilo, resfolegado, dos que vigiam o que não há para vigiar. JP nascera em Belterra, no antigo hospital Henry Ford construído na década de 30 do século passado pelos americanospuxou-o para este mundo as mãos santas de Mr. Collemano qual, pouco depois, com o desmonte do projeto do plantio das seringueiras na Amazônia, voltou para a sua pátria, onde seu corpo, certamente, foi enterrado num daqueles cemitérios sem criptas, pois Mr. Colleman era judeu. Mr. Colleman não existmais, o hospital onde JP nasceu também não existe mais, foi incendiado no ano de 2006, e, em suas brasas, arderam as centenas de almas teimosas dos que ali morreram e não desistiram do lugar. JP está ali, à nossa frente, mas existirá mesmo? Ou será apenas a lembrança de meu pai de um tempo que não volta mais? Lembro do seu olhar, que atravessa ainda a minha alma como um risco de fogo na noite. Lembro bem do seu olhar. Lembro de Fernando Pessoa: “O arcanjo isolado, escultura numa catedral, esfinge fugindo aos braços estendidos de Pã. Tudo isso tende para o mesmo centro, busca encontrar-se e fundir-se na minha alma”.

 

 Hospital Henry Ford incendiado em 2006Hospital Henry Ford incendiado em 2006

 

Aos despedir-se de nós, JP tinha uma expressão infantil em seu rosto largo. Papai olhava para ele, e eu adivinhei o que papai sentia; li os seus pensamentos ao estender a mão para JP em despedida. Papai adora todas as coisas, esse é o segredo de sua longevidade. O seu coração é um albergue aberto toda a noite. Tem pela vida um interesse ávido, que busca compreendê-la sentindo-a muito. Ama tudo sem reservas, “sem freio puxado”, como se diz hoje. Ele empresta humanidade a tudo; aos homens e às pedras, às almas e também às máquinas, como o leitor verá mais adiante. Papai pertence a tudo mas sobretudo a si próprio, e a sua ambição parece ser trazer o universo ao colo como uma criança a quem ama e beija. Com ele aprendi essa coisa louca de gostar mais dos movimentos e das sensações do que das coisas palpáveis, pois, na verdade, o mundo é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.

Agora, ao escrever essas coisas, estremeço, ao pensar que, como naquele fim tristonho de tarde, o sol, nesta exata hora, já descera ao seu ataúde por trás do que restara dos velhos seringais de Belterra e se afundara na imensidão azul do rio Tapajós, de onde, pela manhã, se levantará banhado de luz e de sonhos.

Mas a última cena dessa tarde que parecia nunca ter fim ainda estava para acontecer. O feixe de lembranças e sensações, que se foram juntando desde o começo de nossa peregrinação por Belterra, ainda iria se completar. Faltava algo. A noite se aproximava mas sentíamos que ficaríamos o tempo que fosse preciso em Belterra, até que o feixe se completasse. Entramos no carro novamente e, como que atraídos por uma força estranha e irresistível, enveredamos por uma trilha que se internava por trás do prédio da Prefeitura, onde aconteceria o gran finale daquele inesquecível dia.

(Continua no próximo capítulo)


Nicodemos Sena

Nicodemos Sena é escritor e jornalista de Santarém, radicado em São Paulo, onde se formou em Jornalismo pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) e em Direito pela USP (Universidade de São Paulo); autor, entre outros, do romance “A Espera do Nunca Mais” (Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos, Rio de Janeiro, 2000). E-mail: nicosena@uol.com.br




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Última modificação em Domingo, 15 Maio 2016 09:03

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