Paulo Roberto Ferreira

Imaginemos a distância entre Cruzeiro do Sul, no Acre, e Belém, capital do Pará. Em linha reta são de 2.769 quilômetros. É quase igual ao espaço que separa Lisboa, em Portugal, e Berlim, na Alemanha: 2.787 km. Ou seja, dentro de uma mesma região, a Amazônia, as distâncias são monumentais. Agora, calculemos transpor essas distâncias 70, 80 anos atrás. O único meio de transporte era o fluvial. Em rios sinuosos, os navios, movidos por roda d’água, eram mais lentos e, geralmente faziam uma escala mais longa em Manaus.

Minha família paterna nasceu no seringal Cruzeiro do Vale, no Alto Juruá, que tem como capital o município de Cruzeiro do Sul, próximo à fronteira com o Peru. Ali funcionava um dos três departamentos criados pelo governo brasileiro, logo após o tratado de Petrópolis, que em 1903 oficializou a separação daquela zona, que antes pertencera a Bolívia.

Em 1929 a região contava com o jornal “O Rebate”, que entre anúncios e notícias sobre verbas destinadas ao Território, publicava uma nota de agradecimento ao médico e cirurgião Mário Pedreira, por ter operado um comerciante da praça e “a menina Elba, filha de João Lemos”. A criança tinha apenas três anos de idade e quatro anos depois deixaria aquela cidade onde a realização de uma cirurgia no antebraço era um acontecimento científico, digno de registro jornalístico.

Em busca de ensino de melhor qualidade, muitas crianças acreanas tomavam o rumo de Belém. A viagem era longa e penosa. Durava quase 30 dias. Dos seis filhos do meu avô, as tias Eunice, Elba e Elcy foram as primeiras a migrar, todas com menos de dez anos de idade. Foram morar com uma tia. Tempos depois vieram os mais novos: Jonas, Franti e Mário, acompanhados pela mãe, Francisca.

O marido ficou lá. Depois de trabalhar muitos anos no seringal, mudou para a cidade, requereu um terreno, construiu a casa e passou a produzir frutas, legumes, cana-de-açúcar e criar vacas leiteiras e pequenos animais. Autodidata, se transformou num rábula e funcionário público de Cruzeiro do Sul e, por último, em Feijó. A partir de 1940 até 1944 passou a dividir o tempo entre acompanhar a família em Belém e o trabalho no Acre. Viajava sempre de navio de seringalistas, cujo percurso total era 5.538 Km em linha reta. Mas como os nossos rios são recurvados, entre ida e volta, provavelmente mais de 6 mil quilômetros eram percorridos por ano, em 60 dias.

Os gestores dos Departamentos do Alto Acre, Alto Purus e Alto Juruá, como era dividido o Acre, eram vinculados diretamente ao presidente da República, que nomeava oficiais do Exército, geralmente oriundos do Rio de Janeiro. Só muitas décadas depois é que a administração do Território passou a contar com um único gestor, nascido no Acre, fruto da luta do Movimento Autonomista. Em 1962 aquela parte do extremo ocidente do Brasil foi elevada a categoria de Estado, pelo presidente João Goulart. E o primeiro governador eleito pelo voto direto, José Augusto Araújo, era filho de Dim Araújo, com quem João Lemos trabalhou durante muitos anos.

Comemorar 90 anos de idade, em pleno vigor físico e mental, é uma dádiva de Deus. Minha tia, a “menina Elba” citada em “O Rebate”, alcançou esta graça e todos os seus familiares celebraram o acontecimento, numa festa muito bonita. Eunice, a irmã um ano mais velha que Elba, depois de se formar em normalista, teve que se deslocar para o município de Oiapoque, no Amapá, na divisa com Caiena, a capital da Guiana Francesa, a quase 700 quilômetros, em linha reta, de Belém. Foi trabalhar para ajudar a família, pós a morte do pai.

As migrações, iniciada pelos ancestrais, de Ceará para o Acre, continuam. A filha de Elba, Élide, tomou o rumo de Maputo, capital de Moçambique, na África, que fica a 9.056 quilômetros. Ali se estabeleceu e hoje só volta ao Brasil a passeio. A mudança está no DNA da família. Para quem não tem medo de enfrentar as distâncias amazônicas, a África não representa nenhuma barreira. Que o diga a tia Elba, que volta e meia atravessa o Atlântico para visitar a filha e netos.

(*) Paulo Roberto Ferreira é jornalista, professor, escritor e colaborador do portal www.oestadonet.com.br




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Última modificação em Domingo, 15 Maio 2016 20:37

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