Tem musical no festival de ópera do Teatro da Paz
Segunda, 21 Março 2016 15:25

Tem musical no festival de ópera do Teatro da Paz

Escrito por Lúcio Flávio Pinto

No ano passado o secretário estadual de cultura, Paulo Chaves Fernandes, decidiu patrocinar uma iniciativa original, talvez até em âmbito mundial. Contratou um completo neófito em ópera para assumir a direção da encenação de uma, Os pescadores de pérolas, de Georges Bizet. O cineasta Fernando Meirelles nunca desempenhara essa função e sequer conhecia a existência da ópera que lhe incumbiram de comandar.

Para compensar sua evidente deficiência na matéria, montou um espetáculo dito multimídia, que desviou a atenção do público para as fantasias de montagem.

Fez sucesso com quem nunca gostou verdadeiramente de ópera ou se julga mais receptivo a  brincadeiras revestidas de inovação e ousadia supostamente de atualização.

Mas conseguiu o efeito desejado pelo contratante: dar repercussão nacional ao festival paraense de ópera, que no ano passado teve a sua 14ª edição. Uma façanha capaz de atrair a atenção nacional e até internacional por sua qualidade média e sua localidade. Mas, talvez, não na medida que o arquiteto Paulo Chaves quer. Competindo diretamente com o festival do Teatro da Paz a versão amazonense, sediada no teatro de Manaus.

Fernando Meirelles foi objeto de muitas reportagens. Os jornalistas só não conseguiram saber quanto ele recebeu para experimentar pela primeira vez ser diretor de ópera, o que ele jamais conseguiria realizar nos belos teatros dos teatros municipais do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Uma nova façanha o secretário de cultura reserva para a 15ª edição do festival, neste ano: um super-musical sobre o compositor e músico argentino Astor Piazzolla, que morreu em 1992, consagrado como um renovador do tango tradicional e mais além. Assim, vai quebrar a tradição de que o festival de ópera do Teatro da Paz (construído para ser justamente uma casa de ópera), sempre fosse de ópera. Nada mais tautológico e redundante. Mas não é à toa que Paulo é o secretário de cultura do Pará que, depois de suas décadas, é o que por mais tempo ocupou a função.

A peça foi encomendada a alguns artistas locais pelo próprio secretário de cultura, Paulo Chaves Fernandes, que talvez assine a autoria do espetáculo. Esse detalhe ainda não parece ter sido definido, mas a inspiração é dele, mesmo sendo advertido sobre a inadequação dessa criação. Paulo não abriu mão. Não é à toa que ocupa o comando absoluto da secretaria de cultura há duas décadas.

Quem vai dirigir sua obra será o paulista Caetano Vilela. Ele também será o responsável pela condução da ópera mais importante do 15º festival, Turandot, a última criação de Giácomo Puccini. Vilela foi o principal diretor de óperas nos últimos anos do festival, depois da longa era do também paulista Cleber Papa.

Tudo como quer e faz o secretário, sem consulta a um colegiado, sem a devida informação a quem de direito e sem democratizar as decisões. A casa de ópera paraense tratada como a casa da mãe Joana – ou da Noca.

Segunda, 21 Março 2016 09:26

Os bailarinos do Cabelo Seco

Escrito por Lúcio Flávio Pinto

A mais surpreendente e auspiciosa novidade em matéria de dança no Pará vem do bairro do Cabelo Seco, em Marabá. Na mais antiga aglomeração humana formada na cunha de terra que avança na intersecção do Tocantins com o Parauapebas, recebendo anualmente as águas expandidas dos dois rios, às vezes em enchentes catastróficas, adolescentes pobres, com a marca da ascendência negra e indígena, começaram a dançar juntos. Essa identidade evoluiu para a coreografia, a princípio rústica e básica. Até que começaram a criar movimentos e buscar um sentido para eles.

Depois de terem se apresentado em cidades fora de Marabá, do Pará e até do Brasil, eles se exibiram em Belém, primeiro em 2015 e agora, em apenas dois dias, no auditório do Sesc Boulevard, para um público relativamente pequeno. Imerecidamente pequeno.

Mas quem viu não só se surpreendeu pelo que viu: se emocionou. Os três dançarinos não se motivaram nem atraíram por modismos, tendências contemporâneas, cosmopolitismo. Sabendo ou não disso, colocaram em prática o conselho do grande escritor russo Lev Tolstói: canta a tua aldeia e serás universal.

Através de movimentos cadenciados, que se repetem com energia crescente, guiados por uma música forte, de inspiração indígena, com contorcionismos no chão, eles vão num crescendo até definir o que querem dizer com a linguagem áspera e lírica dos seus corpos em mutação: um protesto indignado contra a destruição do seu mundo, do meio físico à expressão cultural.

Uma declaração de amor e respeito pelas fontes milenares do saber local, na convivência harmônica com os elementos exteriores, transformados em extensão do homem, numa fusão que os invasores e intrusos desfazem. Os rios Tocantins e Parauapebas rugem nas cheias, os antigos moradores do Cabelo Seco se assustam, sofrem – mas não desistem, não se afastam dali para um terreno seguro, mas estranho, hostil.

Por isso devem morrer? Não, dizem os bailarinos infantes. É para viver em combinação com árvores e águas, com outros iguais, na utopia do paraíso perdido, mas ainda em tempo de ser refeito, como eles fizeram com a sua dança maravilhosa.

Quem são esses bailarinos? Acho que eles têm competência também para se apresentarem, como fizeram no texto que prepararam para o espetáculo e que reproduzo:

“Premiada Cia de Dança AfroMundi do projeto eco-cultural e socioeducativo Rios de Encontro abre sua primeira temporada em Belém com dois novos espetáculos ‘Lágrimas Secas’ e ‘Nascente em Chamas’. AfroMundi, que vem desenvolvendo sua dança afro-contemporânea e amazônica desde 2012, já apresentou em diversos capitais no Brasil, na Colômbia e nos EUA, está na frente da gestão juvenil de um projeto social enraizado no bairro matriz de Marabá que afirma excelência artística, ação comunitária e colaboração internacional para advogar direitos humanos e cuidado eco-social em defesa de uma Amazônia sustentável.

O solo, ‘Nascente em Chamas’, estreado em Belém pela dançarina fundadora da AfroMundi, Camylla Alves, no final do 2015, é fruto do Prêmio ‘Projetos Artísticos 2015’, do Programa de Incentivo à Arte e à Cultura (SEIVA) da Fundação Cultural do Estado do Pará. O espetáculo dialoga sobre a tragédia ecológica e social em Mariana, Minas Gerais. Após a recente classificação do rompimento das barragens como a pior catástrofe na história da mineração no mundo, e o deslizamento de mais lama em Mariana no dia 27 de janeiro, ‘Nascente em Chamas’ vem se tornando símbolo pela preocupação mundial sobre o futuro do planeta.

‘Lágrimas Secas’, apresentado numa balsa no rio Tocantins durante o IV Festival Beleza Amazônica 2015 por Camylla Alves, Lorena Melissa e João Paulo Souza, recebe sua primeira temporada em Belém. ‘No espetáculo, nossa vida e as lendas do rio pegam fogo’, explica Dan Baron, diretor artístico de AfroMundi. ‘Tudo seca, até a própria nascente. Buscamos situações extremas e poéticas para estimular nossas plateias reconhecerem sua realidade cotidiana que muitos pensam não podem transformar’. Com ‘Lágrimas Secas’, AfroMundi foi contemplada pelo prêmio ‘Novos Talentos 2014’ da Funarte, do Ministério da Cultura.

‘Nascente em Chamas’ dramatiza a noite quando a dançarina Mariana volta ao seu bairro ‘revitalizado’, e perdida, desce à margem do Rio Tocantins e cai num vinco de memória profunda na Orla. Vivência a história feminina oculta da violação da Amazônia e começa entender o descuido, medo e silêncio do presente. Lutando para respirar nas fumaças da seca, Mariana se alivia no rio tóxico e contaminado, se transforma em uma alerta poético mundial. “Inspirado por artistas africanos e lendas amazônicas, o espetáculo relaciona a cicatrização do povo afro-descendente com a proteção dos rios amazônicos.

A coragem da Cia AfroMundi de tratar questões sensíveis, a perda de comunidade e do equilíbrio ecológico, vem inspirando outros países se solidarizarem com a preservação da Amazônia e vislumbrar bairros excluídos como fontes de sabedoria e transformação social a partir da cultura popular. Depois de Belém, Camylla Alves e Dan Baron levarão ‘Nascente em Chamas’ e darão oficinas eco-culturais na China e em Nova Zealândia no mês de abril”.

Duciomar de novo réu. Será condenado agora?
Segunda, 21 Março 2016 08:51

Duciomar de novo réu. Será condenado agora?

Escrito por Lúcio Flávio Pinto

O ex-prefeito de Belém Duciomar Costa, é mais uma vez réu perante a Justiça Federal. Agora o Ministério Público Federal o denunciou pelo desvio de 607 mil reais em recursos federais. A ação foi distribuída na semana passada, por dependência, para o juiz Rubens Rollo d’Oliveira, da 3ª vara penal, que já instrui outro processo contra Duciomar. Se condenado, Duciomar poderá pegar até 12 anos de prisão.

Também se tornaram réus o ex-diretor do Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Belém, Raul Meireles do Vale (que foi vereador de Belém pelo PT), e cinco empresários.

Segundo o MPF, as irregularidades foram encontradas em convênio assinado em 2004 entre a Fundação Nacional de Saúde e o município de Belém, para a instalação de sistema de coleta e bombeamento de esgoto sanitário da área do Pantanal, localizada no distrito de Mosqueiro, na capital paraense.

Segundo o relato da assessoria de imprensa do MPF, a construtora Arteplan foi contratada pela prefeitura em 2005. No ano seguinte, a Funasa, que é federal, encaminhou os recursos, mas ficou incompleta a prestação de contas do então prefeito. Ele deixou de apresentar todos os documentos exigidos pela Funasa, principalmente os relacionados ao cronograma do projeto e ao processo de licitação para contratação da construtora.

Em 200,7 uma vistoria da Funasa constatou que a obra tinha sido paralisada. Apenas 30,99% do serviço foram realizados.

A Funasa, então, rejeitou as contas. Duciomar Costa chegou a apresentar os documentos faltantes, mas um parecer definitivo da Funasa voltou a considerar irregular a sua prestação, em virtude da paralisação da obra e do baixo percentual de sua execução.

“Conclui-se que os recursos repassados pela Funasa à prefeitura municipal de Belém, conquanto integralmente sacados da conta bancária pertencente à municipalidade a pretexto da execução do objeto conveniado, não foram empregados na implantação do sistema de esgoto, já que menos de um terço da obra foi realizado e dado o estado de abandono verificado ‘in loco’”, criticou o MPF na ação.

A prefeitura devolveu à Funasa o valor dos recursos desviados. Para o MPF, porém, essa devolução só teria sido válida se os recursos devolvidos fossem dos acusados, e não dos cofres da prefeitura. “Dita devolução, entretanto, operada com dinheiro proveniente dos cofres públicos municipais, às custas da prefeitura de Belém, não tem o condão de descaracterizar o crime do art. 1º, inciso I do Decreto-Lei nº 201/67, uma vez que o tipo penal tutela a moralidade administrativa no exercício da função pública de prefeito, punindo a conduta de desvio, independentemente de seu resultado”, disse o MPF.

Em 2009 o MPF processou Duciomar por improbidade administrativa porque ele não concluiu as obras de esgotamento sanitário em Mosqueiro. Em 2013, a justiça federal suspendeu os direitos políticos do ex-prefeito por cinco anos e lhe impôs multa de R$ 50 mil. O ex-prefeito recorreu da decisão para o Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília, que ainda não julgou o caso.

Domingo, 20 Março 2016 10:28

C. R. Almeida agora entrou na Lava-Jato

Escrito por Lúcio Flávio Pinto

A Polícia Federal foi à sede da Construtora C. R. Almeida, em Curitiba, para cumprir ali um dos mandados judiciais expedidos pelo juiz Sérgio Moro para os Estados do Maranhão, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal, além do Paraná, onde também foi visitada a Construtora Ivaí Engenharia.

Foi um novo desdobramento da Operação Lava-Jato, a que a PF deu o nome de Operação O Recebedor. Ela surgiu com base em um depoimento de delação premiada e acordos de leniência da Construtora Camargo Correa, que revelaram o pagamento de propina para a construção de ferrovias Norte-Sul e Integração Leste-Oeste.

Segundo as informações coletadas, as empreiteiras agora investigadas se valiam de contratos simulados para fazer pagamentos contínuos a um escritório de advocacia e a mais duas empresas com sede em Goiás, utilizadas como fachada para maquiar origem lícita do dinheiro proveniente de fraudes em licitações públicas.

Esta é a segunda operação que não está relacionada diretamente com a Petrobrás, mas foi adotada porque os empreiteiros condenados, presos ou indiciados por corrupção na estatal do petróleo também têm contratos em outras obras públicas. A primeira operação resultado de investigações da Lava Jato foi a Crátons, com seu objeto na extração e comercialização ilegal de diamantes em terras dos índios cinta-larga, em Rondônia.

Ao ser contatada por jornalistas, a C. R. Almeida informou que hoje não há expediente na empresa. .A empresa podia ter agido assim quando foi descoberta, 20 anos atrás, sua tentativa de se apropriar de sete milhões de hectares de terras públicas doEstado do Pará e da União, na maior grilagem de todos os tempos, tanto no Brasil como no mundo.

Denunciada por este repórter, a empresa reagiu com duas ações, uma cível e outra penal, para puni-lo, embora a grilagem tenha sido provada. Com base documental tão forte que o Ministério Público Federal requereu o desaforamento do processo para a justiça federal e, nela, obteve o cancelamento da fraude, gerada no cartório de registro de imóveis de Altamira.

Se a ação continuasse na justiça estadual, provavelmente o desfecho teria sido favorável ao grileiro. O TJE me condenou a indenizá-lo por ofensa à sua honra, em valor que chegou a 28 mil reais. Só consegui reunir esse dinheiro graças a doações de 770 pessoas que contribuíram, através da internet, para a “vaquinha” cívica. A quantia continua depositada em juízo.

Se a justiça do Paraná confirmar as suspeitas contra a C. R. Almeida em outras fraudes, a justiça do Pará estará ainda mais isolada na conivência com a tentativa de apropriação de terras do patrimônio público. Uma mácula que, ao invés de ser apagada da história, está sendo cada vez mais acentuada pelos desdobramentos da carreira de ilegalidades do empreiteiro Cecílio do Rego Almeida.

Ela não foi preso em virtude da grilagem porque a sentença de condenação não pôde ser executada. É que ele já tinha mais de 70 anos na época, só podendo ser preso em flagrante delito. Como morreu em 2008, agora não estará sob o risco de ser preso e algemado, como outros empreiteiros delinquentes apanhados pela Lava-Jato, agora que a sua empresa está entre as empreiteiras acusadas de pagar propina para obter contratos de obras públicas. No caso, ferrovias.

Pois foi a C. R. Almeida Engenharia de Obras quem construiu a sede da PF em Macapá, no Amapá. O prédio foi inaugurado em 2014, ao custo de 21,4 milhões de reais. A empresa realizou várias outras obras no Amapá. Seu dono, Cecílio do Rego Almeida, nasceu bem ao lado, em Óbidos, no Pará. Mas se mudou muito cedo para o Paraná, onde fez uma conturbada carreira de político, sempre sustentada por contratos com governos.

Sábado, 19 Março 2016 16:57

Vale perde R$ 44 bi e fica mais ameaçada

Escrito por Lúcio Flávio Pinto

A Vale teve um prejuízo líquido de mais de 44 bilhões de reais no ano passado, depois de conseguir um lucro de R$ 954 milhões em 2014. Esse péssimo resultado se agravou no último trimestre de 2015, quando o prejuízo alcançou R$ 33 bilhões, quase sete vezes superior ao registrado entre outubro e dezembro de 2014.

No total, a perda supera em mais de sete vezes o rombo que a Petrobrás declarou ter sofrido em 2014 por causa do esquema corrupto que funcionava na estatal brasileira do petróleo para o pagamento de propina através do superfaturamento de contratos. É também três vezes maior do que o orçamento do Estado do Pará, em cujo território está a mina de Carajás.

A empresa alegou que a redução em mais de R$ 45 bilhões no lucro líquido deveu-se, principalmente, à menor margem Ebitda (o lucro antes das despesas com juros, impostos, depreciação e amortização), aos maiores ajuste contábeis registrados em 2015 e ao efeito negativo nos resultados financeiros da depreciação do real contra o dólar, de 47% em 2015.

Esses ajustes contábeis de ativos e de investimentos, assim como o reconhecimento de “contratos onerosos”, somaram mais de R$ 36 bilhões no ano passado. Os ajustes foram necessários em virtude da redução significativa nas premissas de preços que são utilizadas em tais testes, explicou a mineradora na mensagem que acompanha suas demonstrações financeiras.

A geração de caixa no ano passado medida pelo Ebtida foi de R$ 23,654 bilhões, recuando 24% em relação a 2014. A receita operacional líquida somou R$ 85,499 bilhões, queda de 3%. No quarto trimestre houve ligeira recuperação, de 2%, com receita líquida de R$ 22,681 bilhões, um aumento de 2% sobre o último trimestre do ano passado, mas uma queda de 3% face ao terceiro trimestre.

Esses números altamente negativos se impuseram apesar de a Vale ter batido o recorde de produção de minério de ferro, seu principal produto, que chegou a 346 milhões de toneladas (130 milhões em Carajás), um crescimento de 4,3% a mais do que em 2014 e acima da meta de produção estabelecida para 2015, que era de 340 milhões de toneladas.

Depois de perder R$ 44 bilhões, mesmo com todas as complicações contábeis e cambiais, a Vale manterá – ou, mais do que isso, incrementará ainda mais – essa estratégia?

O dado mais preocupante é a dívida bruta da empresa, que bruta totalizou 28,853 bilhões de dólares em 31 de dezembro de 2015, praticamente o mesmo valor do final de 2014, que foi de US$ 28,807 bilhões. É o equivalente a quase 120 bilhões de reais. A empresa só poderia quitá-la se dedicasse um ano e meio da sua receita operacional líquida inteira, uma mera hipótese inviável diante do prejuízo brutal que sofreu. Após o pagamento de dividendos no valor de US$ 1,5 bilhão em 2015, a dívida líquida totalizou US$ 25,234 bilhões contra US$ 24,685 bilhões em 31 de dezembro de 2014. A posição de caixa em 31 de dezembro de 2015 totalizou US$ 3,619 bilhões. O prazo médio da dívida foi de 8,1 anos com um custo médio de 4,47% por ano.

Essa dívida foi formada durante a presidência do banqueiro Roger Agnelli, à frente da empresa pelo mais longo período da história da companhia. Obsecado em transformá-la na maior mineradora do mundo, com presença em todos os continentes, ele a endividou para fazer pesadas aquisições, por preços elevados, sem os resultados pretendidos.

A nova diretoria está tendo que vender ativos para fazer caixa exatamente quando seu principal produto, o minério de ferro, entrou em queda livre. Pagou caro e agora recebe pouco nessas transações. Mesmo pagando as prestações, o principal da dívida permaneceu o mesmo. A que mais a Vale precisará se submeter para não ser atropelada por essa imensa bola de neve?

A resposta não vai esperar pelo tempo. Ela já está sendo cobrada, talvez intramuros, em conversas sussurradas. Convém ficar alerta.

Lula ao natural
Sábado, 19 Março 2016 12:08

Lula ao natural

Escrito por Lúcio Flávio Pinto

De volta de uma das idas aos Estados Unidos, trouxe um volume que ocupou a maior parte da minha bagagem: a transcrição completa das gravações que o presidente do país, Richard Nixon, fez - secretamente - das suas conversas no Salão Oval da Casa Branca, em Washington. Levei alguns meses para dar conta das milhares de páginas, entre a degravação e documentos acompanhantes. Mas valeu a pena.

O escândalo de Watergate se tornou uma das minhas obsessões. Nunca consegui me satisfazer com as explicações dadas para a prática suicida de Richard Milhous Nixon, um dos mais marcantes presidentes da história americana. Talvez o mais completo. Mesmo rústico, um dos mais indecifráveis e surpreendentes.

Sua maior mágoa foi ter sido derrotado por John Kennedy, o jovem, bonito e impressionante candidato do Partido Democrata. Foi por uma diferença mísera de votos. E por um erro fatal de Nixon diante das câmeras de televisão, no primeiro debate presidencial transmitido para todo país por esse novo e revolucionário meio de comunicação.

Nixon parecia derrotado de vez, mas reagiu e conseguiu vencer uma disputa seguinte, Melhor ainda: na reeleição, obteve a maior de todas as vitórias de um candidato presidencial. Por que arriscar seu belo capital com a ridícula espionagem na sede de campanha dos democratas num prédio em Washington chamado Watergate (que fui visitar por inteiro quando lá estive)?

Depois disso, por que gravar na íntegra as conversas na dependência mais reservada da sede do governo americano, inclusive as que podiam comprometê-lo? Quando a espionagem foi revelada, descobriram-se também as dezenas de fitas. Uma a uma, Nixon teve que enviá-la ao juiz John Sirica, que presidia o processo, instigado pelo procurador especial que acompanhava o caso.

À medida que chegavam aos destinatários, elas foram formando a corda eletrônica para Nixon se enforcar. Restou-lhe renunciar, o primeiro presidente americano a cometer esse ato, impensável num país de guerreiros brutos, para não sofrer o impeachment.

As fitas, que também ouvi, na Biblioteca do Congresso, são um dos mais pungentes e misteriosos documentos humanos. Uma pessoa honesta que as ouvir chegará ao fim da audição mais perplexo e impressionado do que antes de encará-las.

Já ouvi duas vezes todas as gravações de conversas do ex-presidente Lula. Vou ouvi-las ainda outra vez. Mutatis mutandi, nelas Lula se revela assemelhado a Nixon, também de origens humildes, atormentado na família, hostilizado ao pai (ao qual também era hostil), imensamente grato à mãe, querendo ser charmoso e leve (quando era feio e moralmente pesado), um estadista.

Apesar dos seus golpes sujos, da sua linguagem chula, do abuso de poder que lhe parecia uma tentação incontrolável, do inquisidor maccarthista, Nixon foi um estadista. Praticou iniquidades no Vietnam, como seus antecessores, mas foi muito mais afirmativo do que Johnson, que tinha o perfil do homem decidido inexistente em Nixon. Foi à China, estabeleceu comunicação vis-à-vis a União Soviética e etc.

O Lula das gravações é uma versão diferente de uma matriz parecida: desbocado, sarcástico, arrogante, falso, presunçoso, ególatra, autocrata e uns outros tantos adjetivos em circulação em torno dessas gravações. Não há dúvida de ser um político carismático, envolvente, sedutor, arguto até a alma, um Macunaíma que nunca leu a formulação literária desse herói sem caráter que lhe serve de tipo ideal (e o que Lula efetivamente leu, sem que, com essa lacuna inaceitável, tenha perdido em aprendizado empírico e premonição de predestinado).

Na sua progressão de grandeza até a mitologia, mitomania e megalomania, Lula só não estava preparado para a reversão das aparências, para a desconstrução da imagem que lavrou meticulosamente, de forma competente, quase perfeita. Mas é no quase que se infiltra a condição humana.

O Lula dos telefonemas grampeados pode ser o Lula que ficará na história, não o amável comandante que trata os interlocutores por querido (por mera tática de sedução na maioria das vezes, como de regra nessas pessoas ardilosamente afetivas e intimistas), que fala a linguagem do povo, que se livra das enrascadas, que é obstinado, inteligente o bastante para colocar um banqueiro brasileiro que se internacionalizou num mercado selvagem para arranjar dinheiro e gerar confiança, enquanto ele fazia o que gosta: ajudar o povo e se associar aos riscos, incorporando seus hábitos, imaginando se tornar um igual a eles graças à abertura desbragada dos cofres públicos.

O Lula flagrado ao natural é um embuste, uma figura que se depravou pela mutação dos seus grandes méritos em enormes vícios. É o Luiz Inácio da Silva que ficará, numa frustração de estadista que amargou os anos finais de Richard Milhous Nixon.

À margem da história, de Euclides da Cunha, em sua terceira edição
Domingo, 06 Março 2016 10:55

A Amazônia de Euclides

Escrito por Lúcio Flávio Pinto

A 2ª edição de À margem da história, o último livro predominantemente amazônico de Euclides da Cunha, saiu em Portugal (com a grafia de marjem), em 1913, quatro anos depois da morte do autor e da sua primeira edição, publicada no Brasil. Foi pelo selo da Livraria Chardron (uma das mais belas do mundo, na cidade do Porto), de Lello & Irmão Editores, fundada em 1868 e estabelecida na rua das Carmelitas. Foi o sexto livro de Euclides.

Certo João, que registrou seu ex-libris (através de carimbo manual) na folha de rosto do livro, o comprou em 29 de agosto de 1913, no Brasil, por quatro mil e quinhentos reis (ou R 4$500). Seu proprietário seguinte foi ninguém menos do que João Afonso Mendes, irmão do professor e escritor Francisco Paulo Mendes, em 1935. O volume chegou às minhas mãos por compra feita em um sebo de Belém.

Ao fim do primeiro artigo, Euclides formula o que hoje seria chamada de “agenda positiva”, ainda válida nos nossos dias:

“Dela [Amazônia] ressalta impressionadoramente a urgência de medidas que salvem a sociedade obscura e abandonada; uma lei do trabalho que nobilite o esforço do homem; uma justiça austera que lhe cerceie os desmandos; e uma forma qualquer do homstead que o consorcie definitivamente à terra” (isto é, uma lei que valorize o trabalho como forma aquisitiva da propriedade).

O autor de Os sertões viu Belém de um século atrás (“uma cidade de dois anos sobre uma tapera de dois séculos”) transformada “na metrópole da maior navegação fluvial da América do Sul”.

As estradas de penetração nas áreas de terra-firme e de integração (e submissão) da Amazônia aos centros dominantes do país interromperam a continuidade histórica regional e acabaram com o mundo dos rios. De tal maneira que se pensa em adicionar uma ferrovia de 1.400 quilômetros a uma estrada de rodagem sem pensar no rio Tapajós. Não como mera via de escoamento de uma carga de grãos de origem externa (e destino também externo), que pode chegar a 30 milhões de toneladas anuais, à custa de um investimento de quase 10 bilhões de reais, Mas como um dos itens da projeção visionária de Euclides da Cunha, às vésperas do seu desaparecimento.

Os filhos dos pais

O livro estava a 50 reais na seção de obras raras do sebo paulista na área da praça da Sé, ponto de concentração deles. O motivo foi assinalado pelo livreiro, a lápis, como convém sempre: “Autografado pelo Autor”. Era verdade: lá estava a assinatura de Luiz Viana (Filho) à sexta edição, revista e ampliada, de A vida de Rui Barbosa (da Companhia Editora Nacional, de São Paulo, com 454 páginas).

Só por isso já valia os 50 reais. O livreiro, porém (e felizmente), só atinou para a assinatura do autor. Não prestou atenção aos destinatários da gentileza, perpetrada no Rio de Janeiro, no dia 1º de janeiro de 1960, o mesmo ano de lançamento da nova edição da biografia do grande Rui, baiano como Viana Filho. Ele escreveu: “Aos bons amigos D. Carolina, D. Mariana, e Embaixador Maurício Nabuco, com a amizade e o agradecimento de Luiz Viana”.

Os três, filhos de outro grande homem público nordestino, o pernambucano Joaquim Nabuco (1849-1910), dos maiores que já teve o Brasil. Dele tenho quase todas as primeiras edições dos seus livros, incluindo os dois mais importantes, que todo brasileiro culto devia ler. O volume da obra devia servir mais como fator de atração do que de rejeição de Um estadista do império, através do qual o filho faz a biografia do pai, José Tomaz Nabuco de Araújo Filho, chegando também ao avô, que teve participação na cabanagem, em Belém. Tornou-se modelo para as melhores biografias e autobiografias, inclusive as Minhas Memórias, de Joaquim Nabuco.

Dos três filhos que foram ao lançamento da biografia de Rui por Luiz Viana conheço melhor Carolina. Suas pretensões literárias são legítimas, de melhor resultado do que a hagiografia do pai e suas próprias memórias. Filhos de pais incontestavelmente excepcionais ou raros terão sempre dificuldade ao procurar um caminho próprio. Quando não tomarem o ascendente por parâmetro, o público tratará de fazer a comparação – e de forma gravosa. A busca pela identidade e autonomia costuma se frustrar. De forma tanto mais profunda quanto for a grandeza do pai, do que é exemplo definitivo Vilma Guimarães Rosa, mal sucedida repetidora da inventiva de João Guimarães Rosa.

Se esses filhos não tivessem tido como pai essas figuras, certamente conseguiriam melhor reconhecimento ao seu talento. E talvez pudessem ser mais felizes também.

O preço do livro

Uma dica para os frequentadores de sebos. Ao pegar o volume de Luiz Viana (de quem voltarei a falar em outra oportunidade), tratei de buscar mais volumes na minha caçada, a coisa mais deliciosa que se pode fazer num sebo (ou garimpagem, ou pescaria, conforme o gosto). Com uma quantidade considerável de volumes, propus ao livreiro que desse um desconto melhor à biografia de Rui. Depois de chegar à soma final, ele aceitou conceder 50%. Fechamos negócio imediatamente.

Ele, por ter faturado pelo conjunto da venda. Eu, por ter levado um livro raro pelo preço de uma obra comum. Ainda mais com excelente encadernação, pela qualidade do material utilizado e porque o encadernador, demonstrando sabedoria, preservou a capa original do livro. Não é incomum de ser a capa o componente mais precioso da obra, como nas antigas edições da José Olympio calorizadas por Santa Rosa.

O negócio é bom quando é bom para quem vende e para quem compra, eventualmente para desespero do olheiro (ou urubu) que espicha olhar invejoso para a transação, para ele delituosa por uma razão: não foi o beneficiário. Esse olhar e esse dono do olhar são frequentes nos sebos. Mas não chegam a perturbar os participantes desse momento culminante do processo: a fixação do preço. Não há internet que supere essa sensação.

Para onde vai Lula?
Sexta, 04 Março 2016 15:58

Para onde vai Lula?

Escrito por Lúcio Flávio Pinto

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi vítima da estratégia de "violência injusta, injustificável, arbitrária e ilegal", montada pela Polícia Federal, conforme afirmou em nota o Instituto Lula? Ou serviu de pretexto para uma pirotecnia que se tornou um show midiático, conforme se queixou o próprio Lula?

Se eles tiverem razão, a condução coercitiva do antecessor da atual presidente Dilma Rousseff acabará por se transformar em capital político, que ele poderá usar até 2018 para se apresentar a um inédito terceiro mandato por eleição direta.

De fato, do ponto de vista estritamente técnico, o que a Polícia Federal realizou hoje foi excessivo. Os críticos da iniciativa alegaram que Lula sempre compareceu quando convidado a prestar esclarecimentos ou mesmo depor. Ele tem endereço fixo e, além de tudo, foi presidente do Brasil por oito anos, até 2010.

A condução por força policial, ademais, não foi precedida de qualquer intimação. Só em caso de recusa, o recurso mais drástico seria necessário. Mesmo tendo recorrido para não depor, ele teria direito a uma segunda chamada voluntária.

A 24ª etapa da Operação Lava-Jato discrepou das anteriores no sentido de que teve a deliberada intenção de testar o ambiente e fazer uma primeira abordagem mais agressiva a Lula. Mas foi exagerado o argumento de que a condução forçada teria sido decidida pelo receio de provocar uma comoção social. Os tumultos foram belicosos por causa da radicalização dos contendores, a favor e contra o ex-presidente, não pela sua dimensão – ao menos até agora.

Ao contrário do que disseram os lulistas, mesmo que tenha pecado pelo exagero e até pelo excesso de rigor, a condução do ex-presidente não foi arbitrária nem ilegal. Ela teve origem em mandados expedidos pelo juiz Sergio Moro, que preside processos nos quais Lula é referido, apontado, acusado e objeto de indícios de crimes.

Desta vez Moro teria se deixado levar por impulsos subjetivos de uma prevenção contra Lula ou de seu partidarismo tucano? É difícil acreditar que ele tenha cometido esse erro depois de dois anos de uma condução sem igual de uma ação no judiciário brasileiro, com o suporte de assessores, procuradores da república e policiais federais.

Talvez o que ele tenha feito realmente foi um teste sobre o passo seguinte: a prisão do ex-presidente Lula. Se for coerente com sua trajetória até aqui, ele só dará esse passo dramático se estiver seguro de que não se sujeita a um corretivo e mesmo uma reprimenda na instância superior.

Quanto à comoção social, não parece estar no seu visor imediato. Ele estaria com a sua convicção intacta. Foi com ela que conseguiu o referendo da instância superior para 90% das suas ações, contestadas por recurso dos réus.

É claro, porém, que a derradeira tábua de salvação de Lula, Dilma e do PT está na interpretação política do episódio. Os petistas e seus aliados trabalharão a partir de agora para projetar a imagem de Lula como o "injustiçado" e o "perseguido pelas elites e pela mídia golpista". Mas ela só colará no público se as suspeitas que levaram o juiz Moro a mandar conduzir um ex-presidente da república forem infundadas, frágeis, sem provas ou evidências legítimas.

Se o material já existente e o que hoje está sendo levado para Curitiba forem robustos, esse papel de vítima política não prevalecerá. Pelo contrário, o político que deixou a presidência com 80% de aprovação e foi celebrado como estadista, “o cara”, será despejado para o lixo da história.

Um preço como jamais se imaginou que dele seria cobrado, mas com um agravante: também a sociedade partilhará a quitação dessa dívida – ninguém sabe por qual valor, por quanto tempo ainda e em troca do quê.

O Brasil vive um momento raro da sua história. Ainda não sabe como defini-lo

Domingo, 28 Fevereiro 2016 18:08

Dinheiro desviado do Xingu e Carajás

Escrito por Lúcio Flávio Pinto

O Ibama e o ICMBio, dois institutos federais vinculados ao Ministério do Meio Ambiente, desviaram para Mato Grosso 71% do valor da compensação ambiental devida ao Pará pela construção da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu. Dos 126 milhões de reais do valor total, 92 milhões foram destinados a o Parque Nacional do Juruena, área protegida que fica a 814 quilômetros de distância do empreendimento.

Somente R$ 6,5 milhões foram reservados para a criação de novas áreas protegidas na região impactada pela usina e R$ 27,5 milhões para áreas protegidas dentro do Pará.

Esse desvio poderia acontecer também com as compensações devidas pela Vale por seu novo projeto de mineração de ferro em Canaã dos Carajás, no valor de 14,4 milhões de dólares. O dinheiro seria aplicado no Estado do Tocantins.

A revelação, feita pelo secretário de Desenvolvimento Econômico, Mineração e Energia, Adnan Demachki, e pelo presidente da Fapespa (Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas do Pará), Eduardo Costa. Eles falaram durante a posse dos novos diretores do Conselho Regional de Economia, na semana passada, na Associação Comercial do Pará. Admitindo que o remanejamento dos recursos não é ilegal, o consideraram imoral.

Apesar do tom acusatório, a denúncia parece não ter repercutido no próprio Pará.

COMENTÁRIO DE BERNARD TORRES

De fato, mais uma vez o erro (roubo) se repete na compensação do S11D. Segundo uma fonte que tenho no próprio projeto, quase toda a compensação será para UC,s do Tocantins. A menor parte ficará no Pará, e o que é pior, nada para a área de influência direta do empreendimento. E olha que esse dinheiro ajudaria e muito na regularização fundiária da FLORA Carajás, que até hoje possui propriedades em posse de terceiros (um grande bananal, por sinal), que ao que parece, não incomoda em nada o ICMBio.

Penso que o processo poderia ser mais transparente e participativo. Eis algumas sugestões:

1) Isonomia no comitê de destinação dos recursos da compensação, através de sua composição que deveria ter apenas um representante de cada estado

2) Que o tema fosse debatido na audiência pública, junto à sociedade, para que ela opinasse e indicasse UC,s a receber os recursos;

3) Ou tornando obrigatória a consulta ao Estado (ou Estados) da área de influência direta, quanto a existência de UC,s carentes de recursos.

Por fim, penso ainda que merece a atenção o fato dos recursos da compensação serem destinados apenas para unidades de conservação, o que acaba dando compensação apenas para os meios físico e biótico. Já passou da hora do IBAMA considerar o aspecto social na compensação, permitindo o uso de recursos para projetos desta natureza, que dependendo da região são muito mais relevantes.

Sexta, 26 Fevereiro 2016 16:34

Jornalismo contra fanatismo

Escrito por Lúcio Flávio Pinto

Sob o título “'Fanatismo é empobrecedor', diz jornalista do Pará ameaçado de morte”, com texto de Fernanda Mena, a Folha de S. Paulo on-line divulgou uma entrevista que concedi à margem do seminário realizado pelo jornal para comemorar seus 95 anos. Como a entrevista foi bem mais longa, a necessidade de síntese sacrificou o desenvolvimento do raciocínio. Limito-me, porém, a uma correção: o Jornal Pessoal teve – mas não tem mais há muitos anos – assinaturas.

Políticos, empresários, madeireiros, grileiros e narcotraficantes. A lista dos que enxergam o jornalista Lúcio Flávio Pinto, 66, e seu "Jornal Pessoal" como oposição —ou até como inimigo— é longa e bem variada.

Criador do quinzenário sobre a região amazônica, que circula desde 1987 em Belém (PA), Pinto é o único jornalista brasileiro na lista dos profissionais mais importantes do mundo da ONG Repórteres Sem Fronteiras e coleciona prêmios internacionais.

Dos 33 processos que sofreu no Brasil pós-ditadura, 19 foram movidos pelos donos do grupo de comunicação O Liberal, para o qual já trabalhou. "Tive de me tornar meu próprio advogado. Queriam extinguir o 'Jornal Pessoal' por meio da minha exaustão", afirma.

Leia trechos da entrevista.

Folha – Qual é a importância do jornalismo profissional?

Lúcio Flávio Pinto – Nada resiste a uma boa investigação. Não existe mistério. Se há um fato, você chega a ele. É uma competência.

Por que criou o "Jornal Pessoal?"

Criei o jornal sozinho porque não podia pagar ninguém. Decepcionado com a grande imprensa, criei uma linha editorial que torna meu jornal único: não aceita publicidade.

Como ele se financia?

Com assinaturas e venda. Se o leitor não comprar, acaba. É quinzenal e custa R$ 5, ou seja, é mais caro que os outros jornais. É quase artesanal. Não tem fotos, não tem cor. O jornal é denso e publica coisas que outros não publicam.

Dê um exemplo.

A maior empresa privada do Brasil é a Vale. Ela tem 30 clientes. Por que anuncia como uma varejista? Para conseguir, no mínimo, a simpatia da imprensa. Em 2005, a Vale foi a empresa que mais distribuiu dividendos no mundo. Ninguém deu isso. Estava no balanço da empresa. Era preciso saber ler um balanço. Fiz a primeira série de reportagens sobre a chegada do narcotráfico internacional ao Pará. Fui o primeiro jornalista que registrou a penetração da China na Amazônia, em 2001.

Essas reportagens não saem em outros lugares por falta de profissionais qualificados ou de compromisso dos veículos?

Há três coisas. Primeiro, a ideia de que a região amazônica é exótica e deve ser tratada como tal. Segundo, o comprometimento dos veículos de Belém, que nunca publicam nada sobre a Vale, por exemplo. Em terceiro lugar está a covardia do jornalista. Há um abastardamento da profissão.

A partir do momento em que o jornalista, que era empregado, passa a ser empresário, ele pensa dez vezes antes de pôr em risco a relação entre sua empresa e a empresa jornalística que o contrata. O compromisso passa a ser com essa relação.

A mídia dita alternativa cunhou a sigla PIG, Partido da Imprensa Golpista. Por que discorda do termo e de seu uso?

Primeiro porque leio a grande imprensa e porque as informações mais importantes estão ali, e não na internet, no Twitter e nos blogs.

Uma coisa que os donos de jornal aprenderam é que não vale a pena participar de conspirações, porque elas liquidam com a credibilidade da empresa. É algo que eu investigo: tem dono de empresa jornalística articulado? Não tem.

Agora, eles não gostam do Lula, não gostam da Dilma. Embarcam em teses como o impeachment, que eu acho uma besteira. Mas não se trata de imprensa golpista. Golpista é uma palavra grave.

Qual o problema desse discurso?

Ele cria uma teoria conspirativa. O que não é o cânone da esquerda e do PT vira golpista.

Os blogueiros me homenagearam várias vezes, então eles não podem me atacar porque eu sou oposição. Reclamam que falo muito do PT. Mas o PT está no governo!

Não adianta centrar fogo no PSDB, eles não estão no poder. Nós temos que centrar fogo no poder porque o poder não é democrático. O fanatismo é empobrecedor.

Você já enfrentou ameaças de morte. Como lidou com elas?

Meus inimigos, aqueles que gostariam de me calar, sabem que eu posso ter informações dessa intenção deles. Quando a ameaça tem consistência, vou atrás e faço o cara saber que eu sei.

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