Terça, 20 Maio 2014 08:11

Torcer a favor ou contra?

Escrito por Ruth Rendeiro

Impossível ficar apático, fingir que nada está acontecendo. Aceito que há uma lista enorme de motivos para os mais críticos e atentos torcedores manifestarem-se contra a Copa e até mesmo afirmarem, com veemência, que não vão torcer pela nossa Seleção. Mas eu, sinceramente, sei que não conseguirei evitar uma TV e bons gritos de vai Brasil!

O ideal seria não precisarmos conhecer, diariamente, todos os imbróglios que marcam o mais importante torneio de futebol do planeta, com a sua vigésima edição no Brasil. Nenhuma notícia fica sem um porém. Inaugurado o novo estádio X, mas sem as arquibancadas cobertas, sem os estacionamentos, sem as cabines para a Imprensa ou sem a infraestrutura de acessocompromissado com a Fifa e que facilitaria a vida dos torcedores.

Recursos demais para embelezar o muito que poucos terão o privilégio de conhecer de perto. Ingressos custando o inacessível ao povo brasileiro e o País em descrédito no restante do mundo. Não tem palavra, é desorganizado, corrupto e muitos outros adjetivos que ratificam o que muitos países já pensam de nós. Pode parecer chavão, mas como não se sentir incomodado com os montantes investidos para usufruto da minoria enquanto a maioria quer apenas um médico no posto de saúde, poder andar na rua sem ser assaltado ou ter uma cadeira para sentar e um professor para ensinar seus filhos?

Uma torcida pela metade. Inevitável, contudo, não se arrepiar, não se emocionar quando o Hino Nacional começar a tocar ou quando o primeiro gol invadir a nossa tela. O humor vai depender muito das últimas notícias.

A mãe dos jogadores
Domingo, 11 Maio 2014 10:03

A mãe dos jogadores

Escrito por Ruth Rendeiro

Muito se fala na mãe dos juízes, principalmente os de futebol e nada mais atual, neste momento, do que falar de futebol. Mães desconhecidas e tão xingadas. Mas e as mães dos nossos  superatletas prestes a parar o País? Esses quase adolescentes que desde cedo deixam seus lares em busca de um sonho? Alguns têm uma boa dose de sorte que se alia ao talento e logo conquistam a fama, a independência financeira e retribuem a ausência com bens materiais. As mães devem comemorar, mas nem tanto.

Muitas nem viram seus filhos cresceram. Eles estavam nos times de base enquanto viravam homens. Perderam as crises dos adolescentes que todos queriam homens fortes, musculosos e adultos nas decisões. Quantos aniversários passaram um longe do outro? Quantos Dias das Mães foram obrigadas a abdicar em nome dos contratos? Quantas febres foram impedidas de curar e quantos pratos da infância deixaram de ser degustados em nome da boa forma, da rigidez das tabelas nutricionais?

Quando vejo, pela TV, um jogador se machucar, principalmente os que precisam sair do campo, os que têm convulsões, sangram ou não retornam, coloco-me no lugar delas. Como devem sofrer! Como desse ser angustiante! O filho não se mexe ou se contorce de dor e ela a centenas ou até mesmo milhares de quilômetros... Só resta rezar.

Mas hoje, no Dia das Mães, até as mães dos juízes esquecerão os palavrões, as ofensas e serão apenas mães. O ser mais complexo do universo. Ama incondicionalmente, superprotege e sofre na mesma proporção que é feliz. Mãe é um ser inexplicável.

Minha primeira copa
Domingo, 04 Maio 2014 09:15

Minha primeira copa

Escrito por Ruth Rendeiro

A primeira Copa a gente nunca esquece. Tinha 13 anos e pela primeira vez me interesseipor futebol. 1970, a melhor seleção de todos os tempos, ouço repetidamente desde sempre. México, Brasil tricampeão. Leão e suas belas pernas. Zagalo como treinador. Rivelino e seu bigode...

A avenida Conselheiro Furtado, em Belém, também conhecida como a baixa da Conselheiro, assim como toda a cidade, se enfeitou para a grande festa. Bandeirinhas verdes e amarelas, rabiscos nos muros lembravam os jogadores e a Taça Jules Rimet, logo depois roubada no Brasil, e, todos, adultos e crianças, mobilizados em torno do campeonato inesquecível para muitos.

Para alguns, infelizmente, inesquecível pelo momento político do País. Torturas, desaparecimentos, censura e, para os alienados como eu, a festa nos embalava ao som da música ufanista “Todos juntos vamos pra frente Brasil do meu coração...”. Só existia a Copa, a festa. Sem porões.

Acompanhei a grande decisão no radinho de pilha do vizinho “Seu” Luiz. Obviamente não entendia quase nada. Pela transmissão cheia de ruídos, pelo desconhecimento do que se passava em campo. Mas os gritos de gol e depois de É campeãoooo reuniu a vizinhança no meio da rua e, mesmo os que nem tinham intimidade, se abraçavam, se beijavam. Pulos, fogos e muitas batidas no poste que ainda era de ferro e emitia um trimmm agudo. Uma Copa do Mundo ingênua. A pouca idade aliada à falta de informação, às restrições ao que de fato acontecia no Brasil, fizeram da Copa de 70 de fato inesquecível!

As mulheres e a Copa
Segunda, 28 Abril 2014 09:59

As mulheres e a Copa

Escrito por Ruth Rendeiro

Dizem que as mulheres não entendem nada de futebol. Raras são as que conhecem pelo menos o nome do técnico do seu time preferido. Mas quando chega a Copa elas se transformame viram experts. Sou quase uma exceção. Por isso resolvi escrever, até o início da Copa, textos que abordem a copa sob o ponto de vista feminino.

Sou uma quase exceção porque não tenho apenas um time de coração. Vibro com vários e por vários. Tenho alguns que nunca serão do coração. Ou seja: sei os que torço sempre contra. Os que torço a favor podem mudar a cada domingo ou quarta-feira.

Em Belém sou remista, mas nem um pouco fiel. Vibro quando o Paissandu vence um time de fora e como estou há cinco anos morando em São Paulo tenho mais de um de coração atualmente. Por ordem: Santos, Comercial de Ribeirão Preto (o mascote é um Leão), Portuguesa, São Paulo ...

Mas Copa é Copa. Como ficar apática diante de tanta movimentação? Como não se interessar pelas notícias sobre os que serão escalados? E as contusões que assustam? Tudo bem que esta Copa tem outras abordagens não tão interessantes. Mas este é um assunto que, de tão relevante, necessitará de uma abordagem específica.

O importante é deixar bem claro que a Copa também é das mulheres, mesmo que elas confundam o goleiro com o juiz, não saibam a diferença de um escanteio para uma lateral ou que torçam quando o gol é do time adversário porque nem repararam no uniforme da seleção brasileira. Nossos jogadores não estavam de verde e amarelo, logo, não era o Brasil. Simples assim...

Terça, 22 Abril 2014 09:01

Estupro brando

Escrito por Ruth Rendeiro

Para muitos o estupro ainda se limita à violência grotesca do sexo sem consentimento que, com a penetração, machuca, fere e traumatiza para sempre a vítima (homem ou mulher). Mas há, o que popularmente pode ser denominado, erroneamente, de estupro brando, o que, via de regra, sem violência, à surdina, envergonha a mulher, sem machucá-la. Ela se sente culpada por despertar no ser doente um desejo incontrolável e abominável como os que os noticiários têm enfatizado acontecem todos os dias nos ônibus, trens, metrôs.

A maioria sequer comenta, nega-se até a pensar no fato. Aos 16 anos eu vivi uma experiência que poucos conhecem. Menina com corpo de mulher,passeava com minha tia no Rio de Janeiro. Olhávamos, embevecidas, uma enorme vitrine de sapatos no centro da cidade. De repente sinto que alguém me apertava por trás. O local estava vazio e ao me virar percebo um homem (o rosto eu lembro até hoje, 40 anos depois) moreno, 30 anos talvez, e ao baixar um pouco mais o olhar o pênis ereto que tocava meu vestido. Nada fiz. Ele foi embora constrangido pela descoberta. Apavorada, pedi apenas para sair daquele lugar. Tive medo, asco e uma mistura de sentimentos indecifráveis eainda latentes condução ao silêncio que dói.

Nada, concordo, diante de um estupro pavoroso, onde se ultraja os mais íntimos sentimentos de uma mulher, que pode privá-la para o resto da vida do que é seu, é único: a feminilidade, o prazer do sexo. O prazer de ser mulher. Nem por isso aquele homem se apagou de minha memória.

 

Terça, 15 Abril 2014 10:02

Os homens de bem e o estupro

Escrito por Ruth Rendeiro

Como estão se sentindo os homens de bem diante da acusação velada de que dentro de todos os seres do sexo masculino existe um tarado/estuprador em potencial? Como estão se sentindo os porteiros de escolas que sempre beijaram as crianças, carregaram meninos e meninas no colo, acariciaram os cabelos da garotinha do maternal e de repente se sentem reprimidos diante do olhar acusatório do pai maldoso que não admite nenhum toque na filhinha de cinco anos? E o motorista da van escolar de repentetransvertido de mostro que ataca as crianças na primeira esquina erma?

Lembro de alguns meigos e carinhosos professores que tive. Padres que nos consolavam. Vizinhos que me abraçavam sem que a “nóia” do tarado nos perturbassem. Meus filhos também foram privilegiados. Conviveram com homens de bem, certamente ofendidos com o fantasma dos estupradores.Tios, professores, pais de amiguinhos, vizinhos tantos bons homens que deram afeto e nunca toques maldosos em seus corpos.

Obviamente que não estou induzindo a que desconsiderem o perigo. Que deixem a vigilância de lado, mas sem exageros. Nem todos os homens são os lobos maus que estão tentando transformá-los e com certeza há muitos sofrendo com esse dedo em riste em mão fechada. Um silêncio que incrimina e iguala, impossibilitados de exercerem a paternidade em sua plenitude, de demonstrarem seu carinho em gestos e de se doarem. O medo está aprisionando até o amor.

Quarta, 09 Abril 2014 11:12

É proibido de ser bonita

Escrito por Ruth Rendeiro

Shorts curtos deixando as belas pernas à mostra; decotes sensuais que embelezam ainda mais os seios fartos, vestido colado que emolduram o corpo tão bem delineado. Onde está o crime? Crime deveria ser as exageradamente feias (como diria o poeta Vinicius de Moraes) deixarem à mostra os atributos que lhe faltam. Como mulher madura, heterossexual e que luta para não envelhecer mentalmente, paro na rua, no shopping ou na praia para admirar uma bela mulher que expõe o que tem a ser contemplado. Diante da grande discussão nacional que, absurdamente, coloca a mulher como a principal responsável pelos assédios e (pasmem!) estupro, apenas porque são belas, fica a pergunta: pra que “enlindecer” se vão se esconder?

Falta apenas um político, desses alucinados que acreditam que tudo podem com a imposição de uma lei, proibir que a mulher se embeleze. Todas deverão ser gordas, usar blusas e vestidos estilo batas- saco- de- açúcar, maiôs fechados, sapatos masculinizados e nunca de saltos altos. Maquiagem? Nem pensar! Sinto-me envergonhada por saber que há pessoas e, sobretudo mulheres, que atribuem às bonitas e sensuais, o comportamento patológico de uma minoria masculina. Serão essas tão feias que chegam a odiar a beleza da outra a esse ponto? Pode ser! Afinal quanto mais belas as demais, mais feias, frustradas e invejosas essas serão. Simples assim ...

A pesquisa sobre o estupro
Sexta, 04 Abril 2014 14:50

A pesquisa sobre o estupro

Escrito por Ruth Rendeiro

 Muito já se falou e muito certamente ainda há para ser dito sobre a pesquisa que o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) fez sobre estupro no Brasil e o surpreendente (?) resultado: 65% dos brasileiros acreditam total ou parcialmente que mulheres que vestem roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas. Já há contestação sobre a pesquisa, da metodologia à formulação das perguntas, mas isso é tema para outro texto. O que importa é o alvoroço que ela causou o que indica que há um fundo de verdade. O machismo brasileiro veio à tona e, em outras palavras, ratificou: há mulheres para casar e outras para transar.

Ainda assustada e reflexiva, tento me colocar no debate, rever conceitos, atos e omissões e, sobretudo, analisar o que mudou da minha juventude, 30/40 anos atrás para os dias de hoje. Mudamos nós ou temos mais acesso às informações e por isso passamos a ter outra compreensão? Até bem pouco tempo acreditávamos que estupro era o ato selvagem, violento com penetração. Hoje, juridicamente, é muito mais do que isso, por isso é tão relevante saber exatamente que o crime de estupro consiste no fato de o agente “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”. Entre os elementos que integram esse delito está fazer com que a vítima pratique ou permita que com ela se pratique qualquer ato libidinoso. O estupro, consumado ou tentado, em qualquer de suas figuras (simples ou qualificadas), é considerado crime hediondo.

O assunto é tão polêmico e rico que escreverei outros textos sobre ele nos próximos dias.

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A fé, presente no livro, que se renova em qualquer lugar. Fotos: Ruth Rendeiro Osman Patzzi
Domingo, 23 Março 2014 08:56

O meu livro na Bolívia

Escrito por Ruth Rendeiro

Será em Santa Cruz de La Sierra a experiência pioneira de ver meu livro, lançado há três meses em Belém do Pará, ser em breve impresso em outro idioma. O jornalista e professor Osman Patzzi se encarregou de traduzir para o espanhol o que nunca me arrisquei sequer a cogitar. As palavras não são as mesmas, dizem o mesmo, mas não são iguais. A viagem a Santa Cruz no carnaval permitiu dar início aos preparativos para o grande dia. A revisá-lo junto com o tradutor. Os primeiros contatos já foram feitos, palestras agendadas e em maio o momento esperado deverá se materializar. A perspectiva é de incluí-lo na Feira do Livro da cidade, uma das mais importantes da Bolívia.

Hasta que El câncer nos separe levará a minha história, a do Manoel e dos nossos filhos, para os de língua espanhola. Curioso lê-lo dessa outra forma. Nem parece o mesmo. Foi adotado, mudou de nome, mas não deixou de ser meu. Apenas o dividi com mais alguém que coincidentemente também viveu o drama do câncer. Há dois anos o tradutor perdeu a mãe para a doença e como todos os que já vivenciaram essa dor, emocionou-se e viu-se retratado nas páginas em Português. A tradução ficou mais perfeita com o toque da emoção.

A expectativa é grande, afinal não estarei no meu País, não terei como público amigos, conhecidos ou brasileiros que compreendem minhas expressões idiomáticas, que assimilem o ocorrido neste País. Um novo desafio a enfrentar, um sem limite a percorrer e o otimismo embasado na certeza de que a dor é universal, a morte é sempre igual e o reinventar-se independe da nacionalidade. É esperar pra ver.

Rio Pirai banha Santa Cruz de La Sierra. Foto: Ruth Rendeiro
Sexta, 21 Março 2014 18:13

A natureza boliviana

Escrito por Ruth Rendeiro

Às margens das rodovias de centenas de quilômetros que levam a Corumbá, Argentina, Chile, Peru estão pequenas cidades que valem a pena conhecer pela natureza quase intacta e cenários paradisíacos, mas que exigem do viajante muito espírito aventureiro. As estradas menores são de terra, com voçorocas enormes abertas pelas chuvas. Só carros com tração nas quatro rodas arriscam-se a transitar por elas. Os Jeeps, além de vencer esses desafios, têm um simbolismo que marca a história de Santa Cruz de La Sierra. Foram os primeiros táxis a circularem pela cidade. Sem infraestrutura, ruas asfaltadas, os Willys encarregaram-se de conduzir, no início do século, os primeiros crucenhos em carros de aluguel.

A vegetação exuberante, floresta nativa e rios despoluídos chegam a tirar a respiração que encanta e para os relógios e levam ao esquecimento os solavancos da viagem e o corpo dolorido. La Guardia é uma parada quase obrigatória. Lá de cima é possível ver Santa Cruz ao longe semiencoberta pela neblina. O desafio maior é encontrar um lugar plausível para almoçar. São poucas as opções. Frango frito com macarrão ou macarrão com frango frito. Em seguida outra cidade do mesmo porte. El Torno, igual a qualquer pequena cidade amazônica. A praça é o centro de tudo: lan house, lanchonete, igreja e muitos moradores descansando ou casais namorando. Mais distante dela está de novo o rio Piraí. O mesmo que corta Santa Cruz de La Sierra. A mesma chuva que amolece a terra causa tanto estrago e carrega as margens do velho Piraí deixando à mostra o barro e as árvores que ainda bóiam. No caminho um pequeno cemitério. Coroas de flores de plástico em cores fortes lembram mais uma ornamentação festiva do que a dor.

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