A típica senhora boliviana vendendo frutas na praça Palácio do Governo de Santa Cruz de La Sierra(na foto abaixo)
Segunda, 17 Março 2014 08:25

Seis (intensos) dias na Bolívia

Escrito por Ruth Rendeiro

Motivos diversos me levaram neste carnaval à Bolívia. A possibilidade de lançar meu livro, em espanhol – Hasta que El câncer nos separe – na feira do livro de Santa Cruz de La Sierra, em maio, foi um deles. Fui conhecer o país que tem a maior fronteira com o Brasil (quase quatro mil km) e que conhecemos tão pouco. Está aqui do lado, mas, talvez por ser um dos mais pobres da América do Sul, o preconceito nos impeça de enxergá-lo. Mas eu quis ir vê-lo e não me arrependi. É para contar boa parte do que vivi, vou escrever esta série.

Já conhecia uma de suas maiores curiosidades: ter duas capitais. La Paz, a que aprendemos na escola é onde está a sede do governo e a capital administrativa. Mas tem também Sucre, a capital constitucional, judicial e ainda a cidade mais rica e populosa, Santa Cruz de La Sierra, onde fiquei. Ela lembra (e muito) Belém do Pará, onde nasci e vivi por mais de 50 anos. Uma cidade de contrastes. Ruas bem arborizadas, repletas de belos cafés e bons restaurantes e uma periferia cheia de gente, cachorros perambulando em busca de sobras de comida, motos em abundância e cheiro de urina nos pés das árvores.

Assim como os belemenses, são atenciosos com os visitantes e se esforçam para entender o pobre portunhol (ou será espanhês?) da brasileira atrapalhada com a língua. O diferencial está na quase total falta de curiosidade. A diversidade do povo talvez seja a explicação. Andam lado a lado, as tradicionais mulheres com suas roupas multicoloridas, saias abaixo dos joelhos, com muitos panos franzidos, longos cabelos negros e trançados e seus chapéus e as jovens de bermudas, blusas sem manga e celulares nas mãos. A maioria fala espanhol, mas duas línguas indígenas também são consideradas oficiais: o aimará e o quíchua. Eles se entendem, mas os visitantes não.

Fotos: Ruth Rendeiro/Osman PatzziFotos: Ruth Rendeiro/Osman Patzzi 

 

 

Hora dos exames
Quarta, 12 Março 2014 09:58

Hora dos exames

Escrito por Ruth Rendeiro

Pânico total. Quem necessita periodicamente se submeter a exames e mais exames sabe do que eu estou falando. Sejam laboratoriais ou de imagem eles são sempre assustadores. Nos viram do avesso em busca do que aprofundar, ir mais além nas pesquisas. Ultrassonografias, mamografia, ressonância, citilografia e mais sangue, urina, fezes e cada um desses com nome e sobrenome que só aumentam o medo. Poucos entendem o que significa, o que só aumenta a apreensão.

Há quase sete anos submeto-me às máquinas e seus sons aterrorizadores. A cada invasão a expectativa de que um novo tumor pode ter surgido e de novo mudará a minha vida, de novo afastará a felicidade para o lado e deixará reinar apenas o temor pelo futuro incerto. Quase nunca doem, alguns poucos no mázimo incomodam, mas o que causam no dia a dia do paciente é assustador.

O primeiro, o exame clínico em que o médico apalpa, aperta, toca e, com o ar compenetrado e sisudo, transforma dez minutos em dez horas, é o teste de resistência. Em seguida vem a enorme lista e um pula-pula entre clínicas e laboratórios. Mas o pior ainda não chegou. O dia do resultado se assemelha à entrega da condenação à morte. O medo faz o coração acelerar, as noites ficarem longas e a vista não reconhecer palavras. Em um dos exames estava “ausência de carcinoma”. O desespero era tamanho que a ausência de repente sumiu. Palidez e lágrimas prontas a serem derramadas. Uma nova leitura e finalmente a comemoração: mais seis meses livre dos monstros que muitas vezes salvam.

Segunda, 10 Março 2014 16:52

Mau humor constante

Escrito por Ruth Rendeiro

Certamente você conhece alguém que reclama de tudo e de todos. Aquele que fica irritado quando chove e lamenta porque há três dias não chove. O que vai a um bar e só falta bater no garçom porque a cerveja está gelada demais – “quase congelou”- ou que ela está tão quente que espumou. Ou eu estou mais observadora ou o número dos mal humorados aumentou consideravelmente.

O supermercado é um dos principais muros de lamentações que conheço. O preço subiu, a batata está estragada, a couve muito murcha e a carne não tão fresquinha. Nem mesmo quando algum produto baixa de preço ou a maçã está suculenta e apetitosa se ouve algum elogio. Uma frase que seja de efêmera alegria.

O táxi está com mau cheiro, o pão adormecido e o vizinho escuta música alta demais. Ahhh os vizinhos! Esses são os personagens preferidos dos mal humorados. Se cantam incomodam, se brigam não permitem que se durma. Se ele tem um cachorrinho então! E uma criança? Como impedir que um cachorro deixe de latir ou que um bebê chore? A moto é barulhenta, o sapato da vizinha de cima tem um saldo que inferniza e o garotinho de cinco anos adora brincar de peteca (bola de gude). Começo a achar que não são os barulhos, a cor da maçã ou a temperatura da cerveja que precisam mudar, mas os mal humorados. Uma cerveja nem tão gelada ou uma couve murcha passam imperceptíveis se você estiver feliz. Experimente!

 

Sábado, 01 Março 2014 22:15

Viajar... viajar ...

Escrito por Ruth Rendeiro

Desde muito cedo descobri que passear era um dos meus maiores prazeres. Sair para qualquer lugar. Ia, com a minha avó e tia, para todos os cantos. Não queria nem saber para onde. Mas ia. Mesmo com muito medo de avião, viajei demais. Percorri milhares de quilômetros de estradas semiasfaltadas ou de terra batida. Fiz Belém-Rio de Janeiro na década de 70. Belém-Salvador na década de 80 e outras tantas viagens pelo Pará e fora dele, sempre de ônibus e depois que o medo de voar me abandonou, ninguém mais me segura.

Conhecer lugar e se encantar com eles e pessoas tão diferentes encantam e ensinam. Da Torre Eiffel em Paris ou na colônia de pescadores em Ajuruteua o que vale a pena é se entregar, deixar que o novo te domine. Quem não gosta de mudar e não se permite experimentar um conselho: é melhor não sair de casa. A zona de conforto o protegerá, inclusive de crescer.

Em breve estarei de novo indo em busca do desconhecido. Um lugar que tenho poucas informações, um povo que não tenho intimidade, uma cultura que certamente me surpreenderá e me encantará. Sem pensar muito, sem racionalizar demais. Riscos? Sempre haverá. Decepções? Podem acontecer. Mas jamais saberemos se não experimentarmos, não ousarmos. Na bagagem muita expectativa e bons motivos para não temer demais e acreditar que será um passeio com interrupções para pequenas reuniões de trabalho, que valerá muito a pena. Quem sabe pode até se tornar inesquecível. 

Terça, 25 Fevereiro 2014 11:04

Enterrar ou cremar?

Escrito por Ruth Rendeiro

Falar da morte é sempre um assunto que a maioria evita. É como se fosse agouro tratar desse momento inevitável e certo. Todos morreremos um dia. Todos! E fugir do tema não nos livrará dessa decisão inadiável. Poucos se preocupam com o dia da morte e, principalmente, com os dias posteriores. Sim, as pessoas morrem, mas outros continuam vivos e se esse dia for postergado inúmeros problemas vão surgir e que poderiam ser evitados se a morte certa não fosse um assunto proibido na família, no trabalho ou entre amigos.

Uma das decisões mais freqüentes e complexas tem sido o destino do corpo do ente querido. Se nunca foi conversado, mais complicado fica. Até pouco tempo não havia tanta indecisão. A família tinha seu mausoléu e para lá iriam os que morressem. Não havia a mobilidade presente hoje no mundo moderno com pais morando em uma cidade, cada filho em outras e tios, primos às vezes residindo mais distantes. Cremar tem sido uma alternativa crescente. O gesto em si é menos chocante. Não se vê o ato de enterrar como acontece nos cemitérios. O ser amado apenas vai embora e dias depois nos retorna em forma de pó. Uma caixinha que incomoda, que perturba e ao mesmo tempo emociona. Decidido o local onde as cinzas serão dispersas, a cerimônia também é mais amena, mais leve, menos agressiva. Depositadas aos pés da velha mangueira como quis Jorge Amado ou suavemente lançadas nas águas turvas de um rio qualquer, em uma cidade qualquer de grande simbolismo para aquele que se foi e para os que ficaram.

O importante é não ignorar que ela tarda, mas não falha.

Os que não acreditam em Deus
Quinta, 20 Fevereiro 2014 10:44

Os que não acreditam em Deus

Escrito por Ruth Rendeiro

Respeitar o outro pode parecer piegas, frase feita ou manifestação das pessoas que exageram na dose de sua fé. Mas cada dia fica mais evidente a necessidade que uma multidão de crentes necessita de propagar seus deuses e, na mesma proporção, os que afirmam não acreditar em Deus. Basta acessar as redes sociais e encontraremos diariamente correntes e orações milagrosas ou, no outro extremo, os que debocham, zombam ou ofendem os crentes e tementes a Deus.

Duas posições antagônicas que me incomodam. Creio em Deus, rezo, faço promessa, acompanho todos os anos o Círio de Nazaré, agradeço e peço a esse ser superior que aprendi a respeitar e a chamar de Deus. Mas esta crença é minha, esta fé só eu sei o tamanho. Não preciso convencer ninguém que ela é latente dentro de mim.

Do mesmo modo não suporto ver os que recriminam e espezinham os que têm suas religiões. Por que atribuir ao acaso, ao destino ou a força pessoal o que nem sempre tem explicação racional? Por que duvidar dos que creem e debochar dos que pedem ajuda ao ser (ou energia) que têm poderes muito além dos humanos? Por que acham que os que alimentam essa cumplicidade com o abstrato são mais fracos? Muito já se matou, muitos já morreram (e continuam matando e morrendo) em nome do “seu” Deus. Um Deus egoísta, que pune, que odeia, que amedronta e que “expulsa do paraíso” aqueles que não cumprem fielmente os ditames dos humanos. O “meu” Deus é bom, é justo e um grande companheiro em quem eu confio e peço socorro e agradeço sempre por pequenas coisas, mínimas conquistas. Um Deus que me faz bem e que eu gostaria que todos respeitassem silenciosamente, assim como respeito o Deus dos outros. O Deus do bem pode ter vários nomes, mas há uma palavra que é comum a todos eles: o amor.

Terça, 11 Fevereiro 2014 08:40

Dia disso... dia daquilo

Escrito por Ruth Rendeiro

Dia do Quilo ou Dia da Tia Solteirona. Há diaspara se comemorar tudo (ou quase tudo) principalmente santos, alguns até desconhecidos pela maioria dos brasileiros como São Tarásio, e às profissões.

Obviamente há dias que já estão consagrados. Seja por representarem um incremento nas vendas no comércio (Dia das Mães, dos Pais, dos Namorados...) ou pelo significado religioso marcante e tradicional para determinados grupos. Dia de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil ou Nossa Senhora de Nazaré, a padroeira dos paraenses, nem precisam ser lembrados. O próprio povo se incumbe de evidenciá-los. Mas e o dia do Gordo, do Tomate, da Vindima, dos Carecas, dos Incrédulos, dos Moribundos, do Otimismo e da Toalha, será que alguém comemora?

Em contrapartida, nenhuma profissão é mais lembrada do que a dos jornalistas. A data oficial é dia 7 de abril, criada pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI), em homenagem ao médico e jornalista Giovanni Badaró assassinado em 1830, em São Paulo. Mas tem ainda o Dia do Repórter, Dia do Jornalista Católico, Dia da Imprensa, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, Dia do Repórter Fotográfico e Cinematográfico, Dia Nacional da Liberdade de Imprensa e outras datas que fazem relação direta com a profissão como Dia Mundial da Comunicação Social, Dia Nacional da Liberdade de Expressão e Dia Mundial da Liberdade de Expressão. A grande pergunta que não quer calar: as datas de fato representam os homenageados?

Amigos virtuais
Sexta, 07 Fevereiro 2014 10:21

Amigos virtuais

Escrito por Ruth Rendeiro

Hoje é mais comum o amigo virtual saber o que está acontecendo com aquele seu companheiro de computador que mora a três mil quilômetros de distância do que com o vizinho do lado. A cada dia cresce mais e mais a relação intercibernética que as pessoas desenvolvem (e alimentam) com os que estão longe. É mais simples, mesmo que superficiais.

Há pessoas que passam horas e horas conversando com quem nunca viram, mas demonstram pouca paciência quando o contato é real. Na net basta uma simples desculpa – um minuto o telefone está tocando ou o chefe está me chamando- para a conversa ser encerrada. Só se fala sobre assuntos interessantes, mesmo que só para uma das partes. Finge-se que se ouve, demonstra-se carinho exagerados que provavelmente não resistiram a uma tarde se fosse “olho no olho”.

O que é mais grave é que a geração atual está trocando o abraço por figurinhas engraçadas e carinhosas e os beijos por fotos fazendo biquinhos. Alguns casais até já propuseram, mesmo frente à frente, continuarem se comunicando via internet. Desaprenderam se tocar e as palavras já não conseguem ser ditas. Só digitadas. Lamentável...Reconhecer-se e reconhecer o outro apenas tendo a máquina como intermediária é desconhecer o cheiro, o gosto, o olhar. Os olhos, as mãos, os gestos já não falam e a amizade, o namoro, a sedução tornam-se cada dia mais virtuais.

Terça, 28 Janeiro 2014 18:05

Minha casa é um museu

Escrito por Ruth Rendeiro

Os que já estiveram em minha casa sabem que isso é a mais pura verdade. Sou dessas que não joga fora um bilhetinho escrito por alguém muito especial mesmo que datado de 20, 30 anos atrás. Em cada canto da casa há dezenas de histórias, inúmeras recordações materializadas em quase tudo.

Além das fotografias em preto e branco de familiares - uma das mais especiais é da minha mãe ainda criança em companhia da minha avó, ambas usando vestidos confecionados com o mesmo tecido, andando pela rua João Alfredo, o point de Belém há décadas atrás - tenho nas paredes desenhos, caricaturas, pinturas, peças em argila ...

A imagem de Nossa Senhora de Nazaré em diferentes materiais é outra mania: papel machê, corda, arame, vidro, palito de fósforo... Por todos os cômodos há uma lembrança de uma cidade visitada, de um presente marcante. Do quadro de alunos da Faz me homenageando à miniatura da Torre Eiffel ou sapos em pelúcia, pedra, madeira a canecas e pequenas xícaras presentes de amigos.Há de tudo um pouco ou será um pouco de tudo?

Mas o que mais me encanta são as peças mais antigas: uma máquina de escrever da década de 50, louças pintadas à mão também desse período, um ferro de passar quando ainda se usava carvão, gravadores em 70 e 80 que chamavam de portáteis e um aparelho de TV da década de 90. Os canais iam até o 13 e era preciso levantar para trocar e ainda acordar o companheiro de quarto com o trec-trec. Tenho coisas guardadas que até Deus duvida. Recuerdos de uma vida inteira que alimenta a alma e reaviva o passado.

O Pinduca dos vestibulares
Sexta, 24 Janeiro 2014 10:26

O Pinduca dos vestibulares

Escrito por Ruth Rendeiro

Nada simboliza mais o vestibular em Belém do que a marchinha do Pinduca. “Alô, alô, papai, alô mamãe, põe a vitrola pra tocar. Podem soltar foguetes que eu passei no vestibular”. É como uma benção aos ouvidos dos pais que sonharam um dia cantar, no meio de uma grande festa, o hino da aprovação na faculdade.

Há seis anos passo os janeiros de vestibular no interior de São Paulo e ainda sinto muita falta das intensas comemorações que a tudo resistem em Belém. Talvez pelas várias opções de faculdades, estados como SP, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro dispõem de muitas universidades públicas, muitos cursos e os estudantes, mesmo antes do Enem, já se inscreviam em diversas. Passar no vestibular é bem mais comum. Faz parte da trajetória da maioria.

A manifestação pública fica por conta do trote nas principais esquinas da cidade onde, sujos de tinta e muitos ovos nos cabelos, os “bixos” param os carros e pedem dinheiro trocado. Ao final, com algumas dezenas (ou mesmo centenas!) de reais marcam um restaurante à noite ou um churrasco no outro dia e vão comemorar de novo. Os pais, avós, tios, irmãos mais velhos, vizinhos não são convidados. É uma festa só deles! Discreta, quase silenciosa e sem um carro som a parabenizar os novos universitários, sem o Pinduca a cantar, a alegria é imensa, mas contida, quase individual.

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