Sexta, 27 Dezembro 2013 08:25

Por que escrever sobre suas experiências

Escrito por Ruth Rendeiro

Talvez por ser jornalista há tanto tempo (mais de 30 anos!) sempre me interessei por assuntos que fazem relação direta com o real. Leio e gosto demais da ficção, os romances foram meus primeiros passos no rumo da leitura, mas é o que de fato aconteceu, as emoções reais que mais me encantam.

Aceito todas as ponderações dos que rebatem esse gênero que narra sem dar direito ao autor criar, mas buscar a maneira mais atraente, comovente e inteligente de contar um caso, narrar um fato. Não consigo fugir dessas amarras trazidas pelo jornalismo. Mesmo quando escrevo sem a preocupação com a fidelidade do acontecido, tenho um pé no real.

Tento escrever com emoção e a partir do que já vivi. Toda trajetória de vida tem uma bela e emocionante história, basta saber contá-la e, acima de tudo, querer dividir com outras pessoas o que se viveu ou presenciou. Sem repressões e autocensuras deixando as palavras fluírem e emocionarem.

Eu escrevo sobre mim, sobre os meus, família ou amigos, nem tão amigos com a naturalidade de quem conta um conto ou uma história da carochinha. Acredito (pode até não ser verdade!) que ao socializar sensações, boas ou trágicas, o compartilhar passa a ter outra dimensão: a felicidade se amplia e a dor se retrai. Há os que negam-se a comentar o que vivem, o que sentem. Uma opção a ser respeitada, assim como os que optam pela exposição de seu viver.

A terapia da escrita
Domingo, 22 Dezembro 2013 09:49

A terapia da escrita

Escrito por Ruth Rendeiro

Depois de um período distante de O Estado do Tapajós por motivos estritamente profissionais, volto a escrever e exatamente para falar dessa necessidade que algumas pessoas têm de usar as palavras para curar os males da alma. Muitos escrevem porque escolheram profissões diretamente relacionadas ao ato de escrever, outros porque gostam e alguns porque necessitam. Sou um desses seres que parece ter nascido escrevendo. Leio muito também, mas nada se compara a escrever. É obsessão.

Escrevo quando estou feliz e muito mais se estou triste, aflita, ansiosa, preocupada... Papel e caneta estão sempre dentro da minha bolsa, do lado da minha cama. Não tenho lugar para escrever: na sala de espera do consultório médico ou ao despertar no meio da noite, tanto faz. Gosto do prazer de brincar com as palavras, de descobrir novos significados, de encantar-me com uma frase que nunca tinha construído.

A terapia da escrita, já reconhecida por alguns especialistas, funciona comigo. Escrevo e relaxo, escrevo e desabafo, escrevo e divido com os leitores (a família ou centenas de pessoas) o meu estado de espírito. É como se as palavras conseguissem extravasar, com fidelidade, tudo o que sinto e funcionassem como um antídoto à tristeza ou mesmo à alegria. Sinto-me leve e afagada a cada texto finalizado e menos “doente” começo a preparar outros. Estou sempre rascunhando, mental ou realisticamente, um novo texto. Muitos são abortados outros podem até virar livro.

Sábado, 02 Novembro 2013 07:20

Um detalhe importante do Círio de Nazaré

Escrito por Ruth Rendeiro

 

Já se vão mais de 20 dias do Círio 2013, mas é impossível não comentar um dos momentos mais interessantes que presenciei como romeira. Enquanto as pessoas caminhavam à frente da imagem de Nossa Senhora com a onda de gente aumentando com a proximidade da Berlinda, um grupo se destacava na esquina da Av. Nazaré com a Tv. Doutor Moraes. Não eram católicos, nem promesseiros, mas evangélicos da Assembleia de Deus, que educadamente convidavam os que passavam pelo local para tomarem um farto café da manhã.    Não tomei o café, mas fiz questão de entrar e conversar com algumas pessoas e o que ouvi foi exatamente o que me faz ter fé, a acreditar em um ser superior, a acreditar no outro. Eram dezenas (talvez centenas) de “crentes” sorridentes, simpáticos e sem nenhum ranço a pessoas que são de outras religiões. Eles estavam ali para amenizar a fome e a sede dos católicos que reverenciavam a imagem de Nossa Senhora, sem pré-julgamentos,conceitos, avaliações torpes ou qualquer tipo de preconceito.    Fiz questão, como católica e devota de Nossa Senhora de Nazaré, de deixar registrado para alguns jovens e outros nem tão jovens assim, a minha alegria por ver que, mesmo não sendo da mesma religião, mesmo não cultuando a padroeira dos paraenses, a generosidade e o respeito à diversidade prevaleceram. Os homens podem conviver bem, respeitar-se e até servir café a outros de religiões diferentes. A intolerância é que não permite.
Domingo, 13 Outubro 2013 08:38

Círio de Nazaré - A alegria de ser romeira

Escrito por Ruth Rendeiro

Foram dez procissões iniciadas na sexta-feira pela manhã. A mais longa e a que no trajeto deixa a esperança representada pela pequena imagem de Nazaré aos pacientes de câncer do Hospital Ophir Loyola. Impossível conter as lágrimas, não se emocionar diante do sofrimento tão explícito nas mutilações, curativos ou máscaras a protegê-los. Lágrimas dos doentes que aguardam a cura pela intercessão da que opera milagres. Esperam estar de volta no próximo ano apenas para agradecer.

Hoje é o dia de todos. É a décima primeira. A mais importante, a mais antiga, a que reunirá os mais de dois milhões de devotos de Nossa Senhora de Nazaré.

cidade nem dorme e os que dormem madrugam. Saem descalços, a pé ou de ônibus. Criam pequenas procissões que rumam para o encontro que fora ratificado neste período no ano passado. sem ter hora para voltar. Uns apenas acenarão, outros se espremerão por um pedaço da corda que vai rebocá-los até a Basílica Santuário, muitos vão acompanhar, por horas, a padroeira dos paraenses lotando as ruas. Impedindo o trânsito, renovando a fé há meses adormecida e que agora explode.

É o ápice da renovação de quem crê, dos que têm fé.Emoção pura, energia latente depositava nas mãos da imagem que atravessará Belém no sol escaldante, no calor quase insuportável. Nada os abalará. Os fogos e os aplausos completarão o cenário, enquanto compenetrados os fiéis suplicarão, agradecerão ou apenas rezarão por estarem novamente vivenciando uma das mais belas demonstrações de fé. Eu também estarei lá, entre os milhões que trazem consigo a alegria de ser uma romeira que também veio de longe só para ver a Nazaré passar.

Sexta, 11 Outubro 2013 17:46

Círio de Nazaré - A mesa farta e apetitosa

Escrito por Ruth Rendeiro

Nomes desconhecidos para os que não são da região, aparência estranha e sabor inusitado marcam o almoço do Círio na casa dos que moram em Belém. Reunir a família em torno da mesa, como se a ceia de Natal tivesse sido antecipada, é uma das mais fortes tradições. Os parentes e amigos que chegam de outras cidades são os convidados especiais e, depois do término da procissão próximo do meio-dia ou das três horas da tarde, é hora de se empanturrar de maniçoba, pato no tucupi, vatapá...

Uma semana antes do grande domingo, a cidade já exala a maniva cozinhando nos panelões. Nas feiras livres a folha da mandioca é oferecida crua ou já pré-cozida e nos supermercados a hora é comprar os entulhos que vão dos pés, rabo, língua e outros pedaços do porco salgados passando pelo bacon, carne seca, linguiça, paio e há, também, os que ainda adubam mais a comida adicionado bucho e mocotó bovinos.

O pato, quase todos de origem maranhense, é outra iguaria que não pode faltar na mesa dos paraenses no segundo domingo de outubro. Na véspera ele vai ao forno e o odor forte se mistura à maniçoba já pronta. Em pedaços é mergulhado ao tucupi onde ferve e absorve o gostinho ácido do sumo da mandioca. O jambu entra em seguida no outro panelão que ornamenta o fogão. Há os que ainda incluem no banquete vatapá, caruru, caranguejo com farofa, bolinho de piracuí... Tem também as sobremesas que vão do pudim de tapioca ao creme de cupuaçu passando pela torta mariaisabel, bolos recheados de doce de cupuaçu ou de bacuri. Mas esse cardápio é outra história ...

Sexta, 11 Outubro 2013 08:11

O lado profano do Círio de Nazaré

Escrito por Ruth Rendeiro

Às onze procissões que a cada ano crescem mais e que culminam com o Círio, na manhã do segundo domingo, unem-se um calendário profano repleto de atrações que, mesmo tendo o círio como ganchos, não fazem relação direta com a religiosidade.

Uma das mais famosas é o auto do Círio que percorre as antigas ruas da Cidade Velha espalhando arte por onde passa. São mais de 20 anos de encantamento e humor, uma saudação espalhafatosa, criativa e irônica à santa protetora dos paraenses. Os atores exploram fatos marcantes da grande festa como a coincidência da proximidade das homenagens à Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora de Nazaré. Cida e Naza disputam a preferência dos católicos e tudo fazem para ser o destaque maior no mês de outubro.

Os que visitam Belém nessa época do ano têm ainda a feira do miriti para se encantar com as verdadeiras obras de arte que os artesãos conseguem produzir a partir da leveza da madeira que mais lembra uma esponja e que a tudo permite criar. Dos tradicionais tatus e cobrinhas que se mexem e remexem aos enormes barcos, tudo de belo e colorido estão expostos e à venda em diversos cantos da cidade.

A Filhas da Chiquita, aplaudidas por muitos e condenadas pela outra metade, representam a irreverência nas roupas e gestos dos que lotam o histórico Bar do Parque após a procissão da Trasladação. Uma festa GLS de tradição, alegria e homenagem ímpar a Nossa Senhora de Nazaré.

Belém fica irreconhecível neste período.

 

Quinta, 10 Outubro 2013 08:24

Círio de Nazaré - O antigo arraial

Escrito por Ruth Rendeiro

Quem já passou dos 50 deve se lembrar bem do antigo Largo de Nazaré, ou simplesmente, o arraial. Não existia o CAN (o atual Centro Arquitetônico de Nazaré), mas um grande terreno que começava a se transformar no final de setembro. Além dos brinquedos que encantavam as crianças, como o carrossel (carinhosamente chamado de cavalinho mesmo que ali rodasse outros animais), roda-gigante e trem fantasma,também se instalava um enorme comércio que reunia quase tudo em pequenas barracas ou mesmo em lonas espalhadas pelo chão.Sem shopping àquela época e muita dificuldade de acesso a outras capitais, bolsas, blusas, vestidos, sapatos, perfumes, tudo poderia ser encontrado nos 15 dias da festa.

Roupas novas para as crianças, sapatos sendo estreados e muita dor depois dos primeiros passos e os mais velhos arrumadíssimos, enfeitavam as mesas das sofisticadas barracas que vendiam comida. Uma das mais tradicionais era a de Santo Antonio. Pirarucu de casaca, vatapá e doces de cupuaçu, bacuri e bolos, muitos levavam famílias inteiras para o jantar que podia ser o único fora de casa o ano todo.

Mas o arraial era também o lugar de namorar, flertar ou apenas se mostrar. Enquanto os rapazes ficavam parados próximos às calçadas, as garotadas, maquiadas, cabelos bem arrumados e de saltos altos, desfilavam seu charme. Faziam o círculo completo em torno da praça: avenida Generalíssimo Deodoro, av. Nazaré, rua bem em frente ao Santuário, rua D. Alberto Galdêncio Ramos e novamente Generalíssimo. Horas e horas de olhares, até a aproximação virando namoro, noivado... Muitos casamentos começaram ali.

Quarta, 09 Outubro 2013 07:55

Círio de Nazaré - A pagadora de promessas

Escrito por Ruth Rendeiro

Eu sou uma das pagadoras de promessa que mais uma vez vai à procissão do Círio de Nazaré agradecer. Desde criança frequento a aglomeração pacífica que reúne cerca de dois milhões de pessoas. Minha avó, minha tia, minha mãe. Depois os amigos, o marido, os filhos e lá estou eu me emocionando, principalmente com a emoção dos outros. Como ficar inerte diante das lágrimas que se misturam ao suor que escorrem pelo rosto ao ver a imagem surgir e ser aplaudida pelo povo que a aguarda em pé por tantas horas? Como não se arrepiar ao ouvir o “Vós sois o lírio mimoso...”?

Vou novamente cumprir o que prometi, em um dia cheio de medo, quando descobri que estava com câncer de mama. Vou, humilde e explicitamente, expor a minha fé conduzindo um par de seios de cera do Santuário à Catedral da Sé. Quatro quilômetros comemorando a cura, a superação, o medo que se transformou em esperança.

Comigo estarão milhões de outros pagadores de promessa. Descalços, suados, com uma imagem da Naza (sim, de tão próxima ficou íntima que nos permitimos chamá-la de Naza, Nazinha, Nazica), com um anjinho no colo ou apenas rezando com um terço na mão. Cada um com o seu muito obrigado interior renovando-se e acreditando que no próximo ano estará lá novamente banhando-se de fé, renovando-se na certeza de que é bom demais acreditar que algo (ou alguém) acima de nós nos conforta e nos acolhe. Sobretudo os que já enfrentarem situações dolorosas e que pareciam sem solução. Esta é a diferença de ter ou não ter fé.

 

Terça, 08 Outubro 2013 06:55

Círio de Nazaré - Os que chegam de longe

Escrito por Ruth Rendeiro

Desde o início do mês o movimento nos aeroportos, portos e rodoviária começa a crescer. Os paraenses (de nascimento ou não) que podem, já começam a desembarcar. Alguns trazem apenas pedidos ou agradecimentos invisíveis a olho nu, mas muitos chegam abarrotados de presentes, principalmente os que vivem no interior do estado. Patos bem acomodados em seus paneiros parecem prever que dentro de mais alguns dias mergulharão em uma piscina amarelada de tucupi. Os perus insistem com seus gluglus para a alegria da criançada da cidade e os porcos, extrovertidos e barulhentos, desconhecem seu futuro. Podem ir, em grande parte para o panelão da maniçoba que já cozinha há alguns dias ou ser a atração, bem assado e inteiro, no meio da mesa.

Os que deixam suas cidades, muitas vezes distantes dias de barco de Belém, trazem consigo também uma cultura que encanta e impressiona e o falar é sempre um dos que mais chamam a atenção dos belemenses. “Eu já mivu. Tu já te vás?”  “vamu tudu agora pro arraiá” como não parar para ouvir ? Alguns falam com entonação tão diferente e palavras tão pouco usuais para os da cidade ou de outros Estados que precisam de tradutores.

Eu truxe de um tudo. Truxe inté a minha puideira qui tá amarrada dêbaixo du cuaradô pra não ir bulinar as prantas. É a diversidade que marca encontro em Belém no mês de outubro.

 

Segunda, 07 Outubro 2013 07:26

Mais um círio de Nazaré

Escrito por Ruth Rendeiro

Quem nunca experimentou jamais entenderá o sentimento que toma conta de Belém do Pará no mês de outubro. Ela torna-se outra cidade como se mudasse de roupa de repente. Tudo parece girar em torno do Círio de Nazaré. Enquanto em outras regiões o Natal já começa a despontar nas propagandas de TV, em Belém ele só será lembrado depois que o Recírio acontecer. É a grande festa que mistura raças, idades, grupos sociais e econômicos, sexos e até religiões.

Sim! Porque muitas pessoas de outros credos não se furtam de se misturar àquele mar de gente e receber a energia que emana da fé, da crença em um mundo melhor, na possibilidade de mudar. Homens, mulheres, jovens, crianças que não se conhecem e conversam, doam água aos sedentos, socorrem em macas de lona os mais debilitados que cedem ao calor e ao cansaço, viram irmãos sem nunca terem se visto!

Por mais que se tente é impossível, mesmo filmando, fotografando ou escrevendo, traduzir o que acontece nas ruas de Belém no segundo domingo deste mês. A caminhada dos que deixam suas casas de madrugada para participar integralmente da procissão, os que vão, publicamente, agradecer a graça alcançada com um tijolo na cabeça, partes do corpo humano em cera, a canoa que não virou porque a padroeira ouviu as súplicas dos que navegavam ou a criança no colo salva pela fé. É preciso estar lá e viver para entender.

 

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