Quarta, 04 Setembro 2013 21:52

Os aviões na minha vida

Escrito por Ruth Rendeiro

Os aviões sempre foram para mim verdadeiros monstros de aço e que voam. Nunca gostei de filmes ou livros que abordem acidentes aéreos, fujo até dos noticiários (meu vício maior!) quando o assunto é queda de avião. Deixei de conhecer belos lugares por não me imaginar mais do que três, quatro anos trancada naquela nave entregue ao piloto e a Deus, Mas hoje eu voo tão tranquila que eu mesma me surpreendo.

Quando o pânico era incontrolável só as viagens obrigatórias conseguiam me arrastar até a aeronave. Tudo causava medo. Do barulho do motor ao: bom dia senhores passageiros, dito pelo piloto. Já me preparava para a pior das notícias: um pouso de emergência no menor aeroporto do país. Pânico, inclusive, que ficou conhecido com o Retrato Falado que a Globo fez e que batizou de Baixaria nas Alturas. A terapia e alguns remédios, já abandonados, me levaram a encarar viagens que há alguns anos eram impensáveis.

Durmo bem na véspera, viajo sozinha, não tomo nem uma bebida alcoólica ou tranquilizante e em aviões pequenos, aqueles que têm hélices e que, por algum motivo que desconheço, me fazem lembrar as guerras. Um barulhão que nos acompanha durante toda a viagem e que provoca tanta turbulência impedindo, muitas vezes, até o serviço de bordo. A comissária, com o seu semblante “está tudo bem, mas estou morrendo de medo” fica sentada de frente para os passageiros, enquanto muitos rezam, fingem dormir ou apertam os braços das poltronas. Eu, por incrível que pareça, leio. Eu já me curei dos solavancos. Medo mesmo, e em pequena dose, só na decolagem. Agora vou e volto e sempre com a certeza de que voltarei.

 

Sábado, 31 Agosto 2013 07:34

Tatuagem

Escrito por Ruth Rendeiro

Chico Buarque já cantou que ela se perpetua e de fato ela é para sempre e nunca se fez tanta tatuagem. Das discretas patinhas de gatos e cachorros às que cobrem o corpo inteiro. Das mais bem feitas como se os seus donos ostentassem obras de arte esculpidas em sua pele àquelas que parecem ter como instrumento de desenho um prego quente a furar a carne.

O que importa é que elas deixaram de ser marcas registradas dos marinheiros – o mais famosos deles é o Popeye- ou de gangues para se tornar um acessório. Só que permanente. Enquanto todos são jovens os beija-flores, estrelinhas ou caveiras têm contornos legíveis, cores nítidas, traços definidos. Mas nem sempre será assim.

Uma amiga um dia me disse que viu uma revista estrangeira contendo fotos de anciões com mais de 70 anos e suas tatuagens. Sem a elasticidade da pele, rugas e sulcos transformaram as obras de arte em indecifráveis desenhos evidenciando ainda mais a idade avançada. Os pássaros tinham apenas bicos à mostra e as imagens quase sempre ficam sem olhos com o engelhamento. Por isso uma tatuagem deve ser pensada e repensada muitas vezes antes de se tornar parte do corpo. Os que tatuam nome de seus amados já se arrependeram muitas vezes. No ápice da paixão não pensam, mas quando o fogo que parecia eterno se apaga, de eterno fica só a tatuagem e tentar apagá-la não é fácil. Muitas vezes a pele antes limpa, clara e sem marcas passa a exibir uma grande mancha mesmo depois de muito sofrimento. Melhor mesmo é ficar com a tatuagem do Chico. No vinil ou no CD.

 

 

Quarta, 21 Agosto 2013 12:18

A dor chique da depilação

Escrito por Ruth Rendeiro

A dor, em algumas partes do corpo, parece insuportável! Caretas, gritinhos ou mesmo gritões a cada puxada da cera e os cabelinhos recém-nascidos largando a pele e com a sensação que levou ela também junto. Ardência, incômodo e vermelhidão. Tudo em nome da beleza, do couro lisinho. A depilação cada dia mais se torna parte da vida da maioria das mulheres e de alguns homens.

Até alguns anos atrás a depilação limitava-se a poucas áreas do corpo: axilas, pernas e quando muito o buço. Agora ninguém mais quer ter pelos. São arrancados integralmente e sem piedade, os das pernas, inclusive os lá de cima bem na virilha, os da vagina, cada dia mais careca mesmo que alguns médicos recomendem a permanência dos pelos até como proteção à saúde da mulher, ânus, braços, barriga. Nenhum resiste ao puxão da cera quente.

Se ainda incomoda e faz doer em algumas mulheres, cada dia mais os homens passam a fazer parte também desse grupo de masoquistas da beleza. Depilam peito, pernas, braços, axilas e até as partes mais íntimas. Um dos símbolos mais marcantes da masculinidade está indo literalmente para o lixo. As peles lisinhas resultantes das depilações e muitos cremes substituíram as peludas e mais ásperas. Cada dia homens e mulheres se parecem mais, têm menos diferenças. Ao contrário do mundo animal, que preserva as diferenças, inclusive visualmente, os humanos estão mais parecidos, até na ausência de pelos.

Sexta, 16 Agosto 2013 14:48

Eu gosto de TV!

Escrito por Ruth Rendeiro

Desde que me entendo por gente ouço sérias restrições aos que gostam de TV. Ela emburrece, aliena, só mostra o lado ruim da vida, informa superficialmente etc etc. Concordo com tudo isso e mais todas as teses acadêmicas que comprovam essas assertivas, mas não posso deixar de assumir que gosto muito de TV. Já foi se o tempo em que esbravejava contra este veículo apenas para ser moderna, contestadora e ser bem aceita por determinados grupos.

Morei anos sozinha e a TV era a minha companheira mais fiel e constante e olha que naquela época não havia TV a cabo com bem mais opções. Almoçava com a Leda Nagle e jantava com o Cid Moreira. Ela dizia boa tarde e eu respondia com o prato na mão: boa tarde. Ele dizia boa noite e eu, agarrada a um sanduíche, devolvia o boa noite.

Viciei-me. Até hoje converso com os que invadem a minha casa, com a minha permissão, via telinha. Meu vício maior são os telejornais. Vejo todos os que consigo. Começo cedinho com o do SBT (veiculado no dia, mas gravado na véspera, pelo que dá pra perceber), passo para os da Globo. Interrompo, cuido da vida e na hora do almoço lá estou eu no Jornal Hoje e à noite o controle da TV não para. Só me acalmo depois do Jornal das Dez (preferia com o André Trigueiro). Meu filho, quando criança, além de dizer que eu era maluca por conversar, responder, discordar, corrigir e me exasperar com os jornalistas, afirmava que eu e o Arcebispo de Belém éramos os únicos que assistíamos o telejornal católico. Será?

Quinta, 15 Agosto 2013 07:51

Trabalhar por prazer

Escrito por Ruth Rendeiro

Não importa que tipo de trabalho se faça. Se a satisfação em realizá-lo é mais importante que o salário no final do mês, se ele é mais que um meio de sobrevivência e torna-se um prazer, és um privilegiado. Pode parecer estranho para os que acordam pela manhã e pensam: ufa! mais um dia! Daria tudo para permanecer na cama, não sair de casa. Odeio o chefe, não suporto os colegas, o tipo de trabalho nada tem a ver comigo...

Há, contudo, os privilegiados. Os que, escolheram ou foram escolhidos, pela profissão-prazer. A que se integra ao ser. Pessoas que nem percebem que estão trabalhando e desempenham suas atividades, algumas exageradamente estressantes, até mesmo quando estão de folga. Há profissões em que esta unicidade fica bem mais evidente como os médicos, policiais, mas há também outras, como os cientistas, que trocam lazer, família, saúde em nome da satisfação que não tem hora pra começar e muito menos para terminar.

Quem vive da palavra também nem se vê trabalhando ao ler um bom livro ou escrevendo um bom texto. Apenas se deixa levar, vai sendo conduzido pelas frases, permite-se apenas viajar entre as letras. O prazer está na satisfação do que foi ingerido, no turbilhão de emoções que provocou ou nas laudas escritas e que serão compartilhadas com os leitores. Alguns nem chamam isso de trabalho, mas de diversão. Pode ser ...

Sexta, 09 Agosto 2013 17:59

As viúvas

Escrito por Ruth Rendeiro

Elas são muito conhecidas nos cenários literários repletas de mistérios, carências e saudades de seus falecidos. Muitos leitores, embevecidos pelo imaginário em torno dessas pobres mulheres, chegam a se apaixonar por muitas delas. Algumas permanecem em luto pelo resto da vida, vestem-se de preto ou cores sóbrias e lamentando a partida do amado, aguardam pelo reencontro em outro plano. A vida termina também para elas.

Cenas que retratam muito bem um modelo decadente de séculos passados. As viúvas continuam existindo, muitas choram por anos a partida do companheiro, têm dificuldade de voltar a se relacionar com outros homens, mas negam-se a não viver. Mudou o mundo e junto com ele essa relação com a morte, com a viuvez. A mulher que vai à luta, estuda, trabalha, tem seu próprio carro também mudou o ser viúva.

A dor pode ser grande, mas a vontade de viver também. Os filhos, resultantes da união interrompida, passam a ocupar um espaço ainda mais fundamental e o que antes era compartilhado entre dois, agora é responsabilidade de um. Ou de uma. A força adormecida e transferida daquele que se foi se expande e ela chora à noite a saudade, mas se reergue quando o sol nasce. Não ostenta mais o rótulo de coitadinha, não aceita condolências hipócritas e segue vivendo, provavelmente usufruindo das lembranças como companhia.

Terça, 06 Agosto 2013 07:43

Plus size

Escrito por Ruth Rendeiro

Modelos magras demais, tão esquálidas que parecem doentes. Peso mínimo em uma altura máxima, cabides andantes para grifes que priorizam osmicromanequins. Recentemente, porém, o mercado se abriu e aos poucos vai se firmando a modelo que foge à regra, aquela que veste acima de 44. Vitória das gordinhas que também querem ser bonitas e sexys.

Copiado do inglês, Plus Size é hoje o rótulo das que estão com sobrepeso ou mesmo obesas e expõem-se assim mesmo, sem vergonha ou temores do ridículo. Abusam dos decotes, das saias curtas e escancaram sua sexualidade. Sites pipocam na internet oferecendo guarda-roupas voltados a esta clientela exigente; desfiles começam a ficar frequentes e um nicho se fortalece a partir dos quilos a mais.

O que outrora era raro, paulatinamente torna-se corriqueiro. Anúncios nas vitrines informam que diversas lojas também dispõem de GG, EG, XG sem perder o charme, sem que à disposição estejam apenas sacos imitando vestidos, batas sendo chamadas de blusas. A democracia também chegou à moda. Ser magra não é sinônimo de ser bela e nem ser gorda significa ser feia. E se o mercado acordou e já aposta naquelas que desistiram de lutar contra a balança, é previsível mudanças nos olhares e nas preferências. As gordas certamente começam a sentir a transformação.

 

Quarta, 31 Julho 2013 16:52

Jovens revolucionários

Escrito por Ruth Rendeiro

Os que têm hoje 15, 20 anos devem estar explodindo de felicidade ao ouvirem do Papa Francisco a recomendação para que sejam revolucionários. Todos os jovens são revolucionários por natureza, mas muito sufocados pelos pais, pelo comodismo de amanhã ter mais e ser menos ou por falta de incentivo para ousar, reprimem-se. Diante, contudo, desse conselho de Sua Santidade, o convite para ser livre, contestador e defensor de sua crença, ficou mais fácil e quem sabe tolerável pelos mais conservadores. “O Papa disse que devemos ser revolucionários” podem argumentar ao saírem para mais uma manifestação.

Os jovens há mais tempo, principalmente os que hoje estão com 50, 60 anos, quando mais jovens e revolucionários tiveram poucas oportunidades de exercitar o seu lado contestador, de gritarem sua insatisfação, de lutar por um País melhor, menos desigual, mais democrático.

O Francisco, que encantou gregos e troianos, cristãos e não-cristãos, crianças e idosos deixou muitos recados, mas talvez o mais importante seja o recado aos jovens para que lutem por todos, que deixem a internet por algumas horas e saiam para conhecer a sua periferia, permitam-se discordar e assim construir um mundo mais justo. Se ele conseguirá manter a chama da mobilização acesa é outra história. Só o tempo dirá se depois de serenar o frenesi que contagiou a todos, a mudança se materializará. O aval do Pontífice os jovens já têm.

Sexta, 26 Julho 2013 11:39

A aposentadoria chegou

Escrito por Ruth Rendeiro

O despertador vai mudar de lugar. Deixará o criado mudo e irá para a sala ou ficará esquecido em uma gaveta qualquer. O café poderá ser tomado a qualquer hora. Se estiver frio ou chovendo, permanecerás na cama. Os encontros com os colegas de trabalho já não serão diários e os dias ficarão mais longos.

Difícil aceitar que a aposentadoria chegou. A vida mudando integralmente. É hora de encarar a realidade e aceitar que a etapa final da vida está começando. Muitos sofrem demais e chegam mesmo a ir, todos os dias, à empresa durante anos. Não sabem o que fazer com o amanhecer. Outros entram em depressão e negam-se a acreditar que a hora é de sair de cena e ceder lugar aos mais jovens.

Outros, porém, se redescobrem. Recebem a aposentadoria de braços abertos e se reinventam. Encontram outras profissões, algumas que ficaram perdidas na juventude; passam a cuidar mais de si e exercitam-se mais, alimentam-se melhor. Há os que optam pelos netos e usufruem o que chamam de maternidade/paternidade com mel. Alguns viajam e vão a busca de si mesmos em outras cidades antes sonhadas, mas nunca visitadas. O importante é se preparar. Encarar o novo momento como uma oportunidade para ser feliz de uma forma diferente. Por mais difícil que seja aceitar, a aposentadoria nada tem a ver com o atestado de óbitos. 

Quarta, 24 Julho 2013 18:20

O Papa surpresa

Escrito por Ruth Rendeiro

Mais do que líder da Igreja Católica, o Papa Francisco tem se mostrado um homem que veio para surpreender. Quebrar protocolos parece ser uma de suas principais características. Fico imaginando a quantidade de situações hilárias, impublicáveis e admiráveis que ele deve estar causando nos bastidores eclesiásticos. Bem mais do que ficar bem à frente das câmeras, ele tem se mostrado apenas ser ele. Nós é que estávamos mal acostumados.

Acostumados com homens de carne e osso que, ao assumirem o que a fumacinha branca anunciava, transformavam-se. A indumentária comum ganhava ouro, a touca discreta no meio da cabeça virava um chapéu quase alegórico e a ostentação só fortalecia a distância entre os fiéis e a Sua Santidade.

Papa Francisco não está criando um personagem que abdica de muito, embora não possa abdicar de tudo o que a pompa católica construiu e ratificou durante séculos. Mas tem dado recados fundamentais para o clero e para os que vão às igrejas nas missas de domingo muito mais para constatar que o fulano trocou de carro ou admirar a nova plástica na senhora do vereador, do que realmente internalizar os ensinamentos cristãos e o mais importante de tudo: exercitá-los depois. Orar sem praticar é o não fazer. Quantos rezam infindáveis rosários, mas sequer deixam a novela para doar um prato de comida àquele que bate à porta? Oxalá o Papa Francisco consiga acordar o mundo católico!

 

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