Quarta, 03 Julho 2013 18:12

A manifestação em Ribeirão Preto

Escrito por Ruth Rendeiro

Ribeirão Preto é uma cidade relativamente calma. Pouco mais de seiscentos mil habitantes e um padrão de vida de capital, três belos shoppings, bons restaurantes, um campus da USP, ruas largas, casas de bom padrão. Para os que vivem no Norte e Nordeste muito bem servida pelo poder público. As manifestações já aconteciam há uma em São Paulo capital e no Rio de Janeiro. De repente uma reunião, que seria para organizar a manifestação, transformou-se na primeira manifestação de uma série. O que seria uma reunião já era aglomerado de pessoas sedentas pelo grito reprimido por décadas.

“Venha para a rua. Desça já. Tire sua bunda do sofá” convidavam os de baixo, aqueles que ainda resistiam e manifestavam-se de suas janelas. Percorreram o centro comercial sem nenhum transtorno, nem mesmo um chute em uma porta de ferro ou algum dano às árvores nas calçadas foram registrados. Jovens, muitos jovens; pais com seus filhos no colo e alguns mais velhos, idosos lembrando-se de suas passeatas de tantos anos atrás.

O que seria uma comemoração à democracia, à volta do povo ao poder, infelizmente terminou em uma tragédia que abalou a cidade por inteiro. Alexsandro de Azevedo atropelou diversos jovens e Marcos Delefrate, de 18 anos, não resistiu e morreu ali mesmo, onde antes bradava por justiça e segurança, enquanto lutava por um amanhã melhor. A cidade ainda não se refez do impacto e todos os dias alguém deposita flores e velas no cruzamento que maculou de sangue o sonho de tantos.

Terça, 02 Julho 2013 07:23

As vozes da rua

Escrito por Ruth Rendeiro

Foram tantos anos emudecidos pela acomodação que ver o País, de ponta a ponta, ser tomado pela população emocionou. Ninguém estava comemorando o Penta, mas verbalizando os desejos engessados. Mal se podia entender o que todos gritavam ao mesmo tempo. O mote foram os preços das passagens, mas era só o estopim. O que estava engasgado há tantos anos eclodiu naturalmente e ninguém entendia muito bem o pleito daquele que estava ao seu lado, mas apoiava. Era justo. Era legítimo.

Os R$0,20 dos paulistas alcançaram o Amapá o Rio Grande do Sul, Piauí, Mato Grosso... As distâncias continentais resumiram-se a poucos metros. O povo se uniu e mesmo não sendo um clamor uníssono todos estavam juntos, gritando pela necessidade de ser ouvido, respeitado, consultado. Os que, nas primeiras manifestações atribuíram o movimento a jovens baderneiros, foram aos poucos cedendo. Talvez nunca tenham pleiteado os R$0,20, mas se encontraram nas ruas pela Educação precária, pela (in) segurança, pela PEC 37, pela Saúde que nem pagando convênios é de qualidade. Muitos foram em busca do que parecia perdido para sempre como questões trabalhistas de empresas falidas como Vasp e Transbrasil.

A voz era tão alta que até os mais surdos resolveram escutar e juntaram-se aos pioneiros do movimento. Aqueles jovem, com frases rimadas e braços erguidos que agora somos todos nós.

 

Segunda, 01 Julho 2013 07:46

Meu retorno às ruas

Escrito por Ruth Rendeiro

Eu sou da geração que viveu o período mais negro da História recente do Brasil. Bradei contra o autoritarismo, cantei Chico Buarque, Mílton Nascimento, Geraldo Vandré e torci pelo Tancredo Neves até a sua morte. Fui ás ruas pelas Diretas, estive nas primeiras greves da Universidade Federal do Pará. Não me escondi, não tive medo e certamente contribui, mesmo que irrisoriamente, pela redemocratização do País.

Mas, assim como a grande maioria da população, adormeci. Não deixei de acreditar nos valores que defendi, nunca abandonei as bandeiras que me levaram às ruas, mas estava passiva, rebelando-me em silêncio em frente à TV ou ao computador. Bastou, contudo, um convite e eu voltei a bradar, a plenos pulmões, pela justiça, contra a corrupção, pela desigualdade social, pelo direito de dirigir meu País e de ser repeitada e não manipulada por pseudo representantes.

Em alguns momentos, três décadas atrás, fui a algumas manifestações em companhia de minha mãe e dessa vez fui com meus filhos. Eles estão pleiteando o mesmo que as gerações passadas, felizmente talvez vejam na prática as suas reivindicações sendo atendidas a tempo de acompanharem as transformações na sociedade. Eles têm um padrão de vida que não tive, usufruem o muito que nem sonhei em um dia usufruir, mas correm mais riscos ao sair na rua do que eu, estão mais expostos às drogas do que eu, vão estudar mais do que eu e vivem em um País bem diferente do que eu vivi. Por isso fomos juntos às ruas. Por isso não nos calamos. Afinal queremos o mesmo.

Quarta, 26 Junho 2013 21:49

Paraense Praticante

Escrito por Ruth Rendeiro

Peço licença, ao jornalista Humberto Werneck, para usar este termo que ouvi em sua Oficina de Não Ficção há alguns dias. Eu sou de fato uma paraense praticante. Essas duas palavras resumem tudo o que pode significar alguém que deixou sua terra natal, mas não levou o cordão umbilical. E já era desde muito tempo ou desde muito sempre. Não é uma atitude que se manifestou com a minha ida para outro Estado tão diferente do Pará como é São Paulo.

Sempre gostei de me sentir meio turista em Belém. Saía aos domingos sozinha, andando a pé, percorrendo a Avenida Magalhães Barata que depois passa a ser a Avenida Nazaré desde o Mercado de São Braz até a praça da República. Olhava o que já conhecia há muito tempo com um olhar novo de quem via pela primeira vez o belo Mercado, o Parque da Residência, as casas de tantas décadas atrás e na praça me sentia mais visitante ainda.

Ao deixar Belém trouxe comigo um pedaço da cidade. Minha casa tem cara de paraense, decoração de belemense e uma geladeira sempre muito bem abastecida de polpa de cupuaçu, açaí, camarão, tucupi, jambu... A farinha torrada raramente falta e a de tapioca aguarda ser transformada em um pudim, bolo podre ou servir de acompanhamento no açaí. Por isso achei tão completo o Paraense Praticante. É quem precisa ir ao Pará para se reabastecer e não apenas nasceu lá.

Segunda, 24 Junho 2013 21:44

O Cão nosso de cada dia

Escrito por Ruth Rendeiro

Os que viram e se chocaram com as imagens da matança irracional dos cães, que infelizmente não é privilégio de Santa Cruz do Arari, como era natural se revoltaram com a atitude do Prefeito ou de quem foi o autor da chacina. Não consegui sequer ver as imagens. Os gritos de socorro dos cães doíam demais.

O que, contudo, ninguém abordou foi a responsabilidade dos donos desses animais. Porque todos, um dia, tiveram um dono! Mesmo que indiretamente quando acolheram uma fêmea e depois jogaram na rua seus filhotes. Eles também deveriam ser responsabilizados pela barbárie.

A decisão de ter um animal, infelizmente, ainda não é avaliada por aqueles que apenas se encantam com os animais quando são graciosos bebês, que só brincam e encantam. Raras são as pessoas que fazem uma conta simples: um cachorro (ou um gato) vive em média de 10 a 15 anos. Onde eu estarei daqui a dez anos? Eles também envelhecerão e adoecerão como qualquer ser vivo. Quem cuidará deles em minha ausência? Em caso de viagens onde ficarão?

Lamentavelmente os animais ainda são vistos como um bichinho de pelúcia sem vida que podem ser descartados a qualquer momento. Há ONGs que desde novembro começam a se preocupar com o destino dos animais que serão jogados na rua em dezembro. Seus donos (e (ir) responsáveis!) viajarão e os largarão com fome e na chuva enquanto se divertem. Isso também não é assiná-los em série?

Segunda, 17 Junho 2013 22:31

As feiras do livro

Escrito por Ruth Rendeiro

A primeira feira do livro que tive o privilégio de frequentar foi a Panamazônica, em Belém. Encantamento de primeira. Um mundo onde só se respira livros, onde se fala de cultura, onde a gente percebe o quanto sabemos pouco e quanto ainda há por ler, aprender, escrever, viver.

A segunda foi a Bienal do Livro em 2008 em São Paulo que de tão grande assusta. Fiquei meio imobilizada diante de tanta gente, de tantas obras, de tanto movimento. Creio que não usufrui por inteiro do megaevento. Depois veio a FLIP, que não é uma feira do livro, mas uma feira literária internacional É a bela cidade de Paraty (RJ) transformada em celeiro do conhecimento, é o encontro marcado ou casual com os autores mais renomados. É o ídolo que sai das páginas e caminha ao nosso lado pelas ruas de paralelepípedos.

Pela segunda vez participei, este ano, da Feira do Livro de Ribeirão Preto e bem mais do que as compras descontroladas de livros que não sei quando vou ler, participei e presenciei o interesse de muitos jovens nas palestras e oficinas oferecidas gratuitamente e prestigiadas pela população desta cidade do interior de São Paulo e de outras dos arredores. Filas e mais filas sob um sol escaldante de 13 horas, não afastou os que se programaram para ouvir o filósofo e escritor Mário Sérgio Cortella. Muitos não investem em eventos dessa natureza por acreditar que não valem a pena, mas quando se faz percebe-se que há muita gente sedenta por conhecimento. Inclusive (ou principalmente) os jovens.

Domingo, 16 Junho 2013 17:26

Pra quê tanto livro?

Escrito por Ruth Rendeiro

Se você gosta de ler e nem precisa ser um Elias Ribeiro Pinto, certamente já teve que responder esta pergunta diversas vezes. E o pior é que não há uma resposta convincente. É claro que o motivo principal é a paixão pela leitura, mas vai muito além disso. O desejo de ter o livro perto, sob nosso domínio, só é compreendido por aqueles que sentem igual. Às vezes ele permanece meses fechado, totalmente virgem na estante.Pode até pedir colo, tentar furar a fila, mas o importante mesmo é que ele está ali bem próximo, ao alcance das mãos.

Quantas vezes tentei não reunir mais do que duas, três dezenas de livros em casa. Doações fazem bem a quem doa e a quem recebe. Prateleiras quase vazias (alguns são intransferíveis!), mas bastam alguns poucos anos e lá estão eles de novo. Multiplicam-se como coelhos.

A relação com os livros é forte demais. São companheiros a qualquer hora, doam-se sem nada pedir em troca e nos levam a lugares nunca visitados numa viagem sem sair do lugar. Palavras que dizem exatamente tudo o que gostaríamos de dizer ou que chocam e aborrecem, amedrontam, excitam ou apenas informam. Amassados sob nossos corpos adormecidos, aos pés da cama ou organizadamente dispostos no criado-mudo, os que encontram nas páginas salpicadas de preto o prazer de ler sabem exatamente do que estou falando. Alguns nunca entenderão, outros talvez tenham a curiosidade de experimentar e aí tornar-se-ão mais um dependente. Um vício difícil de vencer! 

Sexta, 14 Junho 2013 18:04

Minha primeira vez em Sobral

Escrito por Ruth Rendeiro

Já estive em Fortaleza dez, vinte vezes, mas conheço pouco do interior do Ceará. Algumas poucas praias não tão distantes assim da capital e só. Recentemente tive o privilégio de ir a Sobral. Uma cidade surpreendentemente linda. Depois de cinco horas de viagem de ônibus eis que surge um bem lugarejo desses que se pode encontrar em qualquer lugar do Brasil. Casarões antigos e bem conservados, praças arborizadas, museus e um povo cheio de orgulho pelo patrimônio preservado.

Infelizmente nem tudo foi perfeito, como nada o é. No percurso de Fortaleza à cidade um susto. Passava das 17 horas e uma pedra, atirada com muita força, aterrorizou os que lotavam o ônibus. Gritos e conselhos dos mais experientes para que o motorista não parasse. Poderia ser uma emboscada. A janela lateral estilhaçada respingava cacos de vidro e alguns tiveram que viajar em pé até a parada aonde um novo ônibus veio em socorro após duas longas horas.

No retorno, ao chegar à rodoviária, novo susto. Barulho de tiros e depois o encontro com um homem ensanguentado que atordoado passava as mãos na testa e na nuca. Talvez tentando entender como ainda vivia depois de ter uma bala varada pela cabeça. Entrou sem ajuda na ambulância e sumiu deixando as pessoas estarrecidas com mais um atentado à vida.

Nada de estranho nas duas cenas no Brasil que esbanja violência. A diferença é que deixamos de ser apenas espectadores passivos e, chocados, presenciamos o que todos os dias a Imprensa noticia. Apenas isso.

Terça, 11 Junho 2013 17:31

Gastronomia que apaixona

Escrito por Ruth Rendeiro

Quem viaja está em constante estado de evolução. É aprender com prazer, descobrir novos mundos, novas pessoas, se ver no outro. Cada canto tem seu encanto. A gastronomia é um deles. Percorrer os Estados amazônicos é uma aventura muito além dos rios, animais exóticos ou da chuva intermitente.

Quem já teve esse privilégio sabe do que estou falando. Peixes que nunca frequentaram uma geleira, morreram sem conhecer a temperatura gelada. Saem dos rios para a cozinha. Assados na brasa, cozidos em caldeirada ou fritos na hora eles são sempre uma atração à parte. Mas tem ainda os caranguejos, mexilhões, siris... Um capítulo especial fica por conta do cardápio de influência indígena: maniçoba, tacacá e as frutas regionais abundantes em sua safra, que transformadas em cremes, sorvetes e outros doces só tendem a aumentar o já gigantesco grupo de seus apreciadores.

No Nordeste não é diferente e se é o Ceará, seja Fortaleza ou o seu interior, os que gostam de arriscar, experimentar há uma coleção de sedução. Lagostas, camarões preparados de diferentes maneiras, peixes, o baião de dois com queijo coalho, galinha a cabidela (a que usa o sangue do próprio animal como molho). Mais diferentes, mas nem por isso menos saborosos, estão o carneiro, cordeiro e o famoso bode. Cantado em verso e prosa, mas que assusta e pode causar até repugnância nos mais conversadores de paladar. Não consegui experimentar a conhecida buchada de bode, mas ela continuará na minha lista de espera gastronômica.

Domingo, 09 Junho 2013 18:57

Câncer – A luta continua

Escrito por Ruth Rendeiro

A luta contra o câncer é árdua. Felizmente os cientistas não desistem em entendê-la para que finalmente possam dominá-la. A edição de maio passado da revista SuperInteressante traz o quê de mais recente tem se discutido sobre a doença, fundamentado de que ela existe a partir de cada um de nós. Só um corpo em desequilíbrio produz o câncer.

Ao mesmo tempo que a afirmação é comemorada, já que elucida uma série de questionamentos sobre a sua origem, que já foi atribuída até a um vírus, por outro passa a ser de exclusiva responsabilidade do paciente ter aberto a porteira para que ela entrasse e se instalasse. Enumeram seis hábitos de risco: obesidade,falta de frutas e verduras, falta de atividade física, consumo de cigarro e álcool.

O maior de todos os desafios, segundo os entrevistados pela revista, é desenvolver remédios para 10 mil proteínas diferentes. Hoje são pesquisadas apenas 500. O mais curioso são as recomendações que podem ajudar a afastar a doença. Pequenas atitudes que fazem, garantem, a diferença: ter um cachorro, não ficar muito tempo sentado, tomar a vacina da gripe, usar sapatos confortáveis e preferir alimentos orgânicos e congelados. Estranho? Os estudiosos afirmam que os sapatos confortáveis, por exemplo, evitam inflamações nas articulações e coluna lombar e congelar os alimentos ajudam a manter os nutrientes.Os frescos, ao percorrerem o longo o caminho plantio-venda-casa já perderam quase tudo de bom.

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