Quinta, 07 Julho 2016 08:19

Choro por ti, Belterra! Capítulo final

Escrito por Nicodemos Sena

Atrás da Prefeitura avistamos um pequeno bosque de velhas e retorcidas seringueiras. Parei o carro e papai logo abriu a porta e desceu. Continuei no assento e observei o meu velho caminhando devagar, por entre as árvores. Ao chegar ao meio do bosque parou, de um jeito e numa posição que, num instante, o enxerguei como se ele fosse uma daquelas árvores, como se já idoso tivesse se reintegrado ao grupo de suas irmãs, de quem se separara em criança.

Ali estava papai, de volta à sua “aldeia”, depois de muitos anos, bem mais do que os 20 que Ulisses estivera fora da sua Ítaca. Ali estava papai, sobrevivente.de uma guerra na qual foi lançado no exato instante em que veio ao mundo. Bem sabia eu o que ele sentia e os pensamentos que os sentimentos geravam em sua mente, àquela tardia hora do trabalhoso dia que atravessáramos.

“Filho, queria acabar entre estas seringueiras, ficar aqui fincado que nem pau seco com minhas cascas ressequidas, até as chuvas me desfazerem em estrume dessa grama que pisamos. Porque as amei na infância, com elas brinquei e conversei nas horas da minha alegria e da minha tristeza. Aqui, neste bosque, no tempo em que vida havia aqui, assisti à lenta volição dos crisântemos, a sua desfolhação. Psiu, almas que vejo em todos os lugares, almas penadas que não desistiram desse lugar! Psiu, almas irmãs! Não fujam de mim, pois logo me juntarei a vocês, almas queridas, almas amigas. Falem pouco, queridas! Falem devagar! Que eu não vos ouça, sobretudo com o pensamento. Pois dói ouvir o que estão a me dizer. O que quis? Eu não quis: tenho as mãos vazias. O que fiz longe de vocês? Eu não fiz: vejam o vazio que trago no peito. Nada fui e nada realizei de grande em outras plagas; volto tão pobre e vazio como parti; peço-vos que me aceitem mínimo e mísero como estou.”

  Bosque de velhas seringueiras em BelterraBosque de velhas seringueiras em Belterra

Num gesto amistoso, papai apoiou-se com o braço direito no caule de uma das seringueiras, e então percebi a ação nefasta do sol e de outros agressores sobre a sua pele, mãos e braços engelhados, mui parecidos com a casca da árvore cheia de cicatrizes provocadas pela imperícia dos “cortadores” (como eram chamados os homens encarregados do corte das seringueiras, nos dias já remotos em que os americanos organizavam a extração da borracha em Belterra).

Do mesmo modo paradoxal, o clima de desolação que víramos em todos os lugares persistia ali. No gramado que se espalhava debaixo das árvores, notei apenas folhas recentes, a denunciar que alguém, naquele mesmo dia ou na véspera, passara o rastelo na grama. Mas cadê o jardineiro? Mesinhas de madeira, ainda que toscas, e bancos, ainda que improvisados, viam-se no centro do bosque. Mas onde anda quem as arrumou? Num galho de uma das altas seringueiras uma lâmpada, como um olho perscrutador, espécie de holofote, ficara acesa desde a noite anterior, por descuido de algum funcionário, ou porque se esperavam pessoas para alguma atividade que aconteceria na noite que se aproximava. Mas qual atividade seria se, às 17 horas, quando em todas as cidades do mundo há um fervilhar de gente que volta para casa após um dia estafante, aqui em Belterra nenhuma alma vivente se movimenta? Para todos os lados que olhasse só via desolação, a mais absoluta solidão. E esse quadro, que dentro daquele dia fantasmagórico até já parecia “normal”, de repente assumiu contornos pavorosos.

Dentro de mim já veloz a noite e tudo se misturando, eis que à minha frente surge um cemitério. Com seus braços e pernas fininhos e engelhados, a pele ressequida se confundindo com a casca verde-cinza das árvores, papai já não é um homem e sim a alma insepulta de uma seringueira. Chegara, enfim, depois de girar em círculos num deserto, à vila da sua infância. Descera do comboio da vida com os passos de um viajor cansado. Olhou. Viu. Comparou. As mesmas estradas, as mesmas árvores, mas cadê as pessoas? Apenas o amarelo-escuro e a poeira nos olhos e na alma; janelas e portas abertas, por onde ninguém passava; roupas nos varais e limpas calçadas, para quem e para quê, se tudo é velho onde foi novo? Até a casa que pintaram de novo é mais velha porque pintaram de novo.

Saí do carro e andei pelo bosque com esses pensamentos. Por um instante que pode ter durado uma eternidade, fui e voltei aos lugares em que fui e que não fui. Todas as leituras e personagens que movimentam a minha lembrança desfilam diante do meu ser, e este, ao voltar para a luz dessa tarde que se vai findando, pergunta-me:

“E eu, o que sou agora?”

E outra voz que é a mesma, responde: “Diante da paisagem, o que vês és tu”.

Como um eco do que já ouvira em pensamento, ouço papai me dizer:

– Eu queria acabar entre essas seringueiras.

Num gesto patético e comovedor, vejo-o abraçar-se ao caule da velha seringueira, sua irmã, e assim ficar por um longo tempo; depois se afasta e toca com a ponta do dedo os nós da casca áspera.

– Olha só que maldade fizeram com ela!

E conta que os americanos trouxeram dos Estados Unidos as sementes tratadas cientificamente dentro de uns copinhos e as metiam na terra de um viveiro e, quando alcançavam um palmo e meio de altura, o engenheiro esticava uma linha e os furadores plantavam as sementes em fileiras, três metros uma da outra, não se enxergando o fim, e ali as mudinhas, protegidas da praga pelo veneno que os examinadores bombeavam em redor dos pés, esperavam as chuvas do inverno, e assim cresciam rapidamente e, com uma faquinha em formato de foice, recebiam o enxerto das seringueiras nativas; os brotos eram apertados com cera e gaze, como se enrola um ferimento, na casca da seringueira plantada, evitando-se, assim, a infiltração de água, e, 45 dias depois, a gaze era retirada do broto que já despontava na casca da seringueira, tudo para dar longevidade e aumentar a produtividade da árvore, verdadeira ciência, não era qualquer um que cortava a seringueira, havendo cursos para cortadores. O primeiro corte só podia entrar um pouquinho na casca, pois, se o cortador afundasse o golpe, formava-se um nó e a seringueira se estragava. Duzentas seringueiras por dia era a tarefa de cada seringueiro; enquanto não cortasse tudo não podia ir embora; e a bica (vasilha de alumínio) tinha que ser fincada no ponto certo, sem nenhum erro, senão a seringueira ficava fora de extração até ser recuperada, mas, na azáfama de completar sua tarefa, o cortador acabava errando o corte. Não era despedido por isso, mas tinha que voltar para o curso; entretanto, se reincidisse no erro, o transferiam a outro tipo de serviço. O cortador também tinha que colher o leite às 11 horas. Depois de fincar a bica, vinha com um balde e uma cinta colhendo o leite, e, lá pelas 15, terminava o serviço. Tinha ainda que limpar a árvore da sobra do leite, o “sernambi”, e, para evitar que o leite coalhasse, colocava uma solução e só então os baldes eram levados para a beira da estrada, onde os carros vinham buscar. Toda essa ciência, infelizmente, se perdeu depois que os americanos abandonaram o projeto e voltaram à sua terra.

 Nos produzidos na casca da seringueiraNos produzidos na casca da seringueira

Papai fechou-se novamente num silêncio que dizia mais coisas do que mil palavras. E nesse silêncio fomos conversando:

“Na verdade, filho, nada está mudado por aqui, ou pelo menos não dou por isso. Há sessenta e cinco anos! O que eu era então? Ora, era outro. Sessenta e cinco anos inúteis (sei lá se o foram! Sei eu o que é útil ou inútil?). Sessenta e cinco anos perdidos (mas o que seria ganhá-los?)”.

“Sim, pai. Eu também tento reconstruir a minha imaginação. Quem eu era e como era quando menino, há cinquenta anos, onde nasci. Não me lembro, não me posso lembrar. O outro que aqui viveu, se existisse hoje, talvez se lembrasse. Há tanta personagem de romance que conheço melhor por dentro do que esse eu-mesmo que há cinquenta anos partiu”.

“Sim, filho, o mistério do tempo. O não se saber nada. O termos todos nascido a bordo ou entre dois lugares”.

“Símbolos, pai. Símbolos. Tudo são símbolos. Isto é a realidade”.

“Sim, filho. A realidade sempre é mais ou menos do que nós queremos. Só nós somos sempre iguais a nós-próprios. Vê de longe a vida, filho, nunca a interrogues. Ela nada pode dizer-te. A resposta está além dos deuses. Suave é viver simplesmente.”

Ainda falei mais algumas frases, mas esse diálogo da alma foi interrompido porque papai, como quem enxerga um fantasma, exclamou, desta vez com a boca:

– Será possível que seja o mesmo?

E correu em direção a um velho trator que desde o começo estava lá, mas só agora avistamos nas bordas do bosque de seringueiras.

Eu já vi homens se emocionarem com tantas coisas: um animal de estimação, uma bela namorada, um filho esperado, um presente recebido, um tesouro encontrado, o pôr-do-sol, o canto dos pássaros, o céu estrelado ou a lua-cheia nascendo do mar... Mas era a primeira vez que via um homem correr para uma máquina como quem corre para o braço da mulher amada ou ao lugar dos sonhos.

Como um menino, o homem de setenta e oito anos saltou sobre o enferrujado estribo do velho trator e logo estava sentado no que um dia fora uma boleia.

Largo era o sorriso do menino; seus olhinhos brilhavam.

Eis que nesse exato momento surgem, como que do nada, alguns meninos. Ao verem papai na boleia do trator, largam suas bicicletas e se juntam a ele, que agora brinca de dirigir o trator e imita o seu ronco. Mas, de repente, do mesmo modo inesperado como apareceram, os meninos sumiram. Até hoje me pergunto se aqueles meninos de fato existiram ou surgiram da minha imaginação, pois papai não se lembra de tê-los visto.

Trator trazido pelos americanos para BelterraTrator trazido pelos americanos para Belterra

O dia caminha para o seu fim. Como todas coisas naquele dia em Belterra, tudo naquele momento mostra-se duvidoso. Mas também para que complicar inutilmente? Para que ficar pensando no que impensado existe? Ora, não nascem ervas sem razão dada? Para elas olhos, nas razões, são a alma. Como através de um rio as contemplamos. Os americanos há 70 anos deixaram o lugar mas é como se nunca tivessem saído; sua lembrança paira em tudo o que restou em Belterra, sendo lícito afirmar que Belterra é a sombra de um grandioso projeto que não deu certo, de um sonho que se transformou em pesadelo – o sonho de se implantar uma atividade econômica autossustentável, em moldes civilizados, no coração da Amazônia, e nada mais que isso. Os brasileiros que substituíram os americanos na administração de Belterra já morreram; gerações de nativos – caboclos e caboclas – passaram com seus pés e seus olhos por essas estradas, e em suas margens foram enterradas; alguns conseguiram sair do pesadelo viajando para outras terras, mas suas almas, finda a inglória jornada, retornaram para o lugar onde apesar de sofrerem foram felizes. Depois da partida dos americanos, Belterra cresceu e virou cidade, mas parece cada vez mais deserta e desabitada. É preciso amá-la muito, como o meu pai, para não se decepcionar com ela. É preciso tê-la no coração para enxergá-la com os olhos da alma e perceber-lhe os movimentos ocultos, a paz daqueles olhos que nos espreitam através das paredes e das portas e janelas, sempre abertas mas sempre vazias, ou das margens de suas estradas silenciosas mas movimentadas por seres que se revelam apenas àqueles que, como meu pai, se aproximam com bons propósitos.

Quando papai desceu do trator abandonado, o sol já não conseguia penetrar a densa ramagem das seringueiras. Ao aproximar-me, vi que no fundo de suas retinas havia também densas sombras. Em silêncio nos aproximamos. Não havia o que falar naquele momento, e nem precisava. Mas entendi perfeitamente o que papai estava me dizendo:

“Nada fica de nada, filho. Nada somos. Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos da irrespirável treva que nos pese da úmida terra imposta, cadáveres adiados que procriam. Vive sem horas, filho. Suave é viver só. Grande e nobre é sempre viver simplesmente. Domina ou cala. Não te percas dando aquilo que não tens. Basta-te o pouco que és. Pois somos nada. Nada.”

Antes de entrarmos no carro e empreendermos o retorno a Santarém, meu pai, num gesto de despedida de um dia que lhe reacendeu velhas paixões e fez sangrar antigas feridas, reaproximou-se do cadáver de trator e, como se acariciasse o dorso de um animal ainda vivo, olhou para a máquina enferrujada, símbolo de malograda promessa de prosperidade, das tantas que já se apresentaram ao povo da Amazônia, e chorou.

Diante do enferrujado trator, simbolo de uma era malograda em Belterra, meu pai chorou.Diante do enferrujado trator, simbolo de uma era malograda em Belterra, meu pai chorou. 

FIM

Sexta, 13 Maio 2016 13:01

Choro por ti, Belterrra! Capítulo dezenove

Escrito por Nicodemos Sena

Um ano e meio depois desse dia insólito, revendo as fotos que tiramos ao lado do desajeitado guarda do Palácio, sinto-o como se fosse hoje. Numa delas, “JP” – como o chamarei a fim de protegê-lo da provável retaliação de seus superiores hierárquicos, que não ficarão nada satisfeitos ao lerem as informações que o subordinado passou-me sobre eles – aparece todo garboso, sorridente, com os antebraços apoiados sobre o parapeito da estreita sacada frontal do Palácio. Olha como que para um ponto próximo, que se localiza, no entanto, numa região longínqua e inalcançável. Um sorriso amplo esboça-se em sua cara ancha, mais larga do que comprida, de caboclo; a alvura dos dentes faz um rasgo entre os lábios finos. Embora ele saiba que não nos reveremos jamais e que sua imagem divertirá pessoas que jamais conhecerá e para as quais nada mais significará do que a figura estereotipada de mais um caboclo de tantas gerações de caboclos, JP, ainda assim, parece satisfeito e confiante. Ali, peça inútil e insignificante na imóvel rotina de uma cidade que foi criada masnão se deu conta de que passou a existir, JP olha para o futuro mas não parece sonhar com este; mira-o mas não crê que possa enxergá-lo como algo real, palpável. As fotos, nas quais aparece, são como o seu próprio destino: sombrias e sem perspectiva. Mas JP continuará sorrindo o seu sorriso de menino grande, sem cálculo nem esperanças, e assim entrará na eternidade, como a folha seca que cai na terra e nesta se desmancha, e ninguém senão Deus a contabiliza. 

JP parece feliz naquele lugar, fora do tempo, noutro mundo. Em outra foto, meu pai pousa o olhar sobre ele como que o reconhecendo. Gosto dessa foto; acho que fui feliz ao apertar o obturador da câmera no exato momento em que papai lançava esse olhar para JP. Um olhar fixo mas vazio, vendo e não vendo. Olhar à toa, perdido, sem nexo ou sentido, na imensidão imensa, solitária solidão semelhante à de JP.

Sei o que acontece com papai quando olha assim para uma pessoa. Pessoa ou coisa, dá no mesmo. Quanta imagem de gente passou pelas suas retinas e foi-se para o fundo do abismo! Quantos passos na areia, quantos gemidos pelos caminhos, quantas palavras que ele gostaria de ter dito e não disse, e agora lhe atravancam a garganta! Onde estão os amigos de infância? A imagem de JP diante dele desperta muitas lembranças; a silhueta grandona e infantil de JP faz lembrar-se de alguém que há muito não sabe onde anda e agora parece se erguer diante dele. Meu pai mira JP e pergunta-lhe:

– Quem é teu pai?

JP pronuncia um nome que já nem lembro, mas vejo um brilho intenso nos olhos de papai. JP põe-se a contar a história de sua vida, sobre o pai que não conheceu e que se foi pelo mundo deixando atrás de si um rastro de esperma e de filhos.

– Dizem que meu pai era muito bonito e muito forte, jogador de futebol – disse JP. – As mulheres (bobas!) gamavam no seu jeitão e logo ficavam grávidas; foi assim que cheguei a este mundo; quando me dei por gente, o jogador tinha ido embora pra capital e daí nunca voltou; ouvi dizer que ele já morreu; nem seu rosto conheci, pois, naquela época, não havia aqui jornal nem televisão e mamãe, para esquecer sua desdita, jogou fora a fotografia do meu pai, mas eu nem quero saber.

Papai ouviu as palavras do melancólico rapaz e não disse nada, mas, vendo o tom cinza-escuro que tisnou os olhos de papai, adivinhei o diálogo que ele travava com o passado, esse enigma visível do tempo, o nada vivo em que estamos:

“Ferreira, seu filho da puta, por que fizeste isso com o rapaz?”, disse meu pai, em pensamento.

“Não me censures, primo, pois temos todos duas vidas: a verdadeira, que sonhamos na infância, e que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa; a falsa, que é a que vivemos em conveniência com outros, que é a prática, a útil, aquela em que acabam por nos meter num caixão”, retrucou, de dentro de um túnel escuro e profundo, o primo de meu pai, conhecido como Ferreira, cujas façanhas, de tanto papai relembrar, eu sabia de cor.

Ferreira era filho de Ninita, tia de meu pai, que enviuvou muito jovem e por isso os quatro filhos, entre os quais Ferreira, tiveramdesde tenra idade que se virar sozinhos, de casa em casa, trabalhando em troca do prato de comida para os que faziam a caridade de explorar-lhes a mão-de-obra infantil, sobrando ao primo Ferreira, como único consolo, as horas em que, fugindo de seus senhores, jogava homéricas “peladas” com outros meninos, adquirindo logo a fama de “bom de bola e goleador”, disputado pelos times do subúrbio de Belterra e até mesmo de Santarém, para onde todos os meninos sonhavam um dia ir ser jogador de futebol. Mas, antes de “correr mundo”, Ferreira fez uma “carreira” meteórica (rápida no subir e no despencar) na Companhia dos americanos que administravam Belterra.

Olhando para JP, cujo perfil lembrava o de Ferreira, papai certamente pensava no primo com quem jogou bola nos campinhos-de-terra de Belterra e que depois se perdeu pelos campos do mundo, deixando para trás seus vestígios gravados nos olhos turvos e amendoados e nos músculos bem-formados de inúmeros garotos com ele parecidos.

Onde andará o primo Ferreira? Certamente a sua carreira de futebolista não decolou como um dia deve ter sonhado, pois, depois de ter jogado num time da capital do Estado, desapareceu no interior da Bahia, no humilde Fluminense de Feira de Santana, ao qual as pessoas de Belterra, querendo engrandecer o conterrâneo “famoso”, propositadamente confundiam com o Fluminense do Rio de Janeiro. “Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo. O que não há somos nós, a verdade é esta. Somos o que falhamos ser. Somos todos quem nos supusemos. A nossa realidade é o que não conseguimos nunca”, tive esses pensamentos sombrios ao olhar para JP. 

Olhando para papai, também imaginei o que ele sentia diante de JP. “Ah, meu filho, a minha tristeza dos barcos que passam no rio sob o céu cheio de sol, e as mãos desconhecidas que de lá acenam. Isso me traz o desejo de chorar absolutamente como uma criança. Ah, meu filho!”

Eu era capaz de ouvir o pensamento de meu pai naquele momento. Se o primo Ferreira tivesse aproveitado a oportunidade que se lhe apresentou em Belterra, sua vida teria sido outra e talvez JP não fosse hoje um simples porteiro de um “palácio” perdido nas brumas de um tempo sem tempo, sem rei nem súditos. Pois o primo Ferreira, ladino e formoso como era, atraiu a simpatia de Mr. Colleman, o diretor de Belterra, que o levou para morar em sua casa, junto de seus alvíssimos filhos e esposa, comprando-lhe roupas brancas e sapatos também brancos, como a prenunciar o futuro médico no qual secretamente desejava transformá-lo. Inicialmente, Ferreira servia como uma espécie de pajem de Mr. Colleman, acompanhando-o ao hospital da cidade ou onde quer que fosse, no jeep da Companhia, sentado na boleia, ao seu lado. Ao descerem do carro, imitando Mr. Colleman, Ferreira se protegia do sol escaldante do meio-dia com um pequeno sombreiro e um chapéu-coco (ambos brancos) que o gringo lhe dera, e isso, se por um lado granjeava a admiração do povo, trazia, por outro, a maledicência e a inveja dos meninos menos afortunados, que extravasavam o seu despeito durante as peladas aplicando-lhe ostensivas caneladas, com as quais, porém, o futuro “craque” teve a oportunidade de desenvolver precocemente aquela sua capacidade que se tornaria, segundo os que o viram jogar, uma de suas características mais fortes: a de enfrentar os mais brutos adversários sem jamais recuar, o que lhe valeria o apelido de “O Brocador”.

 Brocador nos campos de futebol e no ventre das mulheres, de todas as cores, idades e tamanhos. Lembro que papai me disse que, muitos anos atrás, no seu último encontro com o primo, este se gabava de já contabilizar 52 rebentos espalhados pelo mundo, concebidos nos lugares mais improváveis e inconcebíveis, como na cama de certa madame chique maltratada pelo marido ou nas capoeiras em torno dos vilarejos onde o nosso craque prestou seus serviços futebolísticos, ou no tronco de uma mangueira ou árvore doutra espécie, de noite ou de dia, no calor ou no frio, dentro ou fora d’água.

Mas foi justamente o seu instinto de brocador que o fez perder-se na vida e também em Belterra.

Seguindo o seu projeto de forjar em Ferreira um grande médico, Mr. Colleman, quando o pupilo chegou aos seus 17 anos, guindou-o ao posto de seu enfermeiro predileto. E tudo parecia correr muitíssimo bem, Ferreira já conhecendo os instrumentos cirúrgicos usados pelo seu protetor, o qual se dedicava a ensiná-lo com paternal zelo, entregando-lhe em minutos conhecimentos que um estudante receberia em anos de pertinaz esforço. Até que a fera que Mr. Colleman sonhara domar, a fera que Ferreira trazia dentro de si e que todos nós trazemos, a fera que tem fome de carne, fome de ar, de terra e de eternidade, a besta-fera que acorda quando menos esperamos e leva um homem à loucura (ou à felicidade?), estourou o seu guincho terrível e saiu das entranhas do aplicado enfermeiro Ferreira e entrou pelo ventre da respeitosa enfermeira Augusta (mãe de muitos filhos mas ainda enxuta, que há anos preservara-se de homem, segundo se cria, apesar de quarentona) e aí, em 8 constrangidos meses, o rebento da fera germinou e cresceu, até que, não podendo mais se esconder, pôs a cabeça para fora e soltou um choro triste, de criança sem pai. Pois Ferreira, não querendo assumir a paternidade atestada pelo próprio Mr. Colleman, foisumariamente demitido do hospital e expulso de Belterra, deixando para trás o recém-nascido, que bem poderia ser JP.

Tudo isso se passou, por incrível que pareça, em apenas alguns minutos, talvez uns 10, quando muito. 

JP disse-nos que havia chegado às 14 horas e seria rendido por outro guarda às 3 da madrugada, quando então voltaria para casa para dormir. Mas, certamente, depois que saíssemos dali, retomaria o seu sono tranquilo, resfolegado, dos que vigiam o que não há para vigiar. JP nascera em Belterra, no antigo hospital Henry Ford construído na década de 30 do século passado pelos americanospuxou-o para este mundo as mãos santas de Mr. Collemano qual, pouco depois, com o desmonte do projeto do plantio das seringueiras na Amazônia, voltou para a sua pátria, onde seu corpo, certamente, foi enterrado num daqueles cemitérios sem criptas, pois Mr. Colleman era judeu. Mr. Colleman não existmais, o hospital onde JP nasceu também não existe mais, foi incendiado no ano de 2006, e, em suas brasas, arderam as centenas de almas teimosas dos que ali morreram e não desistiram do lugar. JP está ali, à nossa frente, mas existirá mesmo? Ou será apenas a lembrança de meu pai de um tempo que não volta mais? Lembro do seu olhar, que atravessa ainda a minha alma como um risco de fogo na noite. Lembro bem do seu olhar. Lembro de Fernando Pessoa: “O arcanjo isolado, escultura numa catedral, esfinge fugindo aos braços estendidos de Pã. Tudo isso tende para o mesmo centro, busca encontrar-se e fundir-se na minha alma”.

 

 Hospital Henry Ford incendiado em 2006Hospital Henry Ford incendiado em 2006

 

Aos despedir-se de nós, JP tinha uma expressão infantil em seu rosto largo. Papai olhava para ele, e eu adivinhei o que papai sentia; li os seus pensamentos ao estender a mão para JP em despedida. Papai adora todas as coisas, esse é o segredo de sua longevidade. O seu coração é um albergue aberto toda a noite. Tem pela vida um interesse ávido, que busca compreendê-la sentindo-a muito. Ama tudo sem reservas, “sem freio puxado”, como se diz hoje. Ele empresta humanidade a tudo; aos homens e às pedras, às almas e também às máquinas, como o leitor verá mais adiante. Papai pertence a tudo mas sobretudo a si próprio, e a sua ambição parece ser trazer o universo ao colo como uma criança a quem ama e beija. Com ele aprendi essa coisa louca de gostar mais dos movimentos e das sensações do que das coisas palpáveis, pois, na verdade, o mundo é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.

Agora, ao escrever essas coisas, estremeço, ao pensar que, como naquele fim tristonho de tarde, o sol, nesta exata hora, já descera ao seu ataúde por trás do que restara dos velhos seringais de Belterra e se afundara na imensidão azul do rio Tapajós, de onde, pela manhã, se levantará banhado de luz e de sonhos.

Mas a última cena dessa tarde que parecia nunca ter fim ainda estava para acontecer. O feixe de lembranças e sensações, que se foram juntando desde o começo de nossa peregrinação por Belterra, ainda iria se completar. Faltava algo. A noite se aproximava mas sentíamos que ficaríamos o tempo que fosse preciso em Belterra, até que o feixe se completasse. Entramos no carro novamente e, como que atraídos por uma força estranha e irresistível, enveredamos por uma trilha que se internava por trás do prédio da Prefeitura, onde aconteceria o gran finale daquele inesquecível dia.

(Continua no próximo capítulo)

Terça, 15 Março 2016 22:02

Choro por ti, Belterra! Capítulo dezoito

Escrito por Nicodemos Sena

Do combalido prédio da Secretaria Municipal de Administração, Finanças e Planejamento até a sede da Prefeitura, levamos mais ou menos cinco minutos, em marcha lenta, quase parando; os cinco minutos mais extensos que eu já vivi.

Como uma liga elástica e invisível, o tempo, jamais se rompendo, alongava-se e alongava-se até ao infinito. Um tempo sem medida nem espaço, interior, indelével e diáfano, que escorria de algum ponto perdido dentro de mim e, no mais profundo do meu ser, formava um lago de águas turvas onde peixinhos translúcidos trançavam-se a outros seres à toa, como quelônios e jacarés. Projetando-se para fora de mim, esse tempo sem tempo tornava-se a estrada por onde o nosso carro, ao final de um dia que parecia se desdobrar em mil dias, ia deslizando, cada vez mais lento e morrinhento, quase parando, como que adaptado ao ambiente imóvel e pachorrento de uma cidade diferente de todas as cidades do mundo. Uma cidade retalhada por mil estradas e caminhos, repleta de rastros, certamente habitada – a julgar pelo estado das calçadas e cercas das casinhas de madeira pelas quais passamos desde as 9 da manhã, nessa busca pertinaz e angustiada de meu pai pelo menino que ele fora em Belterra, nos dias já remotos dos Anos 30 do século passado – mas completamente deserta.

De um lado e do outro da mítica Estrada Um, no “centro administrativo” de Belterra, eu via a paisagem tristonha e desoladora ir ficando para traz, num ritmo lento, de slow motion, cada detalhe riscando-me como lâmina a retina e penetrando-me os sentidos como finas agulhas, as quais, por instantes do tamanho da eternidade, provocavam como que um amortecimento da consciência e remetiam-me a episódios antigos da minha existência, como, por exemplo, uma viagem destrambelhada que eu fizera, cinco anos atrás, de carro, ao Uruguai. Eu ao volante. Pois, em regra, gosto de dirigir, mormente em longas distâncias. Boas ideias – nem sempre exequíveis, claro – já me ocorreram enquanto dirigia, e isso, para mim, é a parte mais apreciável das viagens. Daquela vez, porém, não conseguia apreciar a paisagem que ia ficando para trás e nem aproveitava os períodos de silêncio que costumam ocorrer nessas ocasiões dentro de um carro em movimento. Isto porque, o livro, que eu julgara terminado e publicado (refiro-me ao romance “A Mulher, o Homem e o Cão”, lançado em 2009), continuava a escrever-se dentro de mim, com os mesmos solilóquios e monólogos interiores, gerando-me certa sensação de insegurança que se agravou ao entrarmos na estrada Pelotas-Chuí (BR 471).

São 259 quilômetros em linha reta, sobre os pampas do Rio Grande do Sul. De um lado e de outro da rodovia, apenas campos alagados, sem nenhuma habitação humana ou estabelecimento comercial. Uma avaria no carro ou falta de gasolina, na estrada deserta e reta, até o infinito, nem pensar! A solidão daquelas paragens gerava, dentro e fora de mim, o silêncio mais absoluto, e uma expectativa indefinida punha-me em suspensão. Senti-me, novamente, afastado de tudo e de todos, como se tivesse regressado ao centro do mundo, esse não-lugar ao mesmo tempo de maravilhas e pavores, onde eu voltava a ser o menino que, enlevado pela paisagem, olhava para as margens alagadas do Rio Amazonas, cheias de pássaros, peixes e quelônios, e ficava mudo, pois não havia ninguém a quem pudesse comunicar o meu assombro; ou o jovem que, anos mais tarde, já em São Paulo, encolhido num porão escuro e malcheiroso, junto com baratas, pulgas e ratazanas, se refugiava da violência que explodia lá fora, entre a “fauna” das ruas. Tristeza, desamparo, temor... Desejo de cair no sono e nunca mais acordar. Receio maior de encontrar dentro do sono o pesadelo que estava vivendo, pois os dias e as noites se confundiam e sequer podia sonhar com o que já passou; o passado não tinha serventia, não havia coisa alegre para lembrar.

Também agora, nas margens da autoestrada Pelotas-Chuí, para onde eu olhasse, até o infinito, via uma fauna muito real, mas absurdamente fantástica, composta por garças, ximangos (um tipo de falcão) e outros pássaros que eu jamais vira na vida ou em livros, de tamanhos e cores variegadas; lontras, jacarés do papo amarelo, flamingos que depois alguém disse vindos do Chile, maçaricos do Canadá... e capivaras, milhares de capivaras, em bando ou isoladas, em seu lento e prudente bubuiar, bobas, que se deixavam quase tocar com as mãos, tão lerdas e inocentes que, ao tentarem atravessar para o pântano situado do outro lado da rodovia, eram atropeladas às centenas, pelos carros que iam e vinham entre Pelotas e Chuí. Morriam e ficavam ali mesmo, inchadas e apodrecidas, para o repasto de corvos e gaviões.

Quatro horas nessa estrada absolutamente deserta e silenciosa, mas, dentro de mim, escutava todos os cantos e guinchos do mundo. Quatro horas nas quais não pensei nenhuma vez que estava indo para Buenos Aires. Quatro horas nas quais me vi várias vezes às portas da loucura, esse outro lado do mistério, de onde ninguém retorna.

Não tenho problemas com a loucura, mas, para mim, ela precisa ser controlada. Quando saí de Santarém do Pará, minha terra natal, em 1977, a fim de travar a batalha da vida, disse para mim mesmo que um dia voltaria para contar o que vi e ouvi aos que ficaram. Ali, na autoestrada Pelotas-Chuí, para suportar à voz enlouquecedora do silêncio, tive que pensar sem eufonizar o pensamento. Bombas de efeito retardado às vezes se escondem num pensamento. Nenhum membro da raça humana, sem discernir as vozes do silêncio, suportaria ouvir um desses pensamentos. E os seres humanos, tão inteligentes para as coisas materiais, iludidos com a sua “sabedoria” e autossuficiência, tornam-se, na maioria das vezes, néscios e obtusos quanto aos movimentos do Espírito. Apenas os seres do charco, os mínimos seres, desprezíveis aos olhos humanos, sabem discernir o silêncio que vai na alma do mundo. Só eles, que conhecem os segredos das águas turvas dos lagos e nada almejam a não ser a paz dos lugares ermos e inatingíveis ao homem, podem saber quem eu sou. Eles, em sua nulidade, e Deus, com quem se confundem. Não posso dizer que os “conheço”, pois estou tão longe de anular-me a mim mesmo para que o Espírito cresça. Mas imagino quem sejam, na plenitude de sua insignificância. Pois conheço essas águas estagnadas, esses remansos da alma em que navegam suas minúsculas existências e onde um simples suspiro soa como um lancinante grito de dor e agonia, que fere as superfícies e provoca círculos sucessivos, concêntricos e infinitos. Ser amazônico que sou, conheço também os rios bravos, rios traiçoeiros, sei como eles andam, como crescem, a força que eles têm por dentro, por quais lugares passam suas veias. Os animais do charco e eu conhecemos muito bem a solidão dos lugares ermos e dos “rios profundos”, sobre os quais escreveu o peruano José María Arguedas.

Ali, nos pampas gaúchos, aquelas vidas mínimas, desimportantes, à margem do tempo e da civilização, “apenasmente” fauna, mas revolucionariamente ativos em sua inocência. Ao olhar para eles, inteiramente largados em sua inconsciência, compreendi que eu havia escrito um livro sobre criaturas que se recolheram para dentro de si mesmas e daí jamais saíram. Outro livro, porém, precisava ser escrito, sobre como vivem e o que pensam os seres esquecidos. Um livro que fosse a metáfora de todas as solidões terrenas.

Mal sabia eu que esse livro, aparentemente impossível de ser escrito mas que todo escritor almeja escrever, já existia dentro de mim e de meu pai e estava, desde as 9 da manhã, a escrever-se a si mesmo, naquele dia longo e tristonho, cheio de reminiscências, com a nostálgica e dolorosa caligrafia do “nunca mais”.

Estrada Um deserta e ja coberta pelo veu sombrio da noiteEstrada Um deserta e ja coberta pelo veu sombrio da noite

Eu via a paisagem às margem da Estrada Um ir ficando para trás, e meus olhos doíam. “Quando é que despertarei de estar acordado?”, veio-me esse verso de Pessoa.

– O que faremos agora, meu pai? – perguntei ao pequeno ancião que eu via ao meu lado, o qual, como que saindo de um arvoredo cheio de pássaros e flores, murmurou estas estranhas e aladas palavras, como que saídas de um livro de Fernando Pessoa:

– Não há que fazer nada na véspera de não partir nunca.

Pois papai, sem saber o conceito de poesia, foi, naquela tarde inesquecível, Poeta.

Então eu, lembrando das infinitas horas em que deixei a minha vida escorrer dentro da ampulheta dos sonhos, pensei: “Desde quando vivo a vida vegetativa dos pensamentos?”.

Sossego, sim, sossego... Grande tranquilidade... depois de tantas viagens, físicas e psíquicas! Que prazer olhar para as margens de uma cidade ao mesmo tempo real e fantasmagórica como Belterra e não enxergar nenhum movimento.

“Por que eu amo infinitamente o finito? Por que desejo impossivelmente o possível? Por que quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, ou até se não puder?”, continuei pensando.

A voz frágil, quase um sussurro, de papai, quebrou o fio dos meus pensamentos. Disse ele, como que falando para si mesmo:

– O que há em mim é sobretudo cansaço. Não disso nem daquilo, nem sequer de tudo ou de nada. Mas cansaço assim mesmo, ele mesmo, cansaço. A sutileza das paixões sem sentido, as paixões violentas por coisa nenhuma, os amores intensos pelo que se supõe haja em alguém. Essas coisas todas e o que falta nelas eternamente. Tudo isso me traz um cansaço, este cansaço. Cansaço. E, antes de cair em novo silêncio, completou: – Dormita, alma, dormita!

Olhei para os olhos de papai e vi neles como que uma pelica de indiferença. Os momentos de euforia haviam cedido a uma serenidade raramente vista num ser humano, como se alguém tivesse ido ao céu e ao inferno e daí voltasse sem nenhuma paixão.

A paisagem morta das margens da Estrada Um já não nos tocava, pois sabíamos que, às 4 tarde, o sol já se inclinando para o seu esquife noturno, onde refaz suas forças para o dia seguinte, nos tornáramos seres invisíveis para os invisíveis seres de Belterra. Os mil olhos que nos espreitaram até então haviam se desinteressado de nossa esdrúxula presença e recolheram-se para os espaços sutis de suas existências. No dia seguinte, algumas velhas mascando fumo e algumas mulheres grávidas contariam seus sonhos e neles dois vultos não identificados mexiam os lábios de modo incompreensível e essa lembrança passaria para seus filhos e aos filhos de seus filhos e tornar-se-ia um mito, o mito de duas almas que vagavam nas lembranças das velhas flácidas e das mulheres grávidas e daí entrava na lembrança das crianças que não puderam nascer.

“Quando é que despertarei de estar acordado?”, voltou-me esse pensamento, ao ver a desolação diante de meus olhos: uma casa construída na época dos americanos, ampla, avarandada, habitada por gente que não existe mais e que no entanto não se foi de todo embora, em estado avançado de deterioração; o mato à porta de entrada e as tábuas quebradas destacaram-se do restante da edificação e doeram-me como uma ferida sem cascão; o absurdo é que, através das janelas, viam-se peças de roupa estendidas dentro dos quartos, mas, a julgar pelo mato crescido em torno da casa e a ausência de vestígios externos, ninguém parecia ali habitar. Onde estavam os moradores daquela casa que saíam sem fechar as portas e as janelas e não deixavam marcas de pés ou sandálias em canto algum? Mais adiante, outra casa, também antiga e “vazia”, em avançado estado de deterioração; e outra, e outra... E outra, encardida de poeira e cercada pelo capim e ervas daninhas, em cuja entrada podia-se ler: “União Belterrense de Estudantes”. Mas onde os estudantes daquela “União”?

Uniao Belterrense de EstudantesUniao Belterrense de Estudantes )

E assim fomos, eu e papai, deslizando pela Estrada Um deserta e já coberta pelo véu sombrio da noite que se aproximava. O meu dedo registrou esse momento apertando o obturador da digital como se tocasse numa chaga. Uma chaga ao mesmo tempo exposta e invisível: a chaga de uma sociedade que definha numa apatia endêmica, uma fraqueza provocada pelas ventosas de uma oligarquia tosca e parasitária, que, como sanguessuga, se alimenta do suor e do sangue das populações empobrecidas das vilas, pequenas e grandes cidades da Amazônia.

Tudo isso aconteceu dentro de cinco minutos, no reino da minha mente, pois não temos mais reino do que a nossa própria mente. O problema é: como ter controle sobre a mente; será possível governá-la até à fronteira onde mora a vontade? A minha mente, naquela dia, às 4 da tarde, depois de a vigília e o sonho se confundirem, estava cansada, extremamente cansada. E nesse estado, por mais que me esforçasse para manter-me lúcido, dormitava. A noite plúmbea, que já se derramava sobre e debaixo das árvores das margens da Estrada Um, havia se debruçado sobre a minha alma, mas o dia não havia acabado e eu precisava cumprir o meu fado, ao lado de papai, deixando-me levar por ele, atento aos seus movimentos e humores, num trabalho de filho amoroso e testemunha fiel.

E foi num misto de cansaço e sonolência, já ansiando pela minha cama de hotel, que fui despertado pela visão de uma casa verde e branca, de madeira, construída no inconfundível estilo que os americanos criaram para as edificações de Belterra, na qual se podia ler: “Prefeitura Municipal de Belterra”, e, como subtítulo, um pomposo Palácio das Seringueiras.

Mas que “Palácio” era esse que se nos apresentava completamente desguarnecido. Cadê os guardas e sentinelas? Onde os serviçais? Onde os súditos? Estacionados em frente a casa, quedamo-nos olhando para ela e indecisos ficamos sobre o que fazer. Ora, não podíamos vir até Belterra sem conhecer o tal “Palácio” por dentro.

 "Palacio das Seringueiras"Palacio das Seringueiras

Descemos do carro e fomos subindo a tosca rampa cimentada, de apenas três metros, mas logo tivemos que interromper os passos, diante da porta estreitinha, de no máximo 1,20 metros de largura, que estava fechada. Cheguei a pensar em voltar para o carro, mas, ao olhar através do vidro, enxerguei um ponto escuro, em formato de bola, sobre o assento de uma cadeira, atrás da porta do Palácio.

Compreendendo o que significava aquele pontinho negro, papai olhou para mim com expressão interrogativa e bateu com os nós dos dedos sobre o vidro da porta, uma, duas, três, quatro, cinco vezes... e nada de o ponto escuro se mexer.

– Está ferrado no sono! – exclamou papai, voltando a bater no vidro, agora mais forte, fazendo com que a mancha redonda se abrisse, num zás de mola, e, num piscar de olhos, transformou-se num baita caboclo moreno e espigado, de olhos espichados, o qual, como que sem saber se estava dormindo ou acordado, esforçava-se para ficar de pé, na empertigada postura de guarda do patrimônio municipal.

Perto do vidro, vimos-lhe a cara desconfiada, antes de abrir a porta e sair ao nosso encontro.

– O que querem os senhores? – indagou, cordialmente.

Tinha a voz mansa, o guarda, e, aparentemente, não usava outra arma além de sua avantajada figura, mais para cortador de juta nas margens do Amazonas do que sentinela do “Palácio das Seringueiras”.

Apesar da estafa que se estampava no rosto de papai, este ainda teve ânimo para abrir um sorriso e falar:

– Será possível conhecermos as dependências do palácio e saudarmos o Rei e sua corte?

– A Rainha! – corrigiu o senhor guarda. – A Prefeitura é comandada por uma mulher – completou.

– Podemos falar com ela? – insistiu papai.

– Infelizmente, não será possível. A prefeita viajou para a capital e o expediente da Prefeitura se encerrou às 14 horas.

Assim foi que tivemos de nos contentar em tirar fotos ao lado do grande e bonachão guarda municipal.

(Continua no próximo capítulo)

Quinta, 21 Janeiro 2016 08:29

Choro por ti, Belterra! Capítulo dezessete

Escrito por Nicodemos Sena

Antes de voltarmos para o carro, que nos esperava na beira da estrada, caminhamos rumo a uma casinha de madeira, carcomida pelo tempo e pelo desleixo da Administração Pública – igual, aliás, a todas as casas construídas pelos americanos. Em tudo transparecia o abandono: mato crescendo pelo alambrado que servia de cercado, e, o que outrora já fora uma calçada não passava, agora, de um amontoado de cimento encoberto pelo terreno arenoso.

Todavia, apesar de seu lastimável estado, no prédio precário, conforme se podia ler na parede lateral, instalava-se a “Secretaria Municipal de Administração, Finanças e Planejamento da Prefeitura de Belterra”.

Com efeito, a maçaroca de fio elétrico no alto do poste-padrão de energia, fincado ao lado do prédio, denunciava com que zelo os funcionários da companhia de energia trabalham em Belterra.

Por sua vez, a ponta danificada do velho e musguento telhado fazia o prédio da Secretaria Municipal parecer-se com um velho e infeliz papagaio que tivesse quebrado o bico, a denunciar o esmerado serviço do Setor de Obras e Conservação do Patrimônio do município de Belterra.

Precario e lastimavel estado de um predio publico em BelterraPrecario e lastimavel estado de um predio publico em Belterra

Outra coisa que logo me chamou a atenção foi a quantidade de logotipos e legendas pintados sobre as paredes do prédio. Além do brasão do município, podiam-se ver os símbolos da FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), da DED-Deutscher Entwicklungsdienst e até da União Europeia!!!

Tal mistura de nomes e entidades, como acontecia na minha juventude, quando em tudo que eu lia, via ou assistia procurava encontrar “o sentido oculto” das coisas, deixou-me intrigado. Mas procurei afastar as desconfianças – pois não podia esquecer que eu decidira nesse dia dedicar toda a minha atenção aos movimentos e emoções de meu pai. Todavia, o “pregador de verdades”, que a um bom tempo eu julgara morto dentro de mim, voltou a falar.

Falou-me do sofrimento das classes que trabalham. (Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre). Falou da injustiça de uns terem dinheiro e de outros terem fome, que não sei se é fome de comer ou se é fome da sobremesa alheia, fome de justiça ou fome de comer o que os corruptos e tiranos comem sem seus banquetes palacianos. Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se. Disse que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros! E que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles e que injustiça é como haver morte. Disse que ele nunca daria um passo para alterar aquilo a que chamam “a injustiça do mundo”. Mil passos que ele desse para isso seriam só mil passos. Disse, ainda: “Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda, e uma jaqueira não ter nascido pinheiro ou carvalho”. E me propôs um enigma: “Corte uma laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais. Para qual foste injusto? Tu, que as vais comer a ambas?”.

Tais pensamentos, porém, não me acalmaram. Eu não conseguia calar as perguntas que me vinham à mente: O que fazem os alemães em Belterra, deixando suas marcas num prédio público? Que parte poderá ter a defesa da cidadania com o descalabro da administração pública? E o que leva a União Europeia a pôr as suas impressões digitais num lugar esquecido como Belterra?

O “pregador de verdades”, agora pela boca do meu papai, que me olhava de um modo esquisito, falou-me: “Meu filho, não te martirizas com as coisas confusas. Para ti tudo tem um sentido velado. Há uma coisa oculta em cada coisa que vês. O que vês, vê-lo sempre para veres outra coisa”.

É verdade, pensei eu, sempre fui assim, mesmo agora. Mas, agora, graças a ter olhos para ver, vejo ausência de significação em todas as coisas. Vejo-o e gosto que seja assim, porque ser uma coisa é não significar nada. Ser uma coisa é não ser suscetível de interpretação.

“Filho”, falou meu pai, “procurar a verdade é procurar Deus. Isso é loucura! Porque Deus quis que não o conhecêssemos; por isso se nos não mostrou. Sejamos simples e calmos, como os fios d’água e igarapés, como lagos e árvores. E Deus nos amará fazendo de nós belos como as árvores e os córregos, e dar-nos-á verdor na primavera e um rio aonde iremos quando acabarmos... E não nos dará mais nada, porque dar-nos mais seria tirar-nos mais”.

Desisti, então, de procurar a “verdade”. Deus estava muito longe para responder, e, aqui na Terra, parecia não haver ninguém a quem perguntar. O expediente daquele “prédio público”, conforme dissera o taciturno “fiscal de transporte”, terminara às 2 da tarde!

Voltamos então para o carro e deixei que este fosse deslizando lentamente pela Estrada Um rumo à sede da Prefeitura, a qual se situava no fim da Estrada Um, onde assistiríamos a um episódio ao mesmo tempo digno de pena e hilário.

(Continua no próximo capítulo)

Terça, 03 Novembro 2015 09:39

Choro por ti, Belterra ! Capítulo dezesseis

Escrito por Nicodemos Sena

Finalmente, às 3 da tarde, varamos na Estrada Um. O sol, grande laranja fosforescente, já declinava um pouco atenuado por trás das árvores e das casas de madeira que margeavam a estrada. Depois de percorrer, durante horas, as estradas ermas de Belterra, enfim eu esperava encontrar um cenário diferente. Afinal, chegáramos à mítica “Estrada Um”, onde ficava o centro de Belterra.

Diante de nossos olhos estendia-se uma avenida reta e longa, como todas as avenidas do mundo, mas, ao mesmo tempo, de todas diferenciadas. Já não era de terra, como todas as que avistáramos; entretanto, uma fina camada de poeira vermelha, que aderia ao solo, impedia-nos de afirmar que fosse asfaltada. Como boa parte das avenidas do mundo, a Estrada Um também tinha a sua praça arborizada. Mangueiras, seringueiras e outras espécies vegetais espalhavam-se nas margens e na grande praça central da cidade, à esquerda. Tudo praticamente limpo, bem-cuidado, mas, igualmente a todas as estradas que até então percorrêramos, a Estrada Um apresentava-se completa (e absurdamente) deserta. E o mesmo se pode afirmar da praça.

  Estrada Um, em Belterra, a avenida mais deserta do mundoEstrada Um, em Belterra, a avenida mais deserta do mundo

 

Diante desse quadro, tomou conta de mim (e, certamente, de papai, que continuava silencioso ao meu lado) o mesmo sentimento que deve ter tomado conta do poeta Fernando Pessoa quando, através do heterônimo Alberto Caeiro, escreveu:

“O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso do mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.”

 “Que ideia tenho eu das coisas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do Mundo? [...]

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.”

Pois, de dentro do carro, só eu e meu pai no mundo, eu olhava para a paisagem desolada de Belterra, estranhamente organizada, como que alinhavada por mãos invisíveis, mãos divinas (ou satânicas?), onde tudo era e não era, parecia e não parecia, existindo ou não, fazia-se existir. Olhava e não via, ou melhor, as coisas que se apresentavam como reais pareciam mortas e, por detrás delas, uma outra vida – sentimental, imaterial, apenas sentida – fazia-se real.

“Há metafísica bastante em não pensar em nada”, pensei.

E continuei pensando, como que repetindo palavras ouvidas antes do útero materno: “Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores? A de serem verdes e copadas e de terem ramos e a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar, a nós, que não sabemos dar por elas. Mas que melhor metafísica que a delas, que é a de não saber para que vivem, nem saber que o não sabem? Às favas a constituição íntima das coisas, o sentimento íntimo do universo. Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. O único sentido íntimo das coisas é elas não terem sentido íntimo nenhum”.

A Estrada Um inspirara-me tais pensamentos.

Quando escrevia estas páginas, já em São Paulo, cercado pela multidão que corre – sem ter consciência disso – para o mais absoluto nada, uma filha de Belterra extraviada em São Paulo, fez-me essa afirmativa em forma de pergunta: “Ninguém nunca pensou no que há para além das estradas da minha Belterra?”. E isso me conduziu, novamente, a Fernando Pessoa, o poeta do mundo:

“O Tejo é mais belo do que o rio que corre pela minha aldeia, mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. O Tejo desce de Espanha e entra no mar em Portugal. Toda gente sabe disso, mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia e para onde ele vai e donde ele vem. E por isso, porque pertence a menos gente, é mais livre e maior o rio da minha aldeia”.

A maioria das cidades do mundo são maiores e mais populosas do que Belterra, mas, para essa amiga, não são mais importantes do que Belterra. Para ela, Belterra não é uma cidade invisível nem desabitada; pertence a menos gente, como o rio de Fernando Pessoa, e, justamente por isso, Belterra é mais livre e maior do que todas as cidades do mundo. Pois uma “liberdade” que se medisse não seria LIBERDADE.

Essas reflexões, ou melhor, esses pensamentos gerados “fora de mim”, ou no mais profundo do meu Ser, por isso mesmo fora do meu controle, deixaram-me ainda mais melancólico. Tinha agora, mais do que nunca, a dimensão da minha nulidade diante da grandeza das pequenas coisas. A tão pequenina e deserta Belterra era, certamente, a cidade mais viva e povoada do mundo, não importando que eu, em minha cegueira, não enxergasse as pessoas e a vida que escorriam perenes como o rio da minha infância, o meu Maró, o rio mais fino, comprido e sinuoso do mundo, que arfa agonizante e provavelmente desaparecerá antes mesmo de ser desenhado nalgum mapa, mas será sempre o Rio, o meu rio, o rio “da minha aldeia”, do meu mundo ameaçado de extinção pela selvática civilização globalizada.

Naquele momento, olhei para a Estrada Um e a praça deserta e compreendi que a verdadeira vida, que escorre como um rio sem começo nem fim, torna-se, em lugares como Belterra, invisível ao mero turista. O lugar se defende. O lugar não é um lugar. O lugar é uma música. E há uma música que soa na alma dos seres viventes e anima todas as coisas nesses lugares esquecidos. Uma música que o estranho, em seu passo apressado e na azáfama por coletar coisas, é incapaz de ouvir. Essa música é “o sentimento do mundo” (Carlos Drummond) ou o “mito” (Joseph Campbell). O mito é a música do mundo. Os lugares passam, os turistas passam, mas a música não morre nunca, apenas muda de timbre. Por isso que, nas terras arrasadas pelos tratores e as motosserras das “frentes pioneiras” do capitalismo predatório, ainda se ouve a mesma música, mas agora na forma sinistra de um uivo ou réquiem lamurioso, que parte das gargantas famintas dos desalojados.

Então penso:

“Cadê o povo de Belterra? Escondeu-se dentro de sua própria história? Recolheu-se dentro de sua teogonia? Esse povo parece se recusar a aparecer. Cadê o povo de Belterra? Talvez tenha cansado de ouvir a voz humana, com a sua fúria, sua vilania, malícia, arrogância. A Estrada Um está deserta, ninguém sentado na praça, só um vulto ao longe numa bicicleta, mas, ainda assim, de costas para nós, não podemos ver-lhe o rosto. Cadê o povo de Belterra, onde anda? A essa hora talvez rasteje pelas calçadas de Santarém, pedindo esmola ou emprego a preço vil. Cadê as crianças de Belterra, que já não brincam com bolinha de gude nem com sementes de seringueiras na frente das casas, como meu pai um dia brincou. As crianças de Belterra sonham com “tablets” e as mocinhas com celulares. E as mulheres de Belterra, que não circulam pela praça da Estrada Um? Há uma Igreja católica no centro da praça, mas ninguém entra e nem sai pelas suas portas e nem se ouvem cânticos. O padre deve estar dormindo nalgum lugar. Mas, onde? O que será que as pessoas confessam ao padre em Belterra? Quais os pecados desse lugar? A Estrada Um parece um primor de limpeza, mas não se veem os garis. Quem recolhe todos os dias as folhas que se desprendem das árvores da praça?”.

E concluo que não adianta perguntar, pois não há uma única pessoa visível para nos responder. Confesso que, naquela tarde, vendo a desolação que era Belterra, reconheci que tudo que lera e pensara sobre a Amazônia era insuficiente para explicar o que parecia ser o mais absoluto absurdo que o absurdo poderia produzir.

Para tudo que era canto que eu olhasse, deparava-me com o inexplicável. Coisa para se chorar e também para rir, como, por exemplo, o homem que, até que enfim, avistamos a uns cem metros depois. Um típico caboclo: forte, pele tostada pelo sol e olhos “de índio”, espichados e oblíquos, camisa branca, calça preta, crachá preso sobre o bolso da camisa, em seu uniforme de “fiscal de transporte”, como ele se apresentou quando, saindo do carro, dirigimo-nos até ele. Sisudo e taciturno, como que compenetrado de seu posto, olhou-nos friamente, com visível desconfiança. Como um toro de madeira postou-se. Nem mais uma palavra pronunciou, como se não ouvisse as minhas perguntas, mas amoleceu-se prontamente quando lhe pedi que nos desse a honra de postar-se ao lado de meu pai para uma foto, esboçando até mesmo um longínquo sorriso, que não esquecerei jamais, pois me pareceu que naquele sorriso débil consubstanciou-se o último laivo de cordialidade que ainda pode existir entre a estirpe oprimida da Amazônia e a figura do alienígena, em qualquer de suas versões: viajante, pesquisador, missionário ou o mero turista. Depois da foto, o homem sentou-se e desconsiderou a nossa presença por completo, mas, em seu semblante soturno e na forma como se manteve sentado em seu posto, parecia manter a mesma expectativa com a qual o encontramos. Expectativa de quê? Naquele exato instante, quer na Estrada Um quer na praça ou em qualquer outro lugar para onde lançássemos o olhar, não avistávamos sequer uma alma vivente e nenhum veículo automotor ou semovente. E isso exatamente às 4 da tarde, hora em que todas as cidades do mundo se retorcem e agitam ao final de um trabalhoso dia.

A insólita presença do “fiscal de transporte” e a ausência completa de transeuntes e veículos automotores na famosa Estrada Um deixaram-me completamente intrigado, chegando, numa espécie de síncope mental, na qual a minha cabeça girou e como que despencou na incerteza dos momentos de fraqueza, a pensar que aquele dia todo não passara de uma miragem na minha já extensa vida de peregrino pelas estradas, caminhos e valados do destino. Mas, olhando para papai, que, ao meu lado, apesar do dia já longo e exaustivo, mantinha o semblante arejado e os olhos espertos, não tive mais dúvida de que toda aquela loucura era real, contudo, coisas ainda mais absurdas aconteceriam naquele dia que se ia findando.

 

(Continua no próximo capítulo)

Domingo, 13 Setembro 2015 11:00

Choro por ti, Belterra! Capítulo quinze

Escrito por Nicodemos Sena

Deixei o carro rodar uns duzentos metros e quando vi que estrada ia se afinando como a outra que nos trouxera até ali e a alma começava a ficar apertada, resolvi procurar outro caminho. E então aconteceu algo que nos deixou muito tristes: ao passar frente à porta do casal que com tanta emoção nos recebera, nossos olhares se cruzaram com os deles, mas, talvez por que estivessem concentrados em receber a preciosa água trazida pelo carro-pipa, olharam para nós mas foi como se nunca nos tivessem visto.

Procurando encurtar o desgosto que vi no rosto de papai, pressionei mais forte o acelerador e enveredei por uma estrada – que depois soubemos ser a Estrada 06 – de solo avermelhado e arenoso, comprida a perder de vista, e deserta, completamente deserta.

Tal estrada, entretanto, distinguia-se das demais: de um lado e do outro enxerguei algo como a alma de uma capoeira que outrora existira no lugar, baixa e rala, que crescera depois de terem derrubado a mata nativa ou as antigas seringueiras, a qual, por sua vez, dera lugar a uma longa faixa de terra descampada, coberta levemente por uma verdejante plantação de milho ou algo parecido, não sabendo ao certo do que se tratava.

 A alma da floresta derrubada ainda paira sobre as plantaçõesA alma da floresta derrubada ainda paira sobre as plantações

 

“Sim, as árvores têm alma”, pensei.

Diminuí a marcha do carro e, investigando de soslaio o rosto de papai, enxerguei nele as sombras de uma grande decepção. Certamente, imaginei eu, a aparente frieza daquele casal, que nos tratara com tamanha distinção e, minutos depois, olhara-nos como se jamais nos tivesse visto, seria a causa da decepção que eu julgava ver no rosto de papai.

Mas logo descobri que havia outra causa.

– Cadê as seringueiras que os americanos plantaram aqui? – murmurou papai, como se falasse consigo mesmo.

– Faz muito tempo, 80 anos! Muita coisa aconteceu de lá até agora; os americanos se foram e ondas de gente, de todas as origens e lugares, passaram por aqui sem conseguir se fixar – arrisquei dizer, receoso de interromper os pensamentos de papai, mas este, ao ouvir a minha voz, de um modo surpreendente desandou a falar, e contou-me coisas que eu não conhecia e julgava que ele também não soubesse – pois papai foi aluno de uma escola regular por um único dia, o fatídico dia em que, com a conivência do professor, viu-se surrado por outro menino. Na vida dura que lhe restou, como cortador de juta nas margens alagadas do rio Amazonas, ou nas andanças por mil trilhas em busca de produtos da selva como o caucho, o jutaí-cica, a sorva, o cumaru, ou nas inumeráveis casas que ajudou a construir ou construiu, como pedreiro que, por esforço próprio, chegou a “mestre-de-obra”, tendo unicamente a vida como professora, aprendeu a decifrar as letras e a garatujar seu nome sozinho.

– Parece que estou vendo, filho, as longas fileiras de seringueiras já crescidas, quando aqui cheguei, ainda menino – foi falando papai, com o olhar perdido na plantação que se estendia à nossa vista, nas duas margens da estrada. E continuou: – Dava gosto ver as fileiras a perder de vista, um metro entre uma e outra, se afunilando lá longe, até onde a vista alcançava, sem nunca se encontrarem, e, quanto mais a gente se enfiava entre as fileiras, mais estas iam seguindo, seguindo, sem jamais se cruzarem, e passavam pro outro lado da estrada e assim seguiam como irmãs gêmeas, juntas e amigas, conversando uma com a outra, de dia e de noite, sem jamais se atrapalharem; dava gosto andar entre elas.

A fim de não atrapalhar o devaneio de papai, parei suavemente o carro, tão suavemente que ele nem percebeu que havíamos parado, e, metido tão fundo entre as fileiras das seringueiras da sua infância, continuou falando:

– Os americanos chegaram a Belterra em 1934, a grande guerra ainda não havia estourado, mas os americanos, com o seu olho de águia, sabiam que era apenas uma questão de tempo e o mundo seria incendiado; os seringais ingleses na Malásia, que supriam a indústria de pneus, já haviam caído sob o poder dos japoneses, por isso eles vieram para a Amazônia, pois achavam que na Amazônia, por ter clima quente e úmido como na Malásia, daria certo plantar seringueiras. Chegaram e foram logo derrubando a mata, que aqui ainda era virgem, nunca tinha sido cortada, pois os índios e os caboclos, moradores da terra, só cortavam árvores na beira dos rios, onde moravam. Cheguei a Belterra em 1944, fedelho de tudo, 11 pra 12 anos; as seringueiras, plantadas dez anos antes, já estavam bem crescidinhas. Em abril de 1934 tomou posse o diretor da Companhia Ford Industrial, com sede em Belterra, e a cidade então começou a ser construída. Contrataram os “auxiliares rurais”, como eram chamados os seringueiros, que tinham carteiras de trabalho e recebiam placas de identificação conforme sua função; até eu, trabalhando na horta, recebi o meu crachá. E começaram o desmatamento para a abertura de estradas, vilas e plantações de seringueiras. Nas áreas desmatadas, construíram casas para os empregados casados e alojamentos para os solteiros, clubes, hospital, escola e até campo de futebol, tudo planejado, como nunca se vira; do dia para a noite surgiu uma cidade no meio das seringueiras, que foram divididas em quadras, cortadas pelas estradas: no eixo leste-oeste eram os números ímpares e no eixo norte-sul, os pares; cada quadra media 400 metros de largura, uma beleza, dava gosto de a gente ver, um verdadeiro prodígio.

 Foram queimados aproximadamente 2 mil e 600 acres para plantio de seringueirasForam queimados aproximadamente 2 mil e 600 acres para plantio de seringueiras

 

Papai parou de falar e assim ficou por alguns minutos, como que engolido por seus pensamentos. Pus o carro em movimento e seguimos, lentamente, pela estrada margeada por milharais ou coisa que o valha. A já conhecida melancolia parecia ter tolhido a fala de papai. De repente, como que saindo de um turbilhão de lembranças intraduzíveis, papai voltou a falar, mas, agora, se via um friso irônico no canto de sua boca; sua voz saiu um pouco rouca:

– Os sacanas dos americanos pensaram que era só derrubar a mata a torto e a direito e ir plantando as suas lucrativas seringueiras, com a mão de obra barata, quase escrava, do caboclo amazônico. Em 1937, meu filho, cerca de 3 milhões e 200 mil seringueiras tinham sido plantadas! Imagina o estrago que isso fez na floresta. Foram queimados aproximadamente 2 mil e 600 acres para plantio de seringueiras, em 1934. Coitada da floresta, que vivia quietinha no seu lugar e se renovava sozinha, sem nunca ser molestada, e, de repente, chegam os americanos, os bacanas, com suas luvas-de-pelica mas trazendo tratores e motosserras, e puseram os caboclos pra cortar mato e plantar seringueiras. No começo, tudo parecia ir muito bem; no húmus fértil resultante das queimadas cresciam rapidamente as mudinhas: um, dois, três, quatro metros de altura, de um mês para outro, uma beleza! A nova cidade florescia junto com as seringueiras. Em 1939, quando a guerra já infernizava o mundo, os americanos construíram o hospital Henry Ford, onde se tornou famoso o até hoje lembrado “Dr. Gilett”. No mesmo ano, construíram a escola, também chamada de Henry Ford e que hoje se chama Valdemar Maués, onde, como sabes, eu tive o primeiro e único dia de aula em minha vida.

 De 1934 a 1937, foram plantadas 3.200.000 seringueiras no sistema retilineo, em BelterraDe 1934 a 1937, foram plantadas 3.200.000 seringueiras no sistema retilineo, em Belterra


Mas o que restou desses milhares de seringueiras? Onde estão elas? Para onde foi a riqueza que elas geraram em uma década de permanência dos americanos em Belterra? Eu fazia essas perguntas a mim mesmo, ali, naquela estrada perdida e deserta, sem ver a presença de alma vivente alguma a não ser a de meu pai, que, naquele instante, ao meu lado, devia também estar se fazendo muitas perguntas, igualmente sem respostas. E onde foram os milhares de pessoas que viveram em Belterra na época dos americanos e para aí vieram sonhando com o progresso pessoal e a integração à vida de um país que sempre parecera distante e inalcançável para essa pobre gente que ainda hoje vive entocada no oco da selva ou nas margens e cabeceiras dos rios e igarapés da Amazônia? Eu olhava para as margens descampadas da estrada e, até onde a vista alcançava, não via ninguém, nenhuma alma vivente, nada, mas, para uma criatura como eu, capaz de entretecer longas conversas consigo mesmo, era possível enxergar as sombras e vultos que deambulavam como que sonâmbulas sobre o milharal ou no cruzamento dos caminhos, como se ainda tivessem um destino a cumprir. Um desses vultos fitou-nos com olhos ao um tempo intensos e vítreos, que me fizeram pisar mais forte no acelerador.

– É a morte, filho, é a morte que vive neste lugar – sussurrou papai. – Nada aqui é real. As pessoas com quem conversamos não são pessoas mas mesuras de gente animadas pelos espíritos maus que impedem o progresso desse lugar. Pior de todas são as que parecem boazinhas; estas são como o cachorrão que ri para o osso que em seguida irá morder. Mas a nem estas devemos temer, pois são irreais. Seus corpos foram plantados entre as fileiras de seringueiras mas estas não existem mais, o seu leite mal retirado pelos maus seringueiros secou e as árvores morreram ou foram incendiadas de propósito pelos que aqui ficaram; expulsos pelas pragas que roíam a folhagem das árvores e pela sabotagem do próprio caboclo, que resistia à disciplina dos americanos e não media esforços para emperrar a produção do leite da seringa, os gringos acabaram indo embora e lá na terra deles morreram, de velhos ou na guerra, mas seus filhos e os filhos dos seus filhos continuam plantando a desgraça pelo mundo. Vês como o sol está no céu enorme e amarelo? Sentes o seu calor opressivo. Vês como o mundo se aquece e parece ir se fechando dentro de nós? Será que não estamos dentro de um dia que jamais acontecerá? – perguntou-me papai com olhos imensamente tristes.

Só então, vendo o estranho sol em forma de avermelhada laranja, maior que o de costume e que declinava a três palmos sobre a linha do horizonte, lá onde as plantações de milho ou seja lá o que fosse pareciam findar, dei-me conta de que o dia já ia descambando para o seu fim e ainda precisávamos chegar à mítica Estrada Um.

E então, pressionando um pouco mais o acelerador e sem olhar para trás ou para os lados, esquecendo das poucas criaturas que até aí encontramos pelos caminhos, concentrei-me na esperança de que na Estrada Um tudo se modificaria, fora e dentro de nós.

(Continua no próximo capítulo)

Terça, 23 Junho 2015 10:19

Choro por ti, Belterra ! Capítulo quatorze

Escrito por Nicodemos Sena

Revendo as fotos que tirei daquele episódio, impressiona-me que, sendo eu e papai completamente desconhecidos do casal e este de nós, tenha se estabelecido uma tal intimidade entre nós que, apenas cinco minutos depois de nossa chegada, já nos víamos com nossos anfitriões atrás do casebre conversando animadamente e trocando confidências, como se há muito nos conhecêssemos.

Com a mania que tenho de sonhar com textos que ainda não foram escritos e enxergar coisas invisíveis, enquanto papai ia conversando com o homem eu escutava o seguinte diálogo, lido sabe-se lá em qual dos livros que subsistem comigo depois de tantas mudanças:

“Amigo, não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. Tinha todos os sonhos do mundo, mas falhei em tudo”.

“Eu também, amigo. Fui ao campo com grandes propósitos. Mas lá encontrei só ervas e árvores. Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Não, não creio em mim. Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!”

“É, amigo. O mundo é para quem nasce para o conquistar e não para quem sonha que pode conquista-lo, ainda que tenha razão”.

“Compreendo, amigo, o que você diz: Serei sempre o que não nasceu para isso. Serei sempre só o que tinha qualidades. Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta. Mas ao menos ficará da amargura que nunca seremos a caligrafia rápida desse nosso encontro”.

Não saberei descrever o que meu pai e aquele homem, que saltou de uma encruzilhada e entrou em nossas vidas, conversaram, nesses dois ou três minutos em que meu pensamento divagou por esfumaçadas lembranças recolhidas nas páginas de velhos e já carunchentos livros que há anos me acompanham; livros que fazem parte da minha intimidade mais do que a maior parte dos parentes e “amigos”.

Ao despertar do devaneio, vi que o homem chorava e papai, com os olhos marejados, escutava-o atentamente.

“Pois é, amigo. Meu coração é um balde despejado. Como os que invocam espíritos invoco a mim mesmo e não encontro nada”, dizia o homem, interrompido por um soluço. Mas, tomando fôlego, continuou: “Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade, mas sou o maior dos mentirosos. A única verdade que reconheço é que menti para mim mesmo desde que nasci. A minha única lucidez é reconhecer isso. Mas o que adianta reconhecer agora. Tudo passou, ficou para trás, se perdeu. Restou-me esta mulher e este lugar onde só os fantasmas e os que estão em busca de coisa nenhuma, como vocês dois, encontram”.

“Não seja tão severo consigo, amigo. Quem não foi enganado ou enganou-se a si mesmo neste mundo?”, consolou-o papai.

“O diabo é saber disso e não se emendar de seu erro”, disse o homem. E deu início a uma história que eu ouvi como se estivéssemos fora do tempo. A carência daquele homem era tanta, a sua solidão tão tremenda, que ele escancarou o seu coração para meu pai como quem abre o porão dos segredos ao seu próprio fantasma.

“Rodei mundo, trabalhei em muitas coisas, negociei, amei muitas mulheres, casei, descasei, perdi tudo e larguei-me de novo pelo mundo, até cair aqui com esta mulher, que me tem aguentado”, começou o homem.

Exatamente como chegara ao Pará, quinze anos atrás, vindo do Ceará, onde nascera, nunca saberíamos. O que o homem estava sedento para nos contar era por que largara tudo para trás – casa, terras, parentes, o lugar de suas tenras lembranças – e viera para um lugar como Belterra. Mas, como em todo destino, é refazendo os passos da ida que melhor compreendemos o retorno.

“Há quinze anos me escondia aqui com esta mulher e tentava esquecer o passado. Toda tarde dizia para mim mesmo: Esta noite não sonharei com meus filhos nem me maldirei pelo que fiz ou deixei de fazer à mãe deles. Mas, de manhã, lembrava dos sonhos da noite, ou melhor, dos pesadelos, que esta mulher bem conhece. E nas noites seguintes os pesadelos voltavam. Mas me julgava liberto da realidade. Não cria que alguém real, que conhecesse o meu passado, um dia fosse descobrir o meu esconderijo”.

Até que um dia, ou melhor, um começo de noite, os pássaros noturnos já esvoaçando sobre as árvores do quintal, ouviram palmas e alguém chamando “Ei de casa!”.

“Era o meu filho caçula, que larguei no colo da mãe quando saí de casa. Eu não sabia quem era, até tive medo, pois quem se atreveria a andar, àquela hora, por estas estradas desertas, onde só os fantasmas caminham? ‘Aqui é a casa do Sr. Fulano?’, perguntou o rapaz, que logo vi tinha a minha cara. ‘Não!’, disse eu, espantado com tamanha semelhança. Certamente, o jovem também se reconheceu em meu rosto, pois, indo direto ao que lhe trouxera, afirmou: ‘Pai, não tenha medo ou receio. Vim em paz. Quero apenas lhe conhecer e dar-lhe um abraço’. E então nos abraçamos e choramos. Abraçado ao rapaz como se fosse comigo mesmo, sentia-me renascer, mas, no mesmo instante, preferia morrer, de remorso e vergonha. Aquele rapaz, com o seu abraço, o seu pranto de criança, esbofeteava-me. A mulher, ao nosso lado, via tudo, mas nada dizia. Foi sempre assim: amiga, paciente, carinhosa e calada, aceita a mim e o meu passado como aceita esses gatos que vieram sabe-se lá de onde e foram ficando, ficando...”

Depois de três dias, já sem saber o que fazer com aquele ‘fantasma’ que se levantara das tumbas da memória, o homem escutou o jovem dizer-lhe: “Pai, quero que vá comigo até o Ceará, onde os outros teus filhos querem festejar o teu próximo aniversário”.

De pronto, o homem disse que não. Não poderia ir sem levar a mulher, mas jamais poderia ir ao lugar onde os filhos e a mãe destes poderiam aborrecê-la. “Vai, marido. Fico aqui te esperando”, disse então a mulher, adivinhando os seus pensamentos.

“Pois esta mulher, amigo, adivinha os meus pensamentos”, disse o homem, alisando carinhosamente a mão da mulher.

E então, já no dia seguinte, pai e filho partiram para o Ceará, onde os sete outros filhos o aguardavam e ofereceram-lhe uma festa como jamais alguém lhe ofertou.

“Amigo, eu sou crente, evangélico, há anos não colocava uma gota de álcool na boca, mas, naquela noite, vendo a alegria dos meus filhos, não tive forças para dizer não, quando o meu caçula me ofereceu uma taça de vinho. Na verdade, naquela noite, bebi tanto, de alegria, de vergonha, de tristeza, de saudade do passado que eu estraguei, da mulher que eu havia deixado em Belterra sozinha, neste ermo, tão amiga e fiel, que precisaram me carregar para a cama, de tão chapado que fiquei. Meu Deus! Que vergonha! No outro dia, lembrando a minha fraqueza na noite anterior, pedi perdão a Deus pelo mau testemunho e despedi-me de todos com lágrima nos olhos, mas o coração aliviado, e desde então durmo tranquilo, sem os pesadelos”.

Em seguida, foi a vez de papai falar do seu passado e dos anos que, na infância, viveu em Belterra. Animado pelas confidências do nosso anfitrião, derramou-se diante daquele estranho como se o conhecesse há séculos.

 

 Desenhando o passado no chao de BelterraDesenhando o passado no chao de Belterra

 

Com um bastão (e a voz cheia de emoção) papai foi desenhando no chão a geografia dos anos que viveu em Belterra. Ali, num fundo de quintal perdido numa estrada qualquer da esquecida Belterra, papai deixou pedaços de sua vida gravados na memória daquele solitário casal e na retina dos gatos que, perto de nós, participaram do momento sem jamais serem notados.

“Pois é, amigo. Parece que temos algo em comum”, observou o homem, depois que papai cessou de falar. “Fizemos de nós o que não soubemos, e o que podíamos fazer de nós não o fizemos. Rondamos o mundo e agora nos encontramos aqui. Você procurando pelo que não existe mais, a Belterra da sua infância. E eu vigiando uma estrada por onde ninguém mais passa ou passará”.

E o homem contou que era seu dever todo dia acordar cedo e, depois do desjejum, ficar vigiando aquela estrada deserta, tomada pelo capim, e, mesmo sabendo que há anos ninguém passava por ela, torcer para que alguma alma vivente surgisse lá onde o mato ficava mais ralo e ainda se via vestígios da estrada.

– Mas por que o senhor vigia a estrada se ninguém mais passa por ela? – perguntei.

– Por que me mandaram vigiar – respondeu o homem.

– Quem lhe mandou vigiar? – prossegui.

O homem não respondeu; ficou olhando a estrada fantasma como quem olha pro nada e murmurou esta única palavra: “Ele”.

Ele quem? Eu queria saber, mas o homem nada acrescentou, apenas disse que tinha saudade do tempo em que utilizavam a estrada e ele tinha que ficar de olho em quem passava por ela. “Passava ou pousava”, acrescentou.

– Pousava? – perguntei.

– Sim, pois também servia de aeroporto, mas não serve mais.

Nessa época, o seu trabalho tinha importância, todo avião que pousava era revistado por ele, só então os tripulantes podiam deixar o avião, até o dia em que uns caras mal-encarados pousaram e já vieram lhe dizendo: “Cai fora, caboclo! Temos autorização para pousar e não sermos incomodados”. Ele ainda tentou vistoriar, mas os caras o empurraram contra as hélices do avião e ameaçaram estraçalhar com ele se se metesse a besta. Então saiu correndo para casa e os caras ainda ficaram na pista uns dez minuto e depois levantaram voo sabe lá pra onde, mas o homem ainda pôde ver, debaixo dos assentos do avião, pacotes de maconha e cocaína.

No dia seguinte, logo cedo, correu para a Estrada Um e procurou o prefeito de Belterra, o mesmo que o havia contratado para vigiar a estrada, cujo nome não quis nos dizer, mas este, para sua decepção, depois de ouvir o que lhe ocorrera no dia anterior, falou-lhe:

“Amigo, deixe de besteira. Continue vigiando a estrada, mas faça vistas grossas aos aviões estranhos que lá pousarem. Pra que criar caso com essa gente?”

“Eu gostava de vigiar, mas, desde aquele dia, dei graças a Deus porque a Prefeitura abandonou a estrada e nada mais pousou ou passou por lá”, disse o homem, com tristeza no olhar.

Mas, apesar da inutilidade de sua função, pois passava dias sem ver viv’alma, não podia deixar aquele lugar; vigiar a estrada fantasma era o seu sustento.

Além do isolamento e da solidão em que viviam, a mulher disse que enfrentavam outro problema: faltava de água, até para beber, daí as vasilhas dispostas no terreiro à espera da chuva.

Caminhao-pipa traz agua para a populacao de BelterraCaminhao-pipa traz agua para a populacao de Belterra

 

A magia do encontro com aquele casal foi quebrada quando um caminhão-pipa, fazendo um barulho dos diabos, chegou com a tão preciosa água. Por um instante, vimos a alegria, ainda que passageira, abrir-se no engelhado rosto da senhora.

Sentindo que o nosso tempo se esgotara naquela casa, entramos no carro e pusemo-nos novamente a caminho, pegando a Estrada Nove, à direita, conforme nos dissera o homem. Nem insistimos na despedida, pois percebemos que o casal se voltara completamente para a água que estava na barriga do caminhão-pipa, como se o nosso encontro já fizesse parte de um passado por demais remoto.

            

(Continua no próximo capítulo)

Domingo, 24 Maio 2015 15:01

Choro por ti, Belterra ! Capítulo treze

Escrito por Nicodemos Sena

Às vezes, o sentimento de desolação é tão grande dentro da gente que a gente fica mudo e, de repente, a alma ferve, estoura... A gente é então capaz de falar até com uma pedra, com uma árvore...

Assim me sentia naquela tarde sem tempo de Belterra, rodando lenta e suavemente pelas suas estradas incompreensivelmente desabitadas, mas prenhes de vultos e segredos.

A estranha estradinha, cheia de mistérios, que nos trouxera até ali, entregara-nos a um novo mistério, pois diante de nós víamos agora algo como uma estrada maior mas com aspecto de completo abandono; por ela veículos teriam passado um dia, uma vez que ainda se viam sulcos de pneus já cobertos pelo capim.

Deixei o carro ir parando e, por fim, desliguei o motor. Notei que, na verdade, estávamos diante de um cruzamento confuso de caminhos, um dédalo, uma encruzilhada. À esquerda, a estrada aparentemente abandonada, ladeada de mato ralo, mais larga que as anteriores mas que parecia findar-se mais adiante. Ao centro, a estradinha asfixiante, morrinhenta, que nos causara sobressaltos, seguia em frente e se perdia no sem-fim. À direita, enfim, um elemento novo na cena até então desoladora chamava a atenção: uma casinha aos fundos de um terreiro, coberta de palhas e toscamente cercada com tábuas, e, à sua frente, beirando a estrada, vasilhames vazios, com suas bocas voltadas para o céu, como que à espera de chuva.

– Ham, então aqui se bebe água! – disse papai, saindo de seu já longo silêncio.

Mas, pensei eu, onde estão as pessoas?

Como resposta, avistei, repentinamente, como que surgida de lugar nenhum, uma mulher de certa idade, à frente da casinha.

Como todas as mulheres (até aí, às 3 da tarde, havíamos encontrado apenas duas em nosso caminho!), esta era magra e tostada pelo sol, mas, evidentemente, não tinha a pose e o viço das “garotas de Ipanema”; ao contrário, a compleição franzina e ressequida da mulher parecia decorrer de uma força inexorável e imaterial, não explicada por qualquer ciência – até porque a “ciência”, na busca de clientela mais rica, costuma se aboletar no conforto das grandes cidades e pouco se interessa pelas vidas largadas a esmo no coração da floresta.

 

Oasis de vida e vasilhas vazias em BelterraOasis de vida e vasilhas vazias em Belterra

 

Ao ver-nos, a mulher aproximou-se de nós sorrindo. Como as anteriores, era magrinha e frágil, mas, embora tivesse a mesma pele ressequida pelo sol inclemente do equador, o seu sorriso, aberto entre as rugas do rosto, cintilava como as águas de uma fonte a jorrar no meio de um deserto. Aquela mulher pareceu-me um oásis de confiança e vida cercada pela desolação humana chamada Belterra.

Sem demonstrar qualquer receio, falou-nos:

– O que houve? Parecem perdidos.

Retomando o seu costumeiro bom-humor, papai respondeu:

– Perdidos não, só um pouco desorientados, pois quem anda sem rumo nunca se perde.

– Mas para onde vão? – insistiu a boa mulher. Mulher, sim, pois, enfim, eu tinha certeza de que não estava a andar numa cidade fantasma. Estava diante de uma mulher de verdade, de carne e osso, e via, em detalhes, os pequenos estragos que o tempo faz na pele de uma pessoa, misturados às cicatrizes que outras pessoas e as coisas realizam. No fundo de seu olhar brilhante, enxerguei as minúsculas ranhuras que as circunstâncias da vida lhe provocaram. Sob a superfície aparentemente translúcida de seu sorriso, vi as turvas correntes de uma vida de privações e abandono.

– A senhora pode nos dizer precisamente onde estamos e como chegar à Estrada Um? – perguntei-lhe.

– Não querem água? – perguntou a boa mulher, como se não tivesse escutado o que lhe indagara.

– Não, obrigado. Só queríamos que a senhora nos dissesse onde estamos e o que devemos fazer para chegar à Estrada Um – insisti.

– Entrem, bebam água! – disse a mulher, ela própria já se dirigindo à porta da casinha.

Estupefatos com o excesso de confiança da pequena mulher, não a seguimos. Olhei para o rosto de papai e ele correspondeu-me com um sorriso. Depois disse:

– Isso, filho, é coisa rara – mas não se moveu de onde estava.

Então compreendi que “rara” não era a mulher que estava diante de nós – aliás, destituída de qualquer formosura e desenxabida como todas as que avistáramos até então em Belterra. Claro que a “cidade” devia ter as suas beldades, mas onde estavam elas? Ah, sim, “na Estrada Um”, onde estão todas as coisas e tudo acontece – foi o que pensei naquele momento. Papai se referia às outras qualidades de uma mulher, as que têm verdadeiro valor numa pessoa.

– Sim, onde já se viu uma mulher, sozinha, numa terra inabitada, franquear as portas para dois estranhos?! Santa loucura! – murmurei, confesso que ainda contaminado pelo clima de medo e insegurança que impera nas grandes cidades.

– Entrem, não tenham medo; sou apenas uma velha que não espera mais ninguém – insistiu a “velha” que tinha no máximo 55 anos.

– Obrigado, mas somos dois estranhos e não podemos entrar assim sem mais nem menos em sua casa; cadê o seu marido? – perguntou papai.

– Está ali – disse a mulher, apontando para a já referida estrada larga mas curta, recoberta de capim, para onde olhamos sem entender, pois nada avistamos senão mato e capim, até onde a vista alcançava; nenhum vestígio de gente humana. – Não há problema, podem vir, pois de lá meu marido está lá, de olho na Estrada e em mim.

– E o que seu marido faz lá? – ousei perguntar-lhe.

– Nada, pois ele é o vigia da Estrada, mas não passa mais ninguém por ali – explicou a mulher.

 Estrada por onde ninguem passaEstrada por onde ninguem passa

 

 – Mas ele não se zanga por estranhos entrarem em sua casa sem sua permissão? – indaguei, deveras admirado.

– Não, pois ele sabe que quem entra nesta casa sem sua permissão só sai quando ele permitir – explicou a mulher.

Tais palavras deixaram-nos apreensivos, como a presa diante do alçapão do caçador, mas já era impossível não obedecer àquela frágil mulher, parecia impossível recusar sua gentileza sem incorrer em algo bem mais grave do que uma grosseria ou um erro, verdadeiro pecado. Acabamos indo em direção à mulher, que nos esperava à porta da casa. Entretanto, repentinamente, como que do nada, surgiu o homem.

– Sejam bem-vindos à nossa humilde choupana – cumprimentou-nos, já ao nosso lado.

E nós, ao mesmo tempo aliviados e apreensivos com a surpreendente aparição do marido, aceitamos o seu convite, e não me arrependi, pois foi um dos momentos altos daquele estranho e inesquecível dia em Belterra.

(Continua no próximo capítulo)

Quinta, 09 Abril 2015 09:25

Choro por ti, Belterra! Capítulo doze

Escrito por Nicodemos Sena

Deixamos para trás a Vila Bode com a sensação rara de que eu e papai havíamos encontrado essa “coisa central” que, no fundo, todo ser humano procura, ou seja, coisa nenhuma.

Lembrando do verso de Pessoa – “Não estou pensando em nada, e que bom!” – deixei-me levar. “Isto é vida?”, indaguei-me, olhando para a casinha que surgiu num dos lados da estrada. Bem alicerçada e com paredes de madeira sobre base de tijolos, coberta com telhas de amianto, a casinha parecia ter sido construída com esmero. As chuvas de maio fizeram crescer uma camada de relva verdejante em torno da casinha, onde havia até uma antena parabólica. As janelas estavam abertas, mas nenhum rosto humano ou coisa parecida despontou nas janelas.

De repente, para meu pesar, voltei a pensar: “O fim é ao menos o já não haver que esperar”. Então deixei o carro parar e senti um sono repentino descer sobre mim, um sono mental, o sono da soma de todas as desilusões. Ou o sono da síntese de todas as desesperanças; o sono de haver mundo comigo lá dentro, sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

Coloquei o carro em movimento e, discretamente, olhei para papai, que, durante o meu silêncio, viajara por regiões muito distantes. Como quem retorna para casa, estendeu-me um olhar prenhe de significados. Senti que, naquele momento, papai era um homem comovido. Não porque tivesse uma semelhança com ideias ou doutrinas, pois é homem simples e sem a ciência dos que tiveram a oportunidade de instruir-se, mas carrega no peito algo que é naturalmente seu, e que ninguém poderá lhe retirar: a vasta fraternidade com a humanidade verdadeira.

 Casinha solitaria de BelterraCasinha solitaria de Belterra

A esmerada casinha também ficou para trás e, logo adiante, tive que parar numa encruzilhada para decidir qual rumo tomar. Mato ralo por todos os lados, sem placas de identificação, não sabíamos para onde ir. Acabamos por virar à esquerda.

Diferentemente das estradas anteriores, esta se mostrava não apenas deserta e silenciosa, mas também desabitada e hostil. Mais estreita do que as outras, uma capoeira mais alta crescia de um lado e de outro da estrada e, ao olharmos para diante, tinha-se a impressão de que a estradinha, em algum ponto indefinido, se fechava sobre si mesma, levando-me a pensar em retornar, mas, quando já me dispunha a isso, enxerguei um homem e uma mulher que vinham em sentido contrário.

Embora precisássemos de informações sobre as estradas, receei cruzar com o casal, mas não havia mais tempo para evitar o encontro e decidi passar pelos estranhos como se não os tivesse notado, com o vidro da porta levantado, mas esse pensamento, que me fez lembrar do que os amedrontados motoristas fazem nos perigosos cruzamentos de São Paulo, causou-me mal-estar. Eu, que jamais me poupara de cumprimentar a uma pessoa, estava prestes a desconhecer a presença do casal! Acabei freando o carro e baixando o vidro da porta ao aproximar-me do casal, o qual, por um instante, pareceu hesitar – provavelmente, com medo de nós. Por fim, também pararam de andar e aproximaram-se da porta do carro. Sem que lhes perguntasse nada, informaram:

– É arriscado seguir por essa estrada; está cheia de poças de lama.

O estranho foi que disseram isso, mas, olhando de soslaio para os seus pés, não vi qualquer vestígio de lama!

– E vocês, de onde vêm? – perguntei, recuperando um pouquinho da presença de espírito.

– Viemos dali – disse o homem, apontando para a capoeira de uma das margens.

– Mas aí só há mato! – exclamei, imediatamente arrependido de ter pronunciado essa frase, pois o meu sexto sentido dizia-me que estávamos numa situação delicada e que eu não deveria aborrecer os dois estranhos caminhantes.

– Não importa de onde viemos; conhecemos todos os caminhos – retorquiu o homem. E, para o meu espanto, completou: – Sei que vocês procuram a Estrada Um, não é mesmo? Pois nós levamos vocês até lá.

O homem disse isso e imediatamente esticou o braço como que para abrir a porta do carro, levando-me, num gesto reflexo, a pisar abruptamente no acelerador e arrancar-me daquele lugar.

Um instante depois, quando olhei pelo retrovisor, ainda avistei o casal como que correndo pela estrada, mas, quando voltei a olhar, não mais o enxerguei, embora a estrada fosse reta e longa. Teriam entrado nos matos da margem ou... – fiquei a matutar, enquanto seguia pela estradinha fina e asfixiante, com sua mataria lateral cada vez mais densa.

– Esse mato não existia na época dos americanos – disse papai, fingindo que nada havia acontecido. E explicou que em todas as quadras só havia seringueiras. – As seringueiras, certamente, aqui foram derrubadas – finalizou, e fechou-se em silêncio.

Rolamos pela estrada mais uns cinco minutos, e nada das anunciadas poças de lama; a estrada estava até bem enxutinha, apenas parecia ir se afinando cada vez mais, o que me provocava uma sensação de aperto no coração, na alma. Não era propriamente medo que eu sentia, mas algo como uma difusa desesperança ou mesmo uma convicção de que, qualquer que fosse o rumo que tomássemos, continuaríamos sem destino, perdidos, no meio do nada.

E a sensação de aperto se aprofundava à medida que avançávamos por aquela estrada. A capoeira havia ficado mais alta e sombria. Entrei como que numa vertigem de olhos abertos; sentia-me acordado, mas havia penetrado numa região de sonhos, ou pior, de pesadelos, pois comecei a ouvir vozes, uivos, lamentos, gemidos, e as árvores retorcidas da margem começaram a mover-se e alongar-se sobre o leito da estrada e entrelaçavam-se no alto, formando uma espécie de caramanchão que, em seguida, ia baixando sobre o teto do carro.

Olhei para papai e enxerguei em seu rosto e no seu olhar a mesma expressão de espanto e pavor. A cena asfixiante o remetia, naquele momento, a um dia já remoto de sua infância, no Lago Grande, quando ele, com apenas 6 anos de idade, teve que enfrentar a noite densa e o capinzal fechado, onde moravam sucurijus gigantes, a fim de escapar do Antônio, o malvado filho do fazendeiro Teodoro. “Volta, moleque, senão te mato!” – gritava Antônio, o grito se misturando com os uivos e gemidos que vinham da capoeira lateral à estrada.

Para completar esse quadro, começaram a surgir, nas duas margens da estrada, fincadas de dez em dez metros, como pequenas cruzes, estacas em cujas pontas se viam pequenas placas, e em cada uma podia-se ler a abreviatura de nomes: “J. Castro”, “B. Souza”, “N. Costa” e assim por diante.

Por um longo trecho vimos essas placas, e uma sensação de cemitério tomou conta de mim. Imaginei que as almas das pessoas representadas pelas abreviaturas estavam encravadas naquelas minúsculas áreas, de onde jamais poderiam sair.

 

(Continua no próximo capítulo)

Terça, 03 Março 2015 17:30

Choro por ti, Belterra! ( Capítulo onze )

Escrito por Nicodemos Sena

Debaixo de um sol a pino, vendo apenas a estrada deserta à nossa frente, eu já não conseguia “pensar em nada” – e pensar em nada “é ter a alma própria e inteira”, segundo versos de Fernando Pessoa.

Tudo parecia calmo e sereno, como se eu e papai tivéssemos chegado ao “centro do mundo”, àquele lugar mítico onde o Ser se encontra consigo mesmo e onde já tanto faz ser ou não ser, estar ou não estar, pois, lá, todos os livros e todos os sangues se misturam e não importa se estamos em Macondo de Gabriel García Márquez ou em Comala de Juan Rulfo ou em Yoknapatawpha de William Faulkner ou mesmo em Belterra de meu pai Bernardino de Sena. Apenas, a unir todos esses lugares, essa sensação de que tudo isso nos pesa como uma condenação ao degredo, e tudo isto é estrangeiro, como tudo.

Fazia um grande barulho ao contrário. Dava-me uma tendência do choro para a desolação. E um grande mar de emoção ouvia-se dentro de mim... Lembrei outros versos de Pessoa: “Sou nada... Sou uma ficção... Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo?”.

Mesmo sabendo quão inútil seria o gesto, bati uma foto procurando captar a alma daquele instante: papai em pé, apontando para coisa nenhuma, apenas ele e a sua sombra, cercado pelo desértico silêncio que nos envolvia desde que entramos em Belterra. (Foto abaixo).

 Papai e sua sombra.Papai e sua sombra.

Meio dia, estrada de terra, folhudas árvores às margens, e, apesar disso, nenhuma folha sobre o chão da estrada. Num dos lados, ao fundo, tijolos para construção caprichosamente amontoados, a denunciarem presença humana. Mas, cadê o povo, cadê os moradores das casinhas de madeira cobertas de telha de amianto? Mais de uma vez pensei que poderíamos até entrar numa daquelas casinhas e comer o que encontrássemos na cozinha ou mesmo tirar uma soneca lá dentro, sem que ninguém viesse interromper o nosso sossego. Mas uma aragenzinha fria e malévola, que passava por nós e enchia-me de um temor reverencial por tudo o que estava à nossa volta, como se fôssemos objeto de observação de mil olhos que se ocultavam em todos os lugares da Vila Bode, impedia-nos de devassar aqueles recessos.

Durante todos esses instantes, eu e papai permanecemos calados, como que temendo quebrar o encanto de tudo aquilo; apenas com nossos olhos nos comunicávamos.

Eis que, de repente, quando já chegávamos ao fim da Vila Bode, surgiu, como que do nada, um homem ou algo parecido com um homem, pois – depois de uma hora circulando pelas estradas da Vila Bode, sem ver gente humana – passou pelas nossas cabeças que podíamos estar diante de uma miragem de gente ou mesmo uma assombração enviada pelo capeta para nos afastar da Vila.

O homem-criatura da Vila BodeO homem-criatura da Vila Bode 

Talvez também desconfiando de que o que via não era humano – ou por outro motivo que instantes depois saberíamos –, o homem ia passando sem levantar o rosto ou desviar o olhar para nós. Estávamos a pé, pois deixáramos o carro lá atrás, perto da velha escola abandonada, o que talvez soasse estranho à criatura que passava por nós.

– O senhor mora aqui? – perguntou papai, com uma voz diferente da sua.

O homem parece que não ouviu, pois continuou pedalando e já ia se afastando de nós, mas, de repente, parou, e, firmando-se sobre o guidão da bicicleta, mas sem torcer o pescoço para trás, respondeu, com uma voz que se parecia mais com um sopro no buraco de uma cabaça:

– Moro, mas não sou daqui.

Falou e continuou de costas para nós, de modo que só lhe víamos a nuca, sem cabeço.

– Cadê o povo da Vila Bode? – tornou papai.

– Sabe Deus! Tá por aí – disse o homem ou o que se parecia com homem.

– O senhor vai para onde? – perguntei-lhe.

– A lugar nenhum – respondeu o homem secamente, ainda sem mostrar o rosto.

– Como a “lugar nenhum”? – tornei a perguntar. Sem saber por quê, receei que o homem virasse o rosto para mim.

– É que toda essa vila está morta, não perceberam? Coisas acontecem por aqui, de dia ou de noite, mas ninguém vê quem faz essas coisas.

– E o senhor faz parte dessa gente? – perguntou papai, lançando um olhar significativo para mim.

– Agora faço, mas por pouco tempo, estou indo embora daqui – disse o homem.

– Para onde o senhor vai? – perguntei-lhe, já desconfiando de onde ele viera e para onde ia.

– Vou para Manaus, de onde eu vim – explicou o homem, que, durante todo o diálogo, se mantivera com o rosto escondido.

– O que o senhor veio fazer aqui, se tudo isso aqui está morto? – perguntei.

– Vim visitar minha tia, que estava para morrer – disse o homem.

– E ela ainda vive? – perguntou papai.

– Não. Quando cheguei, ela já havia sido enterrada.

– E aí o senhor resolveu ficar mais um pouco com os parentes... – falei para o homem.

– Não há parentes – disse o homem.

– Então o senhor mora com quem? – perguntei.

– Com ninguém; na verdade, não moro em lugar nenhum; vim procurar minha tia porque eu também estava muito doente, quase para morrer e precisava de ajuda; mas, quando cheguei... – disse o homem, interrompendo a frase.

Nesse instante, papai se aproximou de mim e cutucou meu braço como se me dissesse “vamos embora”, mas, atraído pelo jeito melífluo do homenzinho, não o atendi.

– Vejo que o senhor já está melhor – comentei.

– Sim, estou muito melhor do que antes; já não sinto dores nem nada – disse-me o homem.

Papai, agora me puxando pelo braço, sussurrou-me, com olhos expressivos:

– Para com isso, filho. Não vês quem é esse aí? Vamos já embora daqui!

Antes que lhe virássemos as costas e nos afastássemos, a criatura virou-se para nós e mostrou o que desde o início ocultara: um rosto bexigoso e carcomido por varejeiras, que me fez estremecer até à medula.

Quase correndo, afastamo-nos uns dez metros e só então olhamos para trás. A criatura havia repentinamente desaparecido, restando a estrada deserta e as casas desabitadas da Vila Bode.

Apesar do susto, papai ainda teve coragem para se deter diante de uma das velhas casas da vila e exclamar: “Meu filho, foi nesta casa que eu morei com mamãe no tempo dos americanos!”.

Casinha construida pelos americanos nos Anos 30 do sec. XXCasinha construida pelos americanos nos Anos 30 do sec. XX 

A casinha, como todas as outras casinhas da Vila Bode, estava fechada e parecia desabitada. Ao lado do batente da porta, via-se um buraco por onde – brincou meu papai, com olhos todavia tristes – podiam passar as almas dos moradores invisíveis e também os ratos.

(Continua no próximo capítulo)

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