O folheiro,  pipoqueiro e o vendedor de cangica
Domingo, 14 Junho 2015 07:59

O folheiro, pipoqueiro e o vendedor de cangica

Escrito por Paulo Roberto Ferreira

FolheeeeiroFolheeeeiro!

De longe agente já sabia que aquele pregão anunciava o jornal mais popular na década de 1960, em Belém. A Folha do Norte era tão forte que o vendedor não se anunciava como jornaleiro, mas como folheiro. Este mês de festas juninas remete a nossa memória para os pregoeiros de rua, que passavam anunciando a venda serviços, bebidas e comidas típicas da época.

- Olha o aluáááááá, olha o aluááááá!

A bebida feita de casca de abacaxi, gengibre e pão dormido deixou saudade para muita gente. Mas é desconhecido para as novas gerações. Lembro de um português que vendida frutas, mas se atrapalhava na hora de anunciar abacaxi, abricó e ameixa:

Abaixaquiabrecú e meixa

A forma de propagandear o produto varia de acordo com o estilo do vendedor. Uns fazem o marketing agressivo enquanto outros são mais discretos.

- Olha a pamooooonha! Olha a pamooooonha!

Pamonha, pamonha, pamonha, pamonha!

No final e início de ano as ruas se enchiam dos pregoeiros de pupunha:

- Olha a pupunha cozida, olha a pupunha cozida!

Não tinha hora nem lugar para anunciar um produto nas ruas. De noite tinham os vendedores de mingau:

- Mingau de miiiiiilho, mingau de miiiiiilho!

Até na porta dos cemitérios tinha gente vendendo coisas na base do grito:

- olha a  areia,  areia, areia, areia pura, pra botar na sepultura!

Mas nem sempre o berro é o recurso usado para vender um produto. Às vezes serve para fazer uma advertência ou anunciar um perigo. 

- Vai abrindo que está melando, vai abrindo que está melando!

Eram os carregadores de peixe do mercado do Ver-o-Peso. Eles pediam passagem para transportar as caixas cheias de pescado e que vazavam nas extremidades e podiam sujar o corpo ou a roupa de quem estava no caminho. 

Quem não lembra do vendedor de pipoca na porta daescola ou no final de tarde, na rua de casa? Além do grito,os vendedores ainda pressionavam uma buzina para reforçar o anúncio do produto:

PipoqueeeeiroPipoqueeeeiro

Nos estádios de futebol os vendedores apelam para o duplo sentido

- Vamos chupar, vamos chupar... picolé!

Os compositores paraenses Cincinato Marques Júnior e  Allan Carvalho, do Grupo Quaderna, lançaram, este ano, um CD inspirado nos pregões de rua. Durante quatro anos eles pesquisaram nas feiras e mercados dos principais bairros de Belém. Um dos primeiros sucessos foi a faixa que repete o grito dos vendedores de amendoim, oim-oim-oim-oimAs músicas estão animando as festas juninas em ritmo de carimbóxote,cúmbia, lambada e reggae.

Nos trapiches das cidades ribeirinhas pessoas anunciam os barcos e suas viagens aos diversos municípios amazônicos. Nas zonas urbanas, os vanzeiros(cobradores de vans) fazem um barulho danado nas paradas de transporte coletivo anunciando o itinerário do veículo alternativo.

Mesmo com toda a sofisticação e avanços publicitários e de marketing, a voz das ruas ainda vai continuar sendo ouvida por muito tempo, especialmente nos locais de grande concentração, onde sempre tem uma feira improvisada e um camelô anunciando um produto ou serviço qualquer. Ou um vendedor de jornal anunciando a última manchete:

- Papão em terceiro na série B!

Para gente não brigar, o melhor é esquecer o futebol e ficar de ouvido atento aos pregões da época:

- Olha a cangiiiiiiica!

Olha o bolo de macaxeeeeeira!  

As agonias de um rio
Domingo, 07 Junho 2015 08:31

As agonias de um rio

Escrito por Paulo Roberto Ferreira

Gosto de ouvir e contar história, história de vida das pessoas. 

Encontrei, semana passada, um velho amigo numa reunião sobre meio ambiente. Ele com os cabelos todos branco e eu com pouco pelo no alto da cabeça.

Ele me contou a história de um rio que corta vários municípios e enfrenta sérios problemas de poluição, destruição da mata ciliar, pesca predatória e assoreamento. Por isso mesmo o Galvão está engajado num movimento para não permitir que aconteça essa morte anunciada. 

A consumição é tanta que outro amigo entrou na conversa e contou que uma noite sonhou com o rio Marapanim. Enquanto navegava em seu leito, Gonzaga viu surgir do fundo das águas uma tromba luminosa. Meio assustado,  ouviu uma voz que pediu calma e que lhe escutasse. 

- Meu nome é rio Marapamim. Sei que tu gostas de mim e por isso mesmo te faço um apelo: junta teus amigos e faz uma mobilização em busca de remédio para minha saúde. Sempre fui generoso com as pessoas, fornecendo água, peixe e refrigério para quem precisa tomar banho. Porém, infelizmente, recebo como gratidão, o corte das árvores que protegem as minhas margens. Como se ainda fosse pouco, tem gente que usa veneno para capturar os peixes. 

- Mas, seu rio Marapanim, nem todos agem assim.

- Eu sei, meu filho, já existem pessoas que têm consciência da importância das minhas águas para esta região. Entretanto, tu mesmo já vistes que esse pessoal que vem de longe, em ônibus fretados, despejam todo tipo de sujeira no meu leito: garrafas de plástico, embalagem de sabonete, bandejas de isopor e até fralda descartável. 

- Pior mesmo é a poluição das fazendas, não é mesmo?

- Sim, muitos dos meus irmãozinhos, afluentes, riachos e igarapés, estão com suas nascentes ameaçadas ou seus leitos são pisoteados por bois e cavalos. Para matar as plantas invasoras do pasto, tem pecuarista que joga agrotóxico fortíssimo no solo. E quando a minha irmã chuva derrama as suas generosas águas, a porcaria desse veneno desce tudo para dentro do leito dos rios que integram a minha bacia.

- Como todo esse bombardeio, imagino as dores que o senhor deve sentir...

- Tu não fazes a menor ideia. É muito pior de que tudo que tu possas imaginar. Além do entupimento das minhas artérias, sofro com a solidão, pois a cada dia muitos companheiros de caminhada vão em busca de outros lugares ou são mortos pela ganância de certas pessoas. Quando destroem a mata ciliar, as aves arribam para outras paragens. Sem oxigênio, parte do meu corpo vai sendo imobilizada. Já não sou mais totalmente navegável e em alguns trechos não é recomendável o banho em minhas águas malcheirosas.

- É verdade. Até as histórias que a gente ouvia sobre figuras encantadas parece que estão desaparecendo. Não ouço ninguém mais falar sobre isso.

Com certeza, Gonzaga. Até as encantarias que habitavam o fundo das minhas águas estão sumindo. Aliás, já nem posso falar muito de profundezas, pois em alguns trechos, minhas águas já não ultrapassam o peito de uma pessoa comum. Quer dizer, como vocês dizem, estou ficando raso. E isso não acontece só comigo. Nesta imensa Amazônia, que muita gente pensava que nunca ter problema com água, tem lugares que já não tem água nem no lençol freático. Outros irmãos meus enfrentam a fúria dos que utilizam o mercúrio, como é o caso do Tapajós, lá na região Oeste do Pará. A garimpagem de ouro não tem limites. Entre a vida e o dinheiro, o capital vale mais.

Gonzaga acordou assustado, abriu os olhos e então percebeu que foi só um sonho. Mas aproveitou para refletir se os sonhos não são reflexos do que está no nosso subconsciente. Deixou o dia amanhecer, ligou para o Galvão e combinou que iriam procurar o mestre Manoel, do Grupo Uirapuru, a fim de convencê-lo a fazer umamúsica de carimbó sobre as agonias do Marapanim. E assim ficaria mais fácil juntar as pessoas para avaliar a situação do rio. Afinal, o carimbó, canto de trabalho, permite que as pessoas cantem, dancem, mas também cuidem das coisas sérias. Dia do Meio Ambiente é todo dia. 

Quem não tem mania ou superstições?
Sábado, 30 Maio 2015 08:39

Quem não tem mania ou superstições?

Escrito por Paulo Roberto Ferreira

Manias, crendices e supertições. Todo mundo tem uma, mas reluta em admitir. Outro dia perguntei a um grupo de jovens quais eram as suas e poucos aceitaram ter alguma, embora não lembrassem na hora. Aos poucos, a memória foi relaxando e as lembranças surgiram. Fazer figa no momento da cobrança de pênalti contra seu time,foi a primeira. Depois, se benzer antes de entrar nas águasdo mar ou de rio, foi outra. E o desfile continuou por um bom tempo.

 

Muitas crendices populares vieram com os nossos colonizadores, como é o caso das moças que colocam a imagem de Santo Antônio de cabeça para baixo, numa vasilha com água, a fim de conseguir um casamento. Isto veio de Portugal. Da mesma forma que aquela outra que consta que se a pessoa pisar no rabo de um gato, a pessoanão se casará durante um ano. E por ai vai.

 

Tem gente que só se levanta da cama se pisar no chão com o pé direito. E se a orelha estiver ardendo é sinal de alguém está falando mal dele ou dela. O número 13 significa sorte para uns e azar para outros. E agosto? É mês do desgosto! Espera aí, e quem nasceu em agosto é desgostoso? Brincadeira. Conheço gente alegre e saudável que nasceu em agosto.

 

No Marajó, tem muitas pessoas que acreditam na “lenda da mulher cheirosa”. Uma bela e solitária esposa teria morrido desgostosa com o marido, um português muito namorador, que deixava a mulher em casa e caia no mundo. Antes de morrer, a bela negra jurou que voltaria para se vingar dos homens. 

 

Muitos rapazes ficam em estado de encantamento quando deparam com a mulher cheirosa, pelas ruas de Soure, em noite de lua cheia. E caem desmaiados. No passado, as mães, irmãs, cunhadas e as esposas acreditavam que fora efeito da mulher cheirosa. Mas hoje tem gente que acha que é uma desculpa esfarrapada do sujeito que se meteu na farra e dormiu fora de casa.

 

Colocar a vassoura atrás da porta, para afastar uma visita indesejável funciona? Para alguns, sim. E isso se repete de geração para geração. E esse negócio do hábito do costume me faz lembrar a história do marido que, no primeiro dia após o casamento, desejou comer carne assada de forno. A jovem esposa prontamente declarou que sabia fazer um assado perfeito, que aprendera com a mãe. 

 

O rapaz foi ao supermercado, comprou uma peça de filé, já toda limpa, e os temperos. Depois de lavar e distribuir o sal e outros condimentos, a moça cortou um pedaço da carne e atirou na lixeira. Intrigado, o marido questionou o procedimento. A resposta não tardou: segredo do assado. Igual o sujeito que derrama um pouco da bebida para o santo. 

 

A comida ficou boa, mas o marido não se conformou com a resposta. No domingo seguinte foi convidado a almoçar com a sogra. Aproveitou para tirar a conversa a limpo. E a resposta que obteve foi que a mãe de sua mulher aprendera o segredo com a genitora dela. Por sorte, a avó da mulher do rapaz ainda estava viva e morava num sítio, a poucos quilômetros de Belém. Ele inventou um pretexto e lá se foi o casal visitar a vovozinha. 

 

Após relatar o seu drama, o marido recebeu como resposta que a idosa senhora não guardava nenhum tipo de segredo para justificar o apetitoso assado de carne. Explicou que como não tinha geladeira para conservar as sobras de alimentos e sua assadeira era pequena, o jeito era cortar o excedente e atirar no lixo. Mas, confessou, fazia isso com muita pena do desperdício. Pronto, estava desfeito o mistério.

 

A repetição de certos hábitos pode durar décadas ou centenas de anos. Lembro-me de uma família que se pelava de medo quando ameaçava chover e o céu ficava escuro. A mãe reunia os filhos, embaixo de um lençol e ficava rezando o tempo todo. Mas antes, queimava palha benta para afastar os trovões e a tempestade. Muitos cresceram, se educaram e deixaram na lembrança esses hábitos. Outros, da mesma família, continuam apavorados ao menor sinal de que vai cair um toró. E já passaram para os filhos o que viveram na companhia dos avós e pais. 

 

Como já ensinava o filósofo inglês Francis Bacon, “evitar superstições já é outra supertição”. Portanto, ainda vamos conviver durante muito tempo com manias e crendices populares. Aproveite e faça um teste na sua família ou na roda de amigos: quem não tem mania ou superstições?

Policiais realizam parto em plena calçada, no Rio de Janeiro. Foto arquivo R-7.
Domingo, 24 Maio 2015 17:47

Acontece cada uma!

Escrito por Paulo Roberto Ferreira

Acontece cada situação inusitada em nossas vidas. Esta semana o meu filho teve que enfrentar a incômoda presença de uma rã dentro do carro. Foi uma luta para se livrar do anfíbio, desde o início da manhã. Tentou de todo jeito, mas o pequeno animal saltava e se esquivava do perseguidor. Sem outro jeito, foi deixando passar as horas, até que já no início da noite, quando retornava para casa, deu carona para sua prima, que quando se deu conta da presença da indesejável passageira, fez o maior barulho, mandou parar o carro e saiu gritado:

                - Mata, Tiago, mata, mata...

                Um grupo de pessoas que caminhava no passeio, ficou assustado, parou e ficou olhando a moça assombrada e descabelada que não parava de repetir a frase. Com a porta aberta, o condutor do veículo conseguiu afugentar a perereca, que saltou para fora do carro e caiu justamente em cima da jovem. Ela se apavorou mais ainda e soltou todos os palavrões que lhe vieram à boca contra o inofensivo caçote. Os transeuntes continuaram assustados e sem entender nada, até que a rã saltou do corpo da moça e seguiu rumo ignorado. Já mais calma, a jovem retornou ao seu assento, no banco do carona, e o carro seguiu seu trajeto.

Em tempo de frequentes assaltos e sequestros, todo mundo fica sobressaltado com qualquer movimento diferente que acontece na rua. Nem sempre o episódio acaba em gargalhada, depois do caso passado. Existem ocasiões em que o sujeito chega até a pensar se realmente ainda continua presente no mundo das pessoas visíveis. Foi o que aconteceu com um jovem português, que está vivendo no Brasil por cerca de um ano.

Ele foi assaltado às proximidades de um supermercado, em Ananindeua, há duas semanas. De tão assustado e até para evitar represálias, preferiu permanecer no anonimato. Contou para a autoridade policial e aos repórteres de plantão, que foi surpreendido pelo assaltante, que desejava a sua motocicleta. Como já estava parado numa esquina, o lusitano só fez desmontar do veículo e entregar a chave da moto. Mas, o assaltante, muito nervoso apertou o gatilho da arma e a bala seguiu em direção ao peito da vítima que, instintivamente tentou se defender do projétil, levantado levemente o braço.

Foi a sua sorte. A bala atingiu o relógio de pulso e resvalou pelo braço do assaltado. Ainda em dúvida se estava no mundo das pessoas materialmente encarnadas, o português levou alguns segundos para ter certeza que não morrera. E ainda chegou a ver o assaltante corendo e deixando para trás o seu objeto de desejo. O meliante também pensou que tivesse tirado a vida do motociclista e fugiu. Felizmente este episódio teve um desfecho diferente da maioria dos casos que a gente está acostumada a acompanhar pela mídia.

São ocorrências verdadeiras que parecem ficção. Semelhante ao que aconteceu no Rio de Janeiro, quando um grupo de pessoas bebia e comia churrasquinho numa praça, em frente a um bar. Era um ponto de encontro, onde prostitutas e travestis faziam ponto. No meio do grupo estava uma mulher em adiantado estado de gravidez. Mas como não tinha família e dividia o quarto com outra “dama da noite” foi para a praça a fim de não ficar só em casa.

Houve um acidente entre dois automóveis e o condutor de um dos veículos teve seu corpo projetado para o meio da praça. Foi um sururu danado. Era mais quem gritava e corria. No meio do pânico, a gestante entrou em estado de parto e a criança começou a nascer ali, mesmo. Uma outra mulher gritou:

- Alguém precisa ir no bar pedir um pano, uma faca e um balde com água. Eu preciso cortar o cordão umbilical.

Um dos bêbados atravessou a rua correndo e, como tinha intimidade na casa, pegou um guardanapo que estava em cima do balcão, uma peixeira de cortar charque e um balde que ficava embaixo de uma torneira danificada, por onde pingava água o dia inteiro. Quando retornou para o local do parto, uma viatura da Polícia já havia chegado. Um dos policiais vendo aquele homem chegando com uma faca na mão perguntou:

- Pra que é essa faca?

A resposta foi imediata:

- Para a pura que pariu!

Resposta correta, mas interpretada pelo policial como uma ofensa. Resultado, o homem prestativo em ajudar alguém, numa hora de dificuldade, foi preso por desacato à autoridade. São situações inusitadas, que podem acontecer na vida de qualquer um. Tudo depende do momento. Tomara que não aconteça com você, nada parecido com as três situações acima, caro leitor.

Axi, essa crônica está uma barafunda
Domingo, 17 Maio 2015 09:27

Axi, essa crônica está uma barafunda

Escrito por Paulo Roberto Ferreira

Enquanto eu aguardava o sinal de trânsito abrir para poder atravessar a rua, ouvi o pedaço de uma conversa entre duas senhoras. Uma delas dizia:

 

Eu falei pra menina não bulir (mexer) nas coisas dele, mas ela continuou bulindo.

semáforo abriu e não consegui ouvir o resto da conversa. Mas aquele fragmento de diálogo me despertou para a infinidade de palavras que a gente vai deixando de ouvir (e escrever) à medida que a sociedade vai incorporando novos vocábulos introduzidos pelos meios de comunicação, sejam termos mais ao gosto dos acadêmicos, dos escritores, dos políticos, dos estudantes e outros segmentos sociais que trabalham com as palavras. 

 

No Norte do País, especialmente no Pará e outros estados da Amazônia, existem palavras e expressões muito peculiares , que surpreendem as novas gerações.

 

Raras são as pessoas que ainda usam a palavra acanhado ao se referir a pessoa tímida. Ou acanhamento, atitude retraída de alguém. Fui ao Meu Dicionário de Coisas da Amazônia, do escritor paraense Raymundo Moraes, publicado em 1931, para encontrar  vários exemplos de termos que estão caindo em desuso.

 

Sentei diante do notbook e fiquei pensando, meio apalermado, pensando, pensando, nas palavras.  O sono foi chegando, chegando.

 

Alcoviteiro é uma das palavras já não muito utilizada

 

Pequeno alcoviteiro, se presta para levar recadinho entre os namorados! 

Espécie de mensageiro, pombo-correio , cupido. 

 

notícia chega com velocidade.  Aquele carteiro é andejo, por demais andejoSignifica nada mais, nada menos que ligeiro. 

O coronel anda assado com o padre. Disque é rabo de saia.  

 

Consta que o mandachuva do lugar está irritado. E não é pra menos, pois a mulher que ele anda de beiços caídos é muito assanhada.  Atualmente se diria que poderoso  está com os quatro pneus arriados mas a moça é muito namoradeira. 

 

Porém, uma mulher do século XXI reagiria contra o prejulgamento que os mexeriqueiros de plantão faziam da sua opção e do seu direito de não se considerar propriedade de homem nenhum, mesmo que seja a figura graúda do lugar. Já na década de 1960 do século passado, a reação seria mais ou menos assim: 

Axi! (desdém) Onde já se viu. O coronel não é meu dono. Pior pra ele que fica dando ouça para essa gente que só sabe azucrinar a vida dos outros. Comigo não, ninguém me azucrina. Essa barafunda (confusão) toda é por eu sou mulher, mas não sou lesa. Pensa que eu não sei que ele também anda todo enrabichado (apaixonado) pros lado daquela lambisgoia (intrigante) da Valentina, que vive desfilando na rua João Alfredo, dia de sábado de manhã?

Fico imaginando o impacto que poderia causar a declaração de uma mulher emancipada para um homem machista e ainda por cima acostumado a ser obedecido por todos. Certamente que o figurão sentiu-se insultado e dormiu mordido (entalado). No meio da noite acordou com um baticum (palpitação acelerada) no tórax que parecia querer sufocá-lo. 

 

No Pedreira Bar, os comentários corriam soltos: 

Isso acontece com quem fica de trololó com João Linguarudo. Sujeito desenxabido (sem graça), aquilo é uma boa bisca (mau caráter).  

- O pior é quem enquanto o João fica metendo o bedelho na vida alheia, a mulher dele, a Joana cadeiruda,vive arrastando a asa pro bocó (palerma) do Anastácio, o verdureiro do Ver-O-Peso 

Aquela cambada de fofoqueiro, que frequentava bar mais famoso do bairro, só queria um motivo para continuar tomando uma dose de Cortezano ou de Conhaque de Alcatrão de São João da Barra e prosseguir picotando a vida dos vizinhos da Pedreira.

 

Em torno dos frequentadores habituais, tinha gente também que gostava de comentar as notícias da Folha do Norte ou de A Província do Pará, dois dos maiores jornais de Belém. 

 

Tinha cada figura. Existia um vesgueta (estrábico) que dava nó em trilho (esperto). Gostava de contar vantagem. Mas se metia em cada catatau (intriga)Um dia ele arrotou que foi num baile na Assembleia Paraense, mas quando forneceu o endereço, a turma acabou descobrindo que o baile não passou de uma festa chinfrim(ordinária) na sede do Clube AlegriaOutro personagem era meio estúrdio (esquisito) e só gostava mesmo era de palavras cruzadas. Sentava numa mesa de canto e ficava preenchendo as quadrículas da revista. 

 

Quase que num salto despertei meio mofino(indisposto), com aquela morrinha de depois do almoço de sábado. E as palavras martelando, martelando na minha cabeça. Quando percebi, a crônica já estava tomando rumo de conto.

 

Alto lá! Isso está parecendo pavulagemEstourou o espaço.  

 

Mães invisíveis para a mídia
Sábado, 09 Maio 2015 19:41

Mães invisíveis para a mídia

Escrito por Paulo Roberto Ferreira

O segundo domingo de maio é sempre uma oportunidade para reunir a família em torno da mãe, da avó, da sogra, de todas as figuras femininas que geraram filhos. O comércio usa o marketing do Dia das Mães para vender mercadorias. E já tem até estatística que comprova que a data só perde para o Natal em volume de negócios. Em Belém deve perder também para os festejos do Círio, que movimenta bastante a economia regional.

E o noticiário, via de regra, carrega nos exemplos de mães que tiveram proles numerosas. Ou mães que fizeram adoção de crianças. Com fotos produzidas as mães pautadas pela mídia, geralmente, são pessoas bem sucedidas profissionalmente ou economicamente. As mães pobres que vivem na periferia das grandes cidades ou nas colônias agrícolas geralmente são invisibilizadas pelos veículos de comunicação. 

Lembro que escandalizei a equipe de uma revista ao propor que uma das entrevistadas para a edição dedicada às mães fosse uma catadora de lixo do Aurá, na região metropolitana de Belém. A mulher revelou que seu maior sonho era ver os filhos educados para que tivessem ocupação diferente da que ela e o marido tinham. Eles viviam doentes por conta do trabalho insalubre.

Certa vez fiz uma reportagem para outra revista que deu na capa a foto de uma trabalhadora do mangue. Ela fazia parte da Associação de Mulheres do Pereru, comunidade do município de São Caetano de Odivelas, no nordeste do Pará. Seu trabalho era retirar o caranguejo da toca, coletar outras, mexilhão, turu e outros mariscos, que servem à alimentação da família e à comercialização. 

Conheço muitas mães que trabalham duro na lavoura, mas dificilmente a mídia conta suas histórias de múltiplas ocupações. São educadoras, enfermeiras, faxineiras, cozinheiras, decoradoras dentro de casa e ainda trabalham no campo, na limpeza da terra, semeando, limpando e colhendo. Muitas ainda arrranjam tempo para as igrejas de suas crenças.

São invisíveis também para os comunicadores da grande imprensa as mães que trabalham na construção civil, no setor de alvenaria, sentando lajotas e outros acabamentos, no controle do almoxarifado. As motoristas de ônibus e de taxis, as professoras que cuidam das crianças da roça, as empregadas domésticas. São mães que estão no trabalho mas ao mesmo tempo vivem preocupadas com os filhos que, às vezes, ficam sob os cuidados de irmãos menores.

Mães e esposas que ainda enfrentam a falta de solidariedade de muitos maridos. Lembro de um grupo de mulheres da Vila Silva, em Marapanim. Elas queriam que seus maridos e filhos animassem a festa do Dia das Mães. São músicos de carimbó. Eles prometeram, prometeram, mas não cumpriram. Elas se aborreceram e tomaram uma decisão: aprender a tocar os instrumentos do gostoso ritmo paraense. 

No ano seguinte quem animava a festa eram elas, com um grupo só de mulheres, “As sereias do mar”, comandadas pela mestra Bidica. Em pouco tempo, o conjuntoganhou projeção e começou a ser apresentar em vários pontos do Estado. O grupo de maior expressão do vilarejo passou a ser o das mulheres. 

É assim que muitas mães conquistam seus espaços, sem apoio de ninguém, às vezes, nem mesmo dos familiares masculinos. São a estas mulheres lutadoras, determinadas, peritas administradoras da economia do lar, cuidadosas, valorosas e anônimas que dedico estas linhas, neste Dia das Mães de 2015, com um fragmento do poema Para Sempre, de Carlos Drumond de Andrade: 

“Mãe não tem limite

é tempo sem hora,

luz que não apaga

quando sopra o vento

e chuva desaba”. 

www.diariodocentrodomundo.com.br
Sexta, 01 Maio 2015 10:54

As panelas podem ser atiradas pela janela

Escrito por Paulo Roberto Ferreira

“Nós conquistamos a democracia no Brasil para deixar que as panelas se manifestassem. Precisamos ouvir o que as panelas dizem”. A frase é de Renan Calheiros, presidente do Senado Federal, ex-líder de Fernando Collor de Mello e ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso. Feita na véspera do Dia do Trabalhador, o objetivo da fala é estimular manifestações do tipo “panelaço” contra as medidas de ajuste fiscal da presidenta Dilma Rousseff. E o senador faz parte da cúpula do PMDB, partido aliado do governo, que conta com o vice-presidente da República e mais seis ministros.

          Os analistas políticos dizem que as estocadas de Renan Calheiros ao governo federal estão dentro da sua velha máxima: “toma lá, dá cá”. Mas eu não pretendo entrar no mérito do comportamento fisiológico do presidente do Senado. Até porque tem razão o velho Ulisses Guimarães, parlamentar que dirigiu o PMDB e combateu a ditadura militar: “política é como uma nuvem. Uma hora está de um jeito, um segundo depois, está de outro”.

Fico imaginando, a partir da metáfora do senador alagoano, um desfile de panelas gritando palavras de ordem em defesa da democracia. “Exigimos pagamento de adicional noturno. Somos forçadas a trabalhar à noite”. A faixa é conduzida por um grupo da região dos Jardins, em São Paulo, que foi convocado às pressas para desfilar, fazendo barulho, no Dia Internacional da Mulher.

Outro grupo, do Rio de Janeiro, usa a consigna: “queremos isonomia com a bateria da Portela”, em referência ao desvio de função, já que, em vez de esquentar, ferver e cozinhar, as panelas estão substituindo os tamborins das escolas de samba, nas varandas dos apartamentos. Nas ruas, em cima dos trios elétricos, as líderes do movimento baixam o sarrafo contra a falta de manutenção dos fogões, o que provoca muita sujeira no fundo das panelas. “Não basta usar a melhor palha de aço, é preciso regular os dutos por onde passa o gás de cozinha”, argumentam.

O avanço tecnológico, que acaba por reduzir a função da panela, também está na pauta do movimento, que já contabiliza a perda de vários postos de trabalho por conta da introdução dos fornos elétricos e micro-ondas . As caçarolas e frigideiras estão sendo gradativamente substituídas, nas cozinhas, por outros utensílios. Mas nesse ponto existem divergências entre as centrais sindicais das panelas.

As que marcham nas fileiras do trabalho ameaçam paralisar as cozinhas. Já as mais alinhadas com o capital defendem a incorporação das novas tecnologias e a reciclagem das panelas e outros utensílios em novas funções. E lembram que, com a crise da falta de água, como acontece em São Paulo, um papeiro, por exemplo, pode ser muito bem utilizado para facilitar a retirada da água dos baldes nos banheiros.

Os especialistas em direito do trabalho entram no debate e avaliam que assim como acontece nas fábricas, crises do capitalismo não se resolvem quebrando-se as máquinas, mas repensando novas formas de enfrentamento na relação com o capital. E assim como a imagem figurada do senador Renan, as frigideiras podem ser utilizadas em maior escala, com base nos experimentos, para fritar governadores, prefeitos, vereadores, ministros, secretários de governo, deputados, senadores e também empresários corruptos.

Outro uso político que a população pode fazer com as panelas é o cozimento em banho Maria de determinados gestores que abandonaram seus compromissos com a melhoria do transporte urbano, o saneamento básico, a saúde preventiva, a qualidade da educação, etc. Também é possível queimar o angu dos que pregam a moralidade pública mas agem de forma antiética na vida privada. E assim, as lideranças das “Panelas Democráticas” vão desfiando uma bateria de possibilidade de novos usos para os apetrechos de cozinha, que também podem assar mais rapidamente a batata de certas figuras da República.

Quem brinca com fogo alto esquece que pode se queimar. As vasilhas usadas para cozimento de alimentos são testadas para aguentar elevadas temperaturas, mas tem gente que não suporta nem fogo brando. E as panelas, como os políticos carreiristas, se desgastam com o tempo. Em alguns países da Europa, por ocasião da passagem do ano novo, as panelas velhas são atiradas pela janela, uma metáfora da necessidade de renovação das coisas materiais e também das ideias políticas.

Jornadecente, includente que respeite a nossa gente
Domingo, 26 Abril 2015 07:54

Jornadecente, includente que respeite a nossa gente

Escrito por Paulo Roberto Ferreira

Descomemoração. Tenho ouvido e lido muito este neologismo, que vem se propagando nas redes sociais como uma forma de reação aos festejos que a Rede Globo faz dos seus 50 anos. Isso me faz lembrar a obra de Charles Lutwidge Dogson, Alice no País das Maravilhaspublicada pela primeira vez em 4 de julho de 1865,na Inglaterra, sob o pseudônimo de Lewis Carroll. Um dos personagens da ficção usa a expressão desaniversariosão os outros 364 dias do ano, fora, claro o dia do aniversário.

Mário Prata, que é mestre na invenção de novas palavras, criou o homoternurismo para explicar que homem gosta de homem. Que homem tem amigo do peito, que muitas amizades entre amigos do sexo masculino começam na infância e se prolongam por toda a vida. O autor da novela Estúpido Cupido também é autor do neologismo envelhescência, que é a fase que vai da maturidade (50 anos) à velhice (a partir de 75). Muita gente não recebeu bem e aí surgiu outro neologismo: sexalescente, a rejeição de sexagenário com força da adolescência. Ou seja, o sujeito requereu a aposentadoria, mas ainda está cheio de gás para continuar trabalhando, dançando, viajado, escrevendo, praticando esporte, etc, etc. 

A invenção de palavras também consagrou o escritor Dias Gomes, especialmente no Bem Amado, através do impagável Odorico Paraguassu, que da criação do escritor ganhou vida no teatro, na televisão e no cinema. Provideniciamento, processo de tomada de providências, perguntatório (pessoa que faz muitos questionamentos), badernenta (mais barulhenta que baderneira) e por aí vai.

Tem palavras que entraram no nosso uso que a gente já nem se dá conta que se trata de um neologismo. É o caso de presidenciável, isto é, o cidadão ou a cidadã está disputando ou emprestando seu nome para uma disputa à presidência, seja do clube ou da República. Carreata, bicicleata também sugiram na fusão de passeata com o desfile de carro ou bicicleta, com um sentido político. Agora está novamente em moda as marchas no sentido de protesto. 

Da mesma forma que as gírias, que com o tempo vão caindo em desuso, os neologismos surgem e desaparecem ou ganham novo sentido. No início do movimento Jovem Guarda, Roberto Carlos usava a expressão “você é uma brasa, mora!”, que hoje é substituído por “você é quentura”. 

Na crônica policial existem expressões que deixam confusas as pessoas que não acompanham o dia a dia do confronto entre os que estão do lado do crime e os que defendem a lei. Alguns exemplos que aparecem nos inquéritos policiais: O cara é um tremendo um sete um (referência ao artigo 171 do Código Penal, que condena quem induz o outro a erro, ou seja, o cara é um pilantra); o elemento puxou o três-oitão (revólver calibre 38); no confronto com a nossa viatura, a figura foi abraçar jacaré (deu-se mal).

Na música popular brasileira, alguns compositores utilizam também neologismos, como Djavan. Na canção Sina, criou o termo caetanear (como querer caetanear o que há de bom), ou imitar o estilo alegre, irreverente e inovador do cantor e compositor Caetano Veloso. O tropicalista Tom Zé, no disco Com Defeito de Fábrica, contribui com esse processo de transformação que passa a língua portuguesa no Brasil.

Em politicar o compositor baiano faz uma crítica ao sentido de política como profissão e não como ação de servir. A palavra porteiroguarda aparece na letra Tangolomango (ritmo latino) para designar o guarda-costas dos ricos ou para usar outra expressão popular o famoso leão de chácara. Chico Buarque em sua genial canção Pedro Pedreiro usa o termo penseiro no verso “Pedro pedreiro penseiro esperando trem”, de alguém que pensa, enquanto aguarda o aumento do salário.

Voltando ao começo do texto e para encerrar esta crônica, compartilho algumas tiradas do personagem de Dias Gomes, odoricando o 26 de abril como Dia da Descomemoração dos 50 anos da Rede Globo: é com a alma lavada e enxaguada que celebro este acontecimento. Nesta hora exorbitante, neste momento extrapolante, e, deixando de lado os entretantos para entrar nos finalmente, considero como um marco da defuntação do jornalismo manipulento da vênus platinada que tantos desserviços presta ao país. Não queremos apenasmente autocrítica 50 anos depois, de forma sucupirenta, mas um jornadecente, includente que respeite a nossa gente. 

Arquibancada do Baenão. www.sigaremo.com.br
Sábado, 18 Abril 2015 12:30

A batalha de urina em dia de Re X Pa

Escrito por Paulo Roberto Ferreira

Hoje é dia de clássico no futebol da Amazônia. Remo e Paysandu se enfrentam pela Copa Verde. O estádio Edgar Proença, o famoso Mangueirão vai receber em torno de 30 mil torcedores, enquanto um número três vezes maior assiste ao jogo nas casas e nos bares que dispõem de TV por assinatura.  A disputa mexe com todo mundo. Rara é a família que só tem torcedor de um clube. Muitos levam na esportiva as gozações dos familiares e amigos. Outros reagem com violência e acabam criando inimizade por causa justamente do esporte, que surgiu na Grécia como uma oportunidade de trégua entre as guerras.

O esporte tem essa capacidade de juntar pessoas das mais diferentes posições políticas e ideológicas numa mesma arquibancada. Ana Júlia Carepa, ex-governadora, eleita pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e Simão Jatene, atual governador, eleito pelo PSDB, são adversários viscerais em termos políticos. Mas torcem pelo mesmo clube, o Remo.  Evidentemente que nunca foram ao estádio juntos. Mas se existe alguma que os faz estar do mesmo lado é a vitória do clube de suas paixões.

O mesmo acontece com dois marqueteiros da política paraense. Orly Bezerra, sócio da Griffo Comunicação, que faz o marketing eleitoral do PSDB, é torcedor do Papão daCuruzu, mesmo time que torce o publicitário Chico Cavalcante, da Vanguarda, responsável pelas campanhas eleitorais do PT no Pará. Mas quando vestem a camisa do esporte, as cores amarela e vermelha são substituídas pela azul e branca do Paysandu.

É curioso como os torcedores dos dois clubes unem-se na frente do Mangueirão, antes do jogo, para comer churrasquinho ou comprar bebida. Já depois da partida, cada um sai para um lado e a Polícia no meio para evitar conflitos, que podem resultar em ferimentos, danos em veículos e até mesmo na prisão dos mais exaltados. Agora já existe até juizado especial funcionando dentro do estádios.

Essas disputas me lembram a experiência que tive num RE X PA. Adolescente, fui ao campo, num domingo, junto com amigos do bairro da Pedreira, meus vizinhos. Na hora de entrar no estádio Evandro Almeida, o Baenão, é que percebi que tinha ficado com um grupo de colegas torcedores do Remo. O jogo começou a esquentar e quando o Papão ameaçava fazer gol eu me animava, mas fui contido pelos amigos, que me advertiram: aqui tu não podes torcer pelo teu time, fica calado. Como eu tinha medo de não acertar voltar para casa, sozinho, aguentei ali, mudo, a vitória do meu time ao lado dos meus amigosremistas.

Mas pior que conter a minha euforia foi ter que suportar a guerra de urina que se travava entre torcedores da mesma torcida. Quando começou a chover (o estádio não tinha cobertura), alguns torcedores mais prevenidos abriram seus guarda-chuvas. Pronto. Foi o suficiente para quem estava atrás, encher um saco plástico de urina e atirar no portador do guarda-chuva. A reação foi imediata.E atrás de mim, tinha um sujeito que parece que passou a semana toda tomando cerveja e guardou a vontade de urinar no domingo, à tarde.

Muitos gaiatos, já sem estoque de urina, buscavam no grandalhão, atrás de mim, a fonte para carregar suas armas. Os saquinhos giravam na mão dos torcedores para ganhar impulso e fazer estrago no alvo. De baixo para cima ou de cima para baixo, quando estouravam,provocavam gritarias e protestos. Chegou um momento que ninguém sabia se olhava para o jogo ou defendia-se dabatalha de xixi.

O torcedor, durante uma partida, é pura emoção. Basta alguém fazer um comentário desfavorável ao juiz, jogador ou técnico, que vira logo uma palavra de ordem. Outro dia, quando o nome do craque paraense, Paulo Henrique Ganço foi anunciado na escalação do time do São Paulo, a torcida vaiou e os comentaristas esportivos registraram a reação. Quando o jogo acabou, Ganço foi o craque do jogo e saiu aplaudido pela torcida.

Essa mudança de humor às vezes surpreende. Um amigo levou ao estádio seus filhos menores. Os garotos estavam animados quando em terminado momento um torcedor começou a xingar um jogador. Outro torcedor, fez a defesa. E começou um bate boca que evoluiu para empurrões. O amigo, preocupado em proteger os filhos, nem viu o gol de seu time. Só percebeu quando os dois, que antes se empurravam e ameaçavam brigar, agora celebravam o gol feito justamente pelo causador da desavença anterior. De perna de pau, o jogador passou a ser chamado de “o cara”.

As crianças não escapam das disputas clubísticasdentro da família. Minha filha caçula vendo os primosdivididos na torcida por Remo e Paysandu, quando foi chamada a opinar sobre o time da sua preferência, sapecou um Mãesandu, por entender que Pay era coisa de menino. O interessante é que os estádios dos dois maiores rivais do futebol paraense ficam na mesma rua: avenida Almirante Barroso. Mudam apenas as esquinas: um na Curuzu e outro na Antônio Baena (Baenão). As cores também são as mesmas: azul, apenas um usa o tom escuro e a outro o tonalidade mais clara 

Os dois são clubes com mais de 100 anos de existência. Portanto, Remo e Paysandu são fundamentais para a alegria do torcedor. O que temos que fazer é educar a nossa paixão,o nosso humor, para que esporte seja, de fato, um espaço de alegria, de paz, um contraponto a tantas notícias desagradáveis do nosso cotidiano.  

O temor do testamento de Judas
Quinta, 02 Abril 2015 17:27

O temor do testamento de Judas

Escrito por Paulo Roberto Ferreira

Escrever uma crônica jornalística, na Semana Santa, é um grande desafio. Seria bem mais fácil fazer comparações entre o período que se fazia silêncio e abstinência de carne durante os dias que antecedem ao domingo de Páscoa. Ou da figura de Barrabás que foi libertado por meio de uma manobra dos que preferiam ver o assaltante livre do que o homem que poderia ameaçar seus poderes religiosos e temporais. Cristo desafiou os doutores da lei com uma sentença incômoda: a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Não, este homem não poderia ficar livre. Sua liberdade era uma ameaça. Nem sempre a verdade é a solução como diria um diretor de cinema italiano: “nem sempre a verdade é revolucionária”.

Neste início de abril de 2015 falar a verdade ainda choca muita gente. Revelar coisas que ficaram escondidas durante muitos anos, não é bem aceita pelos que preferem a obscuridade, o silêncio e à mordaça imposta pelo autoritarismo. Acompanho nas redes sociais o debate dos que propõem a volta da ditadura militar como solução para nossos problemas. Problemas que existiam em grande quantidade (talvez até maior) nos anos de chumbo em que o Poder Judiciário e o Congresso Nacional estavam manietados e a impressa sob censura ou autocensura. Também seria interessante discorrer sobre esse tema, que me toca muito de perto.

Não, o sábado de aleluia merece um tema menos conjuntural e menos religioso. Recorro às memórias de meu tio Arlindo, que quando criança gostava tanto da figura dos bonecos de Judas, que um dia arrastou um deles e o encostou na porta do casebre onde morava com a mãe e o padrasto. De dentro da capoeira assistiu o homem reagir com fúria e espatifar o boneco de pano, recheado de capim. Mal o padrasto poderia imaginar que aquela figura, símbolo da traição, nada tinha a ver com ele. Fora trazida de longe por um menino ingênuo, que não teve brinquedo e que se encantava com um boneco do tamanho de uma pessoa adulta.

Quem já trabalhou na geral de uma redação sabe que a malhação de Judas, no bairro da Cremação, em Belém, é pauta obrigatória de jornalistas e radialistas. Especialmente os iniciantes no jornalismo, também chamados de “foca”. Mal o dia amanhece e as equipes dos meios de comunicação se cruzam nas ruas do bairro. Dirigentes de associações de malhadores se revezam em explicar aos repórteres porque escolheram este ou aquele tema. Até as roupas usadas nos bonecos são objetos de comentário, nos dias que antecede a festa. Sim, porque malhar o Judas é uma tradição, uma festa no bairro da Cremação, que no sábado de aleluia, antecipa as folias juninas, com brincadeiras de quebra pote, corrida de saco, pau de sebo e outros folguedos.

O nome do bairro vem do crematório de lixo, que durante muitos anos funcionou ali no quadrilátero entre as avenidas Alcindo Cacela, Nove de Janeiro e as ruas São Miguel eConceição. Mesmo desativado, o símbolo do crematório, uma chaminé, foi preservado no meio da praça. Nas cidades menores, ainda se cultiva a malhação do Judas, mas nas metrópoles essa tradição tende a desaparecer. E junto com ela, o testamento do Judas, a peça aguardada por todos os que gostam de saber das fofocas do bairro.

Trazida pelos espanhóis, o costume proporciona momentos da desforra entre os desafetos do bairro ou da cidade. Fossem  desavenças políticas, religiosas, futebolísticas tudo aparecia no testamento. Tipo: “deixo uma superdose de paciência aos remistas, a fim de aguentarem a gozação dos bicolores”. Ou “uma carreta para transportar, no dia do seu enterro, a língua do fulano de tal”. Ou ainda um recado ao prefeito da cidade: “uma poção de disposição para mandar limpar os canais e recolher o lixo da periferia”. Muitos gestores se pelam de medo do que virá no testamento dos organizadores da festa, que geralmente são pessoas ligadas ao carnaval.

Mais recentemente, os escândalos nacionais passaram a figurar no inventário de Judas, que também inclui as diferenças entre as religiões e até os conflitos internacionais. Tudo com uma dose de humor, que desaparece no domingo de Páscoa, para nós, ocidentais, símbolo da imortalidade,  que representa mais do que ovos de chocolate: perdão e reconciliação para uma sociedade que precisa celebrar mais a figura e a obra de Cristo do que a de Judas ou Barrabás.

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