Quinta, 11 Junho 2015 12:53

A viagem de trem

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Na semana passada tive um compromisso inesperado numa empresa na Av. Paulista. Do ponto em que me encontrava, decidi pegar o trem que passa pela Marginal do Rio Pinheiros e que dá acesso à linha Amarela do Metrô e que me deixaria na Paulista. Viagem de vinte e cinco minutos contra uma hora e meia de carro e sem os atropelos normais deestacionamento.

 

Passando ali no trem ao longo do rio Pinheiros, vi aquela sujeira flutuando e um mau cheiro danadoLembrei-me docachorro flagrado por um repórter de televisão e que virou hit na grande rede mergulhando no Pinheiros, imundo, para pegar garrafas pet. (https://www.youtube.com/watch?v=rovRLTZLX6M)

 

Chegando ao meu destino, nova surpresa:  greve dos bancos ao longo de toda a avenida, greve de professores, greve não sei de que em frente a sede da Fiesp, gente para todos os lados, buzinaço, bagunça!...

 

O trem suburbano , silencioso e limpo, passando por várias estações igualmente limpas, organizadas, até chegar a Linha Amarela, com suas escadas rolantes à vista, enterradas num poço de uns 7 andares, subindo e descendo no compasso da pressa paulistana, até a plataforma da monumental Linha Amarela que liga o Butatã à Estação da Luz, via Paulista. Isso é uma visão romântica como quem olha o céu estrelado na noite escura. 

 

Olhando para baixo, no claro, a gente se dá conta do rio moribundo  que concentra as imundices de miseráveis de espírito eo atrevimento daquele cachorro flagrado por um repórter de televisão que parecia imitar o nosso papel na sociedade:  tentamos dar a nossa contribuição mas o trabalho é imenso, cansativo e interminável.

 

Foi isso que senti na viagem inesperada de trem margeando o rio. Às vezes, muita gente reclama desse cheiro de rio poluído a céu aberto, mesmo sem nenhum um rio por perto...

 

Assim estamos.

Quinta, 28 Maio 2015 19:51

Um novo momento

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Os rapazes em Brasília estão trabalhando para definir a questão de doação de campanha.

Está mais do que na hora de acabar com esse embuste da doação de campanha a partidos e encarar os fatos com clareza:  se a doação é feita pelo governo é dinheiro do povo, logo o povo também teria que opinar sobre o destino da verba; se a doação vier de empresas é um “empréstimo” que será cobrado através de várias formas, usualmente da forma mais ordinária possível;  se a doação vier de pessoas físicas... nem o mais ingênuo dos ingênuos acreditaria que isso seria mero gesto patriótico sem fins lucrativos!

Já que é impossível controlar a fúria dos políticos em arrecadar fundos ou a ginástica de certas empresas para fortalecer seus músculos nas competições em negócios com estatais, melhor transformar  propina em doação ou doação em propina.  Um deles pode sair mais barato para o País. Façam suas apostas!

Por se tratar de assunto importante à sobrevivência do Brasil, todos devemos ajudar. Primeiro, precisamos de um nome.  Vimos que do jeito que está, sem nomenclatura própria, essa  “coisa indigesta” tem desarranjado o intestino democrático. 

Vamos explorar juntos:

Doação: não é nome bom porque sabemos, todos, que isso não existe.

Agrado: apesar da boa índole dos brasileiros, peralá, agrado é como gorjeta:  só se for merecida.

Contribuição: contribuir com o quê? Por favor me expliquem melhor.

DOAPINA:  uma mistura de doação com propina.  Não é bom.  Parece nome de remédio e pode acabar dando lugar a um genérico com princípio ativo de uma bandalheira nova e bem mais  perigosa.

PROPINA:  é o melhor nome e assim chamamos a coisa pelo próprio nome, sem voltas. Institucionalizou, tá limpo. Pode ser um novo momento.

 

Quarta, 20 Maio 2015 22:35

O mesmo

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Há coisas que a gente gosta e não sabe explicar por que gosta. Talvez isso explique o tão falado amor à primeira vista. Há coisas que a gente não gosta e também não sabemos por que não gostamos.

Sou avesso à expressão “o mesmo”. Como castigo, toda vez que entro no elevador de qualquer lugar, lá está a placa obrigatória por lei “antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar”.

Tento reescrever essa frase mas as tentativas não resultam proveitosas e, de mais a mais, a placa é produto consagrado e vendido nas boas casas do ramo. Toda vez deparo com “o mesmo” me olhando com desprezo, como moleque birrento a desafiar os mais velhos. Aprendi a curtir a neura de costas para a placa.

Vícios de linguagem, expressões como “então”, “assim”, “pois é”, “tipo assim” e tantas outras utilizadas para iniciar uma conversa, particularmente entre jovens, são transmissíveis porém curáveis. O gerúndio formatado pelo atendimento dos serviços de telemarketing está no segundo volume morto e, acredito, tem seus dias contados. O mesmo (caramba, fui contaminado?) não se pode dizer de “o mesmo”: é transmissível e é uma espécie de dengue vernacular com focos por todos os lados!

Pois outro dia encontrei um homem contaminado com o mesmo. Ao chegar à guarita da empresa ele me abordou:

- com quem deseja falar?

- tenho uma reunião com o Sr Fernandes

- um momento, por favor

-tem um senhor aqui na portaria que diz ter hora marcada com o Sr Fernandes, QSL? (falando no intercomunicador).

-QRX (aguarde um momento)

-QSL (entendido, positivo,pode deixar passar).

Dirigindo-se a mim:

-pode entrar, senhor. O mesmo pode estacionar na primeira vaga ali adiante.

Com a janela do carro ainda aberta, dirigindo vagarosamente como mandava a sinalização, ainda escutei: QAP, QSL, o mesmo estacionando na vaga 5.

Cuidado! Isso é transmissível.

Quarta, 13 Maio 2015 17:29

Um outro Dia das Mães

Escrito por Rosélio da Costa Silva

O dia das mães é sempre no segundo domingo de maio.   Não vamos tratar disso já que a aliança do comércio com o batalhão de filhos espalhados por todo o País já se encarregou de promover a festa. Hoje é só ressaca.

No dia 5 de maio, por razões conhecidas, houve um protesto generalizado contra certos filhos mas acabou acertando nas respectivas genitoras. Eram xingamentos vindos de prédios vizinhos e que depois soube que o mesmo havia acontecido na cidade inteira e em vários estados do Brasil. Era um berreiro só: filho disso, filho daquilo, panelaço, buzinaço...

Tudo isso porque há uma repulsa a certos oradores no Brasil. Toda vez que vão à televisão, o povo reage com os termos outrora ouvidos apenas nos estádios de futebol, nas discussões de trânsito. Trata-se daquele dois em um que acerta o cara e, por tabela, a mãe do cara!

É que existe um cansaço a filhos que vem à televisão com suas estórias, tão discutíveis como a própria palavra estória. Nada a ver com as mães. O problema é com eles e não com elas. Mas elas acabam sendo atingidas de forma grosseira, indefesas, sem terem feito nada a não ser por no mundo filhos que não souberam engrandecê-las.

Há coisas que só acontecem no Brasil. É frase corrente, nem sempre verdadeira. Vamos e venhamos, aqui e ali aparecem coisas que comprovam essa afirmação batida. Acho que esta é uma delas. Que a gente seja pioneiro em adotar o dia 5 de maio para homenagear as mães desses filhos que saem por aí fazendo besteiras e acabam complicando reputações.

Não é educado ficar qualificando o filho dos outros, mesmo que suas atitudes não sejam dignas, porque acabam sujando a barra das mães.

Fica combinado: 5 de Maio, um outro dia das mães.

Domingo, 03 Maio 2015 16:35

Nepal

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Há gente que se pela de medo de andar de avião. São muitos os motivos. O principal é que a pane ocorre lá em cima e a oficina é aqui em baixo, como dizia o maestro Jobim.  Além disso, todos os objetos voadores são mais pesados que o ar e podem despencar como se fossem um martelo sem cabo! 

As pessoas não gostam de aviões, sobretudo, pelo aprisionamento na cabinesentem-se inteiramente vítimas, até pordesconhecerem os múltiplos níveis de segurança das aeronaves.  Dizem por aí que avião não cai, é derrubado! No frigir dos ovos, isso não faz a menor diferença.

Navio é mais tranquilo, oferece mais liberdade e o esquema de entretenimento permanente a bordo acaba disfarçando aquele sentimento de perigo diante da imensidão dos mares. Lá no fundo, a gente acha que um bom salva-vidas dá conta do recadoe a gente não fica retorcido com as entranhas expostas a cada naufrágio!  Além do mais, como náufragos, ainda temos a esperança de um tratamento diferenciado por parte de predadores marinhos!

É por isso que não gostamos de nos afastar da terra, onde fincamos as nossas estacas e levantamos construções que nos abrigam do sol, da chuva, do frio.  Ali montamos o nosso próprio parque de diversões e que dividimos com parceiros, parentes e amigos.  É o espaço inviolável e seguro.

Quando a terra passa a ser violável e insegura ficamos inteiramente perdidos, literalmente falando.   no interior da terra convulsões, lutas por espaços entre placas, como fazem os homens, e que desarrumam tudo, matam pessoas, esfolam almas... Passei por essa experiência algumas vezes, ao longo do Pacíficoe os seres humanos que já tiveram semelhante experiência não esquecerão jamais.  É assustador porque desfaz convicções, destrói certezas e, de repente, não há porto seguro. Qualquer ponto é instável e, sobretudo, triste como um amontoado de escombros...

 

Quarta, 22 Abril 2015 15:50

Uma estória real

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Já estávamos sentados à mesa, pedido feito, aguardávamos os aperitivos quando ele inesperadamente pede licença e sai.   Imaginei que quisesse lavar as mãos.  Saipela porta dos fundos onde ficava a piscina infantil, ali mesmo, entre o restaurante e o mar azul debruado de areia branca.  Muito verde, um vento quente e um clima de paz.

Colocou uma das mãos na testa, aberta, como viseira, e parecia procurar na paisagem um ponto referencial.   Percebi que havia algo.  Pensei em deixá-lo a sós por alguns instantes mas logo decidi oferecer o ombro amigo.   Abriu-se e contou. 

“Passei  por aqui há 30 anos. Nesta piscina infantil, ele brincava como qualquer criança, alegre e feliz.  Eu o apreciava de longe, orgulhoso.  Passadas as férias, voltamos ao nosso país e nos submetemos à agitação do trabalho e ao trabalho lento do tempo, cadenciado em dias, semanas, meses, anos. E de repenteaquela criança se tornara  adulto, forte, pronto para concorrer com quem quer que fosse, até com o pai. Foram tempos difíceis. Sofria vendo-o distante, alheio à minha vida e muito comprometido com a vida dele, de seus amigos e amigas.  Aquilo era doído e entendia como fase da vida.  

Lembrei-me dos meus vinte anos e isso me confortava. Lutávamos, recém-casados, em busca de progresso profissional, e todo o mais era secundário.  É assim com todo mundo. Se de um lado queremos que as nossas crias permaneçam por perto, por outro os filhos querem independência para traçar seu próprio destino, soerguendo-se por si só de seus tropeços. Achava que era assim mesmo.

A gente vivia sob o mesmo teto mas a nossa comunicação era precáriaUm diacaminhando pela região em que trabalhávamos,nossos olhares se encontraram, por acidente, na hora do almoço. Foi um diálogo de olhar, um entendimento. Ele estava rodeado de colegas, a caminho de um restaurante. Um rápido aceno correspondido e lá estávamos juntos. Trocamos abraços e beijos e dirigindo-se aos seus amigos ele diz:

- Este é o meu pai, gente.  E ele vai nos dar o prazer de nos acompanhar no almoço, não é mesmo pai?

- Obrigado, filho.  Será um prazer, pessoal.

Almocei a felicidade desse momento e tudo voltou a fazer sentido”.

Ao contrário das tartarugas que voltam por instinto às mesmas praias para depositar seus ovos, de onde seus descendentespartem para a aventura da vidao meu amigo francês estava ali, por acidente, para desenterrar lembranças naquelas praias brancas, quentes, cercadas de ilhas, no Rio de Janeiro.

Terça, 14 Abril 2015 14:37

Coisas da vida

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Um dia me apaixonei por um sorriso, ainda menino, e que se escondeu nas brumas do tempo e de vez em quando reaparecenas covinhas desenhadas por outros sorrisos femininos.

Um dia me apaixonei por um jeito de falar, voz rouca e suave, pausada, puro charme.  Ainda lembro aquele “não sei” desengonçado que escapava aqui e ali ao longo de uma conversa banal de namorados...

Um dia me apaixonei por um corpo que julguei projeto arquitetônico perfeito.  Quando uma obra não oferece espaço amudanças, alterações, emendas... é porque se trata de obra de arte.  Assim era.

Um dia me apaixonei pelas mãos mais belas que conheci, de longe, da senhora jovem que sentava numa poltrona à frente,talvez o voo mais rasante e desesperado de um instinto aprisionado numa cabine de avião!

Um dia me apaixonei pelas pernas torneadas à perfeição, obra da natureza, receita da genética.  São elas, as pernas, que deixam   pergunta perturbadora aos homens: são elas que andam ou simplesmente conduzem a beleza do resto?

E assim a gente vai pela vida se apegando a partes, sem olhar o todo.  Olhando maio verso que o anverso.  Mais o exterior e menos o interior. Mais a árvore e não a floresta.  Água, antes do oceano. Fato isolado, antes da imensidão das possibilidades.

Um dia me apaixonei por um coração que me fez esquecer o sorriso que anexava covinhas na face delicada, da voz macia que irradiava fascínio irresistível, andar cadenciado e charmoso, das meras fantasias de um corpo composto de cabeça tronco e membros.  

Assim são as coisas da vida.  Parece que precisamos sempre conhecer as partes, antes do todo, e quando o encontramos, e só aí, entendemos que o todo não é necessariamente a somatória das partes...

Domingo, 05 Abril 2015 20:41

A ordem do caos

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Ouvi certa vez, ou li em algum lugar, que os honestos são os responsáveis pela desordem ocasional do mundo. É por isso que países entram em crise e economias sofrem abalos sísmicos assustadores. É uma constatação cínica mas faz sentido nos dias que correm.

Os desonestos, segundo essa teoria, constituem o equilíbrio do universo, à moda deles. São identificados como aqueles que conseguem flexibilizar a ética, a moral e os bons costumes em nome de seus interesses.

Na ótica deles, o mundo é um universo em que cada um negocia segundo a tolerância ética do momento. Não aquela perfeita, acabada, mas a versão amorfa, capaz de aguardar pacientemente a oportunidade para ganhar a forma que corresponda ao interesse desejado. É uma espécie de senso ético de oportunidade. Ou, no pior cenário, aquela ética que carece de uma forcinha ardilosa para por em desespero e urgência o objeto do desejo.

É assim que funciona o universo dos homens: acomodação forçada de atritos, eliminação do ranger das peças, aqui e ali lubrificadas pelos senhores dos seus interesses.

Mas nem só de desonestos vive o mundo. Honestos inabaláveis prestam um grande serviço ao sistema. São pequenos e fracos, individualmente, fortes e determinados quando em colônias.

Às vezes esperneiam por centavos e se mostram indiferentes aos bilhões roubados dos cofres públicos.

Se o mundo está doente é graças a um pequeno grupo desses honestos que persistem em denunciar distorções.

São pessoas honestas as responsáveis pelo desequilíbrio do sistema. São elas que desencadeiam o caos na ordem dos desonestos. Sem elas o mundo flutuaria tranquilo no espaço como uma grande lua: distante e indiferente...

 

Domingo, 29 Março 2015 18:20

Mea culpa

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Ao escrever, a minha confiança está no editor de texto. Tem sido assim desde que abandonei a minha Royal. Ela não denunciava escorregadelas vernaculares, muito menos impropriedades de concordância. Ou seja: era obrigação do autor conhecer a língua e se manter vigilante na revisão...

Hoje é diferente, o editor de texto denuncia seus erros, resmunga, sublinha palavras em vermelho, evidenciando um erro de grafia, ou traceja em verde as sentenças com concordância duvidosa.

Na semana passada escrevi uma crônica emocionada, dedicada a um amigo que se encontra muito doente. Falava que os homens também tinham estações e que esta ideia se manifestava justamente no outono da vida... Lá pelas tantas, na crônica, falei da primavera que como “um vulcão do bem lança larvas coloridas, flores e plantas...”.

Foi a traição que recebi do editor de texto. Como a palavra existe em Português e a grafia estava correta, o editor não grifou e enganou o pobre escriba. Deveria ser lavas.

Recebi emails impiedosos sobre esse erro grosseiro. Peço desculpas ao leitor e confesso que mereci por dar crédito exagerado ao editor. Ele ajuda, claro, mas é burro, não pensa. Pensar é tarefa dos homens. Pelo menos por enquanto.

Cada vez mais esses “editores” estão comandando nossas ações. São eles que dirigem os semáforos, carros, navios, aviões, máquinas do sistema produtivo e tudo o que está ao redor do homem, o tempo todo, tem a ver com esses artefatos digitais ditos inteligentes. Facilitam a vida, e muito, mas não devemos facilitar: persiste a tarefa da eterna vigilância ... Mea culpa.

Segunda, 23 Março 2015 18:26

Outono

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Dedicado a F.Garcia

 

Hoje começa o outono.

Em breve vão surgir folhas amarelas, marrons, vermelhas e pingos de verde. É a vernissage do outono. Vem depois uma pintura monótona e triste em tons de cinza. É assim na natureza.

No inverno, o frio enseja recolhimento do reino vegetal, hibernação de animais. Um recolhimento ao casulo para economia de energia para esbanjá-la nas estações seguintes.

A Primavera é como a erupção de um vulcão do bem que lança larvas coloridas, flores e plantas, com suas coroas douradas, para deleite dos bichos em busca de comida. É aqui que ocorre a explosão da vida e a renovação de forças via ímpetos irresistíveis, como bichos irrequietos, afoitos...  

Já no verão, celebramos com alegria de criança a festa daquilo que somos e sonhamos. Um baile alegre sob a luz do sol que desfrutamos agarrados à eternidade desse momento breve. É o bronzeamento da alma que está em jogo.

Hoje começa o outono...

Já antecipo árvores peladas, folhas mortas que se agitam no chão como se vivas fossem a cochichar segredos ao vento, outras que saem voando a esmo tal borboletas descoloridas, tristes, inocentes fantasmas da estação.  

Penso que os humanos têm estações igualmente definidas. O que dizer do verão da juventude quando tudo é festa, alegria, nessa eternidade passageira?   Como não ligar o inverno ao recolhimento para a reflexão junto a fogueiras que com suas labaredas a tudo lambem como a cauterizar feridas de estações passadas? Como escapar da primavera da vida em que o homem se reinventa pelo desejo de ir além de suas fronteiras, resistir a partir das trincheiras edificadas em jardins floridos, reatando-se a si mesmo através de túneis e pontes da imaginação?

O outono dos homens começa quando desfolhamos para a realidade da perda tão penosamente impiedosa e tão impiedosamente penosa. Desfolhamos no outono, na agonia de cada pedaço que se aparta, como ensejo desesperado e urgente para o exercício de resignação...

Ah como os outonos sabem esconder por debaixo de seus coloridos a mensagem sub-reptícia da perda! O sofrimento humano é sempre oportunidade para reflexão sobre esse momento inexorável da vida...

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