Segunda, 02 Fevereiro 2015 12:45

Gestores de araque

Escrito por Rosélio da Costa Silva

 Estou em estado crítico.  Já estou rodando o segundo volume morto da minha paciência e  retirando do saco as fichasderradeiras.  A ideia é a do Cantareira seco, rachado, sem muitas esperanças minimamente possíveis.

Não se trata de mau humor, até mesmo porque as coisas não estão tão ruins assim para os mais prudentes:  eles conseguem pagar as contas em dia; gozam de merecidas férias por ai; saem de vez em quando para conhecer o restaurante da moda;saúde sem maiores reclamaçõesnem dela em si nem do convênio.  Não é mau humor que está tomando conta das pessoas decentes.  É humor mau para tolerar a chatice em que se transforma a realidade brasileira.

Tá muito chato ouvir que os artífices da patifaria nacional serão enquadrados na forma da lei; que justiça será implacável, doa a quem doer e que só ela, a justiça, é quem tem o papel de julgar pessoas e não a imprensa, nem o povo.  E vai por aí afora.

No fundo, a coisa é mais simples e mais rasteira.  presunção de que a mentira é que é a verdade nos dias que correm. Ela é dita com a eloquência absoluta, dedo em riste, num esforço máximo para transformar a farsa em coisa séria.

Nossos políticos do executivo, na esmagadora maioria dos casos, fazem política - a má política – em vez de assumirem o papel do gestor.   

De vez em quando, uma satisfação esfarrapada ao povo: fizemos muito, mas queremos avançar com as conquistas; estamos satisfeitos com o que já realizamos mas o caminho é longo; não podemos dar ouvidos aos maus brasileiros que pregam o derrotismo; os próximos dois anos serão de ajustes e daí pra frente só alegria...

Aqui entre nós, eu seria muito trouxa para não entender que esse “daí pra frente” – os últimos 2 ou 3 anos - serão pintados de cores alegres para faturar a próxima eleição!

Uma coisa é certa:  a incompetência gerencial é tanta que facilita o trabalho dos insatisfeitos sensatos: o último a sair deste caos  não precisa apagar a luz!... 

Segunda, 26 Janeiro 2015 08:53

A vela

Escrito por Rosélio da Costa Silva

A falta de chuva faz secar os reservatórios e as torneiras.  Quando chove, é um perereco danado:  inundações, árvores que caem sobre a rede elétrica e a falta de energia é  uma certeza.  Resumo: falta de chuva, falta de água; muita chuva, falta de luz!

Segundo estatísticas, entre mil e duas mil árvores desabaram sobre a cidade neste verão. Ainda se vê por aí restos de árvores que as motosserras amontoaram pedaços na calçada dos outros.

Se você está pensando em comprar um estoque de velas para os dias de apagão, fique tranquilo: use a lanterna do seu celular.

No último apagão do meu bairro, tive que vencer 22 andares escada abaixo.  No trajeto, dezenas de pessoas com celular na mão, modo lanterna.  Essa romaria dos tempos modernos  ajuda a decretar mais um apagão no mercado de velas.

Do jeito que a coisa vai o romantismo de jantar a luz de vela pode acabar? Como será cantado o Parabéns a Você sem a luz de vela?  E aquele despacho na calçada da esquina  para evitar o mau olhado? Será que o mercado está realmente em baixa como uma vela exposta ao vento? Como seria o processo de revitalização do mercado de velas? Encorajar mais jantares românticos ?  Estimular o uso de velas aromáticas? Ou velas que contenham citronela, por exemplo, para espantar insetos?

Tenho a sensação de que a vela, como produto, terá um fim nostálgico como tiveram as lamparinas.  Feitas a partir do aproveitamento de alguns tipos de latas, as lamparinas compunham-se de um reservatório para o querosene, de onde partia um pavio grosso que nem cadarço de tênis, passava por um pescoço apertado. A engenhoca tinha jeitão de um funil invertido: na base, o depósito de querosene e no bico do funil o pavio.  A vela é mais simples, mais rudimentar: é apenas um bastão de parafina com um pavio.

A verdade é que o celular está ganhando cada vez mais funções, mais utilidades.  Se a moda pegar, logo estaremos soprando celular em aniversários no modo lanterna...

Quarta, 21 Janeiro 2015 17:45

Ser ou não ser

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Os recentes acontecimentos na França contra a revista Charlie Hebdo são tristes, lamentáveis e inaceitáveis. O mundo civilizado repudia  esse tipo de ação.  Com essa posição, eu sou Charlie...Je suis Charlie.

Pouco a pouco, assentada a poeira emocional sobre o assunto, pessoas sensatas do mundo inteiro começam a negar: JE NE SUIS PAS CHARLIE.  Começam a entender, sim, que liberdade tem fronteiras. A vida em sociedade exige limites. É por isso que não andamos nus por aí, é por isso que reprovamos palavras grosseiras, é por essas e outras que respeitamos a crença e os deuses dos outros. É assim que se vive em sociedade: com respeito à liberdade do outro. Você é livre para pensar e acreditar no que quiser mas deve respeitar a crença e valores dos outros. 

Com este posicionamento, abro a temporada de pancadaria nas redes sociais pela patrulha dona da verdade que entende que liberdade é um bem absoluto. Pode baixar o sarrafo porque se não há limite de liberdade para quem bate, por que afinal existiria para quem apanha? 

O achincalhe é um assalto moral a mão armada contra a religião alheia. Há um grande galpão mundial onde se fabricam religiões para todos os gostos e necessidades.  É a fé como mercadoria, coisas do mundo moderno. Por mais rasteiras e mercantis que sejam certas práticas “religiosas” só nos resta com elas conviver, desde que não invada o nosso direito. Isso não adjetiva a nossa liberdade. Diz, sim,  mais da nossa capacidade de saber conviver com a diversidade, diz mais da tolerância com a pluralidade de ideias.

Não consigo entender como certas grosserias travestidas de arte podem contribuir para melhorar a vida em sociedade. Humor é uma coisa. A ridicularização gratuita da fé de quem quer que seja é um assalto moral.

Domingo, 11 Janeiro 2015 09:20

Enochato

Escrito por Rosélio da Costa Silva

A gente precisa ser um atleta social para vencer a maratona de celebrações de final de ano. Passada essa comilança escoltada por todos os tipos de bebidas... arre!... o fígado agradece.

Nesses eventos é comum a gente encontrar, entre uma prosa e outra, um enochato grosseiro para comentar da qualidade do vinho da festa. Felizmente encontramos também enochatos simpáticos que tiram por menos e colocam a culpa na comida.

Lá pelo meio da festa, naquele dia, foi a vez do primeiro chato lançar âncoras no meio do grupo que falava de assuntos triviais, como corresponde. É muito agradável tratar de coisas superficiais, sem discussões apaixonadas, sem lados, sem compromisso... É como se esquecêssemos do breu que existe dentro de nós e que nos enche de terror, a exemplo do quarto escuro que amedronta crianças de todas as idades, e mergulhássemos, digamos assim, num estado etílico...

O chato veio, um sim aqui outro acolá, e não demorou em lançar o primeiro míssil em direção ao serviço do vinho.
Sabe, pessoal, essas festas são boas mas o vinho exige um ritual próprio, cerimônia, o que, aliás, é impossível de realizar em espaços como este. Aqui o vinho é servido como refrigerante, na base do refil.

Prosseguindo, disse que a cerimônia começa com a apresentação do vinho, ainda fechado, para que o cliente veja se é exatamente o vinho que elegeu ou, pelo menos, para mostrar ao convidado o vinho que está prestes a ser servido. Só depois ocorre a abertura da garrafa, rolha devidamente cheirada pelo enochato mais afoito, e então servida uma quantidade pequena para um “teste de qualidade” pelo enochato crica mor. São servidos os outros convidados e, por fim, o provador inicial.

- Nada disso, protestou um bricalhão.

- O moderno agora é abrir a garrafa, deixar respirando um pouco para que o oxigênio faça o seu serviço. Se você sentir que a coisa está passando dos limites, não hesite: aplique uma respiração boca a boca na própria garrafa!
Foi o que salvou a noite.

Domingo, 04 Janeiro 2015 08:52

A circularidade

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Abriu-se a contagem de outro período de 365 dias que a gente convencionou chamar de um novo tempo ou Ano Novo e, para os mais otimistas, Ano Bom.

Acaba de começar e já sabemos o que nos espera: o abacaxi da Petrobras e seus desdobramentos, a inflação, a escalada da taxa de câmbio, baixa atividade industrial, fuga de capitais, e uma boa pitada de desemprego e desesperança.

Ou seja: continuaremos correndo atrás do rabo, em círculos.  Será que herdamos dos nossos ancestrais indígenas que promoveram essa circularidade por onde passaram, da oca a seus caminhos intermináveis, aparando as arestas dos espaços, tirando as esquinas que nós já reduzimos para “quinas”.  E foi eliminando quinas das coisas que deixamos tudo com esse jeitão circular que nos fataliza a um novo início, diante de qualquer desatenção no percurso...

O que a gente tanto busca em nossas andanças circulares é algum caminho que descortine novos horizontes.  Em vez disso, caímos sempre na mesma cilada em virtude da circularidade do nosso pensamento. Talvez a  busca incessante, quase urgente e desesperada, seja o castigo por havermos removido as quinas que nos ajudariam a montar um plano cartesiano capaz de nos levar do ponto A ao ponto B num piscar de olhos. 

De todas as criaturas o homem foi a que mais evoluiu e prosperou mas desgraçadamente a que mais  destruiu: a mãe natureza que o diga!

Que neste novo tempo a gente volte a colocar esquinas e quinas nas coisas, para nos salvar de  caminhadas desnecessárias, inúteis. Que esse ano novo permita o reencontro com o verdadeiro espírito humano, não o espírito mineral, inorgânico, sem sentidos e que, por consequência,  não consegue exprimir anseios, ouvir clamores, ver realidades...

 

Domingo, 28 Dezembro 2014 09:21

Natal

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Vi um menino com um jeito estranho de andar: ora com um pé na sarjeta outro no meio fio.  Ao encontrar um poste, deu uma volta agarrando suavemente com mãos delicadas e continuou sua jornada, cabeça baixa, aqui e acolá chutava pedra do caminho numa clima de indiferença triste.  Era a exceção.

 

Outros meninos andavam de skate, pernas escalavradas, outros rodavam um aro imitando um ruído de carro. Moleques mais simples puxavam um caminhãozinho feio, feito a machado com engenharia de amor.  Meninos tuíras jogavam futebol com bola colorida, nova, enquanto outros se divertiam numa pelada com uma bola de meia. Uns guris abonados com carrinhos elétricos, aviões que decolam e pousam através de controle remoto, bikes modernas que alguns pais ainda não sabem que o prazer é o mesmo se estivessem montados numa engenhoca simples.

 

Meninas, lindas, com sorriso largo, abraçando suas bonecas que, como dizia Humberto de Campos, é o mais autênticoprenúncio dessa coisa maternal, inata; bambolês rodando em torno da cintura, cozinhas em miniaturas, caixas de qualquer coisa que as crianças simples usam para dar asas a seus sonhos.

 

Depois, vi gente grande, como criança, a entrar na brincadeira  no papel de Noel a distribuir presentes, a depositar regalos em cada sapatinho, a ler uma infinidade de mensagens daqueles que ainda acreditam (e isso é bom e próprio) no conto do Papai Noel gorducho, barba branca, que desce silenciosamente por todas as chaminés do mundo, para entregar a cada pixoteo seu presente.

 

Esse momento mágico em que pessoas de todas as idades se tornam crianças e confraternizam bondades, comungam alegrias e se abraçam e beijam, celebram a harmonia, a compreensão e se preparam para dentro de alguns dias mais iniciar um novo momento, feito de 365 longos dias.

 

Isso é Natal.

 

Boas Festas e um Feliz 2015.

Segunda, 22 Dezembro 2014 17:04

O catador (2)

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Antes de descobrir aqueles materiais com que faria mais tarde seus instrumentos de caça, o homem foi um mero catador de comidas: encontrava os alimentos possíveis na natureza, pegava com os dedos e levava à boca.

 

A caça, originalmente devorada crua, teve avanço com a chegada do fogo, do braseiro.  Depois, vieram os utensílios de pedra e barro.  E os metais prestaram e ainda prestam contribuição valiosa na luta contra fome, entre outras lutas de verdade e mais sangrentas que a humanidade costuma travar.

 

As carnes mal cheirosas do passado ganharam molhos de especiarias para aliviar o gosto estranho.  A refrigeração trouxe o sabor das coisas a valor presente e sofisticação à mesa, possibilitando variações de pratos, sabores, em preparações cada vez mais esmeradas.

 

Nem tudo foi só festa.  Com a profissionalização da cozinha, a boa mesa trouxe um aumento de custo na alimentação e o desenvolvimento urbano desencadeou a necessidade de pratos rápidos e mais econômicos – os chamados fast food - para acompanhar a velocidade da vida moderna.

 

O fast food tomou conta do mundo. São bilhões de hambúrgueres, coxa e sobrecoxas de frango fritas vendidas diariamente, além de toneladas de salsichas e batatas fritas. Até as sociedades mais conservadorana Ásiase renderam a esse tipo de comida.

 

Quandvejo indivíduos mergulhando com a ponta dos dedos um bastão de batata frita num potinho de catchup ouespremendo um sachê de mostrada num sanduiche; quando vejo o sujeito apanhando com as mãos um pedaço de frango frito ou um hambúrguer vazando líquidos pelo ladrão, percebo que o ciclo se fechou: o homem voltou a ser um catador de alimentos, comendo com as mãos, como fazia até o Século XI.  A diferença está na utilização do  catchup, maionese, mostarda...  

Segunda, 15 Dezembro 2014 08:07

O catador

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Era quase uma hora da tarde. Sol ardido. Estacionamentos lotados, ruas da redondeza inundadas de carros ou de placas de estacionamento proibido. Eu ali parado, motor ligado, sem saber o que fazer.

Um homem que catava papelão com carrocinha estava parado numa sombra ocupando, digamos assim, meia vaga. Levantou-se e disse:

- eu posso colocar mais à frente, os guardas não multam carrocinhas!

Disse isso, afastou a carroça com meia carga de papelão e cedeu a vaga apertadinha para mim.

- fique à vontade, disse numa boa.

Estacionei, fiz o que tinha que fazer e em instantes voltei ao carro estacionado. Lá estava o homem embaixo da sombra. Como ele sorriu, puxei conversa:

- a quanto vende o quilo do papelão?

- dez centavos.

- e lata de alumínio?

-vinte centavos

Não sei se ainda recordo os números reais mas numa rápida conta, olhando a quantidade de papelão na carroça, percebi que a carga  não era suficiente para comprar um sanduiche simples.

Aquele homem tisnado por fora com as imundices da rua tinha um olhar de solidariedade para com os seus semelhantes. Ele pertence à comunidade anônima que vive por aí, invisível, mas que tem a capacidade de enxergar com o coração. Vasculhei no fundo da alma se eu teria tido a mesma atitude se fosse uma situação inversa. Não soube responder. E quando a gente demora para responder ou não sabe a resposta de bate e pronto é porque não nos ocorreria semelhante solidariedade.

Não me pedia nada, não queria nada, não era um flanelinha.  Estava apenas descansando a fome e a sede à sombra de um flamboyant.  Dei-lhe uns bons trocados pela cortesia e fiquei com uma sensação de haver ligado um ar condicionado na alma...

Eu manobrava o carro e olhava aquele homem simples, generoso, solidário, irradiando felicidade.  Parecia um menino flagrado com presente no sapato numa alegre manhã de Natal ou um profeta da rua, simples, na dura tarefa de imaginar como fazer a multiplicação dos trocados em pães...

 

 

Esq:Pedro Macchion,Sylvia Helena, Cândido Lomba, Miriam Gomes.  Dir.: Claudio Oliveira, Rosélio da Costa Silva, Valdemar Sales, Carlos Dizzioli)
Domingo, 07 Dezembro 2014 17:49

Confraternização

Escrito por Rosélio da Costa Silva

No dia 5 passado, realizamos o jantar de confraternização dos colegas que se conheceram no final dos anos 70.  Foi dali que decolaram para a vida profissional e se desenvolveram.

 

Não pude deixar de relacionar esse evento ao lançamento mundial do famoso vinho Beaujolais Noveau que ocorre pontualmente à meia-noite da terceira quinta-feira de Novembro, data original do nosso encontro...

 

Qual a relação, afinal, entre duas coisas tão distintas?

 

É que o Beaujolais Noveau é uma insubordinada jogada comercial que contraria as fases tradicionais de produção de vinhos (colheita, prensagem, armazenamentoengarrfamento e distribuição) e define um dia, uma data e hora para distribuir esse vinho ao mundo. É o homem, de costas aos caprichos climáticos, a beber esse vinho como quem come uma fatia do tempo certo, com seus perfumes e especificidades. A insubordinação maior é que essvinho é feito de uva Gamay, na terra do Pinot Noir, a Borgonhaque deveser bebido até 31 de dezembro.  Há aí um tempo certo, o desespero de uma urgência na elaboração e principalmente no consumo!

 

Aquela turma de rapazes e moças, pré-profissionais, vinda de terrois diferentes tornaram-se referências no métierDiferentemente do Beaujolais que tem um presente efêmero, sem passado e futuro breve, esse grupovive um presente longo, iniciado num passado distante. Dispensável aqui dizer que o futuro a Deus pertence...

 

Essas senhoritas e senhoras que driblam o tempo nos salões de beleza, esses senhores grisalhos, todos ex-colegas, amigos entre si,  enxugaram algumas garrafas de Pinot Noir  chileno, numa festa de congraçamento. Que a ingestão desse líquido santo nos ajude a envelhecer, como tem ocorrido até aqui, como os grandesvinhos que ganham novos predicados com o tempo.  Este texto rápido é um gole de homenagem à amizade que nos une. Aos ausentes, a nossa lembrança.  Ernst e Terry obrigado pelas mensagens, lá de longe.Saudade daqueles que nos aguardam na outra margem.

 

Grande abraço.  Valeu!

 

Segunda, 01 Dezembro 2014 15:45

Saudade

Escrito por Rosélio da Costa Silva

À irmã Registela

Ela foi uma estrela que caiu do céu. Faz parte da minha coleção particular de estrelas. Iluminou caminhos, construiu relações saudáveis, encorajou moças e rapazes ali naqueles becos escuros de oportunidades na Amazônia nos anos 60.

Originária da América, não queria falar inglês. Queria falar Português, misturar-se com os estudantes, ser mais um deles, emprestar sua vitrola portátil para que os jovens curtissem seus vinis, certamente a mesma vitrola que usava para matar saudades com canções da terra distante, parentes, amigos, quem sabe lembranças quantas silenciosamente domadas pelo hábito branco e azul...

Certa vez, notando meu interesse pela música americana me incentivou a aprender Cheek to Cheek:

- Heaven, I’m in Heaven. And my heart beats so that I can hardly speak...”

Essa canção deveria ser o vínculo que a conectava com suas lembranças.   No filme, Fred Astaire e Ginger Rogers dançam ao som de Cheek to Cheek numa das cenas mais felizes de Hollywood, talvez a aventura no ar mais fascinante depois do vôo de 12 minutos dos irmãos Wright em 1903 na Carolina!   É que Fred e Ginger, no filme, dançam e flutuam no ar e deslizam solenes e belos e soltos, como reminiscências que flutuam no vazio das almas...

Muitos gravaram Cheek to Cheek. Quem seria, acaso, o responsável pela ternura mágica dessa canção? Seria Sinatra, The Voice, que arrebatava o encantamento até de religiosas? Ou foi Ella Fitzgerald esse instrumento imortal de carne e osso que a fez entender as sutilezas e delicadezas do Cheek to Cheek? São perguntas sem respostas. Ou, talvez melhor, são respostas que não precisam de perguntas.  

Os anos passaram e essa canção guardei como um hino a reverenciar a lembrança daquela freira amiga. Onde estará?...

Está em tudo que deixou pra trás: nas suas pegadas que aqueles jovens seguiram, nas coisas maiores inalcançáveis para a garotada de então; nas coisas menores plantadas no coração de tantos, como pequenas sementes ou mudas do bem e que se desenvolveram; nas canções que ensinou a cantar; nas orações que rezava.   Ela está presente em todos os momentos, hoje, aqui e agora e para todo o sempre no coração de muitos...

Outro dia assistia a um filme e, subitamente, o condenado pedia que antes de sua execução lhe fosse oferecida a oportunidade de assistir a um filme. Jamais havia ido ao cinema e era seu desejo passar pela magia da experiência antes de morrer. Seu último desejo foi atendido: lá estava o filme TOP HAT com Fred e Ginger e o eterno Cheek to Cheek.

Ali mesmo, no fascínio da cena inesquecível, percebi que o malote do tempo tardou mas entregou, finalmente, a tradução mais eloquente do sentimento saudade...

http://www.youtube.com/watch?v=NrCsyN-fZ94

texto originalmente escrito para a TB, amiga inseparável da irmã Registela

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