Terça, 28 Outubro 2014 16:57

O dia seguinte

Escrito por Rosélio da Costa Silva

A urna falou. Quem ganhou, ganhou, e quem perdeu, perdeu, e não se fala mais nisso. Isso é a democracia funcionando e sistema de votação e apuração brasileiro dando um show de excelência.

 

Não posso dizer o mesmo da campanha eleitoral. O chamado debate entre os presidenciáveis é uma triste exposição deprecariedade espiritual, moral e política.  É um vale-tudo pelo poder. Frustra a capacidade de indignação e deixa perplexidade ao brasileiro comum, tal o nível da baixaria e deselegância.

 

Esses marqueteiros políticos não ajudam em nada a edificação de uma sociedade melhor, mais consciente.  Ajudam, sim, a plantar na alma dos que assistem ao debate a intolerância à política. É triste. A  prática de fazer política via desconstrução de oponentes é indecente e ainda pior quando colocada à frente da necessidade urgente de debater para construir.  

 

Debater significa discutir ideias mas essa gente prefere o outro sentido: procurar colocar o outro a se debater violentamente como fazem os peixes no espelho d´água minguante.

 

Essa baixaria é um desrespeito ao cidadão e, principalmente, ao mais importante preceito da democracia e civilidade: eleições livres, sim, mas com responsabilidade.

 

Esse projeto indecente de desconstrução de imagem não é coisa nova.  Ganhou, contudo, ferramentas com vídia de tecnologia de ponta (desculpem o trocadilho inevitável) e marretas mais pesadas para dar conta do serviço.  A ideia não é apenas derrubar mas despedaçar, como se faz com um frango que depois de assado destrinchamos, desossamos, e jogamos os ossos praticamente limpos aos cachorros!

 

Alguma ressaca moral pelo ataque impiedoso? Não.  Às favas a moral, os bons costumes, as leis... Passamos despudoradamente às mãos pela região da linha do cóccix da mesma forma cínica com que distribuímos tapinha nas costas de correligionários e desafetos.

 

É.  É isso mesmo.  Perdemos a capacidade de indignação e passamos a sentir vergonha.  Esse modelo de debate” comacusações, insultos e insinuações de parte a parte indica que a reforma política exige um puxadinho na tenda moral demuitos políticos e marqueteiros.

Domingo, 19 Outubro 2014 08:14

O muro

Escrito por Rosélio da Costa Silva

 Hoje faz um ano que escrevo esta coluna semanal.  

Tudo começou com uma indicação do amigo Nicodemos Sena, colunista deste jornal, ao Miguel Oliveira.  Ele me telefonoupara conversar. Eu estava em viagem pela Alemanha e foi justamente em Berlim que recebi a ligação dele me convidandopara escrever crônicas semanais em O Estado.

Saí por ali nas redondezas do meu hotel no Mitteno centro, a ponderar sobre a minha saudosa Santarém, tão distante, e aBerlim que tanto aspirei conhecer, tão perto.  Havia coisas em comum.  Havia, sim.

Nos anos 60, o Brasil ainda era dividido em duas grandes regiões:  as que ouviam rádio a qualquer hora, as que tinham TV, telefone; e as que não dispunham desses serviços.

Pela manhã, a gente sintonizava algumas estações de rádio do Rio e de São Paulo,mas  o sinal ia sumindo, minguando, e lá pela hora do almoço era simplesmente impossível sintonizar estações de outras partes do Brasil.

À noite, a gente escutava algumas estações de rádio das Antilhas e a Voz da América, a rádio de Havana e a Rádio de Berlim, todas estas com programação em português. A Rádio de Berlim falava de lugares que ficaram marcados na minha lembrança. Sempre quis conhecer Berlim e esse dia aconteceu... E aquele convite do jornal, naquele espaço,  ganhava importância de primeira página.

crônica O Endereço do Silênciopublicada 10/11/2013 falava da Bernauerstrasse, um dos muitos pontos por onde passava o Muro de Berlim.  Esse Muro, na minha imaginaçãonão era um muro como tal senão um amontoado de coisas desconexas para um ribeirinho que não tinha a exata dimensão daquele momento da história.  A juventude se encanta com a ideia de cruzar muros, fronteiras...

Pisar naquela grama e seus diagramas de ferro marcando as instalações originais do muro, foi, portanto, momento de muitoemoção. Havia sofrimento ali, como se enterrado vivo fosse, sem o perdão do tempo...  Via ali no espaço vazio, cicatrizes, silêncio profundo e perturbador.  Construi, na terra estranha, a ponte imaginária que ligava Santarém a Berlim: nós, os amazônidas daqueles anostivemos também o nosso Muro.  Era uma cordilheira invisível que impedia que as ondas de rádio do mundo livre nos entregassem o pão e a água da informação, do conhecimento.  Escutávamos os gemidos de um mundo amordaçado, propagandas travestidas de notícias.  

Esse muro fatiava o Brasil em duas porções distintas, como ainda ocorre nos dias de hoje, resultante da mistura perversa e impiedosa de precariedade e negligência.

A vida na Amazônia naqueles momentos era  simples: tinha o ritmo da respiração da gente, dos bichos, da floresta, do banzeiro das águas, o andar pacato dos dias e das noitesa monotonia das tardinhas quentes e a espera interminável de um novo dia.  

Há um amanhecer sonolento, é verdade, a se erguer por trás do muro alto. Já irradia uma luz de esperança, alvissareira, auma nova geração de amazônidas. Assim vejo.

 

Domingo, 12 Outubro 2014 08:48

Na livraria

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Ele me disse que ali sentado, vira sua própria estória confundir-se com as contadas nos livros que circundavam a cantina da livraria. Sentado diante da mulher amada encontrada, ali, por capricho do tempo, o seu universo perturbado girava desgovernado. Havia por certo traços de doces recordações.

Olhando-a, agora, com suas rugas todavia discretas, era visível o semblante banal como nos quadros em que a gente contempla uma figura estática, quase sem graça. O que será que dizia o quadro de si mesmo, aos outros, através do espelho da face ?

Recomposto, percebeu que pouco se lhe ocorrera dos velhos tempos, num balanço apressado de lucros e perdas. Pouco lhe comovera também como nos idos que lá vão. É que a paixão tem perfume próprio e prazo de validade. O amor tem a delicadeza dos perfumes que permanecem tranquilos, quase despercebidos, mas persistem. A paixão é momento, tempestade. O amor é mais anoitecer, banho de luar com seus feixes prateados de luz...

Com o coração atravancado, atordoado por sentimentos vagos, já irrelevantes, levantara-se convicto que sua estória poderia estar realmente num livro qualquer daquelas estantes, com tapumes de capa dura, encadernados, sob um título qualquer, “era uma vez ...”, como ocorre a todos os mortais.

Deve ser assim que são escritos os livros. Transpiram o suor do autor, suas façanhas, vitórias e desenganos, suas tempestades de paixão e seus banhos de luar. E isso tudo se mescla com o delírio de suas criações. Não há desquite das experiências do autor com suas estórias.

Assim também é o livro da vida que as pessoas trazem na alma, com seus mosaicos de situações. Aqui e ali essas pessoas deixam escapar frustrações, pesares, e oportunidades perdidas a comprovar a máxima de que a pior das mazelas é aquela produzida pelo que se deixou de fazer.

Há, no entanto, momento de profundo encantamento que nos acompanha para o resto da vida. A carne mesmo, coisa física, amor mesmo e seus megatons, sem margem de erro... E isso também escapa pelas frestas do coração e acaba na penas dos poetas que expressam aquilo que não conseguimos dizer ou nos ouvidos de amigos chegados, como foi o caso.

Domingo, 05 Outubro 2014 09:44

O jornal

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Costumava ler jornal logo pela manhã. Talvez, pela sensação de que as matérias ainda estavam fresquinhas, quase quentes. Mas, com o aperto de trabalho às primeiras horas da manhã, a leitura do jornal predileto na hora do almoço quase virou rotina. Essa prática deixava sempre a sensação de estar engolindo notícias requentadas. Mas não tinha outro jeito: desligava a panela do feijão-com-arroz do trabalho e esbugalhava os olhos nas notícias, mastigava a fome e devorava o que pensava ser o filé da informação.

 

Lá pelo meio dia e pouco, parecia promessa: abria-se a porta e aparecia aquela mesma mulher, pano de pó aos ombros, espanador à mão direita, carregando um saco de lixo preto. Vergada como a letra cê, obra da idade e do trabalho, já entrava com um sorriso humilde de intimidade grudado nos lábios. Era o com licença na sua linguagem humilde. Espanava aqui, acolá, despejava as bolas de papel do cesto no saco plástico preto e, ajeitando o sorrisosaía de fininhofranzindo muito a testa como quem reprova ou interroga.

 

Embora ela não percebesse, eu a observava atentamente naqueles instantes de convivência.  A mim me perturbava a lembrança daquela incógnita estampada no rosto da mulher da limpeza.  Enquanto voltava os olhos ao jornal, prometia nunca mais observá-la, até por desconfiava que aquele era semblante de reprovação à minha presença, ali, justo na hora da limpeza.

 

Pensei em esconder-me atrás do jornal. Não deu certo: quando acionava a maçaneta da porta, instintivamente eu baixava o jornal e deparava com aquele sorriso desengonçado.

 

Mudei de tática. Deixei a porta aberta, levantei bem o jornal e passei à leitura. De repente, alguém conserta a garganta como se fosse discursar, baixei o jornal: era ela. O fracasso da minha tática me fez esboçar um sorriso e ela encorajada pelo que entendeu ser um dos melhores dias do meu humor, aproveitou e adiantou-se, atirando primeiro:

 

-o que o senhor tanto lê nesse jornal?

 

- bem, a gente lê para ver o que está acontecendo de importante por aí.

 

Ela sorriu, mastigou bastante, levou as bolotas de papel e deixou o lixo de uma dúvida:

 

- Será que tudo que acontece de importante por aí está mesmo no jornal?

Domingo, 28 Setembro 2014 08:17

Cá com meus botões

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Estava pensando sobre o tema desta crônica e pensando cá com os meus botões, me perguntei: afinal das contas de onde vem essa expressão?  Entendo que sugere  que “pensando baixo, só para a gente mesmo, bem coladinho da gente mesmo, como os botões da nossa roupa” arrisca-se um palpite sobre alguma coisa.   

E por falar nisso, será que alguém já se deteve a imaginar a origem, a finalidade e o desenvolvimento dos botões?    Consta que a origem está ligada ao Século XIII mas o desenvolvimento dos botões se arrastou por mais de 300 anos.  Como seria, por exemplo, uma calça masculina sem braguilha?   A conclusão simples:  botões foram utilizados nas roupas para fechar as aberturas que facilitam o ato de vestir.

A história mostra que houve várias tentativas de se aposentar o uso dos botões: cadarços e fitas passados através de ilhoses, colchetes, alfinetes de gancho  ou pressão e mais recentemente o velcro. Aliás, este último é uma marca que virou nome de produto e é  anagrama formado pelas palavras em francês  velours (veludo) e crochet (gancho).

Mas foi lá pelos 1900 que nascia um dos fortes concorrentes para acabar com a festa na casa dos botões:  o zipper.  Nascido com um nome estranho, ganhou avanços, foi rebatizado com o nome de fecho éclair.   Será que foi por éclair significar relâmpago, em francês, simbolizando a idéia de rapidez com que se abre e fecha um zipper?  Só ganhou espaço de produto, contudo, quando passou a ter uso corrente por volta da virada do século XX.  Poucos anos mais tarde, o produto foi rebatizado com o nome de zipper, para emprestar  idéia de coisa rápida, uma espécie de “é-pra-já”...

Foi a investida mais ameaçadora a que os botões foram submetidos.  Mesmo recolhidos em suas casas, os botões procuraram se reinventar: ganharam pés, mais furos disfarçados de buracos como trincheiras de defesa a novos intrusos, ganharam novos materiais, formas e cores,  deixaram a nudez de lado e se cobriram com forrações de tecido mas, principalmente, passaram a exercer papel de ornamento como liberdade condicional do cativeiro dos caseados, das casas ...

Ao abrir uma roupa  nova, há sempre 1 ou 2 botões pregados pelo lado de dentro!   São sobressalentes para entrarem em ação no caso de perda de algum botão original.   Olhando bem, coitados, são sem-casa, uma espécie de sem-teto temporário...  Cá com meus botões, esta estória ainda vai longe.

Domingo, 21 Setembro 2014 09:16

O cronista

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Vive de coisas simples,  pormenores, banalidades, irrelevâncias,  insignificâncias e desimportâncias, retalhos, fiapos, lascas, miudezas, tudo  que vaza da bagagem da vida. É  artesão das palavras.  Com elas, tece a tela do cotidiano aproveitando peças rejeitadas, esquecidas ou despercebidas pela maioria.   Com elas monta suas obras, procurando ajustá-las de forma criativa e inédita.

São peças encontradas no ferro-velho das emoções, nos desmanches de casos, nas trincheiras, nas encruzilhadas, no luxo e na miséria, nas cidades e no campo, no dia a dia  da sociedade dos homens.  Sequer tem o trabalho de cavar fundo,  está tudo ali mesmo na superfície.   Esse é o  trabalho do cronista.

Certa vez, apreciando a imensidão do Rio Solimões, na região de Manaus, barco parado diante do intrigante encontro das águas do Solimões com o Negro, o comandante do barco informou que não raro os botos – golfinhos de água doce – fazem evoluções na água como uma “saudação de boas-vindas” aos turistas.

Diante disso, os turistas deixaram de apreciar o fenômeno do encontro das águas e passaram a vasculhar uma área maior em busca dos botos.  Havia gente de muitos lugares, quase todos estrangeiros.  Foram minutos, ali parados, a contemplar a imensidão das águas até que a senhora que estava do meu lado, máquina fotográfica  em punho, lançou um rápido hum! , como um soluço, como se fora um flash sem, no entanto, conseguir tirar uma única foto.

Esse hum! foi um momento de surpresa, instante em que viu coroado seu desejo de ver um boto da Amazônia.  Aquele pedacinho de tempo, fugaz,  tênue, carregava força extraordinária.    O boto não estava sozinho.  Era um bando.   Mas apenas um deu o ar de sua graça, eternizando aquele momento.

Assim são as ideias que ocorrem, assuntos que ressuscitam do nada e desmaiam e se esvaem e se perdem , sem que o artesão tenha tempo de tratar essas desimportâncias,  dar forma a essa matéria prima do cotidiano e oferecer algo proveitoso.   As crônicas são flashes dessas oportunidades... 

Palhaçada
Sábado, 13 Setembro 2014 14:11

Palhaçada

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Passo os olhos em alguns jornais estrangeiros, por dever de ofício, e aproveito para ver o que os jornais falam da América do Sul. É triste ver o que se fala em relação ao Brasil. Não inventam nada.  Contam como são as coisas por aqui.

Esta semana o Financial Times, da Inglaterra, traz matéria sobre o palhaço Tiririca candidato a reeleição a Deputado Federal.  Fala do surgimento de Tiririca em 2010 com a célebre questão: vocês sabem o que eles fazem em Brasília?  Nem eu! Votem em mim e vou descobrir e contar prá vocês.  Ganhou uma enxurrada de votos de “protesto”. 

O FT diz que agora está de novo com suas gracinhas: aparece ao lado de uma Brasília velha e diz que apesar do péssimo estado, ainda funciona, e quer ajudar a melhorá-la, num jogo de palavras entre uma Brasília velha e a nova e surrada Brasília-DF.

Não é só isso que se extrai, também, do horário político?  Esses homens trocaram o sinal das coisas.  Debocham das coisas sérias, achincalham as instituições vigentes já bastante achincalhadas, passam as mãos despudoradamente nas nádegas de leis e dos costumes civilizados.

O horário político é um grotesco espetáculo que ridiculariza a política e os brasileiros, e ainda alimenta essa imagem triste de país pouco sério, para dizer o mínimo.

Claro, o articulista do FT não inventou nada.  Apenas mostra que o palhaço pode até fazer muita gente rir mas, para aqueles que entendem os meandros do sistema político do Brasil, ele é apenas mais um motivo para  nos fazer chorar.

Para sua maior comodidade, não entre no site abaixo.  Basta assistir ao horário político.  Todos têm propostas concretas, mas não dizem quais; outros, vão fazer e acontecer, mas não dizem como; muitos, por ignorância mesmo dos limites de suas competências, entram num  vergonhoso delírio de promessas banais vendidas como programa.

Isso não é política.  É palhaçada. 

http://www.ft.com/cms/s/2/17593cdc-342a-11e4-b81c-00144feabdc0.html#axzz3D1NhIY32

 

Domingo, 07 Setembro 2014 11:01

Perambulantes

Escrito por Rosélio da Costa Silva

...e lá vai o Preto Velho: cobertor quadriculado, surrado e sujo, amarrado pelas quatro pontas, feito trouxa.  É aí que leva suas panelas, cacarecos e roupas simples.  “Preto Velho”, assim o chamam no boteco em que passa para tomar água da torneira.

 

Esse aí é o Maluco do DG, mais um membro dessa família de indigentes, barba e cabelos negros, roupas esfarrapadas, trouxa às costas, desperdiçando a vida, com uma lata vazia de cerveja à mão.

 

-“todo dia ele vem com essa lata velha, curva-se no quadro da telefônica (conhecido como DG), segura lata como um telefone e começa a conversar”, explicou o homem gordo da banca de revista ao lado.

-“você deveria ter mais vergonha na cara em vez de ficar bulindo com muié dos outros!”.   É a Maria Doida, sarda rala salpicada no rosto tuíra, quase sempre usando vestido escuro curto imundo, pés no chão, cabelo em pé, desarrumado....

 

São os sem-teto, sem destino, sem nome, que já extraviaram até o interesse em pedir esmola.  Quase sempre perambulam à margem dos rios que cruzam a cidade, ou por avenidas movimentadas.

 

De onde surgem esses farrapos com seus trapos?  Talvez fugidos de hospitais, cadeias, hospícios, vítimas do embate impertinente entre a intolerância dos mais jovens e a caturrice senil... São especulações.  Difícil supor por quantas quedas passaram até chegarem, abatidos, ao frio insondável da vida desprezível.  Será que o censo já os contou?  Difícil.  Não há portas a bater ou para debaixo delas enfiar questionários.  Os sem-rua tem todas as ruas mas não possuem CEP.  Andam, somente. Talvez sejam produto da indiferença dos grandes centros. Nas trouxas parecem carregar arquivos de desilusões, e seguem em marcha, vagantes, com suas ruínas, tal satélites não tripulados destinados a rodar, rodar e rodar.  A origem não vem ao caso, o destino não importa.  O objetivo de mais longo prazo que conseguem traçar é o próximo passo.

 

Seriam amores destruídos?  Falência moral, desertificação espiritual como efeito direto da derrubada da mata ciliar de valores que compõem a existência?  

 

Vivem de restos, baganas de cigarro apanhadas aqui e ali, vasculham sacos de lixo por ali em busca de migalhas de pão, sob qualquer forma.

 

-“são pobres-diabos que nem fazer parte das estatísticas”, disse o homem da padaria.

 

Vestígios de luz, fugazes, descortinam lembranças vagas de um ontem melhor, antes de se tornarem vagantes. Caminham de costas para o nascente da vida: para frente, só o próximo passo, cada vez mais escuro; para trás a silhueta de certos relevos de reminiscências...

 

Onde será que se ajoelha o Preto Velho para a sua penitência? Com quem tanto fala o Maluco do DG? Ninguém nunca entende o que ele fala.  Deposita na lata companheira, conquistada nas ruas da solidão, quem sabe suas desesperanças ou seus sonhos, indiferenças ou suas decepções, ou, quem sabe, é ali que deposita seus pecados, penitências ou suas pragas aos demônios que lhe queimam a alma.

 

Seria acaso, o altar onde santos e anjos lhe prometem a bem-aventurança num paraíso encantado como recompensa ao vale de lágrimas” ?

 

E a Maria Doida que folheia ubérrimo repertório de insultos a motoristas? Ela anda, anda, escolhe uma vítima e a insulta.

 

-“É um inimigo!”, é isso que deve passar por entre os vãos apertados da cabeça atravancada.

O sujeito do carro preto levou um susto mas logo se deu conta que era mais um pobre-diabo lutando em público com seus demônios...

 

Emudecidos como o Preto Velho, falantes como o Maluco do DG ou como a Maria Doida, todos, à sua maneira, colocam a sociedade no pelourinho moral: vestes rasgadas, bandeiras sujas, hasteadas das trincheiras da vida a acenar em busca de paz....

 

Domingo, 31 Agosto 2014 09:32

Consertos

Escrito por Rosélio da Costa Silva

O meu celular não andava nada bem.  Era tratado com discreto desdém no circulo familiar e odiado às claras pela maioria dos meus contatos.  Não acreditava que aquele celular novinho em folha já estivesse dando problema. Ficou assim por um bom tempo porque, afinal, a gente sempre fica na dúvida: é o telefone ou a operadora?

 

Aquela segunda-feira chata começava com um tempo carrancudo, relâmpagos e trovões, meu computador simplesmente apagou como quem diz “em dia chato eu também quero sofá, com cobertor e tudo”. Tentei de todas as formas reanimá-lo, quase respiração boca a boca, mas não ligou. Arranquei o emaranhado de fios e cabos e fui direto a um especialista:   a placa mãe e fontes queimadas” me disse o moço de avental. Como sua placa é antiga e a moderna tem outro tipo de encaixe das memórias então terei que trocar as memórias também.  E mais:  vou reformatar o HD e reinstalar o Windows e isso vai demorar. Fica pronto amanhã por volta do meio dia.  Espero que tenha back up.

 

O laboratório de informática parecia um consultório médico em que você recebe a confirmação de uma doença grave edesmorona.  Foi assim que fiquei.   Olhava para cima e via a figura de um lutador gigante e eu, ali, nocauteado, meio zonzo, resumido no fiofó do meu ego.

 

Foi aí que tomei a decisão de mandar também o meu celular pro conserto.

 

-  Boa tarde.  Este celular não faz e, às    

  vezes, não recebe ligações.  

Sei, sei.   Deve ser problema de soft. 

 

Para pessoa acostumada com a linguagem desses bichinhos cada vez menores, estava tudo resolvido.   Para os menos informados, era uma sentença, um soco fatal.   O tal soft era a abreviatura de software,  parte eletrônica inteligente que comanda o celular.

- o senhor tem a nota fiscal do aparelho?
- aqui está.
- muito bem.  O senhor “vai ter que  estar deixando” o aparelho para  observação e orçamento.
- e quanto tempo 
“preciso estar deixando” o celular aqui? brinquei.
- vamos 
estar ligando em 24 horas para o senhor “estar autorizando” o conserto, se estiver de acordo.

Tive vontade  irresistível de chamar a atenção daquela moça sobre o uso desregulado do gerúndio na linguagem dos serviços de atendimento a clientes, mas ela não me ofereceu espaço. Com  um balançar de cabeça, aceitei as condições do serviço e ela prontamente preencheu a ordem de serviço no computador, imprimiu e me pediu para conferir a descrição do defeito: "toca mas ao  atender a chamada, desliga automaticamente, ás veis" (sic).

Domingo, 24 Agosto 2014 13:43

A hora de mudar

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Certa vez, um príncipe visitou São Paulo.  Em vez de depositar a delicadeza de coroa de flores no coração de nossas saudades, visitar Museus da cidade, ou um dos  badalados  shopping centers , explorar o que havia de melhor nas casas de espetáculos, a sofisticada malha de mais de 40 mil bares e  restaurantes, ou esquisitices  que só uma grande metrópole pode ostentar... Não! O príncipe preferiu visitar a cracolândia, instalada em uma das áreas mais imundas e fedorentas da cidade.

Por que?

Porque príncipes vivem em palácios. Já estão acostumados ao fino trato, a boa mesa, e já conhecem os grandes teatros e centros sofisticados e elegantes de consumo.  Querem conhecer a outra face da moeda: os guetos, a sarjeta mesmo, por onde escorre a miséria humana em organizações sociais com matizes primitivos muito visíveis... 

De onde parte esse interesse em mostrar as entranhas de nossos tumores e feridas?  Será que esse interesse vem de fora mesmo, do além-mar, ou é uma força interna que nos ordena a exibir, num extremismo, aquilo que é impensável em sociedades mais organizadas? 

Seja como for, esse tour pelas nossas desgraças não é coisa nova. Vem de longe. E nós mostramos de graça, com uma ponta de orgulho besta.  Reis e príncipes já frequentaram favelas, rodas de samba em comunidades não exatamente amistosas, terreiros e coisas assim. Já houve gente do jet set pop gravando clip em favelas. Jogadores de futebol do estrangeiro já passaram também por certas comunidades de cidades brasileiras.

Pior.  Os cicerones desse tour são justamente aqueles que deveriam cuidar para que esses guetos não prosperassem em áreas de sua jurisdição.  Será um certo deslumbramento?  Sim, esse deslumbramento faz parte da pobreza espiritual dos políticos e, do jeito que a coisa vai, há espaço para ir mais fundo...

Este momento de preparação de eleição revela que há pouca novidade no ar.  As velhas raposas já começaram a regougar; os velhos cães de guarda do sistema podre ladram; os peixes miúdos roncam em busca de espaço amigo e os sapos coaxam na lagoa quase estorricada...

Toda essa propaganda só reforça a ideia de que precisamos mudar.

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