Em 2006, o autor visita irmão José Ricardo, no Colégio Dom Amando
Domingo, 20 Julho 2014 08:09

O Teorema de Ricardo

Escrito por Rosélio da Costa Silva

A gente passa pela vida de muita gente.  É precária a avaliação sobre o impacto que produzimos nas pessoas que deixamos ao longo do caminho.  Aquelas que ainda fazem parte do nosso círculo de relações não expressam, por uma razão ou outra, o proveito recebido e nós mesmos fazemos o que fazemos por fazer e não à espera de aprovação ou recompensa.

Muita gente, também, passa pela nossa vida.  E aqui a estória é diferente.  Temos noção precisa da contribuição e do proveito deixados por essas pessoas.

Ah se pudéssemos listar todas elas, momento por momento... São muitas, por sorte.  Pessoas comuns, anônimas, outras com nome e sobrenome, colegas de trabalho, parceiros de negócios, colegas de profissão, amores... Quantas estórias!  Pessoas que nos ensinaram a ver as coisas com a razão e outros que nos fizeram enxergar com o coração. 

Entre elas, no entanto, há uma dívida de gratidão eterna, impagável, aos professores que nos ensinaram o beabá das letras; que nos auxiliaram a destrinchar a complexidade dos números; outros que numa cerimônia simples e delicada nos entregaram chaves para que nós mesmos encontrássemos a fechadura correspondente, num mágico exercício de magistério.

Pois hoje quero prestar uma homenagem ao irmão José Ricardo (Joseph Richard Kinsman) que faleceu esta semana em Santarém, onde vivia desde os anos 60, como um dos professores do Colégio Dom Amando. Ele era americano, como quase todos os professores.

Tive aula com o irmão José Ricardo.  Ele ensinava teorema. Essa matéria trata das afirmações matemáticas que podem ser comprovadas, ou algo assim. Para quem, como eu, que torcia o nariz para uma simples continha de mais, essa matéria era assaz complexa, quase desagradável! Mas o irmão José Ricardo fez o melhor possível com a sua determinação de ensinar e não abandonava as proposições, axiomas, teses, a linguagem do assunto. E valeu a pena.

Pois quando estive em Santarém em 2006, depois de décadas de ausência, o irmão José Ricardo, já como diretor da escola, levou a mim e minha mulher a conhecer as novas instalações.  E ele mostrava essa outra escola – a fonte do saber , como diz o hino – com um orgulho modesto, seguro de si.  Percebi que havia estudado num colégio do século XX e visitava, ali, um colégio do século XXI, uma das mais importantes instituições de ensino do Pará, para dizer o mínimo.

Andando por ali, lembrei-me do menino que pediu uma bolsa de estudos ao colégio e que por lá ficou alguns anos.  Depois se mudou para longe e se embrenhou pelo mundo afora bebendo de tantas outras fontes e hoje é um senhor que vive a escrever estórias como esta, com as peças disponíveis na biblioteca da lembrança.

Aquela visita rápida em 2006 era uma parcela de gratidão ao mestre e ao meu colégio. Lembrei-me das aulas de teorema e associei a modernização do colégio, essa atualização a valor presente, como parte do trabalho do irmão José Ricardo.  É como se a obra fosse a afirmação do Teorema de Ricardo que a posteridade pode, tranquila e verdadeiramente, comprovar in loco

Sábado, 12 Julho 2014 19:28

Os fanfarrões

Escrito por Rosélio da Costa Silva

A Copa tão esperada chegou, ruidosa, com seus tambores, cornetas, apitos, bandeirinhas, turbinada e terminou esta semana, triste, num silêncio tumular...

 

Lá atrás se imaginava uma transformação enorme: aeroportos modernizados, novas linhas de metrô, novidades como monotrilho e VLT (veículos leves sobre trilhos), trem bala ligando aeroportos a cidades principais, novas avenidas, árvores, jardins para todos os lados... Era assim que a gente iria comemorar o hexa, com algum ganho concreto nas mãos.  

 

Dos rascunhos dos projetos, pouco restou de executado. Estima-se que fizemos 50% das obras e ações programadasNenhuma surpresa, no entanto. A coisa por aqui anda assim, atropelada por improvisações e carência de gestão. Aqui é assim mesmo, dizem alguns tupiniquins fundamentalistas com uma boa pitada de precário orgulho.

 

Já vimos isso em 1950 quando a Copa também ocorreu num Maracanã inacabado, palco que impôs sofrimento aos brasileiros de 64 longos anos. Agora, abre-se uma nova contagem... A maldição do Maracanã passou para o Mineirão.

 

Sim, seria ideal se a gente pudesse apresentar uma organização impecável. Não teria o nosso jeito, claro, mas isso produziria outra imagem do Brasil. Mas não, fizemos a opção pela via esburaca, mais penosa, vergonhosa até, aliás com a mesma negligência  que se verifica no trato deassuntos de interesse de seus cidadãos.

 

Países estruturados do ponto de vista de estádios, mobilidade urbana e tudo o mais, simplesmente rejeitaram a ideia de sediar uma copa do mundo quer por questões de prioridade quer pelos custos que neutralizam os benefícios. É por isso que a organização do evento busca países emergentes onde há convergência da fome com a vontade de comer, qualquer que seja a fome, qualquer que seja a comida.

 

Os estrangeiros levam para casa, sim, uma imagem extraordinária do Brasil, do seu povo e da paixão pelo futebolda alegria e do calor tropical com que sempre recebemos os visitantes.

Somos tudo isso à noite, na alegria dos nossos carnavais. Durante o dia sofremos amargura da condição de filhos bastardos, sem sermosde filhos órfãos, de pais vivos; da frustração dos sonhos que nos impediram de sonhar. O nosso presente é um presente contínuo, patinante; nosso futuro, subjuntivo, entregue a dúvidas, incertezas, mais parece meta inalcançável, miragem, um momento urgente que morre na fila do descaso.

 

Há um silêncio vagando por aí, embrenhando-se por todos os espaços, por todas as frestas e gretas, a nos incomodar com o martírio da busca por explicações do fracasso.

 

Os fanfarrões que armaram a fantasia da copa perderam o senso de oportunidade de aplicação mais racional dessa gastança e, ainda por cima, subtraíram dos brasileiros o direito de sonhar... 

Domingo, 06 Julho 2014 08:59

Clides

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Eu atravessa a rua e o vi de longe.  Ele não me viu. Terno escuro, camisa branca, gravata discreta, penteado impecável domado pelo mesmo fixador potente.  Lá ia ele certamente para mais uma reunião da empresa estrangeira.

 

Era a rotina. Uma reunião atrás da outra.  A empresa sempre o designava porque ele conhecia bem a organização, seus produtos, seus rumos e principalmente a questão política do grupo.

 

Ele salpicava as reuniões com nós que juntava o s da empresa, com os vários interlocutores e aí estava a pegada:  esse nós era o elo na busca de nivelar o envolvimento de “todos”.

 

Numa conversa qualquer, lá estava ele acomodando o nós como uma entidade invisível que de repente aterrissava ali, no meio da conversa. Essenós vinha da empresa.  É muito comum o indivíduo trocar o seu eu pelo nós, da empresa.  Pertence ao manual.  E o Euclides tinha perdido o Eu e por sorte não adicionou o teimoso nós em seu próprio nome porquanto cairia num ridículo Nosclides.

 

De há muito vinha notando um afastamento do Euclides do seu Eu.  Pessoas assim, entidades assim, não costumam ter gosto pessoal, hobbies, e fatalmente recaem sobre elas uma variedade de suspeitas intrigantes.   Um sujeito assim fica com muitos tons de cinza, e não apenas cinquenta.  

 

Entidades não torcem por time de futebol, não têm uma comida de preferência, um drink predileto, não têm mulher, filhos e há justificado temor em pedir o número do telefone desse tipo de gente com receio de que a resposta não seja um número real mas uma aproximação ou estimativa...

 

Lembro do nosso último encontro para jogar conversa.  Pedi um aperitivo e ele, ao garçom, “o mesmo”.  Senti que eu fazia parte do nós. E a conversa evoluiu numa das primeiras vezes em que aparecia o seu eu.  “Eu acho que preciso reorganizar a minha vida”, começou.  “Sinto que estou que estou perdendo a minha identidade. Parece que perdi minha alma em alguma rua escura e não posso reencontrá-la.  Primeiro porque não sei o que é alma e depois quero ser apresentado à minha”.

 

Não comentei nada.  A vida é um esquema de crenças e não nos cabe implodir coisas tão penosamente construídas.

 

Outro dia ouvi na televisão um indivíduo manifestando que seu maior pavor era imaginar que Deus não existe. Ele tinha medo de perder a última gota de crença. O Euclides parece haver iniciado sua busca naquele nosso último encontro...

Domingo, 29 Junho 2014 08:33

Aplauso

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Pessoas que frequentam teatros sabem que o aplauso ficou mais ou menos igual, em todos os lugares.  É um fenômeno mundial. É como se o reconhecimento do público, através de palmas, tivesse ganhado uma eloquência globalizada, uníssona, incapaz de classificar um espetáculo medíocre, bom, ótimo ou extraordinário.  Sim.  Agora todos os espetáculos são iguais, segundo os aplausos.

 

É que o aplauso não mede mais o nível de excelência do espetáculo.  As pessoas aplaudem e basta que um se levante para que a plateia inteira fique de pé, numa ovação composta de palmas, assobios e gritos frenéticos que pouco dizem sobre a qualidade do que foi apresentado.

 

Não recordo como tudo isso começou. A verdade é que  estímulos diferentes convocam a mesma resposta: a plateia de pé, palmas, assobios e gritos.

 

Os artistas devem mergulhar em dúvidas pela mesmice e dubiedade que essas reações encerram.  Será que estamos diante de algum significado ainda maior, como se estivéssemos numa tal frequência a responder da mesma forma a um estímulo qualquer?  Estamos, por ventura,consagrando todos os espetáculos a um único patamar, camiseta branca, jeans e tênis comum ou passeio completo?

 

Nesse contexto, os artistas da escrita são afortunados. Não ouvem  aplausos. Há uma variedade de manifestações que expõe a tessitura pluralda sociedade, multiplicidade de ideias. Há de tudo: gracejos, elogios, críticas boas, observações cáusticas, comentários de chofre e outros tristemente lentos... A internet e as redes sociais são as plateias virtuais dos tempos modernos, no papel das antigas colunas de cartas dos leitores do meio impresso.  Nenhuma dessas plateias, no entanto, reflete esse comportamento uníssono dos teatros.

 

No sábado passado, me chamou a atenção esse fenômeno do aplauso, num teatro em São Paulo: há sempre um que puxa as palmas, e todos o seguem; um mais entusiasmado se levanta e todos os demais ficam de pé.  

 

Por um instante pensei que os aplausos refletiam a consagração do espetáculo.  Depois, imaginei que é um efeito revoada que se instalou na cabeça das pessoas obrigando-as a obedecer a um programa para esses movimentos coletivos.

 

Esse comportamento não deve ter ligação com a qualidade do espetáculo. É mais banal: dá a sensação de queterminada a apresentação, ainda persiste um ímpeto de curiosidade pelos últimos resquícios cênicos no palco.

 

Será?

Domingo, 22 Junho 2014 07:42

Aspone

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Outro dia alguém levantou uma questão interessante: o que a gente gostaria de fazer para viver plenamente feliz, profissionalmente.    Acredito que poucos têm condição de encontrar reposta pronta, rápida. Leva vantagem, talvez, indivíduo que consegue sentir-se confortável em múltiplas situações ou aqueles de boa vontade que procuram descobrir sabores e aromas nos goles de profissão qualquer.

Há tantas divagações a respeito da felicidade profissional que o assunto só perde para as criativas teorizações sobre gostos e cheiros encontrados em vinhos!  Em verdade em verdade vos digo que não são “teorizações” mas “a arte de imbricar palavras” num jogo do tipo “quem procura, acha”.  Não parece tarefa difícil identificar aroma de frutas vermelhas, pimentão, pimenta, couro, pelo de cachorro molhado, cheiro de terra molhada, tudo isso decodificado dos aromas e sabores emanados dos vinhos.  Complicado achar o cheiro de raposa molhada tanto pela falta da raposa como pela escassez de água em SP!...

Assim é a busca do gosto e retrogosto ideal no campo profissional. Alguns defendem que a ocupação certa é aquela que preenche o indivíduo por completo. Você precisa gostar do que faz, dizem.  Outros sustentam que a verdadeira felicidade não é fazer o que se gosta mas aprender a gostar dos sabores daquilo que se faz, uma espécie de auto-adestramento, fazer-se  caber no ofício, submissão aos termos da vida profissional, qualquer que seja. 

Alguém arriscou outro dia que a ocupação ideal seria de adido cultural. O objeto de nossa prosa, aqui, não são os adidos sérios, comprometidos, acima de qualquer suspeita (ainda que no fritar dos ovos o resultado seja mais ou menos o mesmo)...  Refiro-me a uma corruptela da classe que atende pelo nome de ASPONE, anagrama esculpido a partir da expressão “assessor de porra nenhuma” para designar um tipo particular de parasita regiamente remunerado, com direito a diversão plena em vernissages, palestras sobre sexos dos anjos, onanismos filosóficos intermináveis, e tudo que tenha cheiro, gosto e retrogosto de cepeís, sindicâncias, grupos de estudo, comissão de trabalho e ensebações congêneres.

O aspone ideal seria, por exemplo, adido cultural para o estudo da indústria do vinho junto à zona do euro, com sede em Paris.   Uáu!  Para aliviar o tédio da natureza desse tipo de trabalho, não pode faltar a boa mesa, escoltada por vinhos variados, justamente para suscitar discussões apaixonadas sobre a harmonização mais interessante. Que pesado fardo é a vida de um aspone full HD!...

Algumas outras sugestões para nomeação de adidos:

Adido Cultural para expansão da literatura de cordel nos países da Grã Bretanha, com base em Londres,   com o objetivo de encorajar a disseminação dessa literatura nas regiões mais apegadas aos limericks;

Adido Cultural para propagação da ideia de comissão de frente no carnaval de Veneza, para extrair do imaginário italiano a ideia de que comissão no Brasil não é apenas a conhecida participação monetária.

Aliás, muito oportuno esse assunto de comissão de frente para dissipar o desagradável cheiro de certas insinuações que emanam de alguns assuntos relacionados à Copa mas, por outro lado, inoportuno por sugerir excitação extra à surrada conta da viúva!

Domingo, 15 Junho 2014 08:14

O achado

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Ele viera substituir o técnico habitual. Não o conhecíamos. Tipo quieto, enrustido, formatado pela profissão.

 

Começou abrindo as máquinas. “Já aproveito para fazer uma faxina nesse pó que o cooler  importa  para dentro para dentro do sistema”. O tal cooler é um ventiladorzinho que atua na refrigeração de peças vitais. Mexe aqui, mexe acolá, desencaixa plugsdesconecta fios, pincel para cá, pincel para lá removendo o pó, e de repente me dou conta da mancha estranha da palma da mão do técnico que ele, discretamente, tentava esconder.

 

Ao perceber o meu achado, apressou-se:

 

- É verniz.  Não sou marceneiro mas estou dando um trato no meu velho cello.

 

Cello? pensei.   Velho?  Era como se aquele pincel que removia o pó das peças do computador fosse o pincel dos arqueólogos que trazem à luz achados importantes.   Um tocador de cello?  E velho? O preferido dos grandes mestres que buscam instrumentos antigos, madeiramento desidratado lentamente pelo trabalho incansável do tempo?...

 

- Você toca cello?

 

- Sim, mas ainda tenho um longo caminho... a gente nunca sabe tudo.

 

Cresceu, diante de mim.

 

- Que tipo de música você gosta de executar?

 

- Todas.  Clássica, moderna, popular, até música sacra encaro de vez em quando.

 

A cada resposta aquele rapaz simples, ali confundido com um técnico de computador, avantajava-se na minha percepção.

 

Desejei conhecer mais sobre ele e disse, esticando a conversa:

 

- Estou lendo um livro dos 100 maiores homens que influenciaram e ainda influenciam o mundo e, para minha admiração, há dois grandes compositores clássicos nessa lista de notáveis.  Você arriscaria um palpite sobre esses dois grandes mestres da música erudita?    

 

- Não faço ideia.   O mundo está cheio de gente interessante e eu não conheço a todos.  Não saberia dizer.

 

Com essa resposta, com alto teor de humildade e uma abundante carga de vaselina, me encontrava às vésperas de reconhecer um tesouro escondido por trás daquela caixa da CPU.

 

- diga qualquer um, de repente...

 

- Seria Roberto Carlos?

 

Roberto Carlos é artista talentoso, mas acredito que ele estaria fora do conceito de uma lista universal.   Os Beatles, por exemplo, influenciaram gerações nos quatro cantos do mundo e não estão na lista, além do que não produziu música erudita.  

 

- Então... É difícil, como disse.

 

- Os dois citados no livro são Beethoven e Bach, declarei.

 

- Bem, esse Bach eu nunca ouvi falar e de Beethoven só vi o filme.   Era um cão muito inteligente.

Domingo, 08 Junho 2014 12:48

O outro lado

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Hoje não há estória. Coisa construída com cabeça, tronco e membros.  Quero ir escrevendo ao sabor da pena, ao sabor dos ventos.  Quero vagar, ir de um lado a outro, perambular por aí, sem origem nem destino, sem relógio com seus dardos a acusar segundo por segundo o andar do tempo,como a fatiá-lo em rodelas numa aflição constante...

 

Hoje não há personagens.   sombras, aqui e ali.  São catedrais imaginárias como aquelas que os obreiros da cristandade soergueram,perseverantes, para ali reafirmarem suas convicções.  Pois há nessas sombras embaçadas as pegadas do tempo. Há destroços, pedaços retorcidos, que se desprenderam da razão e quedam encravadas no espírito das pessoas.

 

Percorro com os olhos essas catedrais e vejo em seus altares castiçais. Suas velas virtuais dão vida a cenários calmos, um paraíso de brumas.  Depois, vago por um labirinto de corredores turvos a exemplo das encruzilhadas que demandam decisões, posições.  Que direção tomar? É um borrão da vida que se espelha nesses espaços.

 

A ausência tem seus repertórios de significados e que se expressam por si só.  Não há como escapar do silêncio que preenche espaços e que acompanha o visitante das catedrais onde quer que vá.  É como nos templos em que o silêncio é parte integrante da liturgia da fé. Qualquer fé.

 

Mais adiante, um novo encontro.  É um lago de águas calmas, azuis.  Aparentemente não há peixes mas deve haver vida em miniatura, adaptada a essas condições adversas à vida normal, às claras.  Não há flora, só fauna limitada.     

 

Pedras por todos os lados.  Por um instante pensei no poeta que de repente encontrou uma pedra no caminho.  Aqui poderia esticar seus versos, construir novos significados neste mundo inanimado, silente e sem as pulsações do mundo das pessoas.

 

E nessas catedrais de sombras os homens, inconscientemente, curvam-se num gesto de submissão, aceitação plácida, quiçá resignada obediênciaàquilo que excede a sua compreensão ou alcance.  Esse é um momento de reflexão, um juízo intermediário.  E isso é bom e faz bem.

 

De vez em quando é bom evitar estórias reais e procurar outras realidades nesses becos escuros,  tateando essas vias brumosas,  labirintos, encruzilhadas, espelhos d’água, pedras do caminho, pois aí descobrimos que os homens precisam vagar, andar perdidos por aí em lugar qualquer para valorizar o encontro consigo mesmo.

Sábado, 31 Maio 2014 20:01

O folgado

Escrito por Rosélio da Costa Silva

À tardinha sempre saía para uma caminhada pela orla. Quando voltava era boca da noite, já. Caminhando  parecia escutar o meu médico com seu tom grave e formal,  a repetir a ladainha “todos devemos nos exercitar, qualquer atividade física vale e existe uma que está ao alcance de todos e pouca gente faz:  caminhar!...”

Fazia calor, naquele finalzinho de tarde, umidade relativa do ar alta, dando aquela sensação pegajosa. Há uma indicação básica para quem faz exercícios:  água, energéticos, água de coco. Mas há um grupo de pessoas que prefere tomar logo um 3 em 1, sabor chope.

Não há como escapar da tentação do chope. Um bar atrás do outro. Quando  se escapa do bar, lá vem o vendedor ambulante. Rodeado de apelos, resolvi apelar:  sentar em um dos bares da orla, ali mesmo no balcão, frente total para o mar, e pedi um chope para matar o calor.

Nem bem dei uma primeira bicada na espuma e aproxima-se um homem, alto, forte, acompanhado da mulher e uma criança. Suas roupas não destoavam do tom descontraído da praia; tampouco não denunciavam que fossem pedintes, mendigos.  “Mindingos” em paulistês.

- Cadê o gerente da casa? - iniciou ele, num tom severo.

- Não sei, não conheço, sou apenas um cliente.

- Pois não? Disse um garçom que estava próximo.

- Gostaria de falar com o gerente, você é o gerente?

- Não, não sou.  Um momento, por favor.

Foi um diálogo franco, direto, parecia que o homem estava à busca do gerente para lhe cobrar uma dívida, reclamar do troco errado, de imperfeição do serviço oferecido ou coisa do gênero.

- Em que posso lhe ser útil, senhor.

- Olha em vim do Mato Grosso e estou passando dificuldade com a minha família.  Quero uma ajuda.

- Que tipo de ajuda você necessita?

- Quero um prato de comida. Estou com dinheiro contado para a passagem de volta à minha cidade e não tenho como lhe pagar o prato de comida.

- Tudo bem.  Eu lhe dou um prato de comida. Como o restaurante abre pontualmente às 7,   peço para varrer o salão principal, juntar o lixo e  lavar algumas panelas na cozinha.   Pode ser?

- Poxa!  Estou lhe pedindo um prato de comida. Não estou pedindo emprego.

Disse isso e saiu resmungando...

Terça, 27 Maio 2014 07:28

Barcos & filhos

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Li outro dia na internet um texto que falava de barcos e de filhos. Era uma analogia interessante, comovente.  Falava que o porto – um porto qualquer – é o lugar mais seguro para os barcos.  Amarrados a cordas potentes ali estão a salvo.  Não há o que os desloque ou os afunde.  Sóforças maiores da natureza como tornados, tsunamis, talvez, possam incomodá-los.

 

Diz o texto que assim são os filhos.  O lugar seguro é ao lado dos pais.  A mão dfilho segurando o dedinho do pai equivale à segurança dos cabos grossos que amarram as embarcações, com agradável bônus de amizade e amor...  

 

Os barcos, no entanto, não foram construídos para ficar nos portos, amarrados.  Destinam-se a navegar pelos mares afora, vencer turbulências, a solidão do mundo das águas e suas armadilhas, provar da comunhão com povos desconhecidos.  A viagem é tão envolvente, excitante, que onavegante esquece, por instantesque o porto seguro do seu barco é no cais, preso a ferros e cordas.

 

Assim são os filhos.  Não foram gerados para quedarem perpetuamente ao amparo dos pais.  Nasceram também para navegar.  Buscar novos ares e mares.  Enriquecerem-se.  No manual de bordo, notas escritas às pressas sobre lições aprendidas no primeiro porto, junto aos pais, depois as lições dos amigos e de outros marinheiros que empreenderam a viagem primeira, primeira aventura de navegar sozinho ou com o parceiro comquese decide viajar...

 

Esta semana, mais uma nau empreende sua viagem inaugural.  São dois a bordo. Levam maletas com suas experiências, outras com algumas expectativas e outras repletas de sonhos.  São marujos no papel de corsários na busca dos tesouros de felicidades que o mundo coloca em profundezas insondáveis.  Para encontrá-los, precisam navegar, fazer juras da partilha justa, em quantidades iguais de amor...

 

Navegar é, portanto, por em prática o rascunho da vida, aproveitar as anotações das margens, decifrar sentidos e conotações, destrinchar rasuras.  Porque o rascunho, nviagem, é vida real.  Talvez seja oferecida oportunidade para alguma ação nova, correção de curso, mas as decisões alitomadas são definitivas.

 

Ainda vejo, longe, esses marinheiros de primeira viagem a praticar a arte de navegar.  A bandeira da popa, trêmula, ainda faz seus últimos acenos, como se abanasse toda a dor da terra e ao mesmo tempo anunciasse um novo tempo de paz e felicidade.

 

Foi o derradeiro ponto a desaparecer, naufragado em distâncias e proporções estranhas, inalcançáveis, para os que ficaram no pátio das despedidas...

 

Um dia voltarão, por certo, ao último porto de que partiram.  Que voltem antes de exauridos os estoques de saudade boa...

 

Boa viagem Lívia e Rony.

 

Custo benefício
Domingo, 18 Maio 2014 09:44

Custo benefício

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Outro dia ouvi por ai uma discussão calorosa sobre a questão do desmatamento da Amazônia e a coisa chegou à temperatura de grandes queimadas: “eu quero que este assunto se exploda. Por mim, mandaria passar um trator, derrubava tudo e mandaria fazer um calçamento só e utilizaria como estacionamento”.  Não era pra valer, claro.  Era só uma demonstração de indignação pela persistência do assunto sem o correspondente avanço esperado na proteção desse patrimônio.

No Carnaval passado, em conversa com um amigo carioca que vive em São Paulo, perguntei se ele iria passar os feriados no Rio de Janeiro.  A resposta foi imediata: “cara, não pareço carioca. Não gosto de Carnaval, nem de praia, nem de calor. A coisa é tão séria que, por mim, eu mandava azulejar a praia de Copacabana inteira; e em Ipanema, mais chique, colocaria porcelanato! Tudo cheio de ar condicionado”.

São desabafos que não correspondem a um desejo efetivo. Traduzem apenas indignação aflita, desesperada, empanada em bom-humor para substituir expressões verbais mais grosseiras, principalmente diante de leitores, senhoras e crianças...

Disse outro dia, aqui mesmo, que o afastamento do cidadão dos assuntos políticos é autorização expressa para que políticos realizem o que bem entendam.  É como nas reuniões de condomínios em que o indivíduo não aparece, dá de ombros, como se estivesse “caçando e andando” em cima das deliberações da assembleia quando, a bem da verdade, é coautor das decisões ali tomadas.  Das boas e das más.

Tudo isso resulta da negligência sistemática com as grandes questões nacionais.  As reformas política, tributária, saúde, educação, segurança pública e tantas outras de premente interesse nacional não foram executadas porque os políticos estavam ocupados fazendo política. Em tupiniquim, fazer política significa governar em proveito próprio.  Um político eleito pelo povo que se preze, dentro desse contexto tosco, deve dedicar seu tempo aos acertos por espaços políticos e outros quetais.  Os poucos verdadeiramente empenhados em servir ao País vivem por aí, acanhados, roucos, quase sem voz...

Pois faço saber a todos que eu também tenho meus momentos de indignação. Por mim, acabaria com a romaria dos sem-terra e dos sem-teto, expulsaria os  atuais ocupantes dos imóveis públicos do País e aí alojaria esse enorme contingente de vagantes, todos,  amadores e profissionais...e que os políticos de carteirinha fossem cantar noutra freguesia.  Mais ainda: e que, como trabalhadores comuns, destituídos de seus saltos, fossem submetidos ao amparo ilimitado do SUS, matrícula preferencial aos filhos em escolas públicas, passe livre no transporte público de qualidade, entre outros benefícios que eles mesmos criaram!...   

Em pouco tempo essa gentalha estaria também queimando pneus, depredando patrimônio público e privado, incendiando ônibus... práticas absolutamente inaceitáveis. Mas seria mais barato.  A sociedade não pode bancar os estragos feitos pelos indignados e, ainda por cima, a farra dos políticos profissionalizados. Ou um, ou outro.

Mas, de novo, isto é apenas um desabafo que traduz frustrante indignação, nada mais...

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