Domingo, 13 Abril 2014 07:48

Meninos

Escrito por Rosélio da Costa Silva

enxurrada passava como uma violência extraordinária. A gente costumava ver da margem a viagem apressada de folhas, gravetos.  Melhor ainda quando havia temporal: passavam por ali pequenos galhos de arvores, folhas verdes, frutos. Era um momento de contemplação das forças na natureza, muito mais além da compreensão das crianças.

Esse era o nosso mar.  Ali a gente ganhava inspiração para lidar com aquela dimensão de  força, capaz de arrastar qualquer coisa e levar a imaginação sei  pra onde. Parada a chuva, o nosso mar secava e a gente saía para avaliar as consequências: o ventre da terra rasgado pela correnteza, raízes expostas, achados arqueológicos importantes eram sempre os seixos rolados, fragmentos de louça, pedrinhas lavadas pelas águas...  

 

Um dia aquela brincadeira foi levada a sério.   Nosso pequeno esconderijo passou a abrigar a Escola de Sagres, a ensinar a navegar e a fazer barcos para enfrentar a turbulência do nosso mar.  Não eram de madeira, como fizeram os pioneiros da navegação para enfrentar os mares de verdade.  Nossos barcos eram frágeis, como o nosso conhecimento; fortes, como a determinação de fazer; sobretudo ousados, como o fizeram os pioneiros.

 

O nosso arquiteto mor fazia os barcos de jornal velho.  A gente dobrava o jornal, formava uma popa e uma proa, vela no meio e lançava a pequena embarcação em nosso mar. Dava sempre um certo trabalho, é verdade. Mas era compensado pela satisfação de ver aquele pedacinho de papel descer a trancos e barrancos, intacto, resoluto e depois sumia na curva da enxurrada.  Outros, navegavam um pouco e logo tragados pelas tormentas e se transformavam apenas num pedaço de papel molhado que passava rápido na correnteza forte.

 

Aqueles barcos levavam a bordo sonhos da molecada.  que havia, afinal, no final das enxurradas?  Um filete de água como uma bica pingando, minguando, ou um precipício onde aquele mundo de água desabava agonizante para nunca mais voltar?

 

Essa era a grande dúvida dos curumins: lidar com grandes proporções.  Quiçá como os pioneiros da navegação que enfrentaram as tormentas, o escorbuto, a precariedade dos materiais utilizados em suas construções navais.   Apesar disso, perseveraram em seus projetos e sonhos.

 

Meninos são homens que sabem brincar com as limitações bem antes que fiquem maduros demais ...

Domingo, 13 Abril 2014 07:48

Meninos

Escrito por Rosélio da Costa Silva

enxurrada passava como uma violência extraordinária. A gente costumava ver da margem a viagem apressada de folhas, gravetos.  Melhor ainda quando havia temporal: passavam por ali pequenos galhos de arvores, folhas verdes, frutos. Era um momento de contemplação das forças na natureza, muito mais além da compreensão das crianças.

Esse era o nosso mar.  Ali a gente ganhava inspiração para lidar com aquela dimensão de  força, capaz de arrastar qualquer coisa e levar a imaginação sei  pra onde. Parada a chuva, o nosso mar secava e a gente saía para avaliar as consequências: o ventre da terra rasgado pela correnteza, raízes expostas, achados arqueológicos importantes eram sempre os seixos rolados, fragmentos de louça, pedrinhas lavadas pelas águas...  

 

Um dia aquela brincadeira foi levada a sério.   Nosso pequeno esconderijo passou a abrigar a Escola de Sagres, a ensinar a navegar e a fazer barcos para enfrentar a turbulência do nosso mar.  Não eram de madeira, como fizeram os pioneiros da navegação para enfrentar os mares de verdade.  Nossos barcos eram frágeis, como o nosso conhecimento; fortes, como a determinação de fazer; sobretudo ousados, como o fizeram os pioneiros.

 

O nosso arquiteto mor fazia os barcos de jornal velho.  A gente dobrava o jornal, formava uma popa e uma proa, vela no meio e lançava a pequena embarcação em nosso mar. Dava sempre um certo trabalho, é verdade. Mas era compensado pela satisfação de ver aquele pedacinho de papel descer a trancos e barrancos, intacto, resoluto e depois sumia na curva da enxurrada.  Outros, navegavam um pouco e logo tragados pelas tormentas e se transformavam apenas num pedaço de papel molhado que passava rápido na correnteza forte.

 

Aqueles barcos levavam a bordo sonhos da molecada.  que havia, afinal, no final das enxurradas?  Um filete de água como uma bica pingando, minguando, ou um precipício onde aquele mundo de água desabava agonizante para nunca mais voltar?

 

Essa era a grande dúvida dos curumins: lidar com grandes proporções.  Quiçá como os pioneiros da navegação que enfrentaram as tormentas, o escorbuto, a precariedade dos materiais utilizados em suas construções navais.   Apesar disso, perseveraram em seus projetos e sonhos.

 

Meninos são homens que sabem brincar com as limitações bem antes que fiquem maduros demais ...

Domingo, 06 Abril 2014 08:58

O gato fumaça

Escrito por Rosélio da Costa Silva

O Fumaça é um gato persa cinza, olhos de mel. Abelhudo, como todo gato. Passou com esforço por um orifício da tela, para conhecer a marquise. Quando o dono, assustado, o flagrou ele também se assustou e caiu de altura equivalente a 2 andares. Foi um corre-corre e foramencontrá-lo escondido debaixo de um carro. Levado para casa, examinado, não houve danos físicos. Ele era novinho, pouco conhecia da vida além de saber cair de pé! Emocionalmente, ficou abalado. Andou por algum tempo junto ao rodapé das paredes, assustado, digno de pena.

 

Já tive impulsos de escrever sobre os tempos da ditadura, tive oportunidades de falar daquele momento triste, mas preferi ficar andando junto aorodapé das coisas, como o gato Fumaça. Escrevo apenas sobre o cotidiano dos homens, coisas simples. É que de há muito a política no Brasilvem ladeira abaixo, sem freios, daí o desinteresse geral que parece acabar concedendo autorização expressa para a expansão da baixaria. Esse é o preço que pagamos pelo silêncio.

 

Muito se disse nos últimos dias sobre os 50 anos daquele 31 de Março e por isso lembrei de uma estória ocorrida em Novembro do ano passado.

 

Viajei por acaso ao lado do jornalista Audálio Dantas para o Rio de Janeiro.  Estávamos sentados, ambos, na poltrona do corredor, na mesma fileira, mas só nos cumprimentamos no desembarque no Santos Dumont, no Rio.

 

-como vai,AudálioNão quis atrapalhar sua leitura!

 

- opa, não lhe reconheci, diz ele educadamente

 

- você está morando no Rio ou está aqui a trabalho?

 

- a trabalho. E você?

 

- vim para o lançamento do meu livro sobre o Vlado, como alguns colegas chamavam o Vladimir Herzog.  Se tiver tempo, passe lá.  É na livraria da Travessa, no Shopping Leblon.

 

Lá pelas oito da noite, me livrei dos meus compromissos e fui à livraria, local do lançamento e noite de autógrafos.  Havia um mar de jornalistas, todos em manga de camisa e lá chegamos, eu e um amigo, devidamente engravatados como pedia o nosso compromisso anterior.

 

Ao entrarmos no auditório, ele me faz um cumprimento discreto. Sentado no centro da mesa de trabalho, rodeado por gente da literatura e naplateia, a turma do jornalismo, entre eles Veríssimo, Zuenir Ventura, Miriam Leitão e outros.

 

Ouvindo depoimentos e declarações sobre aquele momento triste da vida nacional, lembrei dos tentáculos da ditadura que incomodavam, sem maiores fundamentos, a nossa pequena cidade e em particular alguns colegas da Rádio onde trabalhávamos. Que perigo afinal representava ao País aquela rapaziada da Radio Clube de Santarém? Nenhum. O perigo estava do outro lado. Havia intimidação gratuita típica dos regimes autoritários que as brumas do tempo não conseguem esconder, em nenhum lugar da terra...

 

Ali, desajeitado, afrouxei o nó da gravata e assim que terminou a apresentação saí de fininho com meu amigo e comentei por alto dos momentos de opressão e medo. Não fui afetado fisicamente pela ditaduraMas na época os burburinhos reverberavam por todos os espaços, havia uma forma assustadora de falar e uma grande sombra traiçoeira que abrigava inimigos de várias faces, naqueles becos carentes de luz...Só aqueles que já caíram de marquise sabem por que andam assim junto ao rodapé, responsavelmente resignados, aparentemente acovardados...

 

Passeatas ruidosas juntam pessoas e não necessariamente ideias. Estas, que iluminam corações e mentes, às vezes, também funcionam melhor com voz baixa e silêncio como nos hospitais...

 

 

Domingo, 30 Março 2014 10:04

A torneira

Escrito por Rosélio da Costa Silva

É impressionante o número de situações a que se expõem os viajantes.  A cada ponto de parada, uma surpresa.  A cada cidade, uma novidade.  A cada hotel, uma coisa nova, inesperada.

Há lugares em que a água não faz espuma.   Olhei com desconfiança a marca do sabonete mas acabei me contendo na quase absoluta certeza de que ali havia uma pegadinha.  E tinha.   Nesse tipo de água, com presença de cálcio e magnésio, não há sabão que faça espuma!  Quando me deparei com essa situação numa outra cidade, matei a charada de imediato, sem o ímpeto de reclamar do sabonete.

As fechaduras das portas fecham para a direita e abrem para a esquerda. Mas há lugares em que esses procedimentos são realizados de forma inversa: fecha para a esquerda e abre para a direita.   Até aí meio chato, mas sem maiores consequências.

Os interruptores são também um desafio à parte.  Os de arandelas de cabeceira em certos hotéis, por exemplo, você nunca sabe onde os encontrar.   Parece uma brincadeira em que os projetistas se divertem com o hóspede à caça do interruptor de luz da arandela de cabeceira em plena escuridão!

Talvez as coisas sejam assim, diferentes, porque as pessoas também não são iguais.  Muito menos, diria.

As mais herméticas respondem ao seu “bom dia” monossilabicamente, guturalmente, utilizando apenas parte da expressão:

-“ia”

É como quem diz “ia” ser bom se você não estivesse aqui, se eu não tivesse te encontrado!

Há pessoas, no outro extremo, que não resistem à pergunta:

- como vai?

e em vez de responder, “contam”:

- tudo bem, graças Deus, mas o dia promete, derramei café na blusa, justamente hoje que estou atrasada e, sabe como é, sexta-feira o trânsito é mais complicado.  Só falta chover!...kkkkk

 

Assim são as coisas, lugares, assim são as pessoas.  Diferentes.

A experiência mais desconcertante foi no hotel em que a torneira abria para a esquerda.  Nos primeiros dias de uso, o jato d’água forte molhava a roupa, o chão, água pra todo lado.   O pior é que com o costume de fechar a torneira para a esquerda, a gente acaba agravando o problema: em vez de fechar, abre muito mais...

Isso me fez lembrar certos seres humanos que a gente encontra na vida ao que parecem nascidos para falar. Falam sem parar... E quanto mais você procura acalmá-las, mais falam. 

Gente assim, provavelmente também abre para a esquerda...

Domingo, 23 Março 2014 09:02

Qualquer trem da vida

Escrito por Rosélio da Costa Silva

A travessia é curta e rápida, comentou a senhora gorda à minha frente. Mas o senhor precisa disputar espaços para viajar sentado.

Não deu outra.  A porta de embarque se abriu e a turma correu em direção ao barco. Para trás, gente idosa, gente com alguma dificuldade de locomoção, ou mesmo com crianças de colo e os naturalmente lentos.

Os mais espertos, mais ágeis, correm e ocupam todos os assentos enquanto os mais vagarosos, viajam em pé.Os sentados disfarçam olhando para cima, assobiando, num disfarce que lembra a expressão das pessoas em torno do titular do cartão quando o caixa pede para digitar a senha: todo mundo fica com aquela cara de paisagem “não estou olhando!”.  

O barco partiu na sua viagem rotineira, indiferente às marolas do canal de Santos e aos queixumes de usuários.

No procedimento de aproximação para atracação na outra margem, a senhora gorda ao meu lado avisou: lá vem o trem, temos que nos apressar. Não entendi muito bem mas a experiência da companheira anônima de viagem me aconselhou a apertar o passo.

Conseguimos atravessar antes que a enorme composição, velha e suja, interditasse a passagem. Parecia uma centopeia a se espreguiçar lentamente por sobre os dormentes murmurantes. Atravessei o prédio da Alfândega, a praça, uma rua estreita e logo ali adiante estava o meu endereço de destino. 

Foram suficientes cinco minutos para me desvencilhar do meu compromisso no centro velho de Santos. Na volta, ao me aproximar do trilho, o trem velho e sujo continuava a se arrastar nos trilhos a ranger pelo sofrimento da carga pesada, condoído lamento da partida. Ali estavam, do outro lado dos trilhos, imagens passageiras de pessoas que nasciam  nos interstícios entre um vagão e outro. Eram companheiros de viagem no percurso de vinda, anônimos, desanimados, lentos, esperando a passagem do trem.

Vi ali a crueldade da seleção natural darwiniana que prega a sobrevivência dos mais fortes, mais adaptados, que na sociedade atual abrange também os mais espertos, animais formatados a disputar espaços, a vencer, ir mais longe. A disputa entre os homens são ganhas por diferenças mínimas, por segundos, por meio corpo de vantagem como dizem nas corridas de cavalos. É assim que as coisas acontecem: há que se preparar, antecipar, prever. E é assim com qualquer trem da vida...

Na barbearia
Domingo, 16 Março 2014 09:57

Na barbearia

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Era domingo bem cedo, ensolarado. Caminhava pelas ruas desertas, lojas fechadas, portas de aço levantadas para expor os produtos através das grades de ferro e vidro. Era a cidade grande, espreguiçando-se, sonolenta ainda, mas sem descuidar das obrigações: expor seus negócios.

Veio à cabeça a ideia de cortar cabelo, aproveitar o tempo. Difícil encontrar uma barbearia aberta aos domingos, tão cedo da manhã. Pensava na barbearia predileta mas estava a fim de entrar na primeira que encontrasse aberta, ali por perto.

Ao virar a esquina, ali estava uma instalação simples, sem status, uma barbearia rústica para um homem decidido a dar uma melhorada no visual para o compromisso de segunda-feira.

O barbeiro terminou o corte num freguês, levou alguns utensílios para o higienizador elétrico, voltou, soprou os cabelos da cadeira e do chão com um secador, abriu um  avental limpo  e fez um sinal com a concha das mãos como quem diz “vamos, é a sua vez”.

Ainda abotoava o avental e já me perguntava:  “como vai querer, máquina ou tesoura?

- Tesoura, por favor.

Iniciou molhando todo o cabelo com um spray finíssimo e frio. Penteava os cabelos de um lado para o outro e vice-versa, como que desejasse quebrar a memória dos pelos.  Depois, separou em áreas e começou o corte: agarrava um chumaço de cabeloentre dois dedos e cortava em duas etapas: zit, zit, pleque, pleque, batendo a tesoura no pente. Zit, zit, pleque, pleque.

De repente me dou conta que a TV estava ligada atrás de mim e que eu poderia ver as imagens através do espelho. Comecei me divertir para espantar a sonolência típica das cadeiras dos barbeiros.

Passava um filme do Mazzaropi. Peguei o bonde andando mas entendi que era uma estória simples, tola. Um matuto metido em calça larga e camisa xadrez. Um caminhão velho. Encrencas com a polícia de trânsito. Muito falatório e aquilo foi ficando cada vez mais distante e eu mergulhava em pensamentos para entender o surgimento dessa comédia ingênua, caipira. Fez muito sucesso com pastelões enlatados.

Esse modelo foi seguido por alguns comediantes brasileiros, lá atrás. Não havia violência. Parece que o objetivo desses artistasera produzir coisas sem graça para que o próprio público arrancasse de dentro de si a graça necessária, em exercício de desprendimento. Divertimento, em última palavra. Se houvesse tiro, seria para o alto, geralmente com mais barulho e fumaça do que qualquer outra coisa; não havia sangue; socos e safanões em geral não acertavam o alvo, um grande motivo de riso. Era assim no teatro, no circo e nos filmes desse momento.

Onde, afinal, esquecemos a nossa inocência?

Segunda, 10 Março 2014 08:43

Tolice das vaidades

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Ele chegara por aqui vindo do Canadá. Era colega de profissão, gente do bem.  De vez em quando a gente se reunia num almoço ou jantar e em uma dessas ocasiões ele revelou verdadeira adoração por essa atleta espetacular.

 

Não prometi nada a ele. No íntimo imaginei que poderia chegar a ela através de um amigo próximo e lhe pedir o autógrafo paraalegria do meu amigo estrangeiro. Entendia o significado disso para ele trabalhei com afinco. Já consegui esse tipo de coisa a muitos estrangeiros. Não é um bicho de sete cabeças.  

 

Comecei ligando para o clube a que ela pertencia.  Não obtive sucesso.  Depois, liguei para o clube de novo, agora como amigo do Dr. Fulano de Tal que me recomendara, assim, assim... Não havia recomendação mas sabia que podia usar o nome do meu amigo Fulano.  Após vários um momento por favor’, veio a resposta.

 

Era um assessor do mito: contei a estória que se tratava de um estrangeiro que a vira num torneio não sei quando, não sei onde,patatipatatáe que desde aquele momento passara a ter uma grande admiração pela atleta.

 

Sei, sei...

 

Pois é. E essa pessoa encontra-se na cidade e gostaria poder levar um autógrafo, como uma cortesia da atleta e uma lembrançado meu paísProntifiquei-me, no ato, a ir apanhar o autógrafo, onde quer que fosse.

 

Não, não, isso não é possível. Isso faz muito tempo e não faz mais sentido.

 

Pensei em contra-argumentar mas me senti vencido, por um safanão inesperado e um tanto injusto.

 

As pessoas públicas, que carregam com classe a dura tarefa da fama, são, como o próprio nome diz, públicas. Públicas da cidade, do Estado, do País ou do mundo. É quase uma sociedade anônima sem fins lucrativos! É como se cada indivíduo da terrativesse um pedacinho de direito virtual sobre aquela pessoa. Pessoas assim viram mito, criam-se estórias sobre a sua vida,comportamento, excentricidades.  O mito não pode decepcionar.  A pessoa, sim.

 

Outro dia folheando uma revista antiga enquanto aguardava minha vez num consultório médico, lá estava uma nota e foto da atletaa testemunhar a marcha do tempo...

 

Lembrei com ambígua calma da desilusão do autógrafo, hoje sem maior importância. O mito pode ser eterno mas as pessoas podem ser cada vez menos lembradas, ou até mesmo esquecidas...   

 

Aquela foto, bordas amareladas pelo tempo, me fez refletir sobre tolice das vaidades dos homens!...

Sábado, 01 Março 2014 22:07

Uma estória real

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Já estávamos sentados à mesa, pedido feito, aguardávamos os aperitivos quando ele inesperadamente pede licença e sai.   Imaginei que quisesse lavar as mãos.  Saiu pela porta dos fundos onde ficava a piscina infantil, ali mesmo, entre o restaurante e o mar azul debruado de areia branca.  Muito verde, um vento quente e um clima de paz.

Colocou uma das mãos na testa, aberta, como viseira, e parecia procurar na paisagem um ponto referencial.   Percebi que havia algo.  Pensei em deixá-lo a sós por alguns instantes mas logo decidi oferecer o ombro amigo.   Abriu-se e contou.

“Passei  por aqui há 30 anos. Nesta piscina infantil, ele brincava como qualquer criança, alegre e feliz.  Eu o apreciava de longe, orgulhoso.  Passadas as férias, voltamos ao nosso país e nos submetemos à agitação do trabalho e ao trabalho lento do tempo, cadenciado em dias, semanas, meses, anos. E de repente, aquela criança se tornara  adulto, forte, pronto para concorrer com quem quer que fosse, até com o pai. Foram tempos difíceis. Sofria vendo-o distante, alheio à minha vida e muito comprometido com a vida dele, de seus amigos e amigas.  Aquilo era doído e entendia como fase da vida. 

Lembrei-me dos meus vinte anos e isso me confortava. Lutávamos, recém-casados, em busca de progresso profissional, e todo o mais era secundário.  É assim com todo mundo. Se de um lado queremos que as nossas crias permaneçam por perto, por outro os filhos querem independência para traçar seu próprio destino, soerguendo-se por si só de seus tropeços.  Achava que era assim mesmo.

A gente vivia sob o mesmo teto mas a nossa comunicação era precária. Um dia, caminhando pela região em que trabalhávamos, nossos olhares se encontraram, por acidente, na hora do almoço. Foi um diálogo de olhar, um entendimento. Ele estava rodeado de colegas, a caminho de um restaurante. Um rápido aceno correspondido e lá estávamos juntos. Trocamos abraços e beijos e dirigindo-se aos seus amigos ele diz:

- Este é o meu pai, gente.  E ele vai nos dar o prazer de nos acompanhar no almoço, não é mesmo pai?

- Obrigado, filho.  Será um prazer, pessoal. 

Almocei a felicidade desse momento e tudo voltou a fazer sentido”.

Ao contrário das tartarugas que voltam por instinto às mesmas praias para depositar seus ovos, de onde seus descendentespartem para a aventura da vidao meu amigo francês estava ali, por acidente, para desenterrar lembranças naquelas praias brancas, quentes, cercadas de ilhas, no Rio de Janeiro.

 

 

Domingo, 23 Fevereiro 2014 08:23

Diálogo com frutas

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Frutas como melão e melancia são verdadeiras caixas de surpresas.
Melancia parece mais fácil de comprar. Várias barracas de feira e mesmo certas vendinhas e supermercados disponibilizam o produto em metades, quartos,com acesso a uma avaliação visual do produto, até mesmo degustação. Raro encontrar degustação de melão no ponto de venda.
Na compra de melão às cegas a gente acaba levando pra casa um abacaxi!
Era assim até descobrir o homem capaz de dialogar com as frutas.
Baixote, gordinho, do alto dos seus trinta e tantos anos no negócio, o Sr. Mizael é, sim, capaz de estabelecer diálogo com os melões.
Melhor dizendo, capaz de estabelecer diálogo com frutas. Acredite.
Fui em busca de um melão e ele prontamente rolou alguns para cá, outros para lá, e logo disse “este aqui”; era uma sentença. Como investigador a aplicar técnicas e truques para arrancar confissões de seus interrogados, ele primeiro aperta os fundilhos dos melões com seus polegares gorduchos.
Depois, segura a fruta com a mão esquerda e joga levemente para cima, como quem confere o peso, girando sutilmente o melão com o eixo da fruta à altura do peito, aplica-lhe palmadinhas, certamente o ultrassom caboclo que utiliza para determinar o estado de maturação e doçura da fruta.
- pode levar, estará perfeito em dois dias.
E estava.
Seus métodos mais parecem uma transferência de arquivo via Bluetooth da fruta para ele!
Certa vez, após realizar as avaliações de praxe ele se dá conta de que o melão Cantaloupe estava bom para comer imediatamente.
Não teve dúvidas, partiu e me ofereceu uma prova, talvez a prova mais eloquente da precisão de seus métodos
. Estava esplêndido: coloração salmão intensa, sobre casca fina verde, suculento, doce e, sobretudo, cheiroso.
- veja um para comer em dois ou três dias, por favor.
Uma vez mais a rotina de interrogatórios com a fruta, apertadelas, sacudidelas, alguns safanões bem desferidos e logo a confissão da fruta através do ventríloquo, o Sr. Mizael: este estará perfeito em dois dias!

E estava.

Borboletas
Domingo, 16 Fevereiro 2014 10:11

Borboletas

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Essa estória de andar atento às coisas que estão por aí, aparentemente sem nenhum significado, é uma ocupação lamentável. Vivemos construindo coisas do nada, como borboletas a praticarem seus bordados complexos no ar em seus voos trêmulos e que se apagam de repente, permanecendo apenas vaga lembrança daquele momento fugaz.

Como não entendemos o código de comunicação das borboletas – o borboletês – emprestamos significados humanos aos traçados. Puxamos o assunto de um lado, esticamos do outro, na expectativa de extrair algo proveitoso, que faça algum sentido e provoque reflexão.

Difícil, às vezes, meter o bedelho em certos assuntos humanos... Há temas suculentos, outros menos promissores, alguns áridos que não raro levam a superficialidades. Desta vez, o risco é de ferir suscetibilidades. Melhor tirar as crianças da sala.

Dias atrás uma loja feminina nos Estados Unidos exibe em suas vitrines nova coleção de lingerie. Para chamar a atenção do público, vestiu os manequins com algumas versões de calcinhas deixando vazar na lateral, digamos assim, uma peruca artificial. Foi proposital. Pronto. Estava aberta a temporada de exploração de cortes e penteados íntimos.

A internet bombou. Consta que os salões se encheram de vozes e murmúrios jocosos. Discussões apaixonadas nos toaletes... Até a TV entrou nessa conversa que até recentemente era cochichada nos salões!... As mulheres mais avançadas ainda defendem o Brazilian bikini wax, uma derrubada total da área que permite o uso dos biquínis brasileiros que Nelson Rodrigues já cunhara como a “forma mais desesperada de nudez”.

Essa moda brasileira exige sofrimento dobrado, quero dizer, frente e verso. As mais maduras ponderam sobre as vantagens do corte “pista de pouso” que é recorte capilar baixo, como um acento agudo estilizado. Esse topete, por assim dizer, disfarça possíveis imperfeições que o tempo tenha produzido na área, além de trazer a coisa a valor presente, ar de modernidade. Há ainda quem se submeta a onda hitleriana dos bigodinhos, como apresentação mais protocolar, almofadinha.

Mas há defensoras ferrenhas da preservação da grama alta ou, como preferem, da “mata atlântica intocada” num padrão rígido, ecologicamente correto. Essa postura mais natural permite alterações do corte para acompanhar a onda da moda, contrapondo-se à ideia da poda definitiva através de tecnologias modernas como laser e afins. Pois a internet jogou o assunto no ventilador pros quatro cantos da terra. Olhando assim, rápido, o assunto é banal e pessoal. Tem a ver com usos, costumes, fetiches... É uma revoada de borboletas, ou uma sequência de saltos de pererecas, cujos desenhos carecem de interpretação.

Com atenção maior, tudo a ver com a banalização e espetacularização das coisas e um apelo cabeludo do pessoal do marketing! São sinais dos tempos de que tanto se ocupam profetas, ainda nos dias de hoje. São tempos de banalidades como os desenhos das borboletas e que nós – da ocupação lamentável – procuramos tirar a casquinha do quinhão que nos toca. O certo é que, no fundo, entre borboletas e pererecas, mata atlântica, grama alta, ainda conseguimos construir, de raspão, algo útil do ponto de vista da ecologia...

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