Exemplos
Segunda, 13 Janeiro 2014 18:08

Exemplos

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Com a chegada do verão, lembrei muito delas. Eu já as conheço há anos. Até hoje não sei seus nomes, nem a família a que pertencem. Nunca fomos apresentados formalmente, digamos assim. Desfrutam de água e sol, como qualquer indivíduo nas cadeiras, esteiras, toalha ou coisa que o valha. Coisas da praia. A gente pensa que se conhece, frequenta o mesmo espaço, cruzamos e trocamos olhares. Pouco sabemos um do outro, no entanto.

Falo daquelas arvorezinhas, coitadinhas, que brotaram nas muretas de arrimo, ao lado da cancha de bocha, na praia das Astúrias. Elas são exemplo espetacular de persistência. O primeiro desafio do seu ímpeto vegetal foi vencer a massa que rejunta as pedras da mureta. Aí brotaram e se desenvolveram. Depois, os troncos curvaram-se na desesperada busca de água, quando o mar, por capricho das marés, lhes cortava o fornecimento. Até mesmo os turistas, moradores locais, pessoal da limpeza da praia, todos, lhes pouparam a vida, talvez mesmo por esse espírito de solidariedade que a praia irradia.

Aquele cantinho das Astúrias, entre alguns barcos de pesca e cabos esverdeados de limo, já foi espaço de venda de peixe. A área já foi muito poluída. E as três arvorezinhas souberam vencer essas dificuldades, esses momentos... Hoje, adultas, dividem espaço com senhores igualmente maduros que se divertem com o jogo de bocha, ali, bem ao lado delas, e com as tartarugas marinhas que dialogam com a natureza do entorno para deleite dos turistas...

Na posição privilegiada em que se encontram, essas árvores contemplam a enseada das Astúrias e a bela vista das Pitangueiras. Ali, resignadas, na condição de excepcionalidade, parecem cumprir a missão de transmitir a ideia da perseverança àqueles que buscam a praia como refúgio de angústias e preocupações:

-“com determinação, tudo é possível”

É isso que nos dizem, lá da mureta, essas arvorezinhas simples, anônimas, troncos atrofiados, galhos vergados em forma de concha para matar a sede. Ali na praia, esse lugar democrático, onde todos parecem iguais, elas nos ensinam que não é bem assim. Elas são o testemunho de que ocupamos o mesmo espaço mas cada um, individualmente, é responsável pelo seu destino.

Criado-Mudo (Ano 15 d.G)
Domingo, 05 Janeiro 2014 15:39

Criado-Mudo (Ano 15 d.G)

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Nas casas de famílias abastadas, a criadagem era responsável pelos serviços da casa de seus senhores e realizavam também os pequenos favores. Suprimida a criadagem por evolução da sociedade, vieram os mordomos, empregados atenciosos e impecavelmente vestidos, para exercer essa função.

Ainda existem mordomos profissionais por aí mas os criados-mudos foi solução simples e bem eficiente: não fazem grandes favores ao seu senhor, é verdade.  Mas ajudam. São suportes para abajur, livros, óculos e suas  gavetas servem como depósito para depósitos de cartelas de remédio, cardápios de pizzas e outras coisas mais.  Se não desempenham todas as funções, têm vantagens: não há salário nem férias, muito menos remuneradas e, sobretudo, não resmungam nem torcem o nariz das caturrices e manias de seus senhores...

Aproveitei o início do ano para por ordem nas gavetas do meu criado-mudo, como fazem as pessoas. Encontrei uma porção de tranqueiras que, lá atrás, seria um sério grilo na cabeça da criadagem: põe esse clipe ali na primeira gaveta! Guarda essa tampa de caneta esferográfica numa dessas gavetas, um dia a gente pode precisar; coloca essas pilhas velhas na terceira gaveta! Veja se você encontra em uma dessas gavetas uma bula de remédio; tenho certeza que coloquei em algum lugar por aí...

Quando vi essas coisas inúteis nas minhas gavetas, ao lado de uma maçaroca de papéis, menus de disk-pizza, cartões de visita, extratos bancários, dificultando o fechamento das gavetas, tomei a decisão de fazer uma limpeza tolerância zero!

Tinha, ali, documentos que guardava com muito carinho.  Eram preciosidades que me acompanhavam há anos.   Abri a primeira gaveta e dei de cara com um recorte amarelado de revista, com o desenho da planta dos pés, relacionando a posição de cada órgão do corpo humano na palma do pé!  Massageando aquele ponto do pé, o beneficiado seria o órgão relacionado.

Depois, outra preciosidade:  um manual sobre saúde do coração, riscos e ameaças à saúde do coração e até regras seguras  de conduta alimentar.

Havia um resumo impresso, muito prático e simples, sobre “O que muda com a Reforma da Língua Portuguesa” organizado por um jornal em 20 de agosto de 2007.

Tudo muito interessante mas são coisas antes do Goggle, achados a.G, essa ferramenta de busca fundada há 15 anos.

Corri para o computador, acessei o Google, digitei “mapa da planta dos pés” e apareceram 104 mil sites, com foto e tudo!  Digitei “coração, pressão arterial e dieta alimentar”: 61 mil e oitocentos sites.   Procurei “O que muda com a reforma ortográfica” e encontrei 609 mil sites.

Moral da estória: ao guardar essas coisas como “manuais definitivos”, estava na verdade trabalhando com informação reduzida, limitando meu conhecimento. 

Ainda estou otimista que o Google possa oferecer destino razoável aos clipes enferrujados, pilhas velhas e bulas de remédio que ainda habitam meu criado-mudo... Fica para uma próxima arrumação, talvez no ano 16 d.G.

 

Domingo, 29 Dezembro 2013 19:23

Feliz recomeçar

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Ali sentado, apreciando displicentemente o deslocamento daquele navio no mar azul, a reconfirmação de que é coisa humana desafiar a natureza.  Temos que dominá-la, subjugá-la, vencê-la.   Quando não é possível nenhum progresso por caminhos convencionais, tratamos de modificá-la ou ajustar nossos esforços para, por fim, colocá-la a nosso serviço.

 

Esta embarcação enorme é apenas mais uma façanha humana. Com suas toneladas de aço às costas, navega em alto mar, cortando o grande pano azul profundo. Deixa em seu caminho uma renda de gotículas de água desenhada em matizes de azul e que vai se desbotando, apagando, até se transformar em bolinhas prateadas que se perdem, anônimas e iguais, no grande azul do mar.    

 

São ondas de diversos tamanhos e que se dividem em ondas menorese que se entregam ao incessante ir e vir, numa eterna agonia por espaço.  Parecia coisa simples assim, gratuita.  Percebi depois que se tratava de um embate.  O mar convive comondas que se mexem e se ajeitam e disputam espaços e se multiplicam em ondas cada vez menores e mergulham entre outrasondas, até se perderena indigência da imensidão das águas...

 

Olhando, assim, com essa visão humana das coisas, lembrei muito da terra, nosso porto seguro, onde também perseguimos nossos espaços.  É aqui, sim, que travamos as nossas batalhas, até com nós mesmos. Hápor certo, resultados dignos, gloriosos.  Outros, efêmeros, banais, e que serão igualmente esquecidos, como o embate das águas, na vala comum das indigências humanas.

 

Um par de gaivotas riscava o céu azul com seu voo branco. Depois, outras sobrevoavam em torno do navio. Planavam ao sabor das correntes de ar. De vez em quando juntavam as asas ao corpo e mergulhavam como flechas, sumiam por algunsinstantes e depois decolavam de novo com suas conquistas.  Quanta beleza nessa pintura monótona da natureza!  E quanta verdade na luta pela sobrevivência! Mas a companhia das gaivotas não era parte do programa de animação a turistas. É que o deslocamento do navio remexia os cardumes e as gaivotas realizavam seus banquetes. Eram pássaros especializados em trabalho em alto mar.  Esse é o trabalho das gaivotas: trabalhar o dia inteiro em busca de alimentos, como fazem os homens.

 

- “não são gaivotas, são albatrozes”, comentou um passageiro ao meu lado.  Que diferença faz?

E foi diante de tudo isso que me dei conta da solidão dos barcos em suas jornadasda solidão e monotonia dos tripulantes;da solidão dos passageiros; da solidão das gaivotas.  O mar é um oceano de solidão.

 

Mas aprendi também que o segredo é viajar, não é chegar.  É percorrer estradas, aprender de suas margens e paisagens, escolher atalhos, buscar caminhos, atolar-se mas ter a determinação de se rebocar com seus próprios guinchos a cada recomeço.

 

Feliz Ano Novo!

 

Papai Noel
Domingo, 22 Dezembro 2013 10:12

Papai Noel

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Quando lemos, construímos uma imagem. Quando contamos estória a uma criança, ela também cria uma imagem.  imagem que se faz por meio da leitura guarda semelhança com aquela que se forma quando contamos uma estória.  Dizem, contudo, que a imagem da leitura é captada pela razão enquanto que as estórias contadas são registradas pelo coração.

 

A imagem do Papai Noel que guardo no meu coração não era de um homem, nem mulher, talvez nem humano fosse. Não tinhanascido nunca, também não iria morrer jamais. Idéias plantadas no coração não morrem nunca! Seu idioma era o Ho! Ho! Ho!. Um amontoado de generosidade.  E foi assim que passei a amá-lo, deixando-me um questionamento, ou, como digoa dúvida do golfinho:  ele gosta do peixe que recebe de agrado ou da brincadeira?   Eu muitas vezes fiquei nesse impasse se gostavaefetivamente do Papai Noel ou do presente que ele trazia.  Ou se gostava mesmo daquele segredo que só ele sabia de como entrar de mansinho na casa de milhões de pessoas, ao mesmo tempo.

 

- não é ao mesmo tempo, menino, é por isso que tem fuso-horário, dizia o adulto.

 

Outro segredo: o tamanho do caminhão em que transportava aquela montanha de presentes. Queria saber como se compunha sua equipe. Queria descobrir se tinha assistentes, subgerentes, gerentes distritais, correspondentes internacionais. Como era, então, aquele trabalho, tão amplo e grandioso? Como poderia saber se a gente tinha se comportado bem durante o ano, ou não?

 

se você não encontrar um presente ao acordar no dia 25 é porque o Papai Noel quer que você reflita sobre suas ações no ano prestes a terminar, me falaram certa vez.

 

Se existisse mais de um Papai Noel, teríamos que nos acostumar com o plural Papais Noéis, como ensina a norma culta.  Pois faço saber a todos que neste Natal houve uma abundância de Papais Noéis em carne e osso:  brancos, morenos, com barba, sem barba, magricelos e gorduchos, corados e empalamados caiados de ruge...  Foram flagrados aos montes distribuindo bombons, abraços, beijos e afagos às crianças nos shopping centers, restaurantes, lojas e supermercados; até nos semáforos distribuindo anúncios de imóveis e mesmo no papel de flanelinha!...

 

E foi aí que caiu a ficha. Nenhum deles era o Papai Noel de verdade que estava registrado no meu coração, desde criança.   Eu não quero esse tipo simples, como qualquer um de nós.  Quero um complexo, misterioso, mas sobretudo que aparece uma e uma única noite e que, na pontinha dos pés, encha de sonhos os sapatinhos deixados ao lado da cama.

 

Com essa abundancia de Papais Noéis nas ruas pensei, por um instante, que o arquivo do Papai Noel que guardava a sete chaves no meu coração havia sido corrompido. Não!  Era apenas a magia do Natal.

 

Feliz Natal !

Violoncelo
Sábado, 07 Dezembro 2013 18:01

Violoncelo

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Apareceu na estação e logo se destacou na paisagem. Acima de um metro e oitenta de altura, ereta, calça cinza, justa, enfiada no cano alto da bota preta, blusa de tecido igualmente cinza enfeitada com flores em tricô, arrematadas com botões de metal dourado simulando pólen.  Por cima, um sobretudo preto corte evasé, botões abertos.

O que chamava a atenção não era seu traje, seu porte altivo, sua postura elegante, ou sua beleza natural.  Era um enorme estojo branco, fechadura e dobradiças douradas, preso às costas como mochila.  Adesivos vermelhos indicavam em inglês “frágil” e “orquestra filarmônica de Londres”.    Era um violoncelo. “Cello”, em italiano, como alguns preferem...

Entrou no metrô na linha Piccadilly no aeroporto de Heathrow em Londres, colocou o estojo em pé diante de si e o segurou pelas alças.  O trem partiu, ditou o seu ritmo e o cello o acompanhou num balanço mudo.   A cada solavanco na intrincada malha metroviária londrina, o cello solfejava, sonolento, as notas da canção dos trilhos, indiferente ao rosto da artista de olhar triste perdido na partitura monótona dos trens.

De repente, abrem-se as cortinas da imaginação.  O cello e a artista entram no foco de luz.  A moça com seus dedos longos aperta cordas, num tremelique típico, e com a mão direita faz deslizar o arco de pau Brasil em busca das notas para a plateia heterogênea, gente de todos os lados do mundo, de tribos diferentes, origens e destinos diferentes, passageiros de um trem da vida qualquer, em êxtase pela apresentação calada de um cello aprisionado num estojo branco com segredo dourado e uma artista tomada pela fadiga.

Ainda recordo a foyer, galerias, camarotes e seus detalhes em ouro sobre a pintura branca. No chão, um tom avermelhado salpicado de poltronas de mogno.  Nada mais saltava mais aos olhos, no entanto, que a imagem triste da artista, fatigada, tal como notas de melancolia de cântico gregoriano, acompanhadas pela batucada dos dormentes e lamentos do trilho do trem.

Não houve aplausos.  A estação dela chegou.  Saiu com seus apetrechos e eu fiquei com lembranças de encantamento daquele momento...

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Domingo, 01 Dezembro 2013 07:37

O lucro

Escrito por Rosélio da Costa Silva

O grande rei dos séculos é o lucro.  Nenhum reinado durou tanto.  O sistema capitalista é imperfeito, com ética própria, mas o lucro é uma perfeição em matéria de adoração:  é o santo mais bajulado, para ele valem todos os argumentos, subterfúgios e engenharias ardilosas,  honestas ou quase.

 

Talvez não seja por outra razão que o lucro se esconde  nas operações chamadas genericamente de negócio.  E em matéria de negócio, a flexibilidade é geral. Quase um vale tudo.  E essa busca desesperada e incessante do lucro, tem desencadeado uma profusão alarmante de produtos.  Todos eles rezam ladainha astuciosa, prometem “utilidade”, “vai ajudar a sua vida”, “vai fazer a sua vida mais feliz”, “você ficará mais remoçado” e pérolas semelhantes.  Por trás de tudo isso, o lucro.  Até a linha de remédios coloca em suas cápsulas, comprimidos e vidrinhos, a bula do lucro.

 

Essa carniça do capitalismo, o lucro, terá que contemplar toda a cadeia: o inventor ou produtor, os fabricantes de matérias primas e outros insumos, mão de obra, a fúria arrecadadora dos governos municipal, estadual e federal, o atacadista, o varejista, o transporte, as companhias de seguro e uma lista infindável de interesses.  Esse puxa-puxa, empurra-empurra, puxa-encolhe, encolhe- puxa, é o que atende pelo pomposo nome de forças do mercado.

 

Na desesperada caça ao lucro, alguns produtos passaram à margem das leis  darwinianas da evolução da espécie.

 

Lanterna, por exemplo, que ao lado de guarda-chuva, sombrinhas, facas, tesouras e alguns outros apetrechos atravessaram os tempos incólumes a mudanças. Alguns acompanharam os tempos, agregaram atualizações físicas e tecnológicas, por vezes até exorbitando usos e finalidades.  Ainda lembro que a indústria incipiente fabricava um abridor de garrafas, naturalmente para extrair a tampa das garrafas!   Com a evolução, foi fácil identificar 2 em 1, 3 em 1 e até 4 em 1.   Um abridor de garrafas moderno que se preze já incorpora algumas outras funções!   Ou, talvez seja mais fácil encontrar um outro produto que ofereça, de brinde, um abridor de garrafas.

 

Os relógios passaram por algo parecido: feitos para marcar as horas, saíram dos grandes móveis do passado e foram para asparedes; depoismigraram para a algibeira, para o pulso, e hoje marcam hora, altitude, pressão atmosférica, dispõemcalendário, bússola, cronômetro, batimento cardíaco mas, sobretudo, a grande parte migrou das joalheria finas para as casas de moda e, depois, para as barracas do comércio brega das ruas do mundo...

 

Alguns produtos, no entanto, foram submetidos a debochadas plásticas que passariam por ilustres desconhecidos não fossepela manutenção da utilidade original.  É o caso dos aparelhos telefônicos.  O celular é ao mesmo tempo telefone, máquina fotográfica, filmadora, relógio (digital e analógico), despertador, agenda, GPS, calendário, lanterna, e ainda pode informartempo, temperatura e horário em qualquer lugar do mundo e muito mais...  O velho aparelho preto de baquelita de ontem já assumiu, há muito tempo, sobriedade jurássica nas feiras de antiguidades!  Foi uma envelhescência extraordinariamente rápida, definitiva.

 

O que chama a atenção nessa desesperada corrida em direção ao lucro é a ousadia de certas criações humanas.     Há criações despudoradas!   Para ir além da carne de porco, por exemplo, o truque foi matar o porco, retirar-lhe as tripas ecolocar a carne do porco moída e temperada por dentro.  Essa encheção de linguiça é vendida, às vezes, mais caro que filé mignon!  É o preço do lucro...    

 

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Sábado, 23 Novembro 2013 09:44

O grito dos indignados

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Se o processo do mensalão deixa à sociedade um graurazoável de satisfação de justiça, sem cheiro de revanche ou vingança, deixa também uma dúvida intrigante:  como situar os chamados destemperos do ministro Barbosa?

 

À primeira vista, parece reação advinda de espírito mal-assentado na cadeira da mais alta corte do País, incomodado por ressentimentos colhidos ao longo de suasbatalhas pessoais e que por vezes emergenos momentos menos inesperados, com tons dissonantes à natureza do cargo.  Essa seria interpretação apressada, rasteira, com que alguns podem pretender pichar a brilhante carreira doministro.

 

O  mais plausível é que as reações do ministro traduzamexpressão de desabafo nacional diante da fragilidade da cidadania, diante da precariedade de forças para vencer obstáculos, diante do cansaço de investidas bem-intencionadas e até mesmo da banalização da autoridade.  Essas reações são as mesmas que enfurecem , cá embaixo, brasileiros comuns  no varejo das injustiças, ou no grande atacado de impunidades de que gozam certos agentes que teriam obrigação de oferecer exemplo, o bom exemplo.

 

Como não se indignar com o próprio sistema jurídico que se compõe de um emaranhado de leis que pela manhã manda prender e à tarde manda soltar pessoas que cometem crimes graves contra pessoas ou contra oEstadoEsse patchwork de leis, confeccionado ao saborde circunstâncias, considera mais grave o não pagamento de pensão alimentícia do que um homicídio repleto de agravantes; que manda prender, sem direito a fiança, o matador de jacaré ou o autor de contrabando de animais silvestres, enquanto oferece tratamento ameno, à la carte,a crimes hediondos, principalmente se praticados por gente de alguma influência; que vira às costas a pessoas de bem que não têm voz;  que intimida a sociedade areclamar  direitos pela precariedade funcional de seus mecanismos.

 

A voz do ministro traduz desespero dos fracos que se arrastam nas filas de hospitais, nas armadilhas da burocracia, na solidão daqueles que reclamam direitos legítimos mas que não são ouvidos...  

 

Aos olhos do povo, essas reações do ministro sãoarremetidas de um ídolo destemido, justiceiro, que os abutres de plantão insinuam, aqui e ali, que ele pode, sim, ser útil à conquista de espaços políticos, tudo a serviço da pequenez da politicagem.  Já há rumores do ministro candidato, no voo sondagem das rapinas.  O justiceiro, talvez, seja a esperança enrustida no inconsciente coletivopor ídolos que possam exercer o papel de porra-louca do bem para moralizar este grande país pequeno.

 

É  assim que agem pessoas submetidas a  pressões dentro do frágil casulo de ofícios e deveres quando se lhes mínguam forças, quando expressões mais  civilizadas mostram-se impotentes e   a natureza ou solenidade de cargos vão às favas.  

 

A objetividade do ministro parece desabafo de mais um brasileiro no limite de suas forças.  É apenas mais um grito dos indignados. Pode ser uma leitura.

 

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Domingo, 17 Novembro 2013 08:20

O enigma de Yuri

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Quem não frequentou um bar na juventude que atire a primeira pedra.  Todos frequentamos. O bar nosso de cada dia não serve sópara tomar umas e outras.  Serve também para bebericar lições de vida dos humanos.   Há gente que frequenta bar e não bebe. Vejo, no entanto, que – apologias à parte - bar e  bebida se harmonizam plenamente.  Tudo a ver.

O bar preferido da turma ficava na rua da frente. Tinha uma entrada lateral que levava a um deck de madeira que avançava rio adentro.  Ali embaixo do deck as ondas do rio cochichavam intimidades corriqueiras com um amontoado de pedras.  Em cima, os homens bradavam masculinidades, expunham fraquezas, esmiuçavam amenidades, reafirmavam convicções... e bebiam.  Ali contávamos  aventuras, recheadas de fantasias, diante de plateia dividida em cotas de admiração, dúvida e incredulidade. No ambiente do bar, tudo vale.

- "O bar da juventude é tão essencial ao desenvolvimento dos homens que sua frequência deveria ser obrigatória" observou um freguês assíduo, voz pastosa, certa vez.

 

-“depois destas cervejas,a única forma de provar a minha tese é através de um gráfico. Cadê o cavalete, o flip-chart?, disse outro no desesperado desejo de explicitar sua tese.

 

Ponha essas colocações  num copo baixo, acrescente rodelas de limão, amasse  bem, açúcar, gelo a gosto e... pronto: aí está um drink  de alto teor alcoólico!

 

Ainda não tinha idade para cervejadas mas pintava por ali de vez em quando para os primeiros movimentos, por assim dizer. Ali conheci vários tipos humanos e ainda sou capaz de descrever alguns deles.   Mas aquele homem triste e solitário, olhar fixo natulipa suada, como quem  aguarda  pacientemente suas respostas, é um cartão postal inesquecível.  

Por essas coincidências aparentemente inexplicáveis, eu e ele viramos colegas de trabalho.  Chamava-se Yuri.  Vinha lá das bandas da União Soviética.  Baixote, caminhava de cabeça baixa, braços ligeiramente dobrados e afastados do corpo, como um cowboy. Homem de poucos relacionamentos.  Naquele fim de tarde quente, ao entrar no bar,   ele me acena com um convite para sentar à sua mesa.  Aceitei.  

 

Deixou seu país e suas guerras para se entrincheirar e lutar em seu próprio front.  O bar era sua trincheira favorita.  

 

Foi um longo aprendizado.  Eram coisas novas para um ribeirinho simples acostumado ao noticiário local, longe das questões nacionais ou internacionais.   Contava estórias de vários países por onde passou. Falava principalmente  de  coisas da CCCP (era como se referia à União Soviética), do comunismo, Lênin, Trotsky, Marx, pura gasolina no colchão de palha seca em que se vivia na segunda metade dos anos 60. Não era comunista, era cervejista shiita,  como a procurar resolver o “enigma de Yuri” através de rodadas torrenciais de cerveja.

 

Aquelas conversas me deram a dimensão e a importância do bar: é um lugar especial, diferente, aberto, democrático, ambivalente.  Ali desabafam-se erros, contam-se desacertos, defendem-se convicções,  remoem-se velhas questões,  rixas, amores, mas também serve para libertaa alma.     Para o meu amigo  solitário, era área de reflexão, tendo como testemunha aquela tulipa suada.   Para a maioria dos homens,   sala de grandes debates, com direito a  recreação.

 

 

Segunda, 11 Novembro 2013 09:20

O endereço do silêncio

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Fragmentos do muro de BerlimFragmentos do muro de Berlim

Eu não sabia onde ele morava. Já o conhecia dos templos, cerimônias, mas desconhecia suas outras manifestações, muito menos imaginava seu endereço definitivo. Falo do silêncio.

O silêncio tem símbolos, pegadas, marcos. Em tudo, uma expressão grave. Não há símbolos de regozijos. É um lugar vazio e cheio de sensações estranhas. Ali, há um silencio ruidoso disperso sobre o nada, tal qual cinzas espalhadas por todos os cantos como sofrimento em pó.

É um sítio cheio de lembranças e todavia de vazio profundo, tumular; cheio de emoções fortes, confusas, e ainda vazio de pessoas; uma mistura de vida com o fantasma assustador da ausência; há, ali, pulsar de lembranças, sem os batimentos do coração. Batimentos da alma, apenas.

Há no chão as marcas onde por 28 longos anos havia tirania, soldados, guaritas, grades de ferro, pontos de observação, limites. Além do muro e da grade de ferro, arame farpado, a faixa da morte, o corredor dos cães. Tudo desenhado no chão, como planta baixa. Quando essas contenções existiam, era inescapável o sacrifício dos desobedientes. Houve baixas e houve feridos, castigados por ameaça de fuga.

Marcas do chão do 'muro da vergonha'Marcas do chão do 'muro da vergonha'

 

Por ali passava o Muro de Berlim, hoje o endereço do silêncio. É ali que ele se aloja, desajeitado, em meio a chagas do passado; em meio a turistas que dizem suas preces, prestam homenagens silentes, como expiação à brutalidade dos homens. Ali se encontra a paz desassossegada, a circular em convulsões pelo espaço coberto de grama virente. Ali vive o silêncio perturbador a questionar a História.

O muro passava na Bernauerstraße, em Berlim. Grafado assim mesmo, como esse símbolo desajeitado do alfabeto gótico. O leitor não deve se assustar. Basta pronunciar com o valor de dois esses e pronto. Esse símbolo parece permanecer aí como advertência à letra esse de SILÊNCIO.

Domingo, 03 Novembro 2013 07:48

As mãos

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Eu não lhe via o rosto, apenas as mãos. Usava esmalte rosa claro, discreto. De vez em quando colocava um braço atrás dacabeça, como travesseiro; depois, o outro em revezamento. Distraída, ou quem sabe nervosa naquela aeronave, tamborilava opescoço com a ponta dos dedos.  Em algum momento, enfiou os dedos abertos nos cabelosnuca acima, numa coreografia a duas mãos apreciada pelo passageiro da poltrona de trás.

 

O privilégio não estava na coreografia propriamente dita e sim nos atores principais: mãos e dedos... Mãos de santa, puras, limpas, dedos compridos, proporcionais.  Conhecer a parte desencadeara vontade desesperada e inadiável de conhecer o todo. Quem seria a dona das mãos de santa? Será que o acabamento do todo corresponderia ao acabamento caprichado das mãos?

Por um breve instante me veio à lembrança a moça de mãos bonitas por quem um dia verguei à tonteira do amor no raiarsorridente da juventude mas alguns poucos solavancos do avião me fizeram pousar de novo na realidade...

A viagem continuava e minhas indagações seguiam o mesmo curso.  Queria conhecer a rosto, dono das mãos.  Queria conhecer o sorriso.  Queria ver a combinação do porte físico com a beleza das mãos mas, desgraçadamente, não havia nada além das mãos. Elas falavam, ouviam, olhavam. Contive-me depois que me assaltou a ideia de que aquelas mãos bonitas poderiam ser algumdisfarce capaz de decifrar as combinações de minhas elucubrações...

 

Mais adiante especulei sobre o físico que combinava melhor com aquelas mãos: dei-lhe um corpo esguio, acinturado; arrumei um par de pernas lisas, alongadas, montadas em coxas firmes, saudáveis.  Mais tarde, me invade a ideia dos afagos que aquelas mãos teriam concedidos, quantos acenos, cumprimentose isso gerava expectativa ambígua de encontro e separação...  

 

Na hora do desembarque, um passageiro cortês permitiu que ela passasse à frente, como quem diz “senhoras com mãos bonitas,primeiro”, e lá se foi ela naquele bolo de gente a descer do avião às pressas.  Pude observar apenas uma camisa de listrascoloridas miúdas, mangas longas, punhos brancos abertosclassuda.  Nada mais.  E perdeu-se na multidão de apressados, sem tempo para adeus a desconhecidos...

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