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Paulo Roberto Ferreira

Paulo Roberto Ferreira, jornalista e professor.

ferreira.pauloroberto@gmail.com

Os estranhos e complicados nomes científicos

Os estranhos e complicados nomes científicos

Setembro já se aproxima e começa também a temporada da florada do ipê-rosa. Em alguns trechos da avenida Almirante Barroso, entre Júlio César e Tavares Bastos, em Belém, várias árvores exibem as suas belas flores, dando ao espaço público um colorido diferente, pois quebra a aridez do asfalto, do concreto da subutilizada pista do BRT, e da frenética circulação de veículos nas demais vias de rolamento.

O ipê-rosa, é uma planta brasileira que tem o nome científico de handroanthus. Estranho, né? Mas é assim mesmo. Nomes de bichos e plantas tem o latim como a língua oficial da ciência. Facilita o reconhecimento universal. Trata-se de um acordo. É por isso que a palmeira do açaí tem o nome de euterpe oleracea. A castanha-do-pará, de bertholletia excelsa.

E aí a gente fica curioso em saber o porquê a ciência se utiliza de uma língua praticamente morta. Para evitar confusão e facilitar o reconhecimento. Por exemplo, o cachorro é escrito em inglês dog e em francês chien. O Mesmo cão é chamado de perro em espanhol.

Ou seja, em cada lugar do mundo o mesmo animal tem um nome popular ou vulgar. Então a ciência padroniza e universaliza para os pesquisadores. O cachorro, que nós costumamos chamar de melhor amigo do homem, passa a ser canis familiaris.

O abacaxi, que agora está em plena safra, é conhecido por ananas comosus. Aqui pelo Norte do Brasil a fruta é chamada também como ananás. Mas, cuidado, existem certas variações que podem nos levar a engano. Por exemplo, o annas erectifolius é o conhecido curauá. E o que é o curauá? Uma bromélia semelhante a planta do abacaxi, que até produz um fruto pequeno, mas a sua principal riqueza está nas folhas, nas fibras utilizadas para substituir a fibra de vidro.

Muitos carros brasileiros já contam com painéis feitos com o uso da fibra do cuauá, que se reproduz muito nos municípios do Baixo Amazonas, especialmente em Santarém. O mel de abelha, largamente utilizado nas dietas alimentares, é fabricado pela apis mellifera, a conhecida abelha-europeia. Mas existe o mel da abelha nativa, também chamada de abelha sem ferrão que tem o nome científico diferente, são as meliponinis.

O búfalo, de origem asiática, cujo maior rebanho brasileiro está no arquipélago do Marajó, tem o nome científico de bubalus. O pirarucu, espécie nobre de peixe amazônico, arapaima gigas. E o saboroso acari? É o hipostomus affinis. Surubim é o pseudoplatystoma corruscans. Qual o nome científico da deliciosa fruta cupuaçu? Theobroma gradiflorum. E o bacuruí? Platonia Insignis.

Peixes saborosos, frutas gostosas, isso atiça a vontade de apreciar ainda mais ou conhecer a culinária amazônica. Mas não vamos chegar no “Mascote”, em Santarém, ou no “Avenida”, em Belém, e pedir um arapaima gigas, de forno, no molho do ananas comosus. E a sobremesa de theobrama gradiflorum, queijo de bubalus e mel de apis mellifera.

É bem possível que o garçom fique meio assustado. Mas também pode nos surpreender, positivamente, e nos oferecer uma caldeirada de pseudoplatystoma corruscans e sobremesa de creme de platonia insignis ou uma tijela de euterpe oleracea com farinha de tapioca. Aí já é demais! Pede uma rede embaixo de um bosque, de preferência que tenha uma handroanthus no meio do arvoredo.

"O que é necessário é criar”

Um aplicativo para controlar a dosagem correta na máquina elétrica de café expresso. Esta é a última novidade lá em casa. O Tiago está empolgado. O celular avisa a hora de desligar a máquina. São as facilidades da era eletrônica. Uma amiga relatouque outro dia assistia um programa de televisão quando, zapt, trocaram o canal. Só então descobriu que controle remoto estava compartilhado no celular dos filhos.

A guerra dos meninos para, através do bluetooth, dominar o sistema de som do automóvel, às vezes deixa os pais espantados. A mãe ouve uma canção, enquanto dirige. E o filho, sentado no banco de trás do veículo, muda para outro ritmo. A filha reage e troca o repertório novamente até que o pai intervém e põem ordem na viagem. Determina que ouçam a música que bem entenderem, mas cada um de seu aparelho celular. O som do carro volta ao controle da motorista.

Conviver com essas mudanças exige muita paciência dos que não estão na faixa dos adolescentes. Mas não tem jeito. Ou a gente se adapta ou muda de planeta. Exemplo disso é que neste dia dos pais, os aparelhos eletrônicos estão entre os presentes mais demandados. O difícil é fazer que o homenageado assimile todos os aplicativos e os símbolos do aparelho, que são cada vez mais amplos. 

As máquinas fotográficas, de uso doméstico, foram abandonadas. As câmeras dos celulares são cada vez mais eficientes. O despertador migrou para o aparelho telefônico, que também ganhou função de rádio e TV. E já desbancou também os aparelhos de som.  Está tudo dentro da caixinha. O bate-papo, as notícias, as imagens. As coisas boas e também as ruins. Claro, o mundo virtual é igual ao mundo real. Falta apenas o contato direto.

E quem já passou dos 50, 60 anos lembra o impacto provocado pelo filme de 1968, “2001 – uma odisseia no espaço”, roteirizado por Stankey Kubrick e Arthur Clarke, dirigido e produzido pelo primeiro. Viajamos também na ficção de George Orwell, “1984”, o livro publicado em 1949 nos remetia para o drama atual da quebra de privacidade. É também uma crítica feroz ao totalitarismo comandado pelo Grande Irmão, o Big Brother.

Quando Gilberto Gil lançou o seu “Expresso 2222”, em 1971, a minha geraçãoviajou na canção que nos lançava para além de 2001. Diz um trecho da música: “Dizem que tem muita gente de agora/se adiantando, partindo pra lá”. O mesmo genial Gil nos arrastava por outros mundos em “Parabólica Camará” de 1994: “Antes o mundo era pequeno/porque a Terra era grade/hoje o mundo é grade/porque a Terra é pequena”.

E o nosso caminhar é sempre em direção ao novo. O GPS está ao alcance de todos. Ninguém se perde mais numa cidade grande. O ditado popular “quem tem boca vai a Roma” pode ser substituído por “quem tem GPS vai ao mundo”. Às vezes a gente se perde dentro de nós mesmos, nos nossos conflitos íntimos. Mas a Internet nos permite buscar a cura. 

Navegar é preciso, já nos ensinava Fernando Pessoa. E o Gil (mais uma vez ele) sempre na frente, já previa, em 1997, que era possível conectar ao mesmo tempo “um grupo de tietes de Connecticut”, ao “chefe de polícia Milão” para denunciar “um hacker mafioso” que acabava “de soltar/ um vírus para atacar programas no Japão”. 

Só os poetas nos ajudam a transitar entre o sonho e o real. É por isso que recorro a eles para tentar explicar esse mundo de profundas e aceleradas transformações que convive com o egoísmo e o individualismo marcante. A era dos extremos apontada por Eric Hobsbawm. Mas como sou um otimista exageradovolto ao poeta Pesssoa, no mesmo poema de “Navegar é Preciso” para citar o verso: “o que é necessário é criar”.

Cuidado com ladrões de sonhos!

Roubaram a bicicleta do ladrão. Este foi o título da chamada de capa do jornal Diário do Pará, desta sexta-feira, dia 5 de agosto. O assaltante foi apanhado em flagrante, na esquina da avenida Almirante Barroso com a travessa Humaitá, em Belém, após tomar um relógio de pulso de uma moça. Foi agarrado por populares mas se livrou do linchamento com a chegada de policiais militares. Na confusão, puxa daqui, puxa dali, levaram a bicicleta do assaltante, que fez questão de registrar a ocorrência, assim ingressou na delegacia.

Este episódio me lembrou o caso de uma senhora que foi assaltada no Ver-O-Peso e reagiu. Gritou, correu e o ladrão acabou agarrado pela polícia. A mulher recuperou o dinheiro dela e mais um excedente. O meliante protestou, mas ela afirmou diante dos policiais que a toda a bolada era sua. E saiu de perto o mais rápido que pode. A esperteza foi apoiada por todos. Porém precisamos romper com o velho ditado que diz: ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão. O nosso desafio é outro. 

Tem gente que rouba o sonho das pessoas quando corta programas e políticas sociais voltadas aos que mais precisam. E alguns ainda festejam. Tem gente furta o bem precioso de uma nação, a democracia, forjando fatos para justificar a posse ilegítima emcargos, afastando quem chegou ao poder ratificado pelo voto popular.

Tem gente que afana, diariamente, o direito à informação de milhões de pessoas, obrigadas a consumir aquilo que é de interesse dos donos da mídia. Tem gente que pilhao sonho de mudança qualitativa de um país, quando não valoriza nem prioriza o investimento em ciência, tecnologia e inovação.

Tem gente que rouba o futuro do país quando trama a entrega da extração, comercialização e destinação dos lucros de riquezas naturais às corporações transnacionais. Promove assalto o que deseja mudar as regras, aprovadas pelo Congresso Nacional, destinando à educação, parte dos recursos do petróleo extraído da camada do pré-sal.

Promovem crime de gatunagem os que desejam destruir instituições como a Petrobrás, porque estão a serviço de grupos políticos poderosos, interessados em quebrar a estatal brasileira e manter a dependência às superpotências que controlam a geopolítica mundial. 

Muita gente ainda não enxerga esse tipo de desfalque. O nosso desafio é romper com essa lógica. Eu sonho que um dia não haverá mais espaço aos ladrões da democracia. Aos espertos, oportunistas e manipuladores da opinião pública. Eu sonho com a ampliação da consciência democrática do nosso povo, capaz de produzir uma força baseada no exercício da ética; do respeito às diferenças; do acatamento ao resultado das urnas; de compromisso com o futuro da nação; de repúdio a toda forma de preconceito e violência; de tolerância religiosa, sexual e de liberdade de expressão e pensamento. 

O combate aos espoliadores de sonhos deve ser feita todos os dias. Não importam os reveses. É preciso avançar, apostar na educação que transforma. Cada um de nós pode ser a mudança que o país tanto necessita. Adotando a postura de banir do nosso cotidiano qualquer comportamento baseado em rapinagem, usurpação, saqueio, pirataria, gatunagem, extorsão e agiotagem. Não deixe que roube seu sonho de viver num país digno, inclusivo e soberano. Esse é o nosso desafio.

Mariana é aqui, no Tapajós!

A cada dia novas tragédias ambientais acontecem em nosso país. E nós nos acomodamos. Primeiro porque ainda não compreendemos que o equilíbrio ambiental tem tudo a ver com as nossas vidas. Segundo porque a mídia brasileira não pauta o dia a dia dos conflitos que comprometem a natureza. Existe uma cultura no Brasil de que tudo aqui é muito grande e o que acontece em Itaituba não tem nada a ver com Ibatuba, no litoral norte de São Paulo. E vice versa. 

Quando usaram desfolhantes químicos na trilha por onde passou o primeiro linhão da Eletronorte, conduzindo energia de Tucuruí, no início da década de 1980, a notícia ficou restrita ao meio acadêmico, algumas organizações não governamentais, parcela da imprensa e um segmentobem reduzida da população. O mesmo aconteceu quando o lago de Tucuruí passou a servir de viveiro a insetos, que se reproduziam na água parada, e infernizavam a vida dos camponeses do entorno da hidrelétrica construída no Baixo Tocantins, sem nenhum tipo de estudo de impacto ambiental

Teve pouca repercussão, sobretudo no Sudeste do Brasil, a chuva ácida que caia sobre as comunidades tradicionais de Barcarena, poucos anos depois de instaladoo complexo do alumínio, através da fábrica Albrás. No início a década de 1990 os gases liberados pelas chaminés da empresa continham fluoreto que, em contato com as nuvens se transformavam em chuva ácida. 

Na mesma região, em 2007, houve vazamento de uma barragem da empresa Imerys Rio Capim Caulim, de quase 300 mil metros cúbicos de caulim misturado com água. O desastre afetou os igarapés Curuperé e Dendê e as praias de Vila do Conde e do Caripi, no rio Pará. Em pouco tempo a notícia saiu do noticiário. 

A garimpagem de ouro no rio Tapajós, especialmente a partir da década de 1980, provocou desmatamento, destruiu nascentes de igarapés e afetou até a cor da água. O início da mecanização rudimentar provocou mais estrago. Porém o maior perigo para os seres vivos está ligado a utilização do mercúrio, que separa o ouro de outros materiais. 

Pessoas das mais variadas camadas sociais de Itaituba foram afetadas pelo mercúrio absorvido pelo peixe consumido pela população. Houve uma ligeira trégua no final do século XX e início do século XXI. Mas agora a atividade garimpeira voltou com força total nos últimos anos. Balsas de até três pavimentos estão sendo deslocadas do Mato Grosso para o município de Itaituba.

Com equipamentos informatizados e utilizando geólogos, engenheiros, químicos e outros profissionais, as grandes balsas de extração de ouro, estão remexendo intensivamente o leito do Tapajós, com uso de tratores e máquinas escavadoras, que deixam um rastro de destruição muito mais impactante do que os métodos utilizados décadas atrás. E o mais grave, há suspeita de uso de cianureto, que seria muito mais eficiente na separação dos minérios.

Esta é uma tragédia silenciosa que está destruindo a vida num dos rios mais belos do planeta e seus afluentes. O Jamanxim também já vem sendo afetado por esse novo tipo de garimpagem de ouro. Essa movimentaçãoaltamente degradante prejudica primeiramente os pescadores, agricultores, coletadores e extrativistas em geral. Mas afasta também os turistas ligados ao ecoturismo e à pesca esportiva, ação que vem sendo, contraditoriamente, incentivadas na região.

Algumas autoridades estaduais pensam em regulamentar a operação garimpeira no Tapajós. Mas do ponto de vista da sustentabilidade ambiental, social e econômica, o que esse tipo de atividade representa? Nada. Nada ainda é pouco. É uma bomba. Destrói a vida, prejudica o planeta Terra. Não podemos esperar que chegue o dia da tragédia maior, como aconteceu eu Mariana, Minas Gerais, que destruiu o rio Doce, há sete meses atrás

Para a mídia omissa: Mariana é aqui, no Tapajós! 

 

(*) Paulo Roberto Ferreira é jornalista, professor, escritor e colaborador do portal www.oestadonet.com.br

As (longas) distâncias amazônicas

As (longas) distâncias amazônicas

Imaginemos a distância entre Cruzeiro do Sul, no Acre, e Belém, capital do Pará. Em linha reta são de 2.769 quilômetros. É quase igual ao espaço que separa Lisboa, em Portugal, e Berlim, na Alemanha: 2.787 km. Ou seja, dentro de uma mesma região, a Amazônia, as distâncias são monumentais. Agora, calculemos transpor essas distâncias 70, 80 anos atrás. O único meio de transporte era o fluvial. Em rios sinuosos, os navios, movidos por roda d’água, eram mais lentos e, geralmente faziam uma escala mais longa em Manaus.

Minha família paterna nasceu no seringal Cruzeiro do Vale, no Alto Juruá, que tem como capital o município de Cruzeiro do Sul, próximo à fronteira com o Peru. Ali funcionava um dos três departamentos criados pelo governo brasileiro, logo após o tratado de Petrópolis, que em 1903 oficializou a separação daquela zona, que antes pertencera a Bolívia.

Em 1929 a região contava com o jornal “O Rebate”, que entre anúncios e notícias sobre verbas destinadas ao Território, publicava uma nota de agradecimento ao médico e cirurgião Mário Pedreira, por ter operado um comerciante da praça e “a menina Elba, filha de João Lemos”. A criança tinha apenas três anos de idade e quatro anos depois deixaria aquela cidade onde a realização de uma cirurgia no antebraço era um acontecimento científico, digno de registro jornalístico.

Em busca de ensino de melhor qualidade, muitas crianças acreanas tomavam o rumo de Belém. A viagem era longa e penosa. Durava quase 30 dias. Dos seis filhos do meu avô, as tias Eunice, Elba e Elcy foram as primeiras a migrar, todas com menos de dez anos de idade. Foram morar com uma tia. Tempos depois vieram os mais novos: Jonas, Franti e Mário, acompanhados pela mãe, Francisca.

O marido ficou lá. Depois de trabalhar muitos anos no seringal, mudou para a cidade, requereu um terreno, construiu a casa e passou a produzir frutas, legumes, cana-de-açúcar e criar vacas leiteiras e pequenos animais. Autodidata, se transformou num rábula e funcionário público de Cruzeiro do Sul e, por último, em Feijó. A partir de 1940 até 1944 passou a dividir o tempo entre acompanhar a família em Belém e o trabalho no Acre. Viajava sempre de navio de seringalistas, cujo percurso total era 5.538 Km em linha reta. Mas como os nossos rios são recurvados, entre ida e volta, provavelmente mais de 6 mil quilômetros eram percorridos por ano, em 60 dias.

Os gestores dos Departamentos do Alto Acre, Alto Purus e Alto Juruá, como era dividido o Acre, eram vinculados diretamente ao presidente da República, que nomeava oficiais do Exército, geralmente oriundos do Rio de Janeiro. Só muitas décadas depois é que a administração do Território passou a contar com um único gestor, nascido no Acre, fruto da luta do Movimento Autonomista. Em 1962 aquela parte do extremo ocidente do Brasil foi elevada a categoria de Estado, pelo presidente João Goulart. E o primeiro governador eleito pelo voto direto, José Augusto Araújo, era filho de Dim Araújo, com quem João Lemos trabalhou durante muitos anos.

Comemorar 90 anos de idade, em pleno vigor físico e mental, é uma dádiva de Deus. Minha tia, a “menina Elba” citada em “O Rebate”, alcançou esta graça e todos os seus familiares celebraram o acontecimento, numa festa muito bonita. Eunice, a irmã um ano mais velha que Elba, depois de se formar em normalista, teve que se deslocar para o município de Oiapoque, no Amapá, na divisa com Caiena, a capital da Guiana Francesa, a quase 700 quilômetros, em linha reta, de Belém. Foi trabalhar para ajudar a família, pós a morte do pai.

As migrações, iniciada pelos ancestrais, de Ceará para o Acre, continuam. A filha de Elba, Élide, tomou o rumo de Maputo, capital de Moçambique, na África, que fica a 9.056 quilômetros. Ali se estabeleceu e hoje só volta ao Brasil a passeio. A mudança está no DNA da família. Para quem não tem medo de enfrentar as distâncias amazônicas, a África não representa nenhuma barreira. Que o diga a tia Elba, que volta e meia atravessa o Atlântico para visitar a filha e netos.

(*) Paulo Roberto Ferreira é jornalista, professor, escritor e colaborador do portal www.oestadonet.com.br

Nem imosec deve conter um suposto governo de vazamentos

Às vésperas da celebração da Inconfidência Mineira, que levou ao enforcamento do mártir da Independência do Brasil, José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes, em 21de abril de 1789, a figura do traidor, José Silvério dos Reis, que entrou para o limbo da história, nos remete a reflexão sobre o papel daqueles que se prestam ao papel sujo, imoral e indecente, entre os que comungavam dos mesmos ideais.

Não vamos confundir com divergência, que pode acontecer em qualquer agrupamento humano. Estão aí os rachas da igreja católica, que resultaram no surgimento de outrocultos de orientação cristã. As rupturas dentro dos partidos também são frequentes. São diferenças de concepção. Mas quando alguém que defende uma causa, como a democracia, por exemplo, e faz a opção pelo desrespeito ao Estado de Direito, não há outra palavra, outro termo: traição.

Não importa o que move a pessoa, se o desejo incontido pelo poder, a vontade de ocupar cargos públicos, de obter vantagem pessoal, nos negócios. O traidor é sempre um oportunista, que usa qualquer argumento para justificar seu ato. Isso quando pode, porque, na maioriadas vezes, trama às escondidas, delata para obter algum benefício.

Muita gente foi torturada ou morta pelos carrascos da ditadura civil militar de 1964 por conta dos “dedos duro”, mas também dos traidores, que optaram em indicar o local onde estavam ou atuavam seus companheiros para salvar a própria pele. E não me refiro aos que assim procederam por conta da crueldade que sofreram. E sim daqueles que silenciosamente foram ao encontro do inimigo e denunciaram seus compatriotas.

Judas traiu Jesus por 30 moedas e o desfecho da história todos nós conhecemos. Marcus Junius Brutus, que viveu no ano 44 antes de Cristo, traiu seu pai adotivo, Júlio César e se bandeou para o lado do general CássioLonginus, para tomar o poder. E não satisfeito com a traição, participou da trama para assassinar César, que pronunciou a famosa frase: “até tu, Brutus?”. Ou seja, o imperador esperava que todos fossem capazes da perfídia, menos o próprio filho.

Marina, uma jovem índia da etnia náuatle, foi dada de presente ao conquistador espanhol Hernán Cortéz, que a fez sua amante e tradutora, e a usou na sua estratégia para dizimar as populações indígenas, sobretudo os astecas. E desta forma assegurar aos espanhóis o domínio do atual território central do México, controlado pelo famoso líderMoctezuma II.   

No Chile, o presidente socialista Salvador Allende foi deposto, em 1973, por um oficial que ele considerava um dos seus mais leais auxiliares, o general Augusto Pinochet, que implantou uma ditadura sanguinária, que durou 17 anos.

A história brasileira está cheia de exemplos de pessoas que passaram a rasteira em seus companheiros.Dona Mora, mulher de Ulisses Guimarães, contou ao jornalista Jorge Moreno que Tancredo Neves intercedeu junto ao presidente Juscelino Kubitschek pela nomeação a general do Exército do então coronel Castello Branco. E ouviu do presidente da República que, de acordo com seu ministro da Guerra, general Lott, Castello era “conspirador, golpista, um mau caráter”. Mas acabou cedendo aos apelos de Tancredo e o promoveu. Depois do golpe de 1964, Juscelino teve seus direitos políticos cassados por Castello Branco, o primeiro dos cinco ditadores da ditadura de 1964, que derrubou o governo do presidente João Goulart. Segundo dona Mora, o velho Ulisses gostava de repetir uma frase: “o dia do benefício é a véspera da ingratidão”.

Quando se fala de traidor é inevitável a associação com o nome de Michel Temer. O atual vice-presidente da República chegou a essa condição de carona. Fez parte da chapa da presidenta Dilma Rousseff, em 2010 e 2014. Tirou proveito do poder, indicou seus protegidos para cargos de ministro e de segundo e terceiro escalões. Nunca foi contrário ao partido da presidenta. Mas ao primeiro sinal de um pedido de afastamento “vazou” à imprensa uma carta dirigida a sua chefe e agora, mais recentemente, “vazou” novamente um pronunciamento que faria neste domingo, dando como certo que o afastamento político de Dilma se concretizaria. Rodeado por traidores, ele já loteou os cargos do futuro (?) governo que comandaria. Caso isso venha a acontecer, deve ser um governo de vazamentos. Talvez nem imosec resolva.

Sérgio Moro encalhou em Ananindeua

Qualquer aglomeração humana é sempre uma oportunidade para alguém vender alguma coisa. Ainda mais em tempo de crise econômica. Na manifestação em defesa da democracia, realizada esta semana, vi muita gente vendendo sombrinha, água, refrigerante, cerveja, pipoca, churrasquinho e buchudinha (cachaça em garrafa de plástico). E o curioso é que os vendedores acompanhavam os manifestantes, empurrando seus carrinhos no meio da multidão. De fato, vendedores ambulantes. É a “fauna acompanhante”, quase invisível para a maioria dos presentes no ato público.

Assim acontece nos jogos de futebol, onde o torcedor do Paysandu e do Remo comem juntos churrasco, na porta do Mangueirão, antes do jogo. Depois da contenda, nem pensar. Nas arquibancadas é um vai e vem danado de gente vendendo picolé, água e até radinho de pilha para o torcedor que não se contenta em assistir, mas quer ouvir o comentário dos locutores esportivos.

Do mesmo jeito também na praia. Enquanto a maioria se diverte na companhia de familiares e amigos, os vendedores vão surgindo de todos os cantos, oferecendo bronzeador, protetor solar, água de coco, cerveja, roupa de banho, sandálias e outras quinquilharias. Ninguém escapa de ser abordado por um trabalhador de rua que se oferece para guardar o carro ou até mesmo servir de guia para um visitante numa cidade histórica.


Foto: Eleite Ramos.

Na porta dos cemitérios, em dia de grandes movimentos, como Finados, Dia das Mães ou dos Pais, os floristas nos abordam na porta do carro. Outros oferecem velas, água, areia, alimentos e bebidas. Às proximidades dos pontos de ônibus ou dos portos fluviais também é grande a concentração de venda de alimentos, roupas, perfumes, desodorantes, creme e escova dental, redes e até equipamentos de fogão e antenas de TV.

Os trabalhadores do chamado mercado informal ficam antenados nos grandes eventos. E armam suas barracas ou instalam seus carros, às vezes, com bastante antecedência, a fim de ocupar o melhor local de fluxo de pessoas. Como é o caso das grandes romarias. No Círio de Nazaré vende-se de tudo. E em quase todas as ruas transversais ao percurso da procissão tem sempre a venda de alguma coisa ao alcance do romeiro. As girândolas com brinquedos de miriti são avistadas de longe.

Mas tem pessoas que tentam adivinhar as promessas dos romeiros. E oferecem miniaturas de casa, canoa, barco, automóvel e outras peças materiais que são depositadas nos carros dos milagres. O vendedor das multidões atua também nas praças e grandes avenidas por ocasião de eventos como a Copa do Mundo, a visita de um líder religioso ou das grandes celebridades da música, do teatro, da literatura. Vendem camisas, bandeiras, pôster, livros, CD, DVD, etc.

Um amigo evangélico me contou que quando se realizam os congressos da sua igreja, existem os vendedores credenciados, que ficam dentro do espaço do evento. E aqueles que vão aventurar e se posicionam às proximidades. Comercializam, além dos produtos corriqueiros, ternos, gravatas, camisa social, prendedor de gravata, abotoadura, sapatos, Bíblia e outros objetos consumidos pelos adeptos da religião.

Seja a favor ou contra uma causa, os vendedores ambulantes parece que não tem opinião. O que interessa é vender e faturar um trocado. Nas campanhas eleitorais eles vão para os comícios e vendem bandeiras dos partidos e camisas dos candidatos. É claro que sempre existe o risco de naufragar, mas faz parte do negócio. E hoje, com as restrições da legislação eleitoral, cada vez mais passou a ser uma transação de alto risco.

Agora mesmo, neste momento de polarização política, um microempresário do bairro da Cidade Nova, em Ananindeua, decidiu investir na imagem do juiz federal de Curitiba, Sérgio Moro, e confeccionou centenas de camisetas com a foto do magistrado. Não vendeu nem 5%. Encalhou e deixou o comerciante com um baita prejuízo, lamentando-se pelo jornal. Mas serviu de lição para outros do mesmo ramo, que só arriscam na produção de camisetas da “Nazinha”, como é chamada carinhosamente a imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Até porque, quando sobra, sempre existe a possibilidade de vender a camiseta no ano seguinte.

Gostemos ou não do que vendem ou anunciam, os vendedores ambulantes estão sempre perto de nós e à vezes nós nem os percebemos.

(*) Paulo Roberto Ferreira é jornalista, professor, escritor e colaborador do portal www.oestadonet.com.br    

 

Confraria do açaí

Quatro amigos se reencontraram, esta semana, num restaurante da Estação das Docas. Um é artista plástico, o outro poeta, o terceiro professor universitário e o quarto jornalista.  Todos têm mais de 60 anos. Três tomaram chope e um bebeu água. Em meio a recordações e gargalhadas sobre episódios da vida recente, decidiram criar um grupo no WhatsApp que denominaram de Confraria do Açaí. Os torpedos começaram a ser disparados ali mesmo, na mesa.

 

O poeta e o professor trabalharam na Folha do Norte nos anos 60 do século passado. O pintor, dono do celular mais turbinado, exibia suas obras na tela do seu aparelho para os outros três que, iguais a meninos, se curvavam para admirar os novos trabalhos, espalhados por várias galerias de arte. Os temas eram amplos. A criseinstitucional foi abordada e todos repudiaram as articulações para um golpe político.

 

O poeta mora há mais de 30 anos no Rio de Janeiro. Mas quando chega a Belém reúne a confraria. Dos quatro, três são autores de livros. E o pintor já produziu centenas de obras de arte. A paixão por Belém é sempre tema dos diálogos. Como também a ação dos gestores públicos que tratam com desleixo as belezas naturais da cidade. A morte do poeta Jamil Damous  entrou na conversa. Jamil nasceu em Turiaçu, no Maranhão, mas foi em Belém que iniciou no jornalismo e na arte da poesia. Trabalhou no extinto Jornal A Província do Pará. E também viveu mais de 30 anos no Rio de Janeiro.

 

O artista plástico e o poeta já moraram na mesma casa, anos atrás, no bairro de São Braz. E os compartimentos da residência eram tomados de figuras surrealistas, a fase predominante do pintor, naquela época. Nilson Chaves também chegou a morar com o poeta, no Rio de Janeiro, onde Jamil costumava frequentar. E foi ali que o jornalista, aproveitando a presença dos três, fez uma matéria polêmica sobre a música paraense, nos anos 80. Publicada no jornal “Resistência”, as provocações mexeram com o músico e poeta Paulo André Barata, que respondeu aos seus críticos na edição seguinte. Acho que o tempo já apagou as mágoas.

 

O professor universitário, que é sociólogo e foi repórter do poderoso jornal de Paulo Maranhão, ainda escreve artigos semanais na mídia impressa. É o mais experiente de todos.  Bebe cerveja que nem um adolescente e conserva o bom humor na mesa de bar. Mas, em casa, prefere tomar vinho. Sua angústia é arranjar lugarna biblioteca para acomodar os novos livros. Por isso mesmo, sempre arranja um jeito de doar algunsexemplares, num complicado exercício de desapego. Sim, porque cada obra tem uma história na vida da gente. E é sempre um sofrimento se despedir de uma sacola de livrosque parte em direção a outra biblioteca.

 

Poeta, pintor e professor já percorreram o mundo. Conheceram várias cidades. Conservam lembranças de muitas coisas. Muitas histórias. Mas Belém é o porto de chegada e partida permanente. Para onde vão levam a “cidade das mangueiras”. Que serve de inspiração, como nas “janelas” do artista plástico. Ou os “olhos de rios” do poeta, que publicou em seu Diário de Bordo o poema “Olho de boto”, musicado por Nilson Chaves.

 

Amizades sólidas se fortalecem com o passar do tempo. O jornalista fica ali no meio daquelas ferasouvindo histórias, contando piadas e recolhendo fragmentos de vivências das ilustres figuras, a fim depublicar numa crônica na Semana Santa. E se divertindo com as tiradas e irônicas brincadeiras de seus três amigos que integram a Confraria do Açaí: Geraldo Teixeira,Cristóvam Araújo e José Carneiro. Podem ficar tranquilos, meus caros parceiros de confraria, meu consumo de água não representa uma ameaça à Baía do Guajará, que ainda vai encantar muitas gerações.

 

(*) Paulo Roberto Ferreira é jornalista, professor, escritor e colaborador do portal www.oestadonet.com.br

Os coronéis dos castanhais e a neutralidade da mídia

Os coronéis dos castanhais e a neutralidade da mídia

Quando leio, ouço e vejo empresas de comunicação defenderem a “neutralidade” e a “imparcialidade” no jornalismo , lembro do mestre Cláudio Abramo, cujos pensamentos foram reunidos no livro “A Regra do Jogo”, publicado em 1988. Eles nos ensinava que “a liberdade de imprensa só é possível para os donos do jornal”. Hoje podemos atualizar, “para os donos da mídia”. Abramo viveu dentro de redação por mais de 40 anos e dirigiu os grandes jornais brasileiros até os anos 70 do século passado.

Em 1984 Belém foi inundada por notícias de que um bando, liderado por Dimas Jesuíno Baião, aterrorizava os castanhais na região sul do Pará. Os dois principais jornais, “A Província do Pará” e “O Liberal” disputavam quem dava mais destaque às informações repassadas por donos de castanhais e pela polícia. Durante quase quinze dias o bombardeio foi intenso também pelas emissoras de rádio e TV. Dimas foi morto num “confronto” , mas seu “bando” emboscou e encheu de chumbo a “viatura policial”.

Foi neste momento que fui deslocado a Marabá, junto com o reporter-fotográfico Eurico Alencar, pelo jornal O Liberal; e mais o repórter Douglas Dinelli, o cinegrafista Peter Roland, e o operador de VT, José Carlos Rayol, da TV liberal, afiliada da Globo. Já no aeroporto nos esperava um dono de Castanhal, que desejava fornecer sua versão e ser o nosso “guia” durante a reportagem. Descartamos a “ajuda” e, pacientemente, fomos ouvir a polícia; o pessoal da Comissão Pastoral da Terra; o comandante do quartel militar, onde estavam presos alguns trabalhadores rurais; e outras fontes que acompanhavam os conflitos pela posse e uso da terra na região do Araguaia-Tocantins.

Fomos desaconselhados pala polícia, quando manifestamos o desejo de nos deslocar até São Geraldo do Araguaia, a fim de ouvir a população da área onde se movimentaria o “bando”. Recusamos o “conselho” e resolvemos seguir o nosso faro, a nossa intuição. Antes de viajar ouvimos um comerciante, um atravessador de castanha-do-pará. Ele nos revelou que Dimas era apenas um comprador do fruto, contratado por ele, para ofertar melhores preços aos coletadores.

Aí começamos a perceber o primeiro furo no embuste. Descobrimos que estava em jogo a quebra do monopólio no comércio local da castanha. Em São Geraldo Araguaia fomos direto à igreja católica. E conseguimos um guia confiável. Quem nos acompanhou foi o Valdir, agente pastoral bastante conhecido na área. Ele foi em pé, na carroceria do veículo, e nós, dentro do carro. Quando chegamos, o povoado parecia deserto. O rapaz se identificou e gritou pelo nome das principais lideranças. Aos poucos, assustadas, as pessoas foram surgindo.

Os camponeses estavam aterrorizados pela ação de jagunços e policiais, que espancaram pessoas, quebraram as poucas mobílias dos casebres, furaram panelas, mataram Dimas e ainda levaram presos vários lavradores. Pessoas simples nos relataram que depois desse terror, resolveram reagir contra seus inimigos, que julgavam serem apenas jagunços dos castanheiros, proprietários de títulos de aforamento de castanhais. Como ameaçaram voltar no dia seguinte, o grupo foi recebido com tiros de cartucheiras, armas de caça dos lavradores. Na realidade, o “bando” era composto por pistoleiros e policiais em carros particulares.

As nossas matérias desmontaram a farsa. Dimas não era bandido, mas seu trabalho foi considerado um pecado mortal. Os extrativistas, que viviam dentro dos castanhais como posseiros, nas piores condições possíveis, não tinham o direito de vender o que coletavam para ninguém a não ser ao dono da “propriedade”, que ditava o valor do litro da castanha. E ganhava rios de dinheiro exportado a amêndoa extraída com tanto trabalho, suor , malária e outros sofrimentos dentro da floresta. No dia que deixamos Marabá, o advogado da CPT, Paulo Fonteles de Lima, conseguiu um habeas corpus e os lavradores presos foram colocados em liberdade.

A tal “neutralidade” da mídia já tinha contribuído para legitimar a morte de Dimas e a prisão de inocentes extrativistas. A nossa viagem ao sul do Pará visava consolidar o desejo dos “coronéis” da castanha de fazer uma limpeza na área, em conluio com a polícia e a mídia. Mas ao recusarmos o apoio de uma parte envolvida no conflito, que desejava nos fornecer carro e pagar as nossas despesas, optamos por ouvir o outro lado e rompemos com a “imparcialidade” dos veículos de comunicação em que trabalhávamos.

(*) Paulo Roberto Ferreira é jornalista, professor, escritor e colaborador do portal www.oestadonet.com. br

Avião sem banco, cinto e porta

Avião sem banco, cinto e porta

Viajar na Amazônia exige uma boa dose de espírito de aventura. Em 1984 eu estava em Xinguara, onde fora acompanhar uma discussão sobre os 20 anos do estatuto da terra e os conflitos fundiários no sul do Pará. Quando liguei para o Anselmo Gama, chefe de reportagem do jornal O Liberal, a fim de comunicar que minha jornada estava encerrada, recebi outra missão: me deslocar, de ônibus, até o município de Tucumã, ao longo da rodovia PA-279. Garimpeiros tinham invadido uma reserva indígena da etnia kayapó, em São Félix do Xingu.

A estrada não era asfaltada. E, como estávamos no período de chuva, em pouco tempo tivemos que abandonar o veículo. Uma cratera cortou o nosso caminho. Tivemos que atravessar uma ponte improvisada e passar para uma Kombi, que iria somente até Guaritaí, lugar que eu nunca havia ouvido falar. Encarei. Quando cheguei no destino fui informado pelo dono do pequeno restaurante que o lugar tinha trocado de nome: agora era Ourilândia.

Enquanto aguardava a picape que fazia linha para Tucumã, tomei conhecimento que a construtora Andrade Gutierrez ganhara, nos anos 70, do então presidente da República, Ernesto Geisel, uma área de mais de 3 mil hectares, sem passar pela aprovação do Senado Federal, para a implantação do Projeto Tucumã, que acabou se transformando num distrito de São Félix do Xingu e atualmente é município.

A empreiteira de obras, que nunca tinha administrado um projeto de assentamento rural, estabeleceu que só venderia os lotes de terra a colonos do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Instalou uma milícia para controlar o acesso de pessoas (maranhenses e goianos) que se deslocavam de Xinguara para São Felix. E montou guaritas ao longo da rodovia, com numeração em algarismo romano. Assim a primeira, onde as pessoas eram obrigadas a descer do transporte e passar por rigorosa revista, passou a ser chamada de Guaritaí (de Guarita I).

Quem levava picareta, pá, enxada e bateia, não podia prosseguir viagem. Os garimpeiros criaram um ódio dos guardas da empresa. E alguns foram ficando por ali mesmo, enquanto aguardavam condução para retornar. Outros começaram a improvisar vendas de comida. Porém, os mais ousados entravam pela floresta e rumavam em direção a São Félix. No meio do caminho, nas margens dos afluentes do rio Fresco, começaram a garimpar. E foram surgindo pequenos veios de ouro. O ponto de referência passou a ser a Guarita I, que atraiu prostitutas, vendedores de remédio, comércio de secos e molhados e igrejas, ali na porteira de Tucumã.

O amontoado de gente se transformou em povoado e, em pouco tempo, os brios dos moradores do lugar, falou mais forte eles decidiram, até como vingança ao chefe da segurança da Andrade Gutierrez, que Guaritaí deveria ganhar outro nome: Ourilândia do Norte. Na planejada vila de Tucumã, ficavam o campo de aviação, o posto da Funai e a unidade da Polícia Militar, instalados em ruas bem traçadas. Mas era na desordenada Ourilândia que os homens buscavam bebida, sexo e todo tipo de negócio que não se praticava dentro do Projeto.

Quando recebi autorização da Funai para entrar na Aldeia Krokaimoro, onde os índios amarraram um grupo de garimpeiros, eu só tinha uma opção de transporte: via aérea. Mas os fretes eram caros e a ordem de pagamento que o jornal me enviara não dava para bancar os custos. Fui aconselhado a procurar um piloto que fazia transporte de carga aos garimpos. Acertei com um veterano profissional, que me aconselhou a comprar repelente porque na aldeia tinha muito pium, um tipo de mosquito que provoca estragos na pele e até febre. E na hora combinada, entrei no monomotor . Só tinha a cadeira do piloto. Todo resto era saco de feijão, arroz, farinha, açúcar, charque e outras mercadorias. Fui sentado em cima da carga, sem cinto de segurança. E porta? Também só existia a porta do piloto. O outro lado era todo aberto para poder derramar os produtos na direção da clareira, devidamente forrada com folhas.

O piloto me deixou e seguiu viagem. Quando retornou, o avião estava vazio. Voltei para Tucumã sentado numa lata de querosene, arranjada por um funcionário da Funai. Mas cheio de notícias quentes e exclusivas. Coisa de repórter que enfrenta qualquer obstáculo para obter informação de interesse público.

(*) Paulo Roberto Ferreira é jornalista, professor, escritor e colaborador do portal www.oestadonet.com. br

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